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SOBRETUDO

Os partidos médios desapareceram. E isso pode mudar a política catarinense mais do que as pesquisas.

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Quem acompanha a política catarinense há mais tempo talvez tenha percebido uma mudança silenciosa acontecendo diante dos olhos de todos. Durante décadas, as eleições estaduais foram construídas por um conjunto amplo de partidos que, mesmo sem disputar diretamente o governo, exerciam papel decisivo na formação de alianças, na composição de chapas e na construção de maiorias.

Hoje esse cenário parece cada vez mais distante.

Basta observar o debate político atual. Quase todas as conversas relevantes giram em torno de um grupo restrito de siglas. PL, PSD, MDB, Progressistas, União Brasil e, em menor escala, Republicanos e Novo. Fora desse círculo, poucos partidos conseguem influenciar efetivamente o rumo dos acontecimentos.

Não se trata apenas de uma mudança eleitoral.

Trata-se de uma transformação estrutural.

O desaparecimento do centro político partidário

Durante muitos anos, partidos como PSDB, PDT, PTB, PPS, Cidadania, Solidariedade e outras legendas intermediárias funcionavam como peças fundamentais do tabuleiro. Nem sempre lançavam candidatos competitivos ao governo, mas possuíam prefeitos, vereadores, deputados e lideranças regionais capazes de influenciar decisões importantes.

Hoje boa parte dessas siglas perdeu relevância ou foi absorvida por fusões, federações e rearranjos políticos nacionais.

O resultado é um sistema cada vez mais concentrado. As grandes decisões passam a ser tomadas por menos partidos. As alianças ficam mais previsíveis. E o espaço para novas articulações diminui significativamente.

Na prática, Santa Catarina está migrando de um modelo com vários centros de influência para um sistema dominado por poucos polos políticos.

Os extremos sobreviveram. Os gigantes cresceram. Quem desapareceu foi o meio do caminho.

O fenômeno fica ainda mais evidente quando observamos quais partidos conseguiram preservar relevância.

De um lado estão os grandes partidos de poder. PL, PSD, MDB, Progressistas e União Brasil concentram governos, prefeituras, bancadas e estruturas eleitorais robustas. São os partidos que dominam o debate político estadual e ocupam os principais espaços de decisão.

De outro lado estão os partidos ideológicos, especialmente PT e PSOL.

Mesmo sem controlar grandes estruturas municipais ou disputar o protagonismo do governo estadual, mantêm presença política consistente porque possuem algo que muitos partidos perderam ao longo do tempo: identidade clara. Seus eleitores sabem o que representam, suas lideranças possuem discurso definido e sua sobrevivência não depende exclusivamente de alianças circunstanciais.

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Quem sofreu foi justamente o espaço intermediário.

Os partidos que durante décadas funcionaram como pontes entre diferentes correntes políticas, que serviam de abrigo para lideranças regionais e que frequentemente decidiam eleições a partir de suas alianças, perderam função, protagonismo e relevância.

Talvez essa seja a principal transformação do sistema partidário catarinense nos últimos anos.

A concentração fortalece. Mas também fragiliza.

À primeira vista, a redução do número de protagonistas parece positiva. Menos fragmentação significa maior estabilidade, alianças mais sólidas e menor dispersão de votos.

Mas existe um efeito colateral pouco discutido.

Quando poucos partidos concentram grande parte do poder político, o sistema se torna mais dependente das lideranças que comandam essas estruturas.

Hoje boa parte das decisões estaduais passa por um grupo relativamente pequeno de atores políticos. Isso aumenta a importância das lideranças, mas reduz a capacidade de renovação do sistema.

Os partidos médios costumavam cumprir uma função importante. Eram espaços de formação de quadros, abrigo para dissidências e caminhos alternativos para lideranças que não encontravam espaço nas grandes legendas.

Com seu enfraquecimento, essas portas começam a desaparecer.

A política catarinense está ficando mais parecida com a nacional

Historicamente, Santa Catarina sempre apresentou uma característica própria. O Estado possuía um sistema político relativamente equilibrado, com diferentes regiões exercendo influência e diversos partidos participando da construção dos governos.

Esse modelo produzia disputas mais complexas, mas também mais abertas.

O que se observa hoje é uma aproximação crescente com a lógica nacional. Poucos partidos concentram recursos, estrutura, tempo de televisão, prefeitos e bancadas. Os demais lutam para sobreviver.

Não por acaso, muitas lideranças que antes construiriam carreiras em partidos médios agora migram diretamente para as grandes siglas.

É um movimento racional.

Mas que produz consequências.

Quem perde espaço não são apenas os partidos

Quando um partido médio desaparece, não desaparece apenas uma sigla.

Desaparece um ambiente político.

Desaparece uma corrente de pensamento.

Desaparece uma alternativa de construção de liderança.

O eleitor normalmente observa apenas os candidatos. Mas os partidos cumprem funções importantes na organização da vida política.

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Quanto menos opções estruturadas existirem, maior será a tendência de concentração em torno dos mesmos grupos e dos mesmos nomes.

Talvez isso ajude a explicar um fenômeno cada vez mais evidente em Santa Catarina: a repetição dos protagonistas.

Mudam as eleições.

Mudam as alianças.

Mas os personagens centrais continuam sendo, em grande parte, os mesmos.

O que pode acontecer daqui para frente

A tendência é que esse movimento se intensifique.

As regras eleitorais passaram a favorecer partidos maiores. As federações reduziram o espaço para siglas menores. O acesso aos fundos eleitorais tornou-se cada vez mais concentrado. E a disputa política exige estruturas cada vez mais robustas.

Nesse ambiente, os partidos médios enfrentam uma escolha difícil. Ou encontram nichos políticos muito claros para sobreviver ou tendem a ser absorvidos pelos grandes blocos que hoje dominam a política estadual.

O resultado pode ser um sistema mais estável, mas também mais fechado. Mais eficiente na formação de governos, mas menos eficiente na formação de novas lideranças.

 

PONTO DE VISTA

Quando se fala sobre o futuro da política catarinense, quase sempre a discussão gira em torno de nomes. Quem será governador. Quem disputará o Senado. Quem liderará determinado partido.

Talvez a pergunta mais importante esteja em outro lugar.

Quem ocupará os espaços que os partidos médios estão deixando para trás?

Porque essas siglas nunca foram apenas coadjuvantes. Funcionavam como pontes entre diferentes grupos políticos, formavam lideranças regionais e criavam caminhos alternativos para quem não encontrava espaço nas grandes estruturas.

O desaparecimento gradual desses partidos pode até simplificar o tabuleiro eleitoral. Mas também reduz a diversidade de vozes e de caminhos dentro do sistema político.

E sistemas excessivamente concentrados costumam produzir um efeito conhecido. Ficam mais fortes no curto prazo, mas mais vulneráveis no longo.

Talvez seja cedo para afirmar que Santa Catarina está entrando nesse processo. Mas os sinais já estão sobre a mesa.

E, como quase tudo na política, as mudanças mais importantes costumam começar muito antes de se tornarem evidentes para todos.

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