Maria Ferreira Machado organiza a primeira caravana DiGoreste, levando 32 atletas para a centésima edição da corrida em São Paulo.
Um grupo de 32 corredores cuiabanos vai viajar mais de 1.000 km para participar da centésima edição da São Silvestre, a maior corrida de rua do país. A iniciativa é liderada por Maria Ferreira Machado, policial penal e idealizadora da caravana DiGoreste, que transformou seu hobby em um projeto coletivo de superação e motivação. Em entrevista ao RDM Online, Maria contou como a ideia surgiu após se recuperar de um problema de saúde, sua dedicação aos treinos, a organização logística da caravana e o entusiasmo de todos os participantes. Para ela, mais do que competir, a experiência representa diversão, união e a oportunidade de inspirar outros corredores cuiabanos a perseguirem seus sonhos.
RDM Online: Como surgiu a ideia de organizar essa viagem a partir do seu hobby?
Maria Ferreira: Eu sou a organizadora. Na verdade, foi uma ideia que surgiu de forma repentina. Eu vinha, há algum tempo, enfrentando um problema de saúde, com o estado bem fragilizado. Quando me recuperei, participei da nona corrida, ainda com muita fragilidade, e consegui concluir o trajeto. Fiquei pensando: “Nossa!”.
Então percebi: se participei da nona, vou participar da centésima. Fiz uma camiseta com a frase #CentésimaCorridaEuVou, e algumas pessoas compraram. Uma delas sugeriu: “Por que você não organiza uma caravana?”. Foi assim que surgiu a caravana de Gorest. Esta é a nossa primeira caravana.
RDM Online: Quantas pessoas fazem parte desse grupo neste ano?
Maria Ferreira: Tínhamos um grupo de 96 pessoas, mas, por conta do problema que houve com as inscrições da São Silvestre — que foi um verdadeiro transtorno —, apenas 25 conseguiram finalizar. Assim, estamos com 32 pessoas nessa caravana.
RDM Online: O que leva as pessoas a se motivarem a viajar mais de 1.000 km até São Paulo, saindo do nosso estado, para participar da corrida?
Maria Ferreira: Olha, tem hora que penso que é como se fosse um vírus. Você participa a primeira vez e logo quer de novo. Viaja em um ônibus cansado, chega lá e corre. Não dá para explicar. É diversão, é tudo junto e misturado. Você joga o estresse para fora naquele momento. Fica só o esporte, e pronto.
Eu trabalho na polícia penal e vejo claramente a diferença entre lidar com um público que vive em um ambiente estressado e, por outro lado, conviver com pessoas que só pensam em corrida, são alegres e felizes. É totalmente diferente. É impressionante. Estou apaixonada.

RDM Online: Entre os integrantes da caravana, há atletas mais experientes ou é um grupo misto? Como você descreveria o perfil desses participantes?
Maria Ferreira: É um mix, mas pelo menos três são atletas com grande potencial. Há atletas do interior que estão sempre no pódio em corridas e, inclusive, um deles completou 80 km no último domingo. Achei até que exagerou um pouco, mas fiquei impressionada.
Na faixa etária, ele já tem mais de 50 anos e acredito que tenha boas chances de alcançar uma colocação expressiva. No entanto, para a grande maioria, o objetivo é mesmo a diversão. É diversão.
RDM Online: Vocês não competem na categoria elite?
Maria Ferreira: Ficamos no geral. Esse grupo é formado, em sua maioria, por mulheres, embora também haja muitos homens. As mulheres são maioria, mas a presença masculina é significativa, representando cerca de 30% do total.
RDM Online: Como vai funcionar a questão da saída, dos horários e do ponto de chegada em São Paulo?
Maria Ferreira: Quanto ao roteiro, contamos com um parceiro, EB Silvério, que é de uma empresa de turismo localizada na região da rodoviária do Coxipó. A saída está programada para o dia 29, às 7h da manhã. A previsão é chegar no dia 30, no horário do almoço.
Após a chegada, o grupo seguirá para buscar o kit da corrida e, em seguida, irá para o hotel, onde será possível descansar. No dia 31, o transporte levará os participantes até o local da prova. Depois da corrida, todos retornam ao hotel para banho e almoço, iniciando então a viagem de volta.
A chegada está prevista para o dia 1º, também no horário do almoço. A virada do ano será feita dentro do ônibus durante o trajeto.

