Como presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) e da Aprosoja Mato Grosso, venho a público analisar o anúncio do Plano Safra 2026/2027 à luz da realidade que os produtores enfrentam e do que o País precisa para manter a agricultura como motor do desenvolvimento nacional.
O governo anunciou R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial — acréscimo nominal de cerca de R$ 9 bilhões (1,7%) em relação ao ciclo anterior. À primeira vista, parece continuidade de crescimento. No entanto, a composição revela retrocesso relevante: os recursos para custeio e comercialização caíram de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões, redução de R$ 29,8 bilhões. Os investimentos subiram para R$ 140,2 bilhões. Considerando a inflação acumulada recente de cerca de 4,4%, o plano representa, em termos reais, uma contração de aproximadamente R$ 13,6 bilhões em relação ao necessário para manter o poder de compra do crédito da safra anterior.
Esse movimento não é isolado. Nos últimos três ciclos, observamos crescimento nominal dos volumes anunciados, mas uma mudança estrutural preocupante: retração relativa das linhas tradicionais equalizáveis e controladas (mais acessíveis e alinhadas à política agrícola) e expansão acelerada da CPR e de recursos livres de mercado. Na safra 2025/2026, até maio de 2026, o crédito rural empresarial contratado (sem Pronaf) somou R$ 433 bilhões, queda de cerca de 5% frente ao mesmo período anterior. Retirando a CPR, a retração nas linhas tradicionais foi de aproximadamente 14%. A CPR, por sua vez, cresceu e passou a representar mais de 42% do total, contra 37,4% no ciclo anterior. No custeio, a queda foi de 12,9%; nos investimentos, de 28,1%. Os recursos equalizáveis recuaram 47% na execução parcial.
Essa evolução confirma o que a Aprosoja Mato Grosso alertou ao Ministério da Agricultura em março de 2026: não basta ampliar o volume nominal se o produtor chega ao ciclo com crédito mais seletivo, caro e condicionado. Parte significativa dos recursos anunciados acaba sendo consumida pela rolagem ou reorganização de passivos anteriores, em vez de financiar nova produção, comercialização e giro da safra.
O contexto de endividamento torna essa distorção ainda mais grave. A inadimplência no crédito rural para pessoas físicas atingiu patamares recordes de 7,4% a 7,6% em meses recentes, segundo o Banco Central. O crédito rural problemático (atrasos, renegociações e prorrogações) superou R$ 186 bilhões. Dados da Serasa Experian apontam inadimplência rural em torno de 8,2%. No Mato Grosso, o estado líder em produção de soja e milho, registram-se números expressivos de recuperações judiciais e pressão financeira. No Rio Grande do Sul, apesar de índices percentuais mais baixos em alguns levantamentos, o volume absoluto de operações estressadas permanece elevado, reflexo de perdas climáticas acumuladas.
As causas são conhecidas e cumulativas: juros elevados nos últimos anos, eventos climáticos adversos, queda nos preços das commodities (a saca de soja média nacional superou R$ 180 em 2022 e hoje gira em torno de R$ 115) e aumento expressivo dos custos de produção — que, medidos em sacas de soja, praticamente dobraram nos últimos seis anos. Investimentos realizados em tecnologia, frota e estrutura nos ciclos anteriores, que sustentaram a expansão da produção brasileira, hoje pesam sobre o fluxo de caixa em um ambiente de menor poder de compra da receita.
Nesse cenário, a recente Resolução CMN nº 5.314/2026, que altera o Manual de Crédito Rural e condiciona prorrogações à “conveniência e decisão” da instituição financeira (além da comprovação de dificuldade temporária e atestado de capacidade de pagamento), gera preocupação adicional. Mecanismos de alongamento, historicamente importantes para gestão de fluxo em anos atípicos, tornam-se mais discricionários exatamente quando a demanda por flexibilidade é maior.
A Aprosoja Brasil reconhece esforços do governo em reforçar instrumentos de gestão de risco, como Proagro e seguro rural, e em condicionar renegociações à existência de cobertura. São passos positivos. No entanto, a efetividade dependerá da disponibilidade real, do custo acessível e de regras compatíveis com a diversidade de realidades regionais e de porte dos produtores.
O que o setor precisa, e o que defendemos de forma técnica e construtiva, é que a política de crédito priorize dois eixos simultâneos:
- Garantir que o crédito novo chegue efetivamente à produção — com volume adequado de custeio e comercialização, condições que permitam ao produtor plantar, conduzir e escoar a safra sem que o recurso seja integralmente absorvido por dívidas anteriores.
- Estruturar uma solução ampla e efetiva para o endividamento acumulado. O texto aprovado no Senado do PL 5122/2023 representa o caminho mais equilibrado e abrangente: linha especial com recursos do Fundo Social do Pré-Sal, carência, juros compatíveis com a atividade, possibilidade de rebate e cobertura ampla (incluindo CPRs e operações de investimento). É fundamental buscar a pacificação e harmonização desse texto com as medidas provisórias e iniciativas em curso, de forma a ampliar o alcance, reduzir burocracia excessiva e assegurar que chegue aos produtores que realmente precisam — não apenas aos que se enquadram em critérios muito restritivos. Soluções parciais ou de volume insuficiente (como os R$ 12 bilhões de algumas MPs anteriores, frente a necessidades estimadas bem superiores apenas no Rio Grande do Sul) correm o risco de não resolver o problema estrutural.
A agricultura brasileira não é apenas o setor que produz alimentos, fibras e energia. É a principal geradora de divisas via exportações, um dos maiores contribuintes para a arrecadação tributária, indutora de emprego e renda em toda a cadeia (da indústria de máquinas no Sul e Sudeste à logística e ao consumo interno em estados como Mato Grosso) e pilar da segurança alimentar do País. O produtor rural é, ao mesmo tempo, investidor, consumidor e elo central de um ecossistema econômico que multiplica recursos por toda a sociedade. Quando o crédito não chega ou a renegociação não é viável, o impacto não se limita à porteira: reduz-se a capacidade de investimento, de contratação e de circulação de renda, com efeitos sobre indústria, transporte, comércio e arrecadação pública.
A Aprosoja Brasil e a Aprosoja Mato Grosso mantêm diálogo técnico permanente com o Ministério da Agricultura, o Banco Central, o Congresso e as instituições financeiras. Nossa atuação sempre foi pautada por dados, propostas concretas e busca por soluções que fortaleçam a produção sustentável e a competitividade do Brasil. O momento exige exatamente isso: mais do que números globais robustos, políticas exequíveis que assegurem acesso real ao crédito e condições justas de reorganização do passivo. Assim, o produtor pode continuar cumprindo seu papel de motor da economia brasileira.
Estamos à disposição para contribuir tecnicamente com aprimoramentos que coloquem o produtor no centro das decisões — porque, ao fazer isso, colocamos o Brasil em posição de força.
Lucas Costa Beber
Presidente da Aprosoja Brasil e da Aprosoja Mato Grosso
















