Julgamento de Bolsonaro no STF é “tendencioso”, afirma Zema
O governador mineiro afirmou, ainda, que caso seja eleito presidente da República em 2026, o Brasil deixará de integrar o BRICS. Segundo ele, “faz pouco sentido para o Brasil ficar nos BRICS”.
Por Humberto Azevedo
O governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência da República, Romeu Zema, afirmou no dia 25 de dezembro, em entrevista ao programa “Roda Viva” da TV Cultura da Fundação Padre Anchieta, ligada ao governo do estado de São Paulo, que o julgamento do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL) na primeira turma do Supremo Tribunal Federal (STF) é completamente “tendencioso” e “com certeza não haverá mudança”.
Além desta declaração, Zema, que é filiado ao Novo – partido que defende radicalmente os princípios liberais na gestão econômica, mas nem tanto as ideias liberais nos demais segmentos das gestões públicas, afirmou, ainda, que caso seja eleito presidente da República nas eleições de 2026, o Brasil deixará de integrar o bloco econômico BRICS, formado conjuntamente pelo país com Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Segundo ele, “faz pouco sentido para o Brasil ficar nos BRICS”.
“Tudo indica que esse tipo de julgamento tendencioso vai continuar, com toda certeza, dificilmente isso vai mudar. Até agora foi assim”, disse o governador mineiro eleito em 2019 para o qual o ex-presidente continuará sendo o “maior líder da direita”, independentemente da decisão e provável condenação no processo em que é acusado pela Procuradoria-Geral da República de ter sido o “mentor” e principal beneficiário da tentativa de golpe de Estado ocorrida no dia 8 de janeiro de 2023, quando milhares de militantes bolsonaristas quebraram e destruíram as sedes dos Três Poderes clamando por uma intervenção militar e a derrubada do governo eleito nas eleições de 2022.
“Com toda certeza, [Jair Bolsonaro] é a pessoa que resgatou a direita no Brasil, conseguiu fazer esse movimento crescer e vai continuar sendo líder, sim. (…) Faz pouco sentido para o Brasil ficar nos BRICS. Primeiro, eu quero dizer o seguinte, o Brasil precisa manter todos os seus clientes comerciais. A China é um grande cliente, a Índia, a Rússia, todos os países dos BRICS, esses são os principais grandes clientes do Brasil. O Brasil tem um histórico de manter uma isenção, em termos de relacionamento com os países de todas as regiões do mundo, que foi mudado por esse governo, que se aproximou de forma demasiada de países que nós sabemos notoriamente ditatoriais”, comentou.
“E a maioria desses países que estão nos BRICS estão longe de ser uma democracia. Esse é um dos pontos. Alguém que está aqui prendendo gente por atos antidemocráticos, andando lá fora ao lado de ditador, uai, eu não tenho cara de bobo, não. Será que o brasileiro tem também? Acusando aqui, você é antidemocrático, pega o avião e só encontra com o ditador lá fora. Vamos ter coerência, esse é o motivo. Segundo, para onde que os brasileiros, e são muitos hoje que querem sair do Brasil, que estão desiludidos com esse governo, sonham em ir quando querem mudar para fora? Não são para países dos BRICS, não. A grande maioria quer ir para a América do Norte ou então para a Europa”, completou.
ENTREVISTA
Abaixo segue alguns trechos da entrevista que Zema concedeu ao programa “Roda Viva” da TV Cultura.
Imprensa: 55% apoiam a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, 56% rejeitam a anistia para os condenados no 8 de janeiro de 2023, 55% acham que a família Bolsonaro agiu mal no tema das tarifas impostas pelos EUA às exportações brasileiras e 49% não apoiam, por exemplo, a aplicação da Lei Magnitsky para o ministro Alexandre de Moraes. Desta forma, vale a pena insistir, por exemplo, na anistia ampla, geral e irrestrita aos condenados pelos atos de 8 de janeiro?

Zema: Sim, eu sempre falo que eu olho aquilo que vai dar um resultado melhor ao longo do tempo e na política, infelizmente, muitas vezes as decisões, as escolhas são tomadas visando um ganho eleitoral imediato e eu vivi isso perfeitamente em 2022, que foi o ano da minha reeleição. Quem aqui é de Minas que está nos acompanhando viveu isso lá, uma movimentação sindical, greves, manifestações, etc., pleiteando reajuste de 30% nos salários dos servidores públicos e eu fui muito claro naquela ocasião, eu falei o Estado não tem condição, eu prefiro dar 10% e perder a eleição e continuar com Minas Gerais viável do que dar 20%, 30% e afundar o Estado. O que eu quero é um Brasil viável para o futuro e para um Brasil ser viável, nós temos de acabar com essa briga de pai e mãe, onde quem está pagando a conta são os filhos, ou seja, os brasileiros.