RDM Online: Qual é a faixa etária das pessoas que participarão dessa viagem?
Maria Ferreira: Eu acho que sou a “vovó” da turma, já estou na casa dos 70 anos. A faixa etária do grupo varia, em média, entre 40 e 60 anos.
RDM Online: Como está a preparação física e emocional dessas pessoas?
Maria Ferreira: Eu participo de um programa chamado Sesi na Pista, que é excelente e funciona às terças e quintas-feiras, no Parque das Águas, com professores muito qualificados. Além disso, às segundas, quartas e sextas faço treinos mais pesados, com média de 8 a 10 quilômetros, realizados na pista e também na estrada da Ponte de Ferro.
A grande maioria do grupo treina de forma intensa, e há pessoas que registram e compartilham os treinos praticamente todos os dias. Em geral, cada grupo conta com alguém que orienta os atletas, assim como acontece comigo no programa do SESI.
RDM Online: Quais estão sendo os principais desafios para organizar esta caravana? Sendo a primeira edição, como está a logística em relação a transporte e acomodação? Quais dificuldades a senhora tem observado?
Maria Ferreira: A única dificuldade enfrentada até agora foi o transtorno com as inscrições, mas, fora isso, a empresa parceira está organizada e os participantes estão bem. Tudo já está em fase final de preparação.
As camisetas da caravana serão retiradas no dia 20. O pacote inclui viagem, transporte, hotel e camiseta, formando um kit completo. Todos também receberão uma sacochila, que será utilizada para colocar itens como barra de cereal, isotônico e outros alimentos leves.
Com certeza, esta caravana será a primeira de muitas que ainda virão. O nome DiGoreste é uma expressão popular, tipicamente cuiabana. A sugestão partiu de um colega muito querido, que também é um dos patrocinadores do projeto.

RDM Online: Existem outros patrocinadores?
Maria Ferreira: Eu conto com três patrocinadores. Tenho uma psicóloga, proprietária de um escritório de psicologia; a dona do Restaurante da Fátima, que também é minha parceira; e o Jorge, proprietário do Bora Lá, um ponto bastante badalado aqui em Cuiabá, que também é meu patrocinador.
RDM Online: Qual é o valor da taxa para participar da São Silvestre?
Maria Ferreira: O kit básico da São Silvestre estava em torno de R$ 320, se não me engano. Já o kit VIP, com as taxas incluídas, ficava em pouco mais de R$ 1.000.
RDM Online: Para a senhora, pessoalmente, o que significa participar e levar um grupo de Mato Grosso para a maior corrida do país?
Maria Ferreira: É algo que, se você tivesse me perguntado no ano passado, eu não saberia explicar. Não sei exatamente como surgiu, mas é algo tão satisfatório e compensador que provoca uma sensação difícil de definir.
Quando você vê aquele grupo de pessoas, todas com o mesmo sonho e o mesmo objetivo, a experiência se torna ainda mais especial. É muito bom. Acima de tudo, fica um sentimento de muita gratidão a Deus por tudo o que está acontecendo.
RDM Online: Há quanto tempo a senhora pratica corrida?
Maria Ferreira: Já faz dois anos que comecei a correr. Iniciei no ano retrasado, na Corrida de Reis. Depois disso, dei uma parada. Em seguida, conversei com uma amiga, que inclusive é uma das patrocinadoras, e disse: “Tenho o sonho de correr a São Silvestre”. Ela respondeu: “Vamos fazer sua inscrição agora”. Quando a inscrição foi feita, pensei: “Meu Deus”.
Ela também me levou para o programa Sesi na Pista. Fiquei me perguntando se conseguiria concluir o trajeto. Consegui terminar e até recebi um certificado. Quando finalizei, pensei: “Se consegui fazer 15 quilômetros em 3 horas e 11 minutos, eu consigo”. A partir dali, me dediquei intensamente por um ano.
RDM Online: Que momento de reflexão a senhora costuma ter durante a corrida? O que sente nesse instante?
Maria Ferreira: Acho que o pensamento é simples: “Eu vou chegar”. Não importa se estou cansada, o importante é alcançar a meta. O segredo é manter o foco, não olhar para os lados e seguir em direção à chegada.

