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Desglobalização X Mundo multipolar

ENTREVISTA DA SEMANA | EX-PRESIDENTE DO BANCO DOS BRICS

A ampliação de cinco para 11 os países BRICS não foi apenas uma reação à gestão Troyjo ou ao governo Bolsonaro, mas uma jogada de longo prazo para consolidar o NDB como instituição consistente aos interesses da visão sino-russa de multipolaridade. (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

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Marcos Troyjo vê BRICS como “ponto de interrogação” e cenário Brasil-EUA sem diálogo entre governos: “ruim”

 

Substituído pela ex-presidenta brasileira Dilma Rousseff no comando do NDB, numa articulação sino-russa, Troyjo – que foi colocado à frente daquela instituição pelo governo Bolsonaro, acredita que as relações do Brasil com o governo estadunidense só será normalizada com uma “mudança no governo brasileiro, em 2026”.

 

Por Humberto Azevedo

 

O ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, na sigla em inglês), Marcos Troyjo, em entrevista ao site “Exame” da Editora Abril, em novembro de 2024, afirmou que passou a ver o bloco econômico formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã (BRICS) como “ponto de interrogação”, desde o encontro de cúpula realizado na sul-africana Joanesburgo, em 2023, quando já não era mais oficialmente ligado ao grupo.

 

Passando pela capital gaúcha, Porto Alegre (RS), nesta última quinta-feira, 11 de setembro, para participar de um evento promovido pelo Serviço nacional de aprendizagem rural (Senar) sul-rio-grandense, Marcos Troyjo, que atualmente é “membro distinto” – uma espécie de conselheiro de alto nível – do Instituto Global Hoffmann para Negócios e Sociedade vinculado ao Instituto Europeu de Administração de Empresas (INSEAD), em entrevista ao jornal “Zero Hora” avaliou que o atual cenário Brasil-EUA pode ser classificado como sem diálogo entre governos, o que para ele é “ruim”.

 

Ex-diretor do BRICLab da Universidade de Columbia de Nova Iorque, nos EUA, entre 2011 e 2018, Troyjo atuou como secretário de comércio exterior e assuntos internacionais do Ministério da Economia do governo de Jair Messias Bolsonaro (PL), entre 2019 e 2020, quando foi indicado pelo então governo brasileiro para assumir a direção do NDB – cuja administração é bem criticada nos bastidores, sobretudo, por membros das chancelarias da China e Rússia.

 

A indicação de Troyjo pelo governo Bolsonaro para o “Banco dos Brics” fez com que diplomatas chineses e russos vissem nas ações do brasileiro iniciativas que travassem projetos da Iniciativa do Cinturão e Rota (Rota da Seda) promovidas pelo governo chinês para atrair o maior número de países-aliados em todo o planeta. Atualmente, 149 das 193 nações que integram a Organização das Nações Unidas (ONU). Desta forma, sua substituição pela ex-presidenta Dilma Rousseff foi uma articulação das chancelarias daqueles dois países ao presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, eleito em 2022.

 

ARTICULAÇÃO SINO-RUSSA

 

O NDB foi criado pelos BRICS como uma alternativa às instituições financeiras ocidentais, como o FMI e o Banco Mundial, que são vistas como entidades dominadas pelos interesses dos EUA e da Europa e Troyjo teria ido contra esses princípios. (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil)

Para evitar que o NDB possa cair nas mãos novamente de “aliados” do governo norte-americano, China e Rússia articularam no encontro de cúpula realizado na África do Sul, em 2023, a expansão do bloco que passou a contar outros seis países da África e da Ásia – que estão sob a influência direta tanto de Moscou e ou de Pequim. Esse movimento, avaliado por especialistas que cobrem os BRICS, argumentam que a gestão Troyjo no NDB foi fundamental para que o bloco não ficasse mais suscetível por mudanças eleitorais em seus países-membros, como o ocorrido no Brasil.

