Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

MT bate recorde na produção, mas enfrenta gargalo histórico na armazenagem

default

publicidade

Com safra recorde, avanço da soja e do milho e expansão de áreas cultivadas, estado chega a um ponto crítico: infraestrutura de armazenagem não acompanha o ritmo da produção e déficit já se aproxima de 50%

 

Mato Grosso vive um dos períodos mais expressivos de sua história no agronegócio. A cada safra, o estado consolida sua posição como maior produtor de grãos do país e um dos principais fornecedores de alimentos do mundo. No entanto, por trás dos números recordes de produção, um problema estrutural se aprofunda silenciosamente: a capacidade de armazenagem não acompanha o ritmo acelerado da expansão agrícola.

 

O resultado é um déficit estimado em quase 50%, que impacta diretamente o custo logístico, reduz o poder de negociação do produtor e compromete a rentabilidade no campo. Em um cenário de produção crescente, mas infraestrutura limitada, o desafio deixa de ser apenas técnico e passa a ser estratégico para o futuro do agronegócio mato-grossense.

 

 

Em entrevista, o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Lucas Costa Beber, detalhou o cenário, alertou para os riscos e defendeu mudanças estruturais urgentes para o setor. O contraste entre produção e armazenagem nunca foi tão evidente. Em números recentes, Mato Grosso colheu 111,35 milhões de toneladas de grãos no último ciclo, enquanto a capacidade estática de armazenagem do estado é de cerca de 55,4 milhões de toneladas.

 

“Em números, Mato Grosso colheu, no ano passado, 111,35 milhões de toneladas de grãos. Atualmente, a capacidade de armazenagem do estado é  de 55,4 milhões de toneladas. Isso significa um déficit de aproximadamente 54,5 milhões de toneladas”, destacou o presidente da Aprosoja-MT.

 

Esse descompasso revela um problema que não é recente, mas que vem se agravando ano após ano com a expansão da área plantada e o aumento da produtividade. O estado, que já ultrapassa fronteiras produtivas históricas, agora enfrenta limites estruturais fora da porteira.

 

 

A falta de armazenagem adequada não afeta apenas a logística, mas toda a dinâmica de comercialização da produção agrícola. Em períodos de colheita, a pressão sobre o sistema logístico cresce de forma intensa, criando gargalos em estradas, filas em unidades de recebimento e dependência do escoamento imediato.

 

“O principal impacto desse déficit é a perda de competitividade. Durante a colheita, o mercado sabe que o produtor precisa escoar rapidamente sua produção por falta de espaço para armazenagem”, afirmou Lucas Costa Beber.

 

Esse cenário cria um ambiente de desequilíbrio na formação de preços, já que o produtor perde poder de negociação justamente no momento em que precisa vender sua produção.

 

O efeito em cadeia da falta de armazenagem atinge diretamente o bolso do produtor rural. Com a necessidade de escoamento imediato, aumenta a demanda por transporte, elevando o custo do frete e pressionando toda a cadeia logística.

Leia Também:  Mato Grosso lidera crescimento do abate de bovinos no país

 

“Com certeza. O custo aumenta, principalmente em razão da maior demanda por frete durante o pico da safra”, explicou o presidente.

 

Além disso, o próprio mercado comprador se adapta a esse cenário de fragilidade logística, ajustando os preços pagos pela produção.

 

“As empresas compradoras conhecem esse déficit de armazenagem em Mato Grosso e no Brasil. Sabendo que o produtor precisa vender rapidamente, elas acabam pressionando os preços para baixo”, completou.

 

O resultado é um cenário em que o produtor vende mais, mas nem sempre ganha mais — uma distorção que preocupa entidades do setor. Diante da falta de infraestrutura, o campo tem buscado alternativas para amenizar os impactos da armazenagem insuficiente. Entre elas, o silo bolsa tem ganhado destaque como ferramenta de apoio, especialmente em períodos de pico da safra.

 

“Eu costumo dizer que a tecnologia do silo bolsa é muito eficiente, mas não faz milagres”, afirmou Lucas Costa Beber.

 

A eficiência da tecnologia varia conforme o tipo de grão e as condições de uso. No milho, os resultados são considerados altamente positivos.

 

“Para a cultura do milho… o milho pode permanecer armazenado por mais de um ano. Em muitos casos, o grão é retirado com qualidade até superior àquela observada em armazéns convencionais”, explicou.