RDM Online: O prazer da senhora hoje está na corrida. Antes de começar a correr, a senhora não tinha outras atividades que proporcionassem prazer?
Maria Ferreira: Não, não tinha. Eu trabalho e ainda não me aposentei; vou me aposentar neste ano. Quando comecei a correr, meu foco passou a ser a corrida. Pensei: “Não vou me aposentar e ficar parada, vou correr”.
Hoje, meu foco principal são os treinos. No ano passado, corri praticamente todos os fins de semana. Neste ano, reduzi um pouco o ritmo neste semestre e não tenho corrido em todos os fins de semana. No próximo ano, porém, quero começar a participar de provas fora de Cuiabá, já que, neste ano, corri apenas na capital.
RDM Online: O senhora acredita que Cuiabá dispõe de locais e estrutura adequados para atender às necessidades de quem pratica corrida?
Maria Ferreira: Atende, atende. Eu não fiquei muito satisfeita com a transferência da corrida de rua para o Parque Novo Mato Grosso. O parque é lindo e maravilhoso, mas, para corrida de rua, eu gosto mesmo é da rua.
Vou te contar uma experiência que tive na São Silvestre. Eu já estava bem cansada na subida da Brigadeiro, que é o terror de todo mundo, quando um garoto de 12 anos começou a bater palmas e disse: “Vai, você treinou para isso, você consegue”. Aquilo me deu um ânimo enorme. Não esqueço desse menino até hoje.
A corrida de rua tem essa interação, esse contato com o público, que é muito especial. Vou sentir falta disso. Vamos ver como ficará no próximo ano, já que, por conta das obras, houve essa mudança. Espero que a Corrida de Reis volte a ser realizada nas ruas.
RDM Online: A corrida da São Silvestre reúne participantes de todo o Brasil e de outros países. Como vocês pretendem representar o nosso estado nessa competição?
Maria Ferreira: Espero que alguém do grupo consiga se destacar de alguma forma. Só o fato de estarmos participando já é algo muito importante, mas acredito que temos atletas com potencial para se sobressair.
Não contamos com patrocínio de empresas, do Estado ou de políticos. É apenas sangue, coragem e a vontade de representar de verdade o nosso estado e a nossa cidade, que são a nossa base.
RDM Online: Dentro do grupo, há alguém com algum objetivo específico, como participar da São Silvestre, celebrar a virada do ano ou marcar alguma história pessoal?
Maria Ferreira: Não, nesse sentido ainda não temos nada definido. O plano do grupo para o próximo ano é participar de corridas em outros estados, sempre por meio da caravana.
Estamos cogitando algumas provas, como a da Pampulha, além de eventos em Fortaleza, Curitiba e no Rio de Janeiro.

RDM Online: Na sua avaliação, iniciativas como essa ajudam a fortalecer os corredores de Mato Grosso? A senhora acredita que sua iniciativa de levar o grupo para fora do estado contribui nesse sentido?
Maria Ferreira: Penso que a grande maioria das pessoas que vieram comigo acabou abraçando o meu sonho, porque conhecem a história de como tudo começou. Esse é o objetivo principal. É algo mais pessoal, diferente de pegar um avião e viajar sozinho.
A caravana oferece praticidade: você sai daqui, vai ao local da prova, retorna ao hotel e não precisa se preocupar com transporte ou locais desconhecidos. Acredito que teremos um grupo excelente, representando Mato Grosso, mais especificamente Cuiabá, em diversos lugares.
Todos compartilham o mesmo clima: leve, tranquilo e de alto astral. É saúde e superação. Cada um tem uma história de superação ligada à saúde, e se eu contasse tudo o que enfrentei antes de começar a correr, seria impressionante.
RDM Online: Existem planos para 2026, como novas viagens ou outros destinos? Como está sendo estruturado esse projeto para o próximo ano e de que forma ele pretende fortalecer ainda mais os participantes?
Maria Ferreira: Como o grupo é grande, com quase 100 pessoas, as decisões serão discutidas coletivamente. É preciso considerar também as datas, que não podem ser muito próximas, já que todos trabalham e têm dificuldade para conseguir folgas.
Até o momento, as preferências estão voltadas para a corrida da Pampulha, em Belo Horizonte, e a Mini Maratona do Rio de Janeiro. São essas duas provas que estão sendo avaliadas, e todas as decisões serão tomadas em conjunto pelo grupo.
RDM Online: Para finalizar, qual mensagem a senhora gostaria de deixar para as pessoas que sonham em participar da São Silvestre, mas ainda não tiveram coragem de se inscrever e viajar?
Maria Ferreira: Acredito que, quando a pessoa começa, mesmo que seja de forma pequena, ela não vai querer parar. A corrida traz mudanças significativas: proporciona satisfação, melhora a saúde, a tranquilidade e até o poder de decisão, pois você fica mais leve e menos estressado no dia a dia.
Além disso, acaba influenciando a alimentação e diversos outros hábitos, mudando a vida como um todo — e sempre para melhor. Enquanto você corre, é como se tudo isso se manifestasse ali naquele momento.

