 

Assim, esse gesto realizado pelas diplomacias sino-russas passou a ser visto pelo próprio Marcos Troyjo como um “ponto de interrogação” do que seria o BRICS a partir de então. Após sua demissão do “Banco dos Brics”, o brasileiro passou a atuar como pesquisador visitante pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, deixando inclusive de ser um especialista em BRICS. Alguns especialistas, que estudam permanentemente o bloco, em conversa reservada com a reportagem do Grupo RDM, disseram que Troyjo foi plantado no BRICLab “para monitorar os movimentos dos países” e atuar “como uma espécie de espião” para o ocidente.

 

Extra-oficialmente, a troca de Troyjo por Dilma teria acontecido pelo economista ter chamado o presidente Lula de “presidiário” quando este era comentarista da rádio “Jovem Pan”. Mas o próprio Troyjo, que teria o mandato até março de 2025, em declarações à imprensa dias após a eleição de Lula, sinalizou que renunciaria ao cargo por considerar que sua permanência no banco seria uma “saia justa” tanto para ele, quanto para o novo governo brasileiro.

 

Dilma, que foi reeleita, neste ano, para se manter no cargo de presidenta do NDB até março de 2030, aconteceu após ser indicada pelo presidente russo Vladimir Putin. Até lá, uma eventual saída de Dilma do “Banco dos Brics” antes de 2030 pode depender de decisões conjuntas de todos os agora 11 países membros efetivos do bloco.

 

“O BRICS no começo era uma espécie de resultado da evolução de economias emergentes. No sentido de que elas iam ocupar uma fatia cada vez maior do PIB global. (…) O NDB era uma plataforma para trocar impressões e construir interesses comuns, como acessar capitais de longo prazo para resolver problemas de insuficiência de infraestrutura. (…) Da reunião da África do Sul para cá, houve a inclusão de países muito díspares. O Irã é um dos países mais sancionados do mundo. Houve uma mudança daquilo que eram as duas primeiras manifestações de BRICS”, comentou em entrevista para o site da revista “Exame”.

 

ENTREVISTA

 

Rússia e China viram a gestão de Troyjo à frente do “Banco dos Brics” como um desvio dos objetivos estratégicos originais do NDB. (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil)

Abaixo, segue uma compilação das duas entrevistas concedidas por Marcos Troyjo ao jornal “Zero Hora” e a revista “Exame”, em que o ex-assessor do ministro Paulo Guedes analisou os efeitos econômicos e diplomáticos, segundo ele, das mudanças geopolíticas que estão sendo postas no mundo. Seja a ideia da desglobalização adotada pelo presidente estadunidense Donald Trump, que ele comunga, seja da nova ordem multilateral proposta por China e Rússia.

 

Como avalia as medidas anunciadas até agora pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aplicando tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e sancionando autoridades e agentes brasileiros?

Marcos Troyjo: Quando o presidente Trump assumiu,  prometeu revolucionar a política comercial americana. Ele queria implementar aquilo que, na campanha, chamou de política de comércio, justa e recíproca, anunciada no dia 2 de abril. Naquele momento, o Brasil foi um dos países menos afetados. Depois, juntamente com outros países sul-americanos, foi alocada uma tarifa de 10% sobre o Brasil. Só que no dia 9 de julho, há a publicação da carta do presidente Trump, mencionando práticas que os americanos gostariam de investigar do Brasil, onde fizeram uma série de referências também ao processo que corre contra o ex-presidente Bolsonaro. E, portanto,foi adicionada uma penalidade de 40%. Hoje, com 50% de tarifas, o Brasil é o país mais é afetado pela atual política comercial dos Estados Unidos. Alguns setores conseguiram incluir os seus produtos numa lista de exceções. Mas essa inclusão é resultado de coalizões entre exportadores brasileiros e compradores americanos. Os próprios compradores americanos fizeram pressão. 

 

Tem chance de reverter esse cenário?

Marcos Troyjo: Eu vejo agora um ambiente muito politizado, porque não apenas tem essa relação de temas políticos com comerciais, como também tem a abertura de um novo processo contra o Brasil chamado Sessão 301, que investiga práticas comerciais brasileiras. Então, hoje, entendo que são pequenas as chances de ter um distensionamento, uma diminuição de obstáculos para o Brasil, sem que haja uma mudança de governo, que só viria como resultado das eleições de 2026.

 

Como está sendo a reação do governo brasileiro frente ao tarifaço?

