Ex-ministro de Lula e ex-diretor da FAO propõe “santuários escolares” contra obesidade
José Graziano da Silva, criador do Fome Zero, liderou debates na Câmara com críticas duras à indústria de ultraprocessados e à bancada ruralista – de quem discorda, ao contrário do primo, o ex-deputado tucano Xico Graziano.
Por Humberto Azevedo
Na última quarta-feira, 3 de junho, a Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial (CDH) da Câmara dos Deputados realizou uma audiência pública, que debateu os números do Atlas Mundial da Obesidade 2026 divulgado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).
Presente na audiência, o agrônomo José Graziano da Silva, 76 anos – ex-ministro do Combate à Fome do primeiro governo Lula e ex-diretor-geral da FAO – fez as mais contundentes defesas da tributação da indústria de ultraprocessados e da escola como “santuário” para frear a obesidade.
“O problema não é técnico. O problema é político”, apontou o dirigente do Instituto Fome Zero no final da sua participação na audiência – que ouviu ainda representantes da ACT Promoção da Saúde, do Instituto de Defesa de Consumidores (IDEC), Conselho Federal de Nutrição (CFN), Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Ministério da Saúde, Ministério do Desenvolvimento Social, Família e Combate à Fome (MDS), Ministério da Fazenda e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).
Os dados apontados pelo Atlas Mundial da Obesidade, no Brasil, são alarmantes: 62,6% dos adultos brasileiros têm excesso de peso; 25,7% são obesos. Entre crianças de 5 a 10 anos, mais de 30% estão acima do peso. Graziano, responsável por tirar 28 milhões da pobreza com o Fome Zero, agora lidera o coro por medidas regulatórias duras – incluindo imposto seletivo com alíquota mínima de 8% e proibição de publicidade infantil de ultraprocessados.
“Dois terços da população brasileira tem excesso de peso. Metade do que tem excesso de peso está obeso. Essa relação é das piores do mundo. (…) A decisão é política. O que vai valer é a estratégia de implementação dessas medidas técnicas”, diagnosticou José Graziano – filho de um dos autores do Estatuto da Terra, José Gomes da Silva.
DO FOME ZERO A GESTÃO ALIMENTAR
Nascido nos Estados Unidos em 1949, Graziano – que construiu sua carreira acadêmica na Universidade estadual paulista de Campinas (Unicamp) – criticou os subsídios bilionários à Zona Franca de Manaus (ZFM) para refrigerantes, a rotulagem frontal que “precisa de uma lupa para ver” e a ausência de educação alimentar nas escolas.
“Não temos desenvolvido uma cultura de consumo de frutas, verduras e legumes. Isso se faz a partir da escola. (…) Nós não temos um programa de educação alimentar nas escolas brasileiras para ensinar as crianças a comer bem. Não se aprende isso do nada”, comentou o ex-diretor-geral da FAO entre 2011 e 2019 – em entrevista após a sessão da CDH ao qual a reportagem do Grupo RDM participou.
“O imposto é fundamental. Mas não é só ele. Restrição à publicidade infantil é a grande luta. O tabaco começou a cair quando se botou aquela foto calamitosa no maço e se tirou ele da televisão”, complementou José Graziano da Silva.
A VOZ DO LEGISLATIVO

O deputado Padre João (PT-MG), autor do requerimento, anunciou uma força-tarefa para aprovar projetos que estão parados na comissão como o Projeto de Lei (PL) 10695 de 2018, que regula o processo de rotulagem dos alimentos processados e ultraprocessados e o PL 4501 de 2020, que torna as escolas livres de alimentos ultraprocessados.
Em entrevista, Padre João disse que a escola é estratégica “porque a criança não pensa em dinheiro, pensa nos impactos”. O petista reconheceu o lobby “pesado” dos setores de processados e ultraprocessados. Segundo ele, “quase uma ação de máfia”. Mas aposta na conscientização e na pressão popular para mudar a correlação de forças no Congresso nas eleições de 2026.
“Quem gera doença tem que pagar mais. Imposto nas alturas, como tivemos êxito com o cigarro. (…) O lobby é pesado. Mas é com a consciência. Embora [Karl] Marx dissesse que, às vezes, a consciência vem do bolso”, defendeu o deputado Padre João.
