Quem acompanha apenas as pesquisas eleitorais pode imaginar que a política catarinense vive um período de relativa tranquilidade. Os cenários para o Governo do Estado parecem relativamente consolidados, os principais nomes já ocupam seus espaços e o debate público continua concentrado na disputa pelo Palácio Barriga Verde e pelas duas vagas ao Senado.
Mas basta atravessar a porta dos diretórios partidários para perceber que a eleição que realmente tira o sono das lideranças não é essa.
A verdadeira guerra começou muito antes da campanha oficial e acontece longe dos holofotes. Ela está na montagem das chapas de deputado estadual e federal. É ali que MDB, Progressistas, PSD, PL, Republicanos e outras legendas concentram suas energias. Existe uma razão simples para isso: governos passam. Bancadas permanecem.
Quem forma uma bancada forte amplia sua influência sobre qualquer governo, seja ele aliado ou adversário. Quem fracassa nas eleições proporcionais perde recursos, espaço político, poder de negociação e protagonismo dentro do próprio sistema. É por isso que os bastidores vivem uma movimentação muito mais intensa do que aquela percebida pelo eleitor.
O MDB talvez seja hoje o melhor retrato desse momento. A discussão sobre qual caminho o partido seguiria praticamente ficou para trás. O apoio ao projeto liderado por João Rodrigues parece consolidado. O desafio agora é outro. A legenda precisa acomodar um número crescente de pré-candidatos que enxergam na estrutura do partido uma oportunidade real de eleição. Deputados que buscam a reeleição, prefeitos que querem lançar sucessores, lideranças regionais que reivindicam espaço e novos nomes interessados em ingressar na sigla criam um ambiente de disputa interna inevitável.
Paradoxalmente, quanto mais competitivo um partido se torna, maior tende a ser sua tensão interna. O desafio da direção estadual deixou de ser convencer lideranças a permanecer no MDB. Agora será decidir quem efetivamente terá espaço para disputar em condições reais de vitória. E essa talvez seja uma negociação muito mais delicada do que qualquer composição para a chapa majoritária.
No Progressistas, o cenário é diferente, mas igualmente complexo. O partido vive um momento de aparente unidade institucional, mas administra interesses distintos. A direção trabalha para fortalecer as nominatas e preservar a identidade do 11. Esperidião Amin mantém seu projeto para o Senado. Enquanto isso, prefeitos, vereadores e lideranças municipais fazem um cálculo muito mais pragmático: onde estarão as melhores condições para garantir representação parlamentar.
Essa talvez seja a mudança mais importante da pré-campanha. A pergunta deixou de ser quem apoiará quem para governador. A pergunta passou a ser quem conseguirá eleger deputados.
Essa lógica explica muitos movimentos que, à primeira vista, parecem contraditórios. Explica por que partidos reforçam suas nominatas antes mesmo de fechar completamente suas alianças. Explica por que prefeitos passaram a ter papel decisivo na formação das chapas. Explica por que tantas lideranças regionais estão mais preocupadas com a composição interna de seus partidos do que propriamente com os nomes da disputa majoritária.
Existe uma razão matemática para isso. Uma bancada forte garante fundo partidário, fundo eleitoral, tempo de propaganda, presidências de comissões, influência legislativa e poder de negociação durante os quatro anos seguintes. Uma bancada fraca transforma qualquer partido em coadjuvante, mesmo que participe da chapa vencedora para o governo.
É justamente por isso que as eleições proporcionais costumam definir muito mais do que a composição da Assembleia Legislativa e da Câmara dos Deputados. Elas definem quem terá voz dentro dos governos futuros e quem terá força para influenciar as decisões mais importantes do Estado.
O eleitor costuma acompanhar as disputas para governador e Senado porque elas ocupam as manchetes. Os dirigentes partidários fazem o caminho inverso. Sabem que uma vitória majoritária pode ser circunstancial. Uma bancada robusta, porém, garante sobrevivência política independentemente de quem ocupe o Palácio Barriga Verde.
Essa mudança de foco começa a produzir outra consequência importante. Os partidos passaram a disputar candidatos quase como clubes disputam jogadores no mercado de transferências. Lideranças municipais, vereadores, ex-prefeitos e nomes com potencial eleitoral tornaram-se ativos valiosos. Não basta mais ter um bom candidato ao governo. É preciso montar um elenco capaz de produzir votos suficientes para elevar o partido de patamar.
PONTO DE VISTA
Enquanto o eleitor acompanha pesquisas para governador e faz contas sobre a disputa ao Senado, os partidos já jogam outra partida.
A eleição que realmente decidirá o tamanho de cada legenda começou muito antes do calendário oficial. Ela acontece nas negociações por filiações, nas conversas reservadas com prefeitos, na busca por candidatos competitivos e na difícil tarefa de equilibrar interesses internos sem provocar deserções.
Quem sair de 2026 com a maior bancada terá mais recursos, mais influência, mais protagonismo e maior capacidade de moldar os rumos do próximo governo, seja ele qual for.
É por isso que, nos bastidores, poucos dirigentes estão verdadeiramente preocupados apenas com o Palácio Barriga Verde.
Eles sabem que governadores mudam.
As bancadas, quando bem construídas, continuam exercendo poder muito depois de as campanhas terminarem.



