Imprensa: Mas se houver uma anistia aprovada pelo Congresso e o Supremo considerar inconstitucional, por exemplo, a gente não vai estar perpetuando essa briga em vez de acabar com ela?
Zema: Eu vejo que nós temos de equacionar essa questão do Congresso decidir, lembrando que o Congresso representa o povo e o Supremo tomar outra direção, ou então vamos optar por fechar o Congresso e deixar o Supremo legislar, me parece que nós estamos rumando nessa direção pelos últimos acontecimentos, foi assim com o IOF, tem sido assim com uma série de questões, então, talvez, o Congresso seja dispensável.
Imprensa: A pesquisa, Quaest também mostrou que 58% dos eleitores ouvidos preferem um governador que não seja nem ligado a Bolsonaro e nem ligado a Lula. Esse seria um ponto que o senhor avaliaria para o andamento da campanha daqui para frente?
Zema: Bom, quem conhece a minha história sabe que na campanha de 2018, eu caminhei de um lado, Bolsonaro de outro. Em 2022, a mesma coisa, exceto no segundo turno, quando eu já estava reeleito e o apoiei. Eu nunca fui do mesmo partido dele. Ele, inclusive, em 2022 apoiou um outro candidato ao governo de Minas. Então essa minha vinculação com ele não é tão grande como alguns alardeiam. Nós temos sim propostas nas quais nós acreditamos, estamos de comum acordo. Queremos um Estado mais leve, queremos um combate à corrupção, eu valorizo a família, eu sou cristão, então essas pautas nos unem. Agora dizer que eu sempre caminhei com ele, quem sabe da minha vida, analisa perfeitamente que nunca estivemos no mesmo partido e disputando as eleições em primeiro turno lado a lado.
Imprensa: O senhor tem sido muito criticado na Assembleia Legislativa pelo volume de isenções fiscais concedidas pelo Estado. Quando o senhor assumiu em 2019, eram 7,9 bilhões. E, agora, projetados na LDO para 2026, já somam 25,2 bilhões. Portanto, mais de 200% de aumento nas isenções fiscais. E o vice-governador Matheus Simões, em 8 de maio na Assembleia Legislativa, se comprometeu com os deputados a dar transparência a essas isenções fiscais, mas depois o governo recuou em relação a isso. Há entre essas empresas, governador, acionistas que por acaso financiaram alguma campanha, a sua campanha, qual seria o motivo de não dar transparência para essas isenções fiscais?

Zema: Bom, o meu governo preza, acima de tudo, a transparência. Antes de eu ser eleito, qualquer um aqui que acompanha Minas Gerais sabe que os voos dos ex-governadores só eram divulgados depois de cinco anos, ou seja, eles já tinham ido embora. Qualquer um que entrar no site hoje do governo de Minas sabe a aeronave que eu usei o mês passado, para onde eu fui, quem foi comigo e o que eu fui fazer. E assim tem sido com tudo. Tanto é que no governo PT de Fernando Pimentel, Minas ocupava o 22º lugar no ranking da transparência, de acordo com a Controladoria Geral da União. Hoje nós estamos em primeiro lugar. Agora pouquíssimos estados, nós verificamos, deram essa transparência de isenções fiscais e eu não vou prejudicar Minas Gerais mostrando aquilo que praticamente 22 ou 23 estados não mostraram nada ainda. No dia que todos mostrarem, Minas vai estar junto. Nós não temos o que esconder. Agora, por que esse valor aumentou muito? Sabe por quê? Porque nós levamos para Minas Gerais mais de 500 bilhões de investimentos privados. Uma montanha de dinheiro, de indústrias, de centros de distribuição e essas empresas instaladas em Minas estão recolhendo ICMS em Minas Gerais os impostos estaduais. E, consequentemente, a massa amplia. Agora eu quero deixar muito claro, no meu governo nós não criamos nenhuma isenção fiscal nova. Nós só continuamos utilizando aquelas que já existiam anteriormente, até porque isso é regulamentado pelo CONFAZ [Conselho Nacional de Política Fazendária].
Imprensa: Mas se elas se ampliaram, como explica-se? Se não foram, se não há novas, como que parte de 7,9 bi e chega a 25,2 bilhões?
Zema: Então, acho que dá para você entender pelo exemplo que eu vou dar. Nós talvez tivéssemos em Minas Gerais, só a título de exemplo aqui, três fábricas de cerveja. Hoje nós devemos ter 11. Esse setor tem um tratamento tributário especial. O que aconteceu? Se antes eram 3 bilhões, hoje são 11 bilhões, porque as novas fábricas passaram a fazer uso do mesmo incentivo fiscal que já existia anteriormente.
Imprensa: Então, o que o senhor quis dizer é que não tem novas modalidades, mas novas linhas?
Zema: Sim. Exatamente. Então, energia fotovoltaica tem incentivo. Nós tínhamos 500 mega sendo gerados em Minas. Hoje nós temos 13 giga, 26 vezes mais. Então, eu acho que fica claro o porquê desse aumento aí. Não foi criado nada. O que nós temos hoje é uma economia mais diversificada, mais robusta. Eu fui atrás de investidores e mostrando para eles que é bom investir em Minas e foram. E o mineiro está satisfeito.

Imprensa: Governador, eu queria entender melhor a posição do senhor em relação à questão da anistia. O senhor tem dito que, como não houve tiro, não houve morte, isso seria passível, entre outros argumentos, seria passível de anistia. Quando a gente pega um histórico, essas pessoas estavam na frente dos quartéis, exigindo uma interferência das Forças Armadas, que por si só já há na legislação aprovada pelo próprio ex-presidente Jair Bolsonaro uma indicação de incitação ao crime. Depois disso, elas tentaram invadir a sede da Polícia Federal no dia 12 de dezembro de 2024, no dia da diplomação do presidente eleito. Botaram fogo em carro, em ônibus no meio da cidade. Depois, no dia 24 de dezembro, houve o caso da bomba no aeroporto, que foi encontrada num caminhão que estava indo para o terminal na véspera de Natal. E depois invadiram os prédios públicos, destruíram os prédios públicos, roubaram alguns itens de lá, agrediram policiais com barra de ferro na cabeça, derrubaram um outro de um cavalo e o tempo inteiro disseram, só saímos daqui se o governo cair e se o exército tomar posse da situação. Todas essas situações, para o senhor, ainda assim, são dignas de anistia? O senhor acha que não houve uma tentativa de golpe?
Zema: A minha interpretação, e acho que muita gente concorda com isso, é que nunca houve, em outro país do mundo, algo que fosse considerado golpe de Estado com as características desses movimentos todos que você relatou. Golpe de Estado é sempre feito com apoio de Forças Armadas ou de milícias ou de alguma coisa assim. Eu interpreto tudo isso como manifestação, como baderna, como insatisfação e nós já tivemos isso muitas e muitas vezes, poderíamos fazer até um relatório enorme, de manifestações feitas pela esquerda nos últimos anos que foram tratadas meramente como manifestações. Então, acho que cabe aí um desconto muito grande, porque ninguém deu tiro, ninguém foi assassinado.
Imprensa: Nem no caso da bomba, por exemplo?
Zema: É, mas não tivemos nada de confronto que caracterizasse um golpe, na minha opinião. Se você quer dar um golpe, você chega armado, você chega em número grande de pessoas. O que houve foi, sim, depredação, houve baderna, que precisam ser punidas, mas em nenhum outro lugar do mundo, eu acho que alguém que escreveu lá no Monumento Público de batom alguma coisa, foi condenado a 14 anos. Alguém que se sentou numa poltrona, foi condenado a 17 anos. Então, precisa punir, mas eu acho que é a pena que a lei determina para invasão, para depredação e não atentado contra a democracia. E se já teve muito atentado no passado, eu posso dizer que foi provocado pela esquerda e ninguém recebeu esse tratamento.
Imprensa: Nos últimos meses, os governadores de direita em que o senhor se inclui, estão lançando as suas pré-candidaturas e fazendo um movimento de se descolar um pouco do Bolsonaro, de não se articular com a família Bolsonaro e têm sido muito criticados por isso, pelos filhos do Bolsonaro. Outro dia, o Carlos Bolsonaro chamou os governadores de ratos, por exemplo, naquele estilo peculiar dele. Queria saber como é que o senhor vê essa situação e se existe, nesse momento, uma divisão entre a direita e a família Bolsonaro?

Zema: Não há divisão. Inclusive, há cerca de 30 dias atrás, eu fui à Brasília para uma série de compromissos, dentre eles, encontrar com o presidente Bolsonaro. E comuniquei a ele, em primeira mão, que eu estaria lançando, no dia 16 de agosto, a minha pré-campanha à presidente pelo Partido Novo. E o que ele disse foi o seguinte, até o Caiado já repetiu isso, quantos mais candidatos à direita tiver, melhor, mais forte ela fica. Em Minas Gerais, com certeza, a minha candidatura trará mais votos para a direita. O mesmo pode acontecer em Goiás, no Rio Grande do Sul, no Paraná, não sei em qual mais outro estado. Então, isso vai fortalecer a direita que estará, sim, unida no segundo turno, o que é importante. E boa parte desses votos do primeiro turno, com certeza, migrarão para o segundo turno, o que significa que tem até uma lógica por trás disso, e não é ruim. Agora, esses comentários, na minha opinião, foram comentários infelizes, ali no calor do momento, respondendo pelo processo do pai, realmente, eu até me solidarizo com a família pelo que eles têm enfrentado, que realmente…
Imprensa: Mas eles chamaram os senhores de ratos.
Zema: Eu já fui xingado de tudo. O que me interessa é o que eu sou, sabe? Então, se eu fosse levar em conta aquilo que eu recebo de agressão gratuita todos os dias, eu sempre considero as críticas construtivas. Agora, como eu falei, eu acho que no calor do momento, devido toda essa situação triste, que merece a minha solidariedade, não a agressão, surge esse tipo de comentários.
Imprensa: Governador, o senhor e os outros governadores que são pretensos candidatos à presidência da República, mais à direita, ligados à família, ao ex-presidente Jair Bolsonaro, temem neste momento adotar uma postura mais dura, como a resposta, por exemplo, a essa história de ser chamado de rato e serem metralhados publicamente, em termos de narrativa de comunicação, pela família Bolsonaro? Tem um temor de entrar em confronto com a família Bolsonaro nesse momento?
Zema: Eu não sou uma pessoa belicosa. Então, nós de direita estamos muito cientes que isso foi feito num momento em que a pressão está muito grande, que o pai está sendo julgado, que há uma perspectiva difícil para a família em termos políticos, alguns podem ter seus direitos políticos cassados, espero que não. Então, tudo isso aflora nesse momento e nós temos de compreender. Eu sou, acima de tudo, humano. Se uma criança que perdeu a mãe está dando birra, eu acho que você vai ter mais compreensão com ela, sabendo que ela está sofrendo ali, naquele momento, por algo, sendo muito afligida. Então, acho que todos nós de direita compartilhamos dessa visão. Foi uma declaração infeliz, declarações infelizes ocorrem.
Imprensa: A anistia no Brasil é uma prerrogativa do Congresso Nacional. Mas se o senhor fosse eleito presidente da República, o senhor apoiaria uma anistia para o ex-presidente Jair Bolsonaro? Ou concederia uma graça ou um indulto, que são prerrogativas do Executivo?
Zema: Apoiaria, sim. Eu quero é um Brasil pacificado e não o pai e a mãe brigando e os filhos desassistidos, pagando a conta, sem comida, sem tomar banho direito, que é o que está acontecendo no Brasil. Nós precisamos pacificar o Brasil. Já demos anistia no passado para assassinos, já demos anistias para sequestradores, agora não vamos dar anistia nesse caso.
Imprensa: Mas houve uma tentativa de golpe, governador, houve uma tentativa de golpe no Brasil e foi um processo, não foi apenas uma baderna, houve um processo, isso está amplamente demonstrado pela Polícia Federal no inquérito, pela Procuradoria-Geral da República e se essa tentativa de golpe tivesse sido bem-sucedida, possivelmente muitas coisas não estariam acontecendo como estão ainda na normalidade democrática em que vivemos.
Zema: Eu acho que no campo jurídico existe uma área cinza que é entre você ter a intenção de fazer algo e você realmente concretizar esse algo. Se você me desse agora um cheque de 100 mil reais para me levar para uma instituição de caridade, acho que seria uma atitude extremamente nobre da sua parte, mas aí amanhã, na hora que eu vou entregar para a instituição, você me liga e fala, ô Romeu, não entrega não que eu mudei de ideia, e aí, você fez a benfeitoria ou não? Eu acho que você não fez.
Imprensa: Essa analogia não concede, governador, essa analogia não cabe ao caso a uma tentativa de golpe, porque quando a tentativa de golpe é executada e levada a cabo, como aconteceu em 1964, não haverá julgamento, porque, obviamente, o país entra num novo regime. Não é por isso que a lei, que inclusive foi sancionada pelo próprio ex-presidente, ela diz que tentativa de golpe é um crime.
Zema: Correto. Agora, me diz uma coisa, você idealizar alguma coisa, talvez esteja muito longe de tentar. Então, aí é que está o que eu te disse. Agora, eu sou da opinião que não chegou sequer a haver, pode ter tido uma idealização totalmente. Agora, eu sou um democrata, quero deixar isso muito claro, defendo a democracia, fui eleito pelo voto, confio no nosso sistema, agora me parece que está havendo um grande exagero em toda essa questão. Igual falei, nós precisamos pacificar, parece que nós estamos tendo hoje um judiciário que persegue claramente quem é do espectro da direita. Isso está muito claro, interpretando com maior rigor, onde estão os presos do Petrolão, do Mensalão? Todos soltos. Por quê? Porque são da esquerda. Quer prova mais material do que uma mala de dinheiro, do que as declarações que foram feitas, as contas que foram abertas, todo mundo solto. Por quê? Porque são da esquerda. Então, me parece que há aí são dois pesos e duas medidas. Se temos de prender alguém aqui, vamos levar todos para prisão também.
Imprensa: Governador, o senhor tem defendido que o Brasil saia do BRICS, mas esse bloco, na sua configuração ampliada, responde por 36% do PIB mundial, engloba 45% da população mundial, responde por 20% do comércio global com importância, inclusive, para as exportações de vários estados, inclusive de Minas Gerais. Pergunta, seria estratégico para o Brasil abrir mão dessa aliança, ainda mais no momento em que os Estados Unidos pressionam países e blocos inteiros a aceitar termos de negociações bastante desvantajosos, impostos unilateralmente?

Zema: Sim. Faz pouco sentido para o Brasil ficar nos BRICS. Primeiro, eu quero dizer o seguinte, o Brasil precisa manter todos os seus clientes comerciais. A China é um grande cliente, a Índia, a Rússia, todos os países dos BRICS, esses são os principais grandes clientes do Brasil. O Brasil tem um histórico de manter uma isenção, em termos de relacionamento com os países de todas as regiões do mundo, que foi mudado por esse governo, que se aproximou de forma demasiada de países que nós sabemos notoriamente ditatoriais. E a maioria desses países que estão nos BRICS estão longe de ser uma democracia. Esse é um dos pontos. Alguém que está aqui prendendo gente por atos antidemocráticos, andando lá fora ao lado de ditador, uai, eu não tenho cara de bobo, não. Será que o brasileiro tem também? Acusando aqui, você é antidemocrático, pega o avião e só encontra com o ditador lá fora. Vamos ter coerência, esse é o motivo. Segundo, para onde que os brasileiros, e são muitos hoje que querem sair do Brasil, que estão desiludidos com esse governo, sonham em ir quando querem mudar para fora? Não são para países dos BRICS, não. A grande maioria quer ir para a América do Norte ou então para a Europa. São países que têm uma afinidade cultural de costumes muito maior e que é o sonho de referência do brasileiro.
Imprensa: Governador você falou dos países autoritários, o senhor tem usado como modelo El Salvador, que é um país que está numa guinada autoritária muito forte, inclusive com características ditatoriais, em muitas situações de perseguição a ONGs, a oposição. O senhor continua um fã de El Salvador, mesmo com essas características?
Zema: Eu fui lá acompanhar, aprender sobre segurança pública. Não falei nada de regime eleitoral político de El Salvador. Em termos de segurança pública, é um caso único no mundo. Não sei se teve algum outro país que em três anos conseguiu reduzir a taxa de homicídios em mais de 99%.
Imprensa: Mas houve um custo em termos de falta de respeito a direitos humanos, por exemplo.
Zema: Eu fui lá em comunidades, conversei com a dona de casa, conversei com comerciante, conversei com estudante, e eles falaram. A minha vida aqui melhorou demais. E tem um dado que eu acho que demonstra isso. 300 mil salvadorenhos, que estavam morando fora, voltaram para o país. Será que lá piorou ou melhorou? Aqui no Brasil, me parece que nós temos 5 milhões de brasileiros morando fora e gente saindo todo dia. Eu acho que esse termômetro precisa ser considerado.
Imprensa: Mas o senhor acha que estar num bloco por uma questão de estratégia significa endossar politicamente tudo que os países do bloco propugnam? Porque senão poucos blocos sobreviveriam. O senhor mesmo disse. Eu fui lá olhar só a segurança. Eu não endossei o resto. O senhor não acha que o BRICS pode ter um papel estratégico sem que se precise endossar o regime desses países?
Zema: Mas o que o BRICS se transformou? Ele se transformou num bloco que me parece que só existe ou prioritariamente tem como função questionar principalmente América do Norte, o dólar, a Europa, etc. São países que têm muito pouco a ver com a nossa cultura cristã, com a nossa cultura europeia, diferentemente de Europa e Américas aqui. Isso não significa que nós não devemos manter contato comercial. No passado foi assim. O Brasil se dava bem com o mundo todo e agora ficou claramente com o discurso anti-americano. Isso está claríssimo nos eventos dos BRICS e isso sempre surge, principalmente liderado pelo nosso presidente. E daí a questão do tarifaço.
Imprensa: Governador, o senhor disse que não vai à COP, que é a Conferência das Nações Unidas da ONU para Mudanças Climáticas. Eu queria que o senhor falasse um pouquinho disso, mas em relação aos blocos, o senhor já disse que sairia do BRICS se fosse presidente da República, o senhor sairia também de outros blocos, como, por exemplo, o G20, do Mercosul?
Zema: Não. Acho que aí nós temos questões de afinidade, precisamos melhorar. O Mercosul está praticamente inoperante, nós temos importantíssimos parceiros comerciais aqui no Cone Sul, com quem nós poderíamos estar tendo um relacionamento comercial muito maior, uma abertura de fronteiras, como a Europa avançou muito e pouco foi feito. Isso faz sentido? Seria bom para o Brasil, para a Argentina, para o Uruguai, para o Chile, para diversos países que comungam conosco uma série de questões históricas e etc. Então, vejo que nós devemos estar mais próximos daquilo que tem sentido geográfico. Agora, nós vamos escolher países, queiramos ou não, que estão do outro lado do mundo. Não é impossível mandar carga de lá para cá e receber, como já acontece. Mas, prioritariamente, nós deveríamos dar essa atenção aqui.
Imprensa: Governador, o partido do senhor defende desde a fundação, uma ideia de uma economia mais aberta, que a iniciativa privada participe mais da economia, é uma defesa que o senhor sempre faz. Contudo, quando a gente olha o senhor e os demais candidatos à presidência na direita, o Ratinho Júnior conseguiu privatizar Copel, vai fazer o leilão da Celepar agora em novembro, fez uma parceria pública-privada na Sanepar, o Eduardo Leite vendeu a Corsan, o Tarcísio privatizou a Sabesp, o Caiado fez a venda da Celg e o senhor não conseguiu fazer a venda da Cemig e da Copasa, que era um desejo do senhor. O que aconteceu que o senhor não conseguiu e por que seria diferente na presidência da República?
Zema: Bom, diferente deles, eu sou de fora da política e me parece que eu acabo incomodando mais o establishment político do que eles. Fui eleito no primeiro turno em 2018 sem nenhum prefeito me apoiando, no segundo turno já tínhamos alguns. Então, me parece que esse fato de alguém que não é da política entrar na política causa um mal-estar muito grande. Ainda percebo isso, já diminuiu ao longo do tempo. Então na minha primeira gestão nós tivemos uma dificuldade com a Assembleia Legislativa que está superada nessa segunda gestão, mas eu quero ressaltar aqui que nunca houve um governo em Minas Gerais que vendesse tantas participações acionárias quanto nós vendemos. Light, Renova, Belo Monte, Santo Antônio, Helibras, Companhia Brasileira de Lítio e eu posso te mandar uma relação de mais de 100 empresas que nós vendemos, onde o Estado tinha uma participação que não dependia de autorização legislativa. E quem acompanhou aquela minha primeira gestão sabe que nós, inclusive, enfrentamos CPIs totalmente descabidas, como a CPI da CEMIG, procurar cabelo em casca de ovo.
Imprensa: Mas para o segundo mandato o senhor conseguiu uma aliança para a sua reeleição, hoje tem uma situação mais confortável na Assembleia e ainda assim essas privatizações não avançaram. A coisa de ser de fora da política também acho que já não vale mais como desculpa, uma vez que o senhor está até querendo se candidatar a presidente. O que é que faltou, governador?
Zema: Então, eu acho que ali em Minas, nós temos, por parte da classe política, um apego, acho que de boa parte deles, não vou dizer de toda, toda generalização é muito perigosa, mas por parte de muitos, a essas empresas que sempre serviram para atender interesses eleitoreiros. Quero te dar aqui um exemplo. Eu falei aqui da energia fotovoltaica, que no nosso governo saiu de 500 mega para 13 giga. O principal motivo de nós conseguirmos levar essa quantidade de dinheiro, 80 bilhões, só em energia solar, foi muito simples, antes a nossa empresa de energia, a CEMIG só dava autorização para quem era amigo do rei. E esse amigo do rei, em vez de fazer o investimento, saía negociando essa autorização no mercado. Vendia por cinco milhões a autorização, não investia e embolsava esse valor. Quando eu assumi, a primeira coisa que eu pedi para o novo ceo da CEMIG, eu quero na internet o mapa de Minas com todos os locais onde é possível fazer conexão para poder construir uma usina fotovoltaica. E os investimentos vieram e aí não precisava mais de algum político estar intermediando e tirando vantagem. Agora eu estou muito confiante, com o Propag [Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados], muito provavelmente nós estaremos avançando nessas privatizações. Então, aquilo que não foi feito, muito provavelmente ainda será feito.
Imprensa: Governador, o senhor afirmou recentemente que caso o governo federal não tenha interesse em federalizar a CEMIG, o senhor pode levar a CEMIG a leilão para pagar uma parte da dívida, abater um pedaço da dívida para caber dentro do Propag. E aí eu queria saber, o senhor já está contando com a possibilidade da Assembleia não aprovar a legislação que seria necessária para transformar a CEMIG numa empresa corporativa e ir direto para o leilão?
Zema: A CEMIG, qualquer que seja o caminho ou a federalização ou o leilão, ela precisa previamente ser transformada numa ‘corporation’ [empresa corporativa], porque senão qualquer um que vier adquirir as ações que o Estado tem, poderia ser penalizado pelo mecanismo de ‘tag alone’ [ferramenta de segurança garantida aos acionistas minoritários de uma companhia, permitindo que tais acionistas deixem a sociedade caso o controle da empresa passe para um novo investidor]. Então, a ‘corporation’ é um passo que vai ser dado antes de qualquer outro, não há como ser diferente. E ele sendo dado, não significa que vai se federalizar ou vender. O Estado pode continuar tendo os 17% da empresa, recebendo os dividendos de uma empresa que vai estar muito mais bem gerida, porque a governança muda, você não precisa mais se submeter à lei de licitação, que é uma algema na mão do gestor, o que as concorrentes da CEMIG compram hoje, decidem hoje comprar, a CEMIG leva no mínimo 90 dias para poder comprar, devido todo o processo burocrático que é exigido. Então, as coisas vão caminhar nesse sentido. Se ela se transformar numa ‘corporation’, sem o Estado vender nada, o mineiro já está ganhando muito mesmo, porque vai passar a ter, inclusive, uma empresa viável. Não sei se você tem acompanhado, existe uma lei que diz que as empresas de energia estatais que não forem privatizadas ou transformadas em ‘corporation’ nos próximos cinco anos, vão perder as suas concessões. Eu, inclusive, já pedi para a minha comunicação, eu quero ir na Assembleia, eu quero estar dando um depoimento que, se nós não avançarmos nessa mudança, daqui a dez anos a CEMIG vai valer algo próximo de zero.
Imprensa: Governador, sobre segurança pública. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Entre 2020 e 2024, os homicídios dolosos em Minas cresceram em 18% em tendência contrária ao que aconteceu no Brasil em seu conjunto, onde houve uma redução de 16,5% dos homicídios dolosos. Ao mesmo tempo, em Minas, a gente teve também, entre 2023 e 2024, um crescimento da letalidade policial em 46%. E crimes contra o patrimônio, que no Brasil caíram, entre 2023 e 2024, em 15%, em Minas caíram apenas 6%. E há uma crítica, governador, que a Comissão de Segurança Pública faz ao senhor na Assembleia Legislativa em relação ao efetivo da Polícia Militar, da Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros, porque durante a sua gestão, de 2019 a 2024, esse efetivo caiu de 62.904 para atualmente, 59.681. Ao mesmo tempo, os investimentos do Estado nesse período em segurança pública, eles são sempre muito menores do que o conjunto de emendas parlamentares, transferências, investimentos da União e outras fontes. Então, há uma crítica, eu gostaria de saber como o senhor responderia a esses críticos de que Minas Gerais não tem uma política de segurança pública?
