Ex-presidente do Sinpol-MT, Edleuza Mesquita destaca desafios enfrentados dentro e fora da categoria, além das conquistas na valorização dos policiais civis
Primeira mulher a presidir o Sindicato dos Policiais Civis de Mato Grosso (Sinpol-MT), Edleuza Mesquita esteve à frente de uma gestão marcada por enfrentamentos internos, embates políticos e conquistas importantes para a categoria entre 2018 e 2020. Em entrevista ao RDM Online, ela relembra os desafios à frente da entidade, destaca avanços na valorização dos policiais civis e amplia o debate para temas urgentes, como saúde mental na segurança pública, feminicídio e a necessidade de fortalecer políticas de prevenção.

Confira a entrevista:
RDM Online: A senhora foi a primeira mulher a presidir o Sindicato dos Policiais Civis de Mato Grosso (Sinpol-MT), entre 2018 e 2020, período marcado por desafios e conquistas na valorização da categoria. Quais foram os principais obstáculos enfrentados e os avanços alcançados durante a sua gestão?
Edleuza Mesquita: Meu principal desafio no sindicato foi ser a primeira mulher a presidir uma categoria majoritariamente masculina, enfrentando resistência interna e até tentativas de anular minha eleição. Ao mesmo tempo, vivi um período de instabilidade política na transição do governo de Pedro Taques para Mauro Mendes, quando propostas ameaçavam direitos dos servidores. Participei da coordenação do Fórum Sindical e estive à frente de mobilizações intensas na Assembleia Legislativa para barrar essas medidas, chegando a permanecer três dias no local. Minha trajetória inclui ainda três anos como diretora financeira e outros três como presidente do sindicato.
RDM Online: A senhora já destacou alguns marcos importantes da sua gestão, como a defesa de direitos e a valorização dos policiais. Para a sua trajetória profissional, o que representou ter sido a primeira mulher a presidir o sindicato?
Edleuza Mesquita: Para mim, foi abrir portas. Abrir caminho para que outras mulheres também possam chegar à presidência e entender que é necessário ter posicionamento e coragem para o enfrentamento. Sem isso, há o risco de recuar.
Tive várias oportunidades para desistir. Em diversos momentos, tentaram me convencer a deixar o cargo, mas resisti e segui firme no enfrentamento. Saí do sindicato com mais adversidades do que quando entrei. Se antes eu tinha poucos conflitos, ao final da gestão estava respondendo a processos e enfrentando divergências até com colegas da própria categoria.
RDM Online: A senhora mencionou que acabou fazendo alguns “inimigos” ao longo da gestão. Por que isso aconteceu? Foi em razão de divergências de opiniões dentro da própria categoria?
Edleuza Mesquita: Eu atuei firmemente no combate ao assédio moral dentro das delegacias, indo pessoalmente às unidades — tanto no interior quanto na capital — para enfrentar os responsáveis e adotar medidas, inclusive judiciais, garantindo os direitos dos servidores. Sempre tive um olhar mais atento e cuidadoso com a categoria, me posicionando na defesa de quem era prejudicado. Essa postura de enfrentamento marcou minha atuação no sindicato, embora tenha gerado conflitos internos, já que, ao defender uns, inevitavelmente contrariava outros.
RDM Online: Como a senhora avalia o nível de união da categoria antes e depois da sua gestão?
Edleuza Mesquita: A minha gestão foi mais unida. Não estou puxando para o meu lado, mas, naquele período, as ações eram mais agregadoras. O que vejo hoje é uma divisão entre aposentados e policiais da ativa, como se os aposentados não tivessem contribuído para que a instituição chegasse ao nível em que está, com avanços tecnológicos e no setor de inteligência.
A luta começou lá atrás. É como não valorizar os próprios pais: foram eles que construíram o caminho até aqui. Da mesma forma, os policiais aposentados têm uma trajetória marcada por desafios e muito esforço. Na época deles, o trabalho era mais difícil, muitas vezes “no ferro e fogo”. Foram eles que ajudaram a construir a Polícia Civil do Estado de Mato Grosso.
