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O Jogador na Igreja, de Leandro Gomes de Barros

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Um dia fui à missa cumprir minha obrigação. Como não tinha um livro de orações, levei um baralho nas mãos. Já dentro da igreja, manuseando as cartas, não percebi que, próximo a mim, havia um sargento ajoelhado. Pouco tempo depois, entraram dois soldados que se aproximaram e disseram:

 

— Moço, o senhor está intimado. O doutor mandou chamá-lo para ser interrogado.

 

Assim que cheguei à presença do delegado, ele começou a me questionar, chamando-me de pecador e perguntando se a igreja era lugar de jogador. Então respondi com calma:

 

— Vou lhe dar uma explicação. Depois de bem explicada, o senhor verá que tenho razão, pois em todo baralho existe sincera devoção.
Expliquei que, quando pego o Ás, que tem apenas uma pinta, lembro-me de que existe um só Deus onipotente, sempre presente quando é invocado. Ao pegar o Dois, recordo que, em duas tábuas de pedra, o Criador escreveu os Dez Mandamentos para salvar seus filhos.
Quando pego o Três, lembro-me da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo, um só Deus verdadeiro. O Quatro me faz recordar os quatro cravos com que Jesus foi pregado na cruz. Já o Cinco traz à memória as cinco chagas que Nosso Senhor sofreu, derramando seu sangue para salvar o pecador.

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Ao pegar o Seis, lembro que Deus criou o mundo em seis dias, sem precisar colocar as mãos. O Sete me remete à hora triste da paixão, aos sete passos de Cristo e às dores profundas de sua caminhada sagrada. O Oito, com suas oito pintas, me lembra que não se deve armar falsidade contra ninguém, pois quem age assim não carrega perdão no coração.

 

Quando pego o Nove, lembro-me dos nove meses benditos da divina encarnação, quando Jesus permaneceu no ventre da Virgem Maria. Já o Dez não me deixa esquecer dos Dez Mandamentos, que orientam a vida do homem; quem os cumpre não perde a alma.

 

Ao pegar a Dama, lembro-me de Maria em sua jornada. Se não fosse ela, o que seria de nós? Mãe de Deus e amparo do pecador na agonia. Quando pego o Rei, vem logo à memória Jesus Cristo, poderoso e divino Rei da Glória, que não precisa de força para alcançar a vitória.
E assim, seu doutor, fui à igreja para rezar. Agora estou às suas ordens: faça o que desejar — ponha-me na cadeia ou deixe-me ir.

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O delegado pensou, pensou, e então falou que eu havia deixado o Valete sem explicação. Respondi:
— Ora, seu doutor, o Valete é uma carta ruim. Por isso, quando compro um baralho, ao Valete dou um fim. Ele é muito parecido com aquele sargento que tentou me acusar sem razão.

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