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Setembro Amarelo: falar é salvar vidas

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Campanha nacional reforça importância da prevenção ao suicídio e combate ao estigma em torno da saúde mental.

A cor que simboliza esperança. Desde 2013, o Brasil veste o amarelo para chamar atenção a um tema que por muito tempo foi tratado com silêncio: a prevenção ao suicídio. Criada pelo psiquiatra Antônio Geraldo da Silva e incorporada ao calendário nacional no ano seguinte pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), a campanha Setembro Amarelo® tornou-se referência mundial. Hoje, é considerada a maior mobilização contra o estigma em torno das doenças mentais.

O dia 10 de setembro é reconhecido como o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, mas a proposta vai além de uma data. A cada edição, milhares de voluntários, entidades públicas e privadas se unem para disseminar informações e combater preconceitos que ainda impedem muitas pessoas de pedir ajuda.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio provoca mais de 700 mil mortes por ano no mundo, número que pode ultrapassar 1 milhão se considerados os casos subnotificados. No Brasil, a média é de 14 mil casos anuais, o equivalente a 38 pessoas por dia.

Entre o tabu e a necessidade de falar
O silêncio ainda é um obstáculo. Conversar sobre o suicídio, reconhecer sinais de risco e saber como agir diante deles são passos fundamentais para salvar vidas. A psicóloga clínica Manayra Lemes Rosa destaca que abrir espaços de diálogo é um dos maiores legados do Setembro Amarelo:

“A importância dessa mobilização está em abrir espaços para o diálogo, para mostrar que pedir ajuda é um ato de coragem. E lembrar que a vida sempre pode encontrar novos significados”, destaca da psicóloga.

Ela lembra que ainda há muito preconceito quando se trata de saúde mental. “Ainda existe muito tabu, porque por muito tempo falar de saúde mental foi visto como um sinal de fraqueza, de insuficiência. Então, isso faz com que muitas pessoas ainda sofram em silêncio, que têm muita dificuldade em pedir ajuda. Aos poucos a sociedade tem avançado, mas ainda precisamos reforçar que cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo e de todas as dimensões da nossa vida”.

Reconhecer sinais pode salvar vidas
Especialistas alertam que a maioria dos casos de suicídio está associada a transtornos mentais não diagnosticados ou tratados de forma inadequada. Depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia e uso abusivo de substâncias estão entre os fatores mais presentes. A identificação precoce de sinais de risco é essencial para que familiares, amigos e colegas possam agir a tempo.

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“São mudanças bruscas de comportamento, um isolamento excessivo, frases de completa desesperança, mesmo que em tom de brincadeira, alteração no sono, no apetite, além da perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas. Os amigos, os familiares, os colegas de trabalho, pessoas que convivem podem ficar atentas a esses sinais, acolher sem julgamento e incentivar a busca por uma ajuda profissional. Porque ao falar sobre os seus sofrimentos, esse movimento pode literalmente salvar vidas”, explica Manayra Rosa.

A força da escuta sem julgamento
Um dos mitos mais comuns é a ideia de que falar sobre suicídio pode incentivar alguém a praticá-lo. Na verdade, o efeito é justamente o contrário: conversar de forma aberta e respeitosa pode ser a porta de saída de um ciclo de sofrimento.

“Muitas vezes, achamos que precisamos dar conselhos para ajudar. Mas o que realmente faz diferença é dar espaço, não julgamento. Uma frase mal colocada pode aumentar a dor. Uma escuta atenta pode ser o início de um respiro. É verdade que nem sempre os sinais são visíveis. Por isso, a melhor forma de agir é cultivando um ambiente de confiança e abertura, onde a pessoa se sinta segura e à vontade para falar. Perguntar como alguém está, oferecer escuta sem julgamento e lembrar que buscar apoio profissional é sempre um caminho de cuidado pode fazer toda a diferença, mesmo quando o sofrimento não é explícito”, afirma a psicóloga.

Dados que preocupam
O Brasil reflete a complexidade do fenômeno. Levantamento do Ministério da Saúde apontou que, entre 2016 e 2021, houve aumento de 49,3% nas taxas de mortalidade por suicídio entre adolescentes de 15 a 19 anos, e de 45% entre jovens de 10 a 14 anos.

As taxas também variam entre gêneros: no Brasil, 12,6 homens a cada 100 mil cometem suicídio, contra 5,4 mulheres na mesma proporção populacional. Essa diferença se repete em escala global. Em países de alta renda, os índices masculinos chegam a 16,6 por 100 mil. Já entre as mulheres, os números são mais elevados em nações de baixa e média renda.

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A OMS alerta que, atualmente, apenas 38 países no mundo possuem estratégias nacionais de prevenção ao suicídio, o que revela a necessidade urgente de ampliar políticas públicas e investimentos na área.

O papel da rede de apoio
A prevenção não depende apenas de profissionais da saúde. A rede de apoio formada por amigos, familiares e colegas de trabalho tem papel fundamental. “Além das atividades mais lúdicas de lazer, da fé, do exercício físico, o apoio de uma rede de relacionamentos é fundamental. Ter com quem conversar, sentir-se pertencente e acolhido faz muita diferença. Práticas de autocuidado, como organizar rotina de sono, manter uma alimentação equilibrada e cultivar hobbies também fortalecem a saúde mental. Mas eu sempre reforço, tudo isso deve caminhar aliado com o acompanhamento profissional adequado, que esse sim vai dar segurança e um direcionamento aos processos a serem vividos”, afirma Manayra Rosa.

Autocuidado e acompanhamento profissional
Atividades que promovem bem-estar físico e emocional são grandes aliadas, mas não substituem a terapia ou o acompanhamento médico.

“Atividades como pintar, praticar exercícios, meditar, podem ser ótimos aliados no cuidado com a saúde mental, mas é importante lembrar que essas atividades não substituem a psicoterapia ou o acompanhamento médico quando necessário. Esses recursos funcionam como complemento, enquanto a terapia e, em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico, esses sim oferecem um suporte profundo e estruturado para que a pessoa possa lidar com suas dores de forma segura e eficaz”, completa a psicóloga.

Um compromisso coletivo
O Setembro Amarelo vai além de campanhas visuais e frases de impacto. Ele representa um chamado à responsabilidade social de falar sobre saúde mental sem estigmas.

A ABP e o CFM reforçam que todo cidadão pode se engajar, seja compartilhando informações de qualidade, seja oferecendo escuta e apoio. Empresas, escolas, igrejas e comunidades têm papel importante nesse processo.
“Falar é salvar vidas” — a frase resume a essência da mobilização. E se há uma certeza no meio de tantas estatísticas, é a de que ninguém precisa enfrentar a dor sozinho.

Serviço: Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda, ligue para o CVV – Centro de Valorização da Vida pelo número 188. O atendimento é gratuito e funciona 24 horas por dia, em todo o Brasil.

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