A VISÃO DO EXECUTIVO

A secretária-extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do MDS, Valéria Torres Amaral Buriti, destacou avanços como a melhora nutricional de crianças do Bolsa Família. Segundo ela, 57% das crianças que estavam obesas voltaram ao peso saudável, mas reconheceu que a obesidade ainda cresce, no país, e exige ações integradas.
Valéria citou os conceitos de “desertos alimentares” e “pântanos alimentares” e defendeu a taxação de produtos nocivos aliada ao incentivo à produção e ao acesso físico a alimentos frescos, especialmente nas periferias.
Os ultraprocessados são muito disponíveis, às vezes com preços melhores do que alimentos frescos. O nosso sistema alimentar provoca uma resiliência inversa. (…) O Bolsa Família também tem impacto na prevenção da obesidade. É um programa de transferência de renda que garante dignidade”, complementou Valéria Torres Amaral Buriti.
O EMBATE ENTRE GRAZIANOS
José Graziano é casado com a jornalista Paola Ligasacchi, com quem tem dois filhos e seis netos. É ítalo-brasileiro com nacionalidade estadunidense – onde nasceu. Ao longo da carreira, recebeu títulos de doutor honoris causa em diversas universidades e a Ordem do Rio Branco.
Seu primo é o ex-deputado Xico Graziano (PSDB-SP), que foi chefe de gabinete do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, além de ter atuado como secretário de Meio Ambiente de São Paulo. Mas a partir de 2018 e, sobretudo, em 2022, quando apoiou a reeleição de Jair Bolsonaro (PL), rompeu com o PSDB.
As posições diametralmente opostas entre os primos Xico e José Graziano, que sempre militou no campo lulista, os primos reconhecem publicamente alguns consensos técnicos – apesar de divergirem politicamente de forma radical.
Em dezembro de 2024, José Graziano admitiu que a famosa estatística de que “a agricultura familiar abastece 70% dos lares brasileiros” teria sido uma invenção sem base científica. Na oportunidade, Xico elogiou a “honestidade raríssima” do primo – mas os dois seguem em trincheiras políticas opostas.
Na audiência, quando questionado pela reportagem do Grupo RDM – José Graziano foi explícito ao criticar a bancada ruralista formada por integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), da qual o primo é próximo.
“Não será fácil, mas não necessariamente deve haver essa oposição. A bancada ruralista perde a dimensão de valorizar o pequeno agricultor do cinturão verde, que produz frutas, verduras, ovos, arroz e feijão. (…) Nós temos uma agenda para acabar com a fome no Norte e Nordeste. Mas, além disso, precisamos garantir uma alimentação saudável e acessível a todos”, defendeu José Graziano.
O CAMINHO PELA ESCOLA
O consenso final da audiência foi a escola como trincheira prioritária. Graziano trouxe o exemplo do Chile, onde a proibição de ultraprocessados num raio de um quilômetro (km) das escolas criou “santuários”. O deputado Padre João anunciou que tentará levar este projeto ao plenário.
Lília Rahal, secretária nacional de segurança alimentar e nutricional do MDS que também participou da audiência, se comprometeu a mobilizar os estados via a Câmara Intersetorial de Segurança Alimentar e Nutricional (CAISAM). Segundo ela, um lobista da indústria, resumiu o desafio: “Vocês vão trabalhar bem na idade em que a gente cria os hábitos – é o nosso público-alvo”.
Para enfrentar o desafio, Graziano mostrou “por onde começar”. “Eu escolheria a escola. A escola tem um exército atrás – as professoras. Elas aderiram no Chile. Aqui também podem [ter esse papel]”, insistiu.
“Não dá para atacar tudo ao mesmo tempo. Não vamos ganhar. A estratégia é muito importante. Precisamos prestar mais atenção em como fazer”, completou José Graziano.
“Somos teimosos. Vamos acumulando forças. A indústria está aqui noite e dia. Mas temos o sonho do presidente Lula de universalizar a escola em tempo integral com boa alimentação”, finalizou o deputado Padre João
ENTREVISTAS
Para ver as entrevistas, clique nos links: de José Graziano; Padre João; e da secretária-extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do MDS.




















