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As maiores disputas da política catarinense talvez não estejam entre governo e oposição. Elas acontecem dentro dos próprios partidos.

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A política costuma ser analisada a partir dos grandes confrontos eleitorais. Governo contra oposição. Direita contra esquerda. Situação contra mudança. Essa narrativa facilita a compreensão do eleitor e domina o noticiário. Mas, muitas vezes, ela esconde os movimentos mais importantes que acontecem longe dos palanques. Em Santa Catarina, a pré-campanha de 2026 começa a revelar uma realidade diferente. As disputas mais profundas talvez não estejam entre os adversários. Elas estão acontecendo dentro das próprias legendas.

 

É um fenômeno silencioso, mas extremamente relevante.

 

Os partidos vivem um momento de redefinição da sua identidade política. Não discutem apenas quem apoiarão na próxima eleição. Discutem, sobretudo, qual papel pretendem exercer na política catarinense nos próximos anos. E essa é uma discussão muito mais complexa do que simplesmente decidir entre um candidato ou outro.

 

O MDB talvez seja o exemplo mais evidente desse processo. A declaração do deputado federal e vice-presidente estadual da legenda, Valdir Cobalchini, defendendo que o partido tenha candidato próprio ao Governo do Estado em 2030, foi interpretada por muitos apenas como uma manifestação voltada para o futuro. Na realidade, ela revela uma inquietação do presente. Ao reconhecer que a ausência de candidatura própria em 2026 contribui para a divisão interna do partido, Cobalchini expõe um dilema que acompanha o MDB há alguns anos: como preservar unidade e protagonismo quando a legenda deixa de liderar um projeto majoritário?

 

Essa não é apenas uma discussão sobre nomes.

 

É uma discussão sobre identidade.

 

Durante décadas, o MDB ocupou naturalmente o centro da política catarinense. Governou o Estado, liderou grandes coalizões e construiu uma das mais sólidas redes municipais do país. Hoje continua sendo uma força política expressiva, mas vive uma realidade diferente. Participa de alianças importantes, mantém protagonismo regional e legislativo, mas já não é automaticamente o eixo em torno do qual gravitam as demais forças políticas. Essa mudança exige do partido uma reflexão que vai muito além da eleição de 2026. Exige responder qual projeto pretende liderar na próxima década.

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O Progressistas vive uma situação distinta, mas igualmente desafiadora. Diferentemente do MDB, o debate interno não gira em torno da ausência de protagonismo eleitoral. A grande questão é outra: qual projeto representa, de fato, a identidade majoritária do partido?

 

Uma ala importante da legenda, liderada pelo senador Esperidião Amin e pelo deputado estadual Altair Silva, decidiu apoiar o projeto político de João Rodrigues. Trata-se de um movimento legítimo e de enorme relevância política. Mas ele não representa o posicionamento predominante do Progressistas. A executiva estadual, a maior parte dos prefeitos, vereadores, pré-candidatos e lideranças municipais já manifestaram apoio ao projeto de reeleição do governador Jorginho Mello.

 

Esse detalhe muda completamente a análise.

 

O Progressistas não vive apenas uma disputa sobre qual candidatura apoiar.

 

Vive uma disputa sobre qual caminho melhor representa sua maioria política.

 

É uma diferença importante.

 

Enquanto o MDB debate como recuperar protagonismo, o Progressistas procura administrar uma divergência entre uma liderança histórica de enorme peso político e o posicionamento majoritário construído pela direção partidária e pelas bases municipais.

 

Isso demonstra que a política catarinense está atravessando uma transformação silenciosa.

 

Durante muito tempo, os partidos moldavam suas grandes lideranças.

 

Hoje, em muitos casos, são as grandes lideranças que tensionam, reorganizam e desafiam os próprios partidos.

 

Essa inversão ajuda a explicar boa parte dos movimentos que estamos acompanhando. Lideranças com forte capital político passaram a exercer influência suficiente para construir alianças, aproximar grupos historicamente adversários e provocar rearranjos internos nas legendas. Ao mesmo tempo, as direções partidárias precisam administrar interesses regionais, projetos proporcionais, alianças municipais e estratégias estaduais que nem sempre caminham na mesma direção.

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Talvez esse seja um dos maiores desafios da política contemporânea.

 

Como manter um partido unido quando diferentes lideranças enxergam caminhos distintos para alcançar o mesmo objetivo?

 

Não existe resposta simples.

 

Partidos que insistem apenas na preservação da identidade podem perder competitividade eleitoral.

 

Mas partidos que abrem mão permanentemente da própria identidade em nome do pragmatismo correm o risco de deixar de oferecer à sociedade um projeto político reconhecível.

 

É justamente nesse equilíbrio delicado que se encontra boa parte da política catarinense.

 

PONTO DE VISTA

 

Existe uma tendência de analisar eleições apenas pelas alianças que se formam. Mas alianças são consequência. Antes delas existe algo muito mais importante: a identidade dos partidos.

 

O MDB procura compreender qual papel deseja ocupar no futuro da política catarinense.

 

O Progressistas busca administrar uma divergência legítima entre lideranças históricas e a posição majoritária construída por sua direção e por suas bases.

 

Outras legendas, em maior ou menor grau, também enfrentarão esse mesmo desafio.

 

Porque a verdadeira pergunta da política catarinense talvez já não seja apenas quem apoiará quem em 2026.

 

A pergunta mais importante é outra.

 

Que tipo de partido cada legenda deseja ser quando essa eleição passar?

 

Essa resposta terá impacto muito maior do que a composição de uma chapa.

 

Ela definirá a capacidade de formar novas lideranças, preservar identidade, manter unidade e continuar relevante na política catarinense.

 

No fim, eleições passam. Governos mudam. Lideranças surgem e deixam a cena. Mas partidos que perdem a clareza sobre sua própria identidade costumam enfrentar uma crise muito mais difícil de superar do que uma derrota eleitoral.

 

E talvez seja exatamente essa a discussão mais importante — e menos percebida — da política de Santa Catarina neste momento.

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