RDM Online: Houve algum momento crítico ou uma crise durante o seu mandato?
Edleuza Mesquita: Foram vários desafios. No meu mandato, eu já vinha da função de diretora financeira de uma gestão que estava há 19 anos à frente do sindicato. Atuei por três anos ao lado do ex-presidente, que inclusive me apoiou na minha eleição.
Durante a gestão dele, enfrentamos uma greve no governo Pedro Taques — considerada a maior do Estado de Mato Grosso — quando todos os servidores públicos paralisaram as atividades por conta de salários atrasados. Naquele período, a greve foi declarada ilegal, e havia o risco de bloqueio das contas do sindicato. Diante disso, tivemos que tomar uma decisão emergencial, com autorização do Conselho Fiscal e apoio jurídico, para evitar prejuízos financeiros, já que o sindicato mantinha cerca de dez filiais em obras pelo estado.
Quando assumi a presidência, em 2017, deixei claro para a diretoria que precisávamos evitar que uma situação como aquela se repetisse. Por isso, em 2018, criamos uma associação justamente para resguardar o sindicato em casos semelhantes, como greves consideradas ilegais e possíveis multas diárias. Essa iniciativa deu origem à associação que existe até hoje.
RDM Online: Em algum momento, a senhora sentiu medo durante essas lutas à frente do sindicato?
Edleuza Mesquita: Não, pelo contrário: isso me fortaleceu ainda mais. Quando as pessoas me questionavam se eu não iria responder às acusações, eu dizia que, ao fazer isso, estaria dando palco para quem estava tentando me atingir.
Então, optei por outro caminho. Convoquei o Conselho Deliberativo e solicitei a contratação de uma empresa independente para realizar uma auditoria.
A auditoria foi realizada e comprovou que o sindicato não sofreu nenhum prejuízo moral ou financeiro durante o período em que atuei como diretora financeira, justamente quando estava sendo acusada.
RDM Online: Quais foram as principais demandas dos investigadores da Polícia Civil naquele período? E quais dessas demandas ainda permanecem atuais, que a senhora já defendia na época?
Edleuza Mesquita: Durante a minha gestão, ingressei com uma ação coletiva sobre o adicional noturno. O entendimento do STF já estava pacificado no sentido de que não poderia haver desconto previdenciário sobre esse adicional. A ação foi julgada favorável, e, com isso, os policiais deixaram de sofrer esse desconto, além de receberem os valores retroativos referentes aos últimos cinco anos. Foi uma conquista coletiva que beneficiou toda a categoria, especialmente os policiais da ativa.
Em relação aos policiais aposentados, havia uma indenização de 1998 que, embora já tivesse trânsito em julgado em 2005, ainda não havia sido paga e estava próxima da prescrição. Diante disso, atuei para evitar que esse direito fosse perdido.
RDM Online: Qual é a importância do sindicato na defesa dos policiais?
Edleuza Mesquita: O nosso sindicato é a coluna vertebral, o principal pilar da categoria. Muitas pessoas acreditam que não há importância em ser sindicalizado, que o sindicato não faz nada, mas isso não é verdade. O sindicato atua, sim, e muito.
Se hoje recebemos adicional noturno, por exemplo, isso é resultado de luta sindical. Nada se conquista sem esforço, e o sindicato representa justamente essa luta. Quem está na ponta, atuando nas delegacias, muitas vezes não consegue dimensionar a responsabilidade e o compromisso que o sindicato tem na busca por esses direitos.
RDM Online: Presidente, o sindicato atua na defesa de toda a categoria, inclusive de quem não é sindicalizado. Como foi o desafio de conquistar a confiança dessas pessoas e fazer com que acreditassem no trabalho desenvolvido durante a sua gestão?
Edleuza Mesquita: Quando entrei no sindicato, em razão dos enfrentamentos que já havia protagonizado, conquistei muitos apoiadores. Existe, hoje, uma diferença importante entre sindicato e associação, que nem todos compreendem.
