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COLUNA SOBRETUDO

A eleição que ninguém vê já começou

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Há um erro de percepção que costuma se repetir a cada ciclo eleitoral. O noticiário concentra sua atenção nos candidatos a governador, nas pesquisas para presidente e nas alianças majoritárias. Enquanto isso, a política acontece em outro lugar. Longe dos palanques, das entrevistas e dos discursos. Ela acontece dentro dos partidos.

A verdadeira eleição de 2026 começou antes mesmo do primeiro voto ser pedido ao eleitor. Ela está sendo disputada na formação das nominatas, na escolha de quem permanece, de quem desiste, de quem muda de estratégia e, principalmente, de quem acredita que ainda vale a pena disputar.

É uma eleição invisível para a maioria das pessoas, mas decisiva para o resultado das urnas.

Nas últimas semanas, os partidos intensificaram um movimento silencioso de montagem de suas chapas proporcionais. Não se trata apenas de preencher o número mínimo de candidatos exigido pela legislação. O objetivo é construir nominatas capazes de produzir coeficiente eleitoral suficiente para ampliar bancadas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados.

É nesse momento que nasce a verdadeira competição.

Um candidato não escolhe apenas disputar uma eleição. Ele escolhe contra quem disputará dentro do próprio partido.

Essa é uma mudança profunda em relação à forma como boa parte do eleitor enxerga o processo eleitoral. A impressão é de que todos os candidatos do mesmo partido trabalham juntos. Na prática, eles compartilham a mesma legenda, mas disputam o mesmo espaço político, o mesmo voto regional, os mesmos apoiadores e, muitas vezes, os mesmos recursos de campanha.

É uma competição silenciosa.

Por isso, a pergunta mais importante hoje não é quem lidera as pesquisas para governador.

A pergunta é outra.

Qual partido conseguiu montar a chapa mais competitiva?

É essa resposta que definirá o tamanho das bancadas em 2027.

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Nos bastidores, candidatos fazem contas diariamente. Avaliam o potencial eleitoral dos companheiros de nominata, analisam pesquisas internas, medem a força dos adversários e calculam suas próprias chances de eleição. Em muitos casos, a decisão de permanecer ou abandonar uma candidatura não depende da vontade pessoal. Depende da percepção de viabilidade.

É justamente aqui que a política produz um dos seus fenômenos menos conhecidos.

As convenções resolvem o CNPJ.

A campanha resolve os CPFs.

A convenção homologa o partido. A campanha define quais candidatos realmente sobreviverão politicamente até a eleição.

Nos próximos meses, muitos nomes oficialmente homologados deixarão de fazer campanha com intensidade. Alguns perceberão que suas chances diminuíram diante da força da própria nominata. Outros migrarão seu esforço para fortalecer aliados locais. Haverá quem preserve capital político para eleições futuras. E haverá quem mantenha a candidatura apenas para cumprir uma função estratégica dentro do partido.

Nada disso costuma aparecer nas manchetes.

Mas tudo isso influencia o resultado das urnas.

Outro aspecto importante é que a disputa proporcional passou a exercer enorme influência sobre a eleição majoritária. Prefeitos, vereadores e lideranças municipais não observam apenas quem lidera as pesquisas para governador. Eles também analisam qual partido terá condições de eleger deputados capazes de representar suas regiões nos próximos quatro anos.

Essa lógica altera completamente as negociações políticas.

Em muitos municípios, o debate já não é apenas sobre qual candidato ao governo receberá apoio. A pergunta passou a ser: qual chapa proporcional oferece maior perspectiva de representação para a região?

É por isso que tantos partidos evitam conflitos internos neste momento.

Um racha pode custar mais do que uma candidatura majoritária. Pode comprometer toda uma nominata.

Cada liderança que deixa um partido não representa apenas um voto perdido. Representa redução de coeficiente eleitoral, diminuição da competitividade coletiva e, em alguns casos, a perda de uma cadeira inteira no Legislativo.

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Essa matemática explica boa parte das decisões aparentemente contraditórias que vêm sendo tomadas pelas direções partidárias.

Não se trata apenas de preservar alianças.

Trata-se de preservar cadeiras.

Existe ainda um componente psicológico que costuma ser ignorado.

Na política, viabilidade produz viabilidade.

Quando uma nominata passa a ser percebida como forte, ela atrai novos apoios, estimula candidaturas competitivas e aumenta a confiança de financiadores, lideranças regionais e militantes. O movimento contrário também acontece. Chapas vistas como frágeis tendem a perder candidatos, apoios e capacidade de mobilização.

É um mercado político movido por expectativas.

Muito antes da propaganda eleitoral começar oficialmente, os partidos já disputam aquilo que talvez seja seu ativo mais importante: a confiança de que possuem condições reais de eleger seus candidatos.

Quem vencer essa disputa silenciosa chegará à campanha com uma vantagem que dificilmente poderá ser construída apenas com marketing.

 

PONTO DE VISTA

A política brasileira costuma valorizar excessivamente as disputas majoritárias. No entanto, são as eleições proporcionais que definem a força institucional dos partidos, sua capacidade de governar, negociar e influenciar os próximos quatro anos. Enquanto o eleitor observa quem ocupará o Palácio Barriga Verde, os partidos trabalham para decidir quem ocupará as cadeiras da Assembleia Legislativa e da Câmara dos Deputados. É uma eleição menos visível, mas talvez muito mais decisiva.

A PERGUNTA QUE FICA

Quando a campanha ganhar as ruas, os eleitores perceberão que boa parte do futuro político de Santa Catarina já começou a ser definida dentro das nominatas partidárias ou continuarão olhando apenas para a disputa pelo Governo do Estado?

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