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ENTREVISTA DA SEMANA

Delegada Judá Marcondes alerta para o aumento da violência contra a mulher e expõe a dura realidade do feminicídio em Mato Grosso

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O silêncio ainda mata — e em Mato Grosso, o alerta é urgente.

 

A delegada Judá Marcondes, titular da Delegacia Especializada em Defesa da Mulher de Cuiabá (DEDM) e referência no enfrentamento à violência doméstica, faz um apelo para que mais mulheres busquem ajuda. No mês da campanha Agosto Lilás, ela destaca que a mobilização aumenta as denúncias e resulta em mais prisões, mas lembra que o estado lidera em 2024 o índice nacional de feminicídio, com 2,46 casos para cada 100 mil mulheres.

Judá aponta que 90% das vítimas fatais não tinham medidas protetivas e que o maior obstáculo é cultural:

 

“Precisamos empoderar as mulheres, combater o machismo e derrubar padrões que alimentam o controle e a violência”.

Em entrevista, Judá fala sobre os desafios de mudar uma cultura enraizada no machismo, explica por que muitas vítimas não buscam ajuda e detalha como a conscientização e as medidas protetivas podem salvar vidas.

 

Confira a entrevista:

RDM online: Doutora Judá, qual a importância da campanha Agosto Lilás para o trabalho da Polícia Civil?

Delegada Judá: Agosto Lilás é fundamental para intensificar o combate à violência contra a mulher. É o mês em que mais mulheres procuram a polícia, motivadas pela conscientização e pela mobilização da sociedade. Isso também reflete no aumento das prisões nesse período.

 

RDM online: Os casos de violência aumentam nesse mês?

Delegada Judá: Na verdade, o aumento é na procura por ajuda, o que é positivo. Porém, tivemos um junho muito violento, com 10 feminicídios só neste mês. Mato Grosso tem um dos maiores índices do país, o que mostra o quanto o machismo e o patriarcado ainda dominam nossa sociedade.

 

RDM online: Quais os sinais que indicam um relacionamento abusivo?

Delegada Judá: O controle excessivo e o ciúme são os principais sinais. Homens que vigiam, monitoram, decidem o que a mulher pode ou não fazer, até a roupa que pode usar. Isso sufoca a mulher, tira sua autonomia e pode evoluir para violência grave.

 

RDM online: Como a sociedade influencia essa situação?

Delegada Judá: Vivemos