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ENTREVISTA DA SEMANA | SETEMBRO VERDE

“O herói é o doador”: médica explica os desafios da doação de órgãos em Mato Grosso

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A doação de órgãos ainda é cercada por dúvidas, medos e desinformação. Em entrevista ao RDM Online, a médica transplantadora Michelli Daltro, chefe da captação de órgãos em Mato Grosso, explicou como funciona o diagnóstico de morte encefálica, a importância de conversar com a família e como uma única doação pode transformar a vida de várias pessoas.

 

 

Confira a entrevista:

RDM Online: Por que é tão importante falar sobre doação de órgãos durante o Setembro Verde?

Michelli Daltro: O Setembro Verde foi criado justamente para lembrar a importância da doação de órgãos. Quando uma pessoa tem morte cerebral, ou morte encefálica, o cérebro para de funcionar, mas outros órgãos podem continuar funcionando e, em alguns casos, podem ser aproveitados para transplante. É importante destacar que o protocolo para confirmar a morte cerebral é muito sério e criterioso. Então, quando se confirma uma morte encefálica, não é uma decisão simples ou precipitada.

 

RDM Online: Ainda existe muita dúvida sobre a morte encefálica. Como é feito esse diagnóstico?

Michelli Daltro: O protocolo precisa de dois médicos habilitados, em horários diferentes, além de um exame complementar. Antes disso, o paciente precisa cumprir vários critérios clínicos. Um dos exames, por exemplo, verifica se existe fluxo de sangue para o cérebro. Se não existe, isso é mais uma confirmação de que o cérebro deixou de funcionar. É um processo muito rigoroso justamente para não existir dúvida sobre o diagnóstico.

 

RDM Online: Depois da confirmação da morte encefálica, o que acontece?

Michelli Daltro: A família é comunicada e, depois, é perguntada se deseja autorizar a doação dos órgãos. Por isso é tão importante conversar sobre esse assunto em casa. As pessoas muitas vezes têm medo de falar sobre a morte, como se estivessem atraindo alguma coisa, mas a morte é a única certeza que temos na vida. Então, é importante falar sobre o que queremos, inclusive se queremos ser doadores.

 

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RDM Online: Então não basta declarar nas redes sociais que é doador?

Michelli Daltro: Exatamente. Não adianta colocar no Instagram “sou doadora de órgãos” e, no momento em que a família é chamada, ninguém saber dessa vontade. A conversa com a família é fundamental. É preciso deixar claro enquanto estamos vivos que, se alguma coisa acontecer, queremos ser doadores. Isso pode fazer toda a diferença quando chegar o momento da decisão.

 

RDM Online: Qual é o impacto da recusa familiar na doação?

Michelli Daltro: É muito grande. Se uma família tem cinco filhos, por exemplo, e um deles não concorda, a doação é suspensa. É necessária uma concordância familiar. Hoje, a recusa familiar no Brasil é de 48%. A gente fecha cerca de 15 mil protocolos e uma parte muito grande desses órgãos acaba não sendo aproveitada. Enquanto isso, temos cerca de 80 mil pessoas esperando por um rim no Brasil. É muita gente aguardando uma oportunidade de recomeçar.

 

RDM Online: Uma única doação pode realmente transformar várias vidas?

Michelli Daltro: Com certeza. A pessoa que recebe um órgão pode recuperar qualidade de vida e voltar às suas atividades. Tivemos uma doação recentemente em que duas pessoas poderiam voltar a enxergar com as córneas, duas receberiam os rins e poderiam sair da hemodiálise e outra receberia o fígado. É difícil dimensionar a grandiosidade disso. O herói é o doador, é a família que disse sim e também são os profissionais que mantêm aqueles órgãos viáveis até a equipe de captação chegar.

 

RDM Online: Como é definido quem recebe os órgãos? Existe risco de compra ou escolha de pacientes?

Michelli Daltro: Todos os dados do doador são inseridos no Sistema Nacional de Transplantes, que identifica os pacientes compatíveis de acordo com os critérios estabelecidos. A compatibilidade é muito específica. Não é simplesmente escolher quem vai receber. E existe toda uma estrutura por trás de um transplante, com equipe especializada e hospital preparado. Não dá para fazer um transplante numa garagem. Por isso precisamos combater esses mitos e essa desinformação.

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RDM Online: Outro medo é de que o corpo fique deformado depois da retirada dos órgãos. Isso acontece?

Michelli Daltro: Não. Existe todo um cuidado durante a retirada dos órgãos para preservar a aparência do corpo. No caso das córneas, por exemplo, é colocada uma prótese e os olhos ficam fechados. O corpo não fica deformado. A pessoa fica exatamente como era, como se tivesse passado por uma cirurgia. Existe muito cuidado e respeito nesse momento, tanto com o doador quanto com a família.

 

RDM Online: Como está a situação dos transplantes em Mato Grosso?

Michelli Daltro: Hoje temos transplante renal e de córnea. O transplante de fígado ainda depende de toda uma estrutura que estamos aguardando. Mas estamos crescendo, e isso é uma alegria muito grande. Para mim, o transplante é uma mudança de paradigma para Mato Grosso. É muito gratificante ver uma pessoa que vivia em diálise e, depois de receber um rim, não precisar mais daquele tratamento. Ou ver um paciente com uma doença grave no fígado melhorar depois de receber um novo órgão. É uma mudança muito grande na vida daquela pessoa.

 

RDM Online: E qual é a maior necessidade hoje em Mato Grosso?

Michelli Daltro: Rins. Temos cerca de 200 pessoas inscritas na fila, mas aproximadamente 2 mil pessoas estão em hemodiálise. Para entrar na fila, existe todo um processo de avaliação médica para saber se o paciente tem condições de receber o transplante. Também existe a doação intervivos, como de irmão para irmão, pai para filho ou mãe para filho. Mas o doador precisa ser saudável e passar por todos os critérios médicos e de compatibilidade. O objetivo é garantir que o transplante seja seguro tanto para quem doa quanto para quem recebe.

 

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