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Tião Carreiro, o menino da viola que se tornou o Rei do Pagode

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“Quem tem mulher que namora, quem tem burro empacador, quem tem a roça no mato me chama que jeito eu dou…” – esses versos imortalizaram uma das mais belas canções da música caipira, “Pagode em Brasília”, composta por Teddy Vieira de Azevedo e Isabel Aparecida Vianna dos Santos, e eternizada na voz de Tião Carreiro e Pardinho. Considerada um hino da moda de viola, a canção atravessou gerações e se mantém como uma das mais tocadas em todos os tempos.

 

Tião Carreiro, nome artístico de José Dias Nunes, nasceu em Monte Azul (MG), em 1934, e faleceu em São Paulo, em 15 de outubro de 1993. Filho de lavradores, Orcísio Dias Nunes e Júlia Alves das Neves, teve seis irmãos – três homens e três mulheres. Desde criança, viveu próximo à lida na roça, em Araçatuba (SP), onde começou a trabalhar com a foice, a enxada e o arado, puxado por burros e cavalos.
Mesmo sem ter frequentado a escola, Tião era curioso e determinado. Aprendeu a ler e escrever sozinho, juntando letras de jornais e revistas velhas para formar palavras e frases. Foi também autodidata na viola, instrumento que o encantava desde cedo. Sua companheira inseparável era uma viola Rosini RU181 ATN, que, segundo ele, proporcionava mais qualidade e profissionalismo nas gravações.

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Sua primeira viola foi um presente especial, recebido após a morte do pai. Tião iniciou a carreira com diversas duplas, entre elas Zezinho e Lenço Verde, Palmeirinha e Coqueirinho, Lameirinha e Tietezinho, e Zé Mineiro e Tietezinho, se apresentando em circos pelo interior do Brasil. Admirador de Zé Carreiro, Carreirinho e Teddy Vieira, Tião se destacou em uma época marcada pelo cateretê e pelas danças de catira, símbolos da autêntica cultura rural.

 

Em 1954, conheceu Pardinho no Circo Rapa-Rapa, em Pirajuí (SP). Foi Teddy Vieira quem batizou a dupla com o nome Tião Carreiro e Pardinho, que se tornaria referência da moda raiz. Juntos, gravaram mais de 55 discos e interpretaram mais de 730 músicas, tornando-se um fenômeno nacional. A dupla se apresentou em grandes emissoras de rádio como Nacional, Record, Globo e Vale Paraíso, além de participar de filmes e peças teatrais, como O Mineiro e o Italiano, Pai João e Sertão em Festa.

 

Tião Carreiro é reconhecido como o criador do ritmo pagode caipira, uma forma inovadora de tocar viola que deu nova dimensão à música rural. O estilo uniu tradição e modernidade, influenciando gerações e mantendo viva a essência do sertão brasileiro. Com mais de 300 composições, muitas em parceria com grandes nomes como Dino Franco, Moacir dos Santos, Zé Fortuna, Raul Torres, Cornélio Pires, Lourival dos Santos, João Mulato, entre outros, Tião construiu uma das obras mais sólidas e respeitadas da música popular.
Entre seus maiores sucessos estão Rei do Gado, Linha de Frente, Boi Soberano, Rancho do Vale, Golpe de Mestre, Navalha na Carne, A Mão do Tempo, Amargurado, Estrela de Ouro e, claro, Pagode em Brasília, composta em homenagem à capital federal e ao então presidente Juscelino Kubitschek.

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Casado com Nair Avanço, Tião teve uma filha, Alex Marli Dias. Em 1991, a dupla com Pardinho se desfez, e ele passou a cantar com Praiano, Carreirinho e depois João Mulato. Faleceu em 1993, sem realizar um de seus maiores sonhos: gravar uma música do mestre Luiz Gonzaga.
Em 2001, foi inaugurado o Museu Tião Carreiro, instalado junto ao de Tonico e Tinoco e Pedro Bento e Zé da Estrada, na cidade de Pratânia (SP), próxima a Botucatu. O espaço preserva a memória de um dos maiores violeiros que o Brasil já conheceu — um artista que, com talento e simplicidade, transformou a vida no campo em poesia, e a moda de viola em eternidade.

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