Filme estrelado por Zezé Motta resgatou a trajetória de uma das maiores figuras de resistência de Mato Grosso e conquistou o público em estreia marcada por emoção e reconhecimento histórico
Uma história marcada pela resistência, pela ancestralidade e pela luta por liberdade ganhou as telas e o coração do público. O filme “Mãe Bonifácia”, dirigido por Salles Fernandes, estreou com casa cheia no Cine Teatro Cuiabá, no dia 31 de março de 2026, transformando a exibição em um verdadeiro marco cultural. Com ingressos gratuitos e filas que contornaram o espaço, a produção evidenciou o interesse crescente por narrativas que valorizam a história e a identidade mato-grossense.
A noite de estreia foi marcada por forte comoção. O público lotou o Cine Teatro Cuiabá, em uma demonstração clara de que o cinema regional vinha conquistando espaço e relevância. A presença do elenco, da equipe de produção e de apoiadores do projeto transformou o momento em uma celebração coletiva da cultura local.
Viabilizado por meio da Lei Paulo Gustavo, com apoio da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT), o longa não apenas representou um avanço para o audiovisual mato-grossense, mas também reafirmou a importância de políticas públicas de incentivo à cultura.
O sucesso foi imediato. A alta procura por ingressos e a grande fila registrada na estreia levaram à abertura de sessões extras, incluindo uma exibição no dia 2 de abril. A iniciativa garantiu que mais pessoas tivessem acesso à obra, mantendo a proposta de democratização cultural com entrada gratuita.
Com 84 minutos de duração e classificação indicativa de 10 anos, o filme mergulhou na trajetória de Mãe Bonifácia, uma mulher negra alforriada que viveu em Cuiabá no final do século XIX. Sua história, por muito tempo transmitida apenas pela oralidade, ganhou uma representação potente nas telas.
Conhecida como curandeira e benzedeira, Bonifácia desempenhou um papel fundamental na luta contra a escravidão. Sua atuação foi além do cuidado espiritual: ela acolheu pessoas escravizadas em fuga, oferecendo abrigo e ajudando na construção de caminhos rumo à liberdade.
A narrativa do filme percorreu duas fases de sua vida. A juventude foi interpretada por Elina Souza, enquanto a fase mais madura ganhou força na atuação de Zezé Motta, que entregou uma performance intensa e carregada de simbolismo.

O enredo também destacou a formação de quilombos na região onde hoje se localizam o bairro Quilombo e o Parque Mãe Bonifácia, reforçando o legado da personagem como liderança na resistência negra em Mato Grosso.
Apesar de sua relevância histórica, a trajetória de Mãe Bonifácia permaneceu, durante décadas, envolta em lacunas. Grande parte das informações conhecidas foi preservada por meio da tradição oral, atravessando gerações.
Diante disso, o diretor do filme, Salles Fernandes, em entrevista ao podcast HNTTV, relembrou como surgiu seu interesse pela história que inspirou a produção, ressaltando que a curiosidade inicial evoluiu para uma investigação aprofundada sobre uma das figuras mais emblemáticas de Cuiabá.
“Primeiro, Mãe Bonifácia chegou até mim por meio do parque. Eu ouvia falar que existia um parque e pensava: como o principal parque de Cuiabá leva o nome de uma mulher? Isso despertou muita curiosidade em mim. Lembro da época em que foi inaugurado e fiquei interessado em saber quem foi Mãe Bonifácia. Na minha cabeça, imaginava que fosse uma figura mais recente, talvez alguém ligado à fundação do bairro. Mas, quando fomos pesquisar a história, nos deparamos com algo muito mais profundo e significativo do que imaginávamos.”

Recentemente, uma descoberta trouxe novos elementos à sua história. Pesquisadores localizaram, nos arquivos da Cúria Metropolitana de Cuiabá, o registro de óbito da personagem, confirmando que ela morreu aos 80 anos, em 19 de fevereiro de 1867.
O achado representou mais do que um dado histórico. Ele reforçou a importância de revisitar o passado e valorizar personagens que, por muito tempo, ficaram à margem dos registros oficiais.