Marcos Troyjo: Durante a campanha presidencial dos Estados Unidos, o presidente brasileiro manifestou a sua predileção por uma outra candidata. Aliás, contrariando a tradição diplomática do Brasil. O chefe de governo no Brasil chegou a dizer que uma vitória do presidente Trump representaria algo como a volta do fascismo e do nazismo no mundo. Desde o dia 20 de janeiro, que é quando Trump toma posse, até agora, praticamente todos os chefes de governo dos países do G20 se reuniram com o governo americano. Tem apenas uma única exceção, e é a nossa. O Brasil foi o único que não fez isso. Eu acho que se tivesse um contato em nível de chefe de Estado com chefe de Estado, talvez as coisas pudessem melhorar. Hoje, os esforços que estão sendo feitos são de empresa para empresa, não entre governos. E isso é ruim.

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Existe alguma vantagem para o Brasil em meio ao tarifaço? A possibilidade de avanço do acordo entre Mercosul e União Europeia?

Marcos Troyjo: Eu era negociador do acordo Mercosul e União Europeia quando nós o concluímos, em 2019. E eu me lembro que o número dois da União Europeia, que era um ex-primeiro-ministro da Finlândia, disse que nós precisávamos fazer esse acordo para criar caminhos possíveis para manter o comércio forte em um mundo em que a unipolaridade dos Estados Unidos não levará ao aumento de comércio internacional. Os europeus são particularmente sensíveis a criar alternativas ao comércio com os Estados Unidos. Isso ajudou, mais recentemente, a tirar o acordo da gaveta. 

 

Na questão política e econômica é evidente a importância de acordos entre Brasil e Estados Unidos. Mas em termos de agronegócio, perde-se não o tendo como parceiro?

Marcos Troyjo: Eu diria que sim, por uma série de razões. Primeiro, o tamanho interno do mercado americano. É a maior economia do mundo, com US$ 3,6 trilhões em importação por ano. Tem outra, que é a agregação de valor. Se a gente quer criar produtos da agroindústria com maior valor agregado, você não pode deixar de considerar aquele que é o maior mercado do mundo, que não é comoditizado. E tem outras questões, como no estoque. O principal país investidor no Brasil é os Estados Unidos. O Brasil é um país que tem pequena capacidade interna de geração  de investimento. São as duas maiores democracias do Ocidente, por número de eleitores, as duas maiores economias do continente americano. Em vez de a gente estar fazendo coisas juntas, a gente está dando cotoveladas um no outro. Não está certo.

 

Como é que você vê agora o papel do BRICS com essa mudança nos Estados Unidos?

Um outro motivo, que levaram chineses e russos a rejeitar Troyjo no NDB foi o alinhamento do então governo brasileiro de Jair Bolsonaro com Washington. (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil)

Marcos Troyjo: O BRICS no começo era uma espécie de resultado da evolução de economias emergentes. No sentido de que elas iam ocupar uma fatia cada vez maior do PIB global. Ou seja, o BRICS ele surge como uma ideia do futuro da economia global, de onde virá o crescimento e a formação da demanda no mundo. No final da década retrasada, começou um movimento para que Brasil, Rússia e China trocassem ideias, fizessem encontros regulares e eventualmente até criassem instituições comuns, como é o caso do Banco de Desenvolvimento, o NDB. Era uma plataforma para trocar impressões e construir interesses comuns, como acessar capitais de longo prazo para resolver problemas de insuficiência de infraestrutura. Essa agenda era o que estava em voga e que também marcou muito a minha presidência do banco. Mobilizar recursos para projetos de saneamento básico, energia solar, combate a enchentes, ferrovias.

 

E o que mudou?

Marcos Troyjo: Da reunião da África do Sul para cá, houve a inclusão de países muito díspares. A Etiópia, por exemplo, que entrou nos BRICS, tem uma renda per capita pouco superior a mil dólares. Não é necessariamente uma economia de grande peso relativo muito grande. O Irã é um dos países mais sancionados do mundo. Houve uma mudança daquilo que eram as duas primeiras manifestações de BRICS. Uma era: são quatro nações que vão ocupar uma parcela cada vez mais importante da economia mundial. E depois, países que se reúnem e eventualmente e até criam as instituições para promover interesses comuns, como facilitar acesso a capitais para o desenvolvimento sustentável e infraestrutura. Esse BRICS agora tem um ponto de interrogação.

 

Qual?

Marcos Troyjo: Muita gente gosta de vê-los como uma aliança anti-ocidental, mas, por exemplo, a Arábia Saudita, que foi convidada para participar, e pelo que me consta ela não aceitou formalmente, tem muitas relações com o Ocidente, tem excelente parceria com os EUA. O Brasil tem muito interesse no Ocidente. O Brasil, no limite, é um país ocidental. A Índia faz parte do Quad, que é aquela agremiação para temas de segurança que envolve o Japão, a Austrália e os Estados Unidos, além dela. Essa nova fase dos BRICS ainda é uma incógnita.

 

Qual sua avaliação sobre a eleição de Trump em 2016 e as mudanças na política externa americana?

Para Troyjo, o acordo entre Mercosul-União Europeia pode sair do papel finalmente, em 2025. (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil)

Marcos Troyjo: Em 2016, quando terminou a apuração, alguns estavam mencionando uma canção do R.E.M., cujo refrão é “It’s the end of the world as we know it”. Se prenunciava uma mudança na tradição da política externa que vinha desde 1947 quando George Frost Kennan, o ministro-conselheiro da embaixada dos EUA em Moscou, mandou para o Departamento de Estado um texto chamado “O Longo Telegrama”. Nele, dizia que a tendência da União Soviética era de uma expansão contínua e que, portanto, o caminho dos Estados Unidos seria erguer um “cordão sanitário”. Era um dos substratos que dão a matéria-prima para uma primeira guerra fria. Aparentemente, a eleição de Trump em 2016 mudava essa história de engajamento dos Estados Unidos no mundo no que aparentemente seria uma volta ao isolacionismo.

 

E isso aconteceu?

Marcos Troyjo: Em alguma medida aconteceu, em outra, não. Parte disso talvez tenha sido o resultado também de uma conjuntura de que o Trump não esperava ganhar em 2016.

 

Como assim?

Marcos Troyjo: Como ele não esperava ganhar, rapidamente teve de improvisar em ações específicas do governo, teve que improvisar a entrevista de pessoas para cargos de absoluta importância. A máquina governamental dos EUA tem muitos cargos que são preenchidos diretamente pela escolha do titular da Casa Branca. Nesse aspecto, essa eleição é muito diferente da de oito anos atrás. Esses postos de liderança estão todos mapeados agora por essa campanha. E não apenas ele sabe quem será, mas também tem um plano de voo para cada uma delas. É uma música que será orquestrada com partitura, ao contrário daquele momento, que foi mais uma jam session. Provavelmente teremos mais consistência dessa vez.

 

E o que podemos esperar internacionalmente desse Trump 2.0?

A gestão de Marcos Troyjo no NDB é acusada, nos bastidores pela diplomacia sino-russa, de ter adotado posturas que coincidiram com os interesses dos EUA. (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

Marcos Troyjo: Uma palavra que talvez marque o que se pronuncia, é a palavra política externa transacional. Aliás, está ganhando força a expressão transnacionalismo, em que ideologia, valores, uma visão mais de conjunto é menos importante e ganhos pontuais contam mais. Curiosamente, quando alguns fazem uma leitura da política externa ou da política econômica chinesa também se diz que eles são muito transacionais. Mas há alguns pontos de interrogação sobre a maneira pela qual isso vai se implementar.

 

Quais?

Marcos Troyjo: Em áreas como o futuro da OTAN. O presidente Trump tem muitas críticas sobre o que considera como sobrepeso orçamentário dos EUA. Há dúvidas sobre a Europa como aliada ou como competidora. O que talvez tenhamos menos surpresas é nas relações com a China. Aliás, não apenas menos surpresas, como também talvez menos diferenças do que será a segunda presidência dele para que foi essa administração democrata que se encerra.

 

Porque a gestão Biden manteve uma linha de engajamento com a China semelhante à de Trump?

Marcos Troyjo: Você sabe que os chineses não acham isso? Porque em um determinado momento, ali na virada da primeira administração Trump para a de Biden, criou-se uma frase que para pautar as relações econômicas com Pequim: small yards, high fences (quintal pequeno e cercas altas, em tradução livre).

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E qual a importância?

Marcos Troyjo: Trata-se de um quintal pequeno, mas com uma cerca muito alta. Ou seja, você tem um número restrito de produtos, de tecnologias sensíveis, que ficam fora do comércio bilateral. Não apenas você tem tarifas intransponíveis, mas em alguns casos você tem a ilegalidade na transação. Ou seja, são tecnologias que não cabem ao comércio bilateral. Mas se supunha que seriam poucas. Durante a presidência Biden, não apenas as cercas não abaixaram, como o quintal aumentou de tamanho. Mais produtos, mais tecnologias foram inseridas nessas listas sujeitas a sobrepreço ou a não comporem o comércio bilateral. Acho que isso vai se manter e veremos mais sobretaxas.

 

Vai aumentar o “quintal” então?

Marcos Troyjo: Vai aumentar o quintal e pelo que ouvimos vai aumentar também a cerca. Se há uma tarifa de 150% sobre veículos elétricos chineses, então, aumentaram as tarifas. Se aumentaram restrições, por exemplo, ao comércio de componentes plásticos para a indústria de brinquedos, aumentou o quintal, porque não é necessariamente tecnologia sensível. Isso também é um pouco estilo de negociação: você morde para eventualmente continuar mordendo ou para assoprar um pouco, para tirar benefício ou acesso ao mercado chinês ou outros mercados do mundo a produtos e serviços americanos.

 

Para além de China, como uma nova administração Trump, que prometeu tarifas de importação pesadas, pode afetar o comércio global?

A troca de Troyjo por Dilma no “Banco dos Brics” aconteceu após uma articulação capitaneada pela China, com forte apoio da Rússia, que viram na gestão Troyjo uma tentativa de travar os projetos da Rota da Seda. (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil)

Marcos Troyjo: No primeiro momento aumenta a atratividade daqueles mercados com os quais os EUA mantém acordos de livre comércio, como México e Canadá. No entanto, há também a dúvida de que esses próprios acordos podem passar por renegociações. Dependendo de como essas tarifas forem implementadas, significa maiores custos de produção no mundo, o que leva a inflação, aumento de custos e de preço para os consumidores americanos. Por outro lado, pode levar a uma especulação, ainda que no curto prazo, de fortalecimento da volta de elos nas cadeias de produção das multinacionais americanas para produzir em território doméstico. Tudo isso não é simples e não é do dia para a noite.

 

Qual o desafio prático?

Marcos Troyjo: Isso exige um esforço de Capex [investimento] muito grande. Se levarmos em consideração que a maioria das empresas americanas tem ações em bolsa e apresentam resultados regulares sazonais, esses esforços de Capex machucam a performance dessas empresas.

 

Para circundar isso, só com dinheiro do governo?

Marcos Troyjo: O que não é simples. Nos últimos anos, foi implementado o Inflaction Reduction Act, de nome eufemístico mas que é um grande programa de reindustrialização. Em alguns casos foi de volta de atividade de manufaturas aos EUA e em outros de criação de capacidade endógena para semicondutores, chips, robótica e novos materiais. Já tem um esforço muito grande, a dívida americana está no maior patamar da história. Portanto, o governo já se encontra sobrecarregado com isso.

 

Podemos esperar que a realidade fique “no meio do caminho” do que Trump prometeu?

Marcos Troyjo: Sim, mas acho que ele vai tentar muito entregar em outra frente, que, aliás, é a frente que mais impacta o Brasil. Vivemos, nesses últimos oito anos, uma tentativa por parte de vários países de diminuir a sua exposição de risco relativo à China. A China, que nos últimos 40 anos foi crescentemente se tornando na fábrica do mundo, durante a Covid-19 se mostrou arriscada. Uma espécie de hiperdependência da China para a cadeia de produção se mostrou uma aposta arriscada se você quer mais previsibilidade dessas cadeias. Essa tentativa de diminuir a exposição a risco na China, levou a fenômenos interessantes.

