Existe uma curiosidade na política brasileira. Passamos meses analisando pesquisas de intenção de voto, discutindo alianças, calculando chapas, avaliando estratégias e tentando descobrir quem está na frente da corrida eleitoral. Mas raramente fazemos uma pergunta muito mais importante do que todas essas: o que o eleitor realmente espera de quem pretende governá-lo?
Talvez essa seja a maior lacuna da pré-campanha de 2026.
Enquanto a política continua concentrada em si mesma, o eleitor parece estar olhando para outro lugar.
Uma pesquisa nacional da AtlasIntel buscou responder exatamente essa pergunta ao pedir que os brasileiros apontassem quais características consideram mais importantes em um presidente da República. Embora o levantamento tenha abrangência nacional, seus resultados ajudam a compreender um comportamento que também se observa em Santa Catarina, onde historicamente o eleitor costuma valorizar gestão, capacidade administrativa e entrega de resultados muito mais do que discursos inflamados.
Os números chamam atenção.
63,2% dos entrevistados apontaram competência e capacidade de gestão como a principal qualidade de um governante.
Na sequência aparecem honestidade, com 42,3%, e compromisso com a população, com 40,6%.
Agora vale observar o outro extremo da pesquisa.
Carisma e boa comunicação receberam apenas 0,6% das respostas.
Inovação apareceu com 0,8%.
Lealdade política ficou em apenas 1,5%.
Esses números contam uma história interessante.
Enquanto a política investe cada vez mais em comunicação, marketing, redes sociais, cortes de vídeos e estratégias digitais para dominar o debate diário, o eleitor continua dizendo que procura algo muito mais básico.
Quer alguém competente.
Quer alguém honesto.
Quer alguém comprometido com a sociedade.
Existe uma diferença importante entre aquilo que ocupa o tempo da política e aquilo que ocupa a preocupação do cidadão.
A política costuma valorizar o conflito.
O eleitor costuma valorizar a solução.
A política mede força pelo alcance nas redes sociais, pela capacidade de mobilizar militâncias e pela repercussão de cada declaração.
O eleitor mede confiança pela percepção de competência, pela coerência das atitudes e pela capacidade de resolver problemas concretos.
Talvez isso explique por que tantas campanhas, extremamente eficientes do ponto de vista da comunicação, acabam encontrando dificuldades quando precisam transformar visibilidade em voto.
Santa Catarina oferece um ambiente particularmente interessante para essa reflexão. O eleitor catarinense sempre demonstrou uma tendência a avaliar seus governantes muito mais pela capacidade de administrar do que pela intensidade dos discursos. Evidentemente, questões ideológicas existem e continuarão influenciando parte do eleitorado. Mas dificilmente elas substituem a percepção de preparo quando o cidadão escolhe quem administrará um dos estados mais dinâmicos do país.
Essa talvez seja uma das principais mudanças que a pré-campanha de 2026 precisa compreender.
Até agora discutimos quem será candidato.
Quem apoiará quem.
Quem lidera as pesquisas.
Quem terá mais tempo de propaganda.
Quem formará as chapas.
Tudo isso continuará sendo importante.
Mas nenhuma dessas perguntas parece tão relevante quanto outra muito mais simples.
Qual dos pré-candidatos consegue transmitir competência para governar Santa Catarina?
Essa resposta ainda está sendo construída.
E talvez explique por que algumas candidaturas conseguem crescer de forma consistente enquanto outras permanecem limitadas, mesmo investindo pesado em exposição pública.
Existe ainda um aspecto que costuma passar despercebido.
Competência não é apenas uma qualidade administrativa.
Ela também é uma percepção construída ao longo do tempo.
O eleitor não conhece pessoalmente os candidatos. Ele observa como enfrentam crises, como tomam decisões, se cumprem compromissos, se demonstram equilíbrio e se conseguem transmitir segurança. Em outras palavras, confiança não nasce durante a campanha. Ela começa muito antes, na trajetória pública de cada liderança.
Talvez esse seja um dos maiores equívocos da política contemporânea.
Imaginar que a eleição será decidida apenas pela qualidade da campanha.
Campanhas apresentam candidatos.
Mas confiança costuma ser construída durante anos.
PONTO DE VISTA
Existe uma pergunta que talvez todo candidato devesse fazer antes de contratar um marqueteiro, planejar uma nova estratégia digital ou gravar mais um vídeo para as redes sociais.
O eleitor procura um comunicador ou procura alguém capaz de governar?
A pesquisa parece oferecer uma resposta bastante clara.
O cidadão continua valorizando competência, honestidade e compromisso muito acima de atributos que frequentemente dominam o debate político.
Talvez a política esteja dedicando tempo demais para convencer algoritmos e tempo de menos para compreender pessoas.
Se a pesquisa estiver correta, talvez seja hora de alguns candidatos respirarem fundo e entenderem um recado importante. O eleitor não parece estar procurando o próximo fenômeno do TikTok, o rei dos cortes para as redes sociais ou o campeão das frases de efeito. Continua procurando alguém que saiba administrar um Estado.
Pode parecer menos glamouroso.
Mas é exatamente para isso que existe uma eleição.
A pergunta que fica
Se o eleitor já deixou claro quais qualidades espera de um governante, por que a política continua gastando tanto tempo discutindo estratégias de campanha e tão pouco tempo discutindo como pretende entregar exatamente aquilo que a sociedade diz esperar?
Talvez a resposta para essa pergunta explique não apenas quem vencerá a próxima eleição, mas também por que tantas campanhas ainda insistem em falar mais sobre o poder do que sobre a responsabilidade de exercê-lo.

