Gravado no interior de Mato Grosso, com locações em Sorriso, o filme foi resultado de um trabalho coletivo que envolveu cerca de 80 profissionais. Foram 22 dias de filmagens e aproximadamente nove meses de pós-produção, evidenciando o cuidado e a dedicação da equipe.
Além de nomes consagrados, como Zezé Motta, o elenco também evidenciou talentos regionais, a exemplo de Jasmine Vitória e Eloá Pimenta, fortalecendo a identidade local da produção. Ao abordar a composição do grupo de atores, Fernandes ressaltou a proposta de integrar diferentes origens para enriquecer a narrativa, sem abrir mão da essência cuiabana do filme.
“A gente fez uma mescla entre atores cuiabanos e duas atrizes de fora: Zezé Motta, que é carioca, e Elina Souza, que é mineira. Também contamos com atores de Sorriso. Essa combinação ficou muito interessante, pois permitiu contar a história de forma diversa, sem deixar de valorizar e preservar a identidade cuiabana no filme.”
Entretanto, ao relembrar a reação ao roteiro, Salles destacou a forte conexão da atriz, reconhecida nacionalmente, com a personagem local que interpretaria.
“Quando Zezé Motta leu o roteiro, ela se identificou imediatamente com a personagem. Disse que havia muito de si naquela história e que se via representada ali.”
Esse protagonismo regional foi um dos grandes diferenciais da obra. Ao contar uma história enraizada no território mato-grossense, o filme fortaleceu a cultura local e ampliou sua visibilidade no cenário nacional.
Mais do que um filme, “Mãe Bonifácia” se apresentou como um convite à reflexão. A obra conectou passado e presente ao evidenciar a luta por liberdade, dignidade e reconhecimento, temas que permanecem atuais.
Ao abordar a construção da personagem, Salles destacou a proposta do filme de apresentar uma Mãe Bonifácia forte, protagonista de sua própria história e distante de estereótipos de submissão.
“A abordagem do filme não é de submissão, de alguém que se coloca como vítima da escravidão. Pelo contrário, trata-se de uma figura que se apresenta com autoridade, que dialoga, que negocia a passagem de pessoas e se posiciona de igual para igual. Ela não é submissa, sua postura não é essa. É justamente essa Mãe Bonifácia que apresentamos no filme.”
O sucesso de público na estreia demonstrou que havia espaço e interesse por narrativas que resgatam a história sob uma perspectiva mais inclusiva e representativa. A comoção registrada no Cine Teatro Cuiabá revelou o impacto emocional da obra e sua capacidade de dialogar com diferentes gerações.
Ao transformar a trajetória de Mãe Bonifácia em cinema, a produção contribuiu para preservar a memória de uma mulher que simbolizou resistência e coragem. Sua história, antes restrita a relatos orais, ganhou alcance e permanência por meio da arte.
O filme reafirmou a importância de olhar para o passado com sensibilidade e responsabilidade, reconhecendo personagens que ajudaram a construir a história, mas que nem sempre tiveram o devido destaque.
Em meio a aplausos, filas e sessões lotadas, “Mãe Bonifácia” mostrou que o cinema também foi um instrumento de resgate, identidade e transformação. Mais do que contar uma história, a obra devolveu voz a uma figura essencial da história mato-grossense, e convidou o público a nunca mais esquecê-la.
Ao falar sobre os próximos passos da produção, o diretor Fernandes destacou a estratégia de circulação do filme e a expectativa de ampliar seu alcance no cenário audiovisual.
“O filme vai passar por um circuito de festivais nacionais e internacionais. Normalmente, essa trajetória dura entre nove meses e um ano, período em que a produção constrói seu currículo, participa de seleções e pode conquistar premiações. Todo esse processo contribui para ampliar o alcance da obra. A expectativa é que o filme seja bem reconhecido e, posteriormente, chegue ao cinema e às plataformas de streaming. Essa é a estratégia que estamos desenhando para o projeto”, concluiu o diretor.