Zema: Bom, acho que nós temos aí de estar considerando uma série de questões em tudo isso que você disse, que são uma série aí de números, de estatísticas. Como gestor do Estado, governador, eu gosto de olhar os números a longo prazo e a tendência. Se alguém, há sete anos atrás, quando eu fui eleito, pesava 300 quilos e hoje está pesando 100 quilos, eu acho que essa pessoa conseguiu uma evolução considerável. Se nesse percurso, em determinada semana, ele ganhou meio quilo ou um quilo, eu acho que não tira o mérito do avanço do feito que ele fez. Então, você sempre pegou períodos em que teve um repique. Isso é normal em toda estatística de quem está emagrecendo, em segurança pública.
Imprensa: Mas aqui, 2020, 2024, homicídios dolosos, é um período…
Zema: É, mas vamos pegar 2018 e 2024 então, que foi quando eu assumi, concorda?
Imprensa: E quanto foi?
Zema: Eu não tenho o dado.
Imprensa: O senhor assumiu em 2019.
Zema: É, janeiro, 1º de janeiro de 2019. E você está pegando um dado específico, não é?
Imprensa: Não, eu não estou pegando, é porque o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o último dado dele é 2024.
Zema: Então, eu estou te dando um dado de um período mais recente. Nós temos quantos tipos de crime? Duzentos tipos? Você está pegando somente aqueles dois ou um ali que teve…
Imprensa: Eu estou falando para o senhor que, inclusive, os crimes contra o patrimônio reduziram em Minas em 6%, mas no Brasil reduziram em 15%. Então, há uma crítica ao senhor, na Comissão de Segurança Pública, porque o efetivo policial, no seu período, caiu. Então, tem menos policiais militares, menos policiais civis e menos efetivo no corpo de bombeiro. E falta de investimento, inclusive, em alguns casos, o senhor sabe, não?
Zema: Então, deixa eu acabar de responder aqui. Nós tínhamos, em todas as áreas de força de segurança aberta, pessoas altamente qualificadas militares, formados na academia, fazendo tarefas extremamente simples, que um jovem que sabe lidar bem com tecnologia pode fazer. Nós temos hoje centenas, talvez milhares desses jovens trabalhando na área de segurança e eles libertaram esses militares para poder fazer aquele trabalho para o qual eles efetivamente foram treinados.
Imprensa: Mas se houve redução, governador, de efetivo, não aumenta? Então, aí o que eles estão falando é o seguinte, que reduziu o efetivo de militares, mas o número de pessoas que trabalham nas forças de segurança não teve essa redução, entendeu? Aqui é o efetivo da Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros e os dados são da Comissão de Segurança Pública da Assembleia.
Zema: Você está se referindo a militares, agora tem essa parte administrativa que foi suprida com civis. E, além disso, nós temos feito uso cada vez maior de inteligência, prendemos lá essa semana, ontem ou antes de ontem, via reconhecimento facial, que é a máquina que detecta um assassino lá, perigosíssimo, procurado há dois, três anos pela nossa polícia. Isso também não existia. A frota da polícia nunca teve carros tão novos como está tendo agora.
Imprensa: Mas a denúncia é de que não tem gasolina, governador, para pôr nos carros.
Zema: É, se nós compararmos os números da gestão do PT com os nossos, eu quero te passar um aqui, já que você está sendo cirúrgica.
Imprensa: Mas é o senhor quem está governando agora.
Zema: Estamos melhorando, o importante é isso, estamos melhorando.
Imprensa: Governador, mudando de assunto, o julgamento do ex-presidente Bolsonaro pelo Supremo, em que o senhor já disse aqui que o Supremo persegue a direita e, digamos, poupa a esquerda. Queria perguntar, o senhor acredita que é possível ainda para o ex-presidente Bolsonaro ter um julgamento justo, ou esse é um julgamento de cartas marcadas, e sendo condenado, como é a expectativa da maioria das pessoas, ele ainda seguirá como o principal líder da direita no Brasil, ou essa ascendência dele sobre a direita vai sofrer uma certa, digamos, desvalorização?
Zema: Tudo indica que esse tipo de julgamento tendencioso vai continuar, com toda certeza, dificilmente isso vai mudar. Até agora foi assim, com certeza não haverá mudança.
Imprensa: Então, é um julgamento de cartas marcadas?
Zema: Sim. E ele realmente é o maior líder da direita.
Imprensa: Mesmo preso vai continuar assim, senhor?
Zema: Com toda certeza, sim. Ele é a pessoa que resgatou a direita no Brasil, conseguiu fazer esse movimento crescer e vai continuar sendo líder, sim.






