Muitas pessoas — inclusive quem está atualmente no sindicato — acreditam que a entidade não tem obrigação com quem não é sindicalizado. No entanto, o sindicato representa toda a categoria, independentemente de filiação. Assim, as ações coletivas abrangem todos os policiais de forma geral.
Já a associação atua exclusivamente em favor de seus associados. Essa é a principal diferença. Ainda assim, há quem diga que quem não é sindicalizado não tem direito aos benefícios, o que não é verdade. Caso recorra, esse direito pode ser garantido, inclusive com entendimento já pacificado pelo STF.
RDM Online: Quais foram os principais desafios enfrentados no início do seu mandato?
Edleuza Mesquita: O principal desafio foi a mudança de governo, quando foi encaminhado à Assembleia Legislativa um pacote com seis leis que suspenderam direitos dos servidores. Entre as medidas, estavam a suspensão de adicionais, o congelamento das progressões salariais e dos RGAs, especialmente durante o período da pandemia.
RDM Online: A senhora acredita que a presença feminina em cargos de liderança nas forças de segurança ainda enfrenta barreiras? Com base na sua experiência, poderia citar alguns exemplos?
Edleuza Mesquita: Quando entrei na Polícia Civil, eu tinha 23 anos. Logo no início, enfrentei uma situação marcante: disseram que mulher, dentro da delegacia, servia apenas para fazer café e limpar. Aquilo veio de uma autoridade policial. Naquele momento, decidi que provaria o contrário e que faria a diferença dentro da instituição.
RDM Online: Em algum momento da sua trajetória à frente do sindicato, a senhora cogitou desistir? O que a fez seguir em frente?
Edleuza Mesquita: Não. Todas as vezes em que eu encontrava dificuldades, minha motivação era mostrar que aquela pessoa estava equivocada. Era isso que me dava força para enfrentar os desafios e superar os obstáculos ao longo do caminho.
Em alguns casos, houve reconhecimento. Em outros, as situações acabaram sendo resolvidas na Justiça, com o pagamento de indenizações.
RDM Online: Agora, falando sobre a realidade do nosso estado: como a senhora avalia o cenário do feminicídio em Mato Grosso? Na sua opinião, o que ainda falta para reduzir esses casos, que vêm apresentando crescimento?
Edleuza Mesquita: O Estado de Mato Grosso é pioneiro na implementação de políticas públicas voltadas ao enfrentamento do feminicídio. Atualmente, há um alto índice de resolução dos casos, com a identificação e prisão dos autores. Além disso, foram criadas diversas iniciativas, como o aplicativo SOS Mulher, desenvolvido pela Polícia Civil, especialmente para atender mulheres que não têm acesso ao botão do pânico — um recurso ainda limitado, com menos de 3 mil unidades disponíveis no estado.
Essas ações são importantes e representam avanços significativos. No entanto, na minha avaliação, as políticas públicas ainda estão muito concentradas no enfrentamento, ou seja, na resposta após o crime já ter ocorrido. Falta investimento mais consistente na prevenção.
RDM Online: Presidente, também há casos de meninos vítimas de abuso. Como a senhora avalia essa situação?
Edleuza Mesquita: Temos observado, com mais frequência, o aumento de casos relacionados à pedofilia e ao abuso de meninos, inclusive em ambientes como banheiros de shopping. No ano passado, por exemplo, houve registros desse tipo de situação, o que acende um alerta importante para pais e responsáveis.
Diante desse cenário, é fundamental que haja atenção redobrada. Por meio da minha associação, buscamos capacitar professores e conselheiros tutelares para lidar com esse tipo de ocorrência, já que, muitas vezes, a demanda chega até eles e nem sempre há preparo adequado para identificar e conduzir a situação.
RDM Online: Presidente, qual é a faixa etária mais comum entre os meninos que são vítimas de abuso?
Edleuza Mesquita: A faixa etária mais vulnerável, em muitos casos, está entre 8 e 12 anos. As ocorrências podem acontecer em diferentes locais: em shoppings, dentro de casa e também em outros ambientes do convívio cotidiano.
Há relatos marcantes, como o de um menino que, há alguns anos, foi abordado enquanto jogava bola. Ele foi levado para um passeio, recebeu agrados e, depois, acabou sendo vítima de abuso. Situações como essa mostram como os agressores, muitas vezes, se aproveitam da confiança e da ingenuidade das crianças. Outro ponto de atenção são atividades como escolinhas de futebol. Já houve denúncias envolvendo profissionais desses ambientes, o que reforça a necessidade de vigilância constante por parte dos pais e responsáveis.
RDM Online: Presidente, para reforçar, qual é o alerta que a senhora daria aos pais?
Edleuza Mesquita: A orientação é clara: os pais precisam observar tudo — comportamentos, falas, atitudes e mudanças no dia a dia das crianças. A atenção constante é uma das principais formas de prevenção.
Também é importante destacar que existem diversos mecanismos de proteção além do Conselho Tutelar e da delegacia. Redes formadas por pais, professores, escolas e a própria comunidade são essenciais. Esse acompanhamento coletivo fortalece a proteção e contribui para identificar e enfrentar situações de risco com mais rapidez e eficácia.
RDM Online: Quais são os canais de denúncia disponíveis atualmente?
Edleuza Mesquita: Hoje, existem canais de denúncia importantes. Em nível nacional, há o Disque 180. No âmbito estadual, há o 197, que é o canal da Polícia Civil, integrado ao Ciosp, juntamente com o 190.
Ao registrar a denúncia pelo 197, a ocorrência já é direcionada para a unidade especializada. Nos casos envolvendo crianças e adolescentes, segue para a Delegacia Especializada de Defesa da Criança e do Adolescente. Já nos casos envolvendo mulheres, o atendimento é encaminhado para a Delegacia da Mulher.
RDM Online: Presidente, quem deseja conhecer o trabalho que a senhora desenvolve voltado para crianças e adolescentes, como pode fazer?
Edleuza Mesquita: Para conhecer mais sobre o trabalho, basta acessar o Instagram da ASSEG.MT, a Associação de Servidores da Segurança Pública e Privada. Lá, divulgamos os projetos desenvolvidos pela entidade.
Atualmente, estamos firmando parcerias com algumas prefeituras, já que o objetivo é implantar os projetos dentro das escolas municipais. Nosso foco são crianças de 7 a 11 anos.
A proposta é que o projeto funcione como uma atividade extracurricular, desenvolvida dentro das próprias escolas. Trata-se de um curso voltado à formação das crianças, com conteúdos que trabalham cidadania, prevenção e consciência social.
RDM Online: A senhora tem interesse em retornar à presidência do sindicato?
Edleuza Mesquita: Não. Eu me identifico mais com as questões sociais. Hoje, minha maior preocupação é com a saúde do servidor, especialmente a saúde mental, que acaba sendo muito afetada pela sobrecarga de trabalho.
Muitas vezes, o servidor deixa a família em segundo plano por conta das demandas profissionais. Chega em casa cansado, sem disposição para conversar ou conviver, pois precisa descansar para o dia seguinte. Esse cenário impacta diretamente as relações familiares.
Por isso, dentro da associação, procuro desenvolver um trabalho voltado também para a família do servidor.
RDM Online: Agora, deixando a presidência do sindicato, que mensagem a senhora deixaria para os profissionais de segurança pública?
Edleuza Mesquita: A maturidade é essencial para o profissional de segurança pública, porque somos um reflexo do que a sociedade espera em termos de proteção e segurança. Temos essa responsabilidade. Por isso, é fundamental atuar com compromisso, responsabilidade e dedicação, vestindo a camisa daquilo que nos propusemos a fazer.
Em relação ao legado, sempre defendi a união. Busquei, ao máximo, promover a união. Somos uma grande equipe — policiais da ativa e aposentados — e, se não trabalharmos juntos, de forma coesa, a categoria enfraquece. Hoje, o sindicato continua sendo a principal entidade de representatividade da categoria. Já a associação atua em outra frente, cuidando do bem-estar, da saúde e do dia a dia do servidor.


