 

Quais?

Então secretário de comércio exterior e relações internacionais do Ministério da Economia do governo Bolsonaro, Marcos Troyjo, participando do seminário “Brasil de Ideias”. (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil)

Marcos Troyjo: Um é o fenômeno do nearshoring (diminuir a exposição relativa nas cadeias chinesas, trazendo essas atividades para mais próximo do mercado de destino). Quem ganha nesse jogo? México e Canadá. Por outro lado, há a ideia do friendshoring (reposicionar parte do seu parque produtivo em países mais amistosos). O que é diferente agora dessa presidência de Trump: eles entendem que se desregulamentar, desburocratizar a atividade econômica dos EUA, associando isso a um corte de impostos, essas atividades de nearshoring ou friendshoring que estavam indo para a Índia, México, Tanzânia ou Vietnã, podem, na realidade, voltar para os EUA.

 

E qual o impacto para o Brasil?

Marcos Troyjo: Isso vai potencialmente diminuir a atratividade de outros países que também estão buscando sua revitalização industrial, como é o caso do Brasil.

 

Em que medida?

Marcos Troyjo: Se você está em uma determinada indústria, digamos uma indústria de plásticos, e quer diminuir a sua exposição ao mercado chinês, para onde você vai? Vai para o México, com uma carga tributária de 19% do PIB, para a Índia, onde a carga tributária 20% do PIB, para os EUA, onde a carga tributária é 27% do PIB e com tendência a cair, diminuir a burocracia, regulamentação e impostos, ou você vai para o Brasil, onde a carga tributária é 33% do PIB, e onde não se está fazendo os esforços fiscais com reformas estruturais necessárias para deixar o país mais leve a tarifas?

 

Como acha que vai ser uma relação agora Brasil-Trump?

Marcos Troyjo: O presidente Trump tem predileções pessoais. Ele, por exemplo, tem uma excelente relação com o ex-presidente Bolsonaro. Ele tem uma excelente relação com o atual presidente da Argentina, Javier Milei, e boa relação com o presidente da França, Emmanuel Macron. Para ele, as relações pessoais são muito importantes. E tem também a questão de agendas comuns. Por exemplo, Trump e o ex-presidente Bolsonaro têm uma agenda semelhante do ponto de vista da agenda de valores. Têm uma visão semelhante do ponto de vista da diminuição do papel do Estado na economia.

 

O governo Lula fica em desvantagem?

Marcos Troyjo: O Brasil fica com menor importância relativa do que outros países onde há uma coincidência, seja de afeição pessoal, seja de agenda de valores. No entanto, mais importante do que o que Trump vai fazer na presidência é o que o Brasil vai fazer baseado na certeza de que teremos quatros anos de uma presidência Trump na Casa Branca. É como na Fórmula 1, que aconteceu em São Paulo. Mais importante do que saber se vai chover ou não é estar preparado caso chova.

 

Ao mesmo tempo, temos uma agenda bem forte, inclusive bilateral, com a China, não é?

Marcos Troyjo: Sim. Temos uma agenda forte com a China, e talvez seja porque os chineses sabem exatamente o que querem: segurança alimentar e diversificar a alocação internacional de investimentos. Os chineses têm uma predileção pelo crescimento mediante o investimento de infraestrutura. Essa não é apenas a lição de casa que se mostrou verdadeira para eles domesticamente, mas eles abriram um compasso e fazem mais isso no mundo.

 

Você vê risco de escalada na relação entre China e Estados Unidos, especialmente com a questão de Taiwan?

Marcos Troyjo: Taiwan e o mar da China meridional são uma área de tensão, mas não entendo que haverá um primeiro movimento no curto prazo da parte dos chineses. Eles têm muita coisa em jogo. O comércio bilateral deles com Taiwan, por exemplo, é muito intenso. E em Taiwan fica a sede da TSMC, a principal fábrica de semicondutores do mundo. Se numa conflagração convencional você atingir aquelas instalações, a humanidade volta atrás 25 anos. Há quem compare o que a Rússia fez em relação à Ucrânia ao que a China poderia fazer com Taiwan. Para mim, não há paralelo.

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