 

 

Já na soja, o comportamento é diferente e exige mais cautela no uso da tecnologia.

 

“Já no caso da soja… o grão tende a aquecer mais no interior do silo bolsa e pode perder qualidade, tanto em teor de óleo quanto de proteína”, alertou.

 

O déficit de armazenagem também reflete limitações nas políticas de crédito e incentivo ao setor. Segundo a Aprosoja-MT, os recursos destinados à armazenagem ainda são insuficientes para atender à demanda crescente.

 

“Nós enfrentamos algumas dificuldades e sempre defendemos um aporte maior de recursos, principalmente no Plano Safra”, disse o presidente.

 

Ele também defende a ampliação de incentivos fiscais e financeiros para estimular novos investimentos.

 

“Seria necessário um subsídio maior nas taxas de juros do Plano Safra, além de incentivos… como a redução ou isenção de impostos sobre equipamentos destinados à armazenagem”, afirmou.

 

A defesa é de que a armazenagem deve ser tratada como infraestrutura estratégica, e não apenas como investimento privado.

 

O debate sobre armazenagem também ganha dimensão global quando se observa o cenário geopolítico recente. Conflitos internacionais têm mostrado como cadeias produtivas podem ser afetadas rapidamente por instabilidades externas.

 

“Essa não é apenas uma questão ligada à agricultura, mas também à segurança alimentar”, reforçou Lucas Costa Beber.

Leia Também:  Programa REM MT reabre inscrições de editais até 7 de agosto

 

Ele cita eventos como a guerra entre Rússia e Ucrânia e tensões no Oriente Médio como exemplos de como o comércio global pode ser impactado.

 

“A guerra entre Rússia e Ucrânia acabou beneficiando Mato Grosso de forma indireta, pois permitiu a ampliação de mercados”, explicou.

 

O crescimento da soja em Mato Grosso também reflete mudanças no cenário internacional. A disputa comercial entre Estados Unidos e China abriu espaço para o Brasil ampliar sua participação no maior mercado importador do mundo.

 

“O Brasil ampliou sua participação nas importações chinesas, substituindo parte da soja que antes era adquirida dos Estados Unidos”, afirmou.

 

Esse movimento impulsionou investimentos, expandiu áreas produtivas e consolidou o país como protagonista global no fornecimento de grãos. Apesar dos avanços produtivos, a infraestrutura segue em ritmo mais lento. Nos últimos anos, o crescimento da produção tem superado com folga a expansão da armazenagem.

 

 

“Nos últimos dez anos, a produção nacional de grãos cresceu, em média, entre 6% e 6,5% ao ano. No mesmo período, a capacidade de armazenagem aumentou menos de 3% ao ano”, destacou o presidente.

 

Esse desequilíbrio estrutural amplia o déficit ano após ano, tornando o problema cada vez mais crítico. Como alternativa, o cooperativismo aparece como uma das principais soluções para o futuro da armazenagem em Mato Grosso, especialmente entre pequenos e médios produtores.

 

“Outra alternativa, considerada a mais segura, é a organização dos produtores em cooperativas, especialmente no caso dos pequenos produtores”, afirmou.

A ideia é reduzir custos, ampliar escala e fortalecer o poder de negociação no mercado. O problema da armazenagem também se manifesta de forma desigual no território mato-grossense. Regiões mais novas ou isoladas enfrentam maiores dificuldades logísticas e menor concorrência entre compradores.

 

“O principal problema é que, quanto mais isolada e mais nova for a região produtora, maiores tendem a ser as dificuldades enfrentadas pelos produtores”, explicou.

 

Isso reduz alternativas de comercialização e amplia a vulnerabilidade econômica do produtor. O cenário atual evidencia que o déficit de armazenagem em Mato Grosso não é apenas um problema conjuntural, mas um desafio estrutural que acompanha o crescimento acelerado da produção agrícola.

 

 

Com safra recorde, expansão de áreas e aumento da relevância global do estado, especialistas alertam que a falta de investimentos em armazenagem pode se tornar um dos principais gargalos do agronegócio brasileiro nos próximos anos

 

.
Entre avanços tecnológicos no campo e limitações estruturais fora dele, o produtor segue buscando alternativas para equilibrar produtividade, rentabilidade e competitividade em um dos mercados agrícolas mais importantes do mundo.

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade