Na política, os documentos mais importantes nem sempre são aqueles que atacam adversários ou anunciam grandes decisões. Muitas vezes, os textos que realmente merecem atenção são aqueles escritos para dentro de casa.
É exatamente esse o caso da manifestação assinada pelo secretário-geral do Progressistas de Santa Catarina, Aldo Rosa. O documento não foi direcionado ao eleitor. Não tenta convencer a opinião pública. Seu público são prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, pré-candidatos, diretórios municipais e lideranças do partido. E talvez por isso mesmo ele seja tão revelador.
A mensagem central é clara. O Progressistas quer que sua base esqueça a federação na disputa proporcional e concentre esforços exclusivamente nos candidatos do 11. O texto deixa explícito que a missão é eleger dois deputados federais, cinco estaduais e o senador Esperidião Amin, defendendo apenas candidatos do Progressistas para as eleições proporcionais.
Mas o verdadeiro significado político está além daquilo que foi escrito.
A federação existe. Mas o partido deixa claro que não pretende agir como federado
Desde a criação da União Progressista, a expectativa era de que Progressistas e União Brasil passassem gradualmente a atuar como uma força política integrada. Afinal, essa é justamente a lógica das federações.
O documento mostra que, pelo menos em Santa Catarina, essa integração está longe de acontecer. Ao afirmar que não haverá parceria com qualquer outro partido na disputa para deputado estadual e federal, o Progressistas envia um recado direto para suas bases. A federação existe formalmente, mas a competição eleitoral continua sendo tratada como uma disputa entre estruturas independentes.
Na prática, a mensagem é ainda mais objetiva. O adversário eleitoral do Progressistas não está apenas fora da federação. Em muitos municípios, também estará dentro dela.
O documento responde a um problema real
Quem acompanha a política municipal sabe que a criação da federação gerou dúvidas em centenas de lideranças locais. Prefeitos, vereadores e pré-candidatos passaram a se perguntar qual deveria ser o comportamento eleitoral diante da nova realidade. Apoiar nomes do Progressistas? Apoiar nomes do União Brasil? Dividir esforços? Construir campanhas conjuntas?
O manifesto tenta eliminar qualquer interpretação ambígua. Ao repetir diversas vezes a expressão “exclusivamente pelo 11”, a direção estadual demonstra preocupação em evitar dispersão de votos dentro da própria federação. Isso mostra que a principal preocupação do partido hoje não é o adversário externo. É proteger sua própria musculatura eleitoral.
Existe também um recado interno
Outro aspecto chama atenção. O texto dedica espaço para defender a eleição de Esperidião Amin ao Senado, mas concentra praticamente toda sua energia política na eleição proporcional. Isso não acontece por acaso.
A direção partidária sabe que a verdadeira sobrevivência de uma legenda passa por suas bancadas. Deputados estaduais significam influência na Assembleia. Deputados federais significam força em Brasília, tempo de televisão, fundo partidário, estrutura política e capacidade de negociação. O manifesto parece partir de uma lógica bastante pragmática. Independentemente do que acontecer na eleição majoritária, o Progressistas precisa sair fortalecido institucionalmente. E isso depende muito mais das proporcionais do que das disputas para governador ou presidente.
O que está em jogo é o tamanho do Progressistas depois de 2026
Talvez essa seja a análise mais importante. O documento não fala apenas sobre a próxima eleição. Ele fala sobre a próxima década.
Ao mobilizar prefeitos, vereadores e pré-candidatos para defender exclusivamente o 11, a direção estadual demonstra preocupação com o peso que o partido terá após o pleito. Quanto maior a bancada, maior a autonomia. Quanto menor a bancada, maior a dependência de alianças.
Por isso, o texto não deve ser lido apenas como uma orientação eleitoral. Ele é uma estratégia de preservação de poder, construída para garantir que o Progressistas mantenha relevância própria mesmo dentro de uma federação que, pelo menos em Santa Catarina, ainda está longe de funcionar como uma estrutura política totalmente integrada.
PONTO DE VISTA
O manifesto assinado por Aldo Rosa não é um documento sobre a federação. É um documento sobre identidade partidária.
Num momento em que muitos partidos caminham para estruturas cada vez mais amplas e alianças cada vez mais complexas, o Progressistas catarinense decidiu fazer o movimento inverso. Em vez de enfatizar a federação, escolheu enfatizar o partido. Em vez de pedir apoio ao bloco, pediu apoio ao 11. Em vez de falar de união, falou de preservação de espaço político.
A decisão faz sentido do ponto de vista eleitoral. Afinal, deputados são eleitos por voto, e voto se conquista com identidade, estrutura e pertencimento. Mas ela também revela uma realidade que poucos admitem publicamente. A federação União Progressista existe juridicamente. Politicamente, pelo menos em Santa Catarina, ela ainda está longe de funcionar como um único partido.
E o manifesto divulgado nesta semana talvez tenha sido a demonstração mais clara disso até agora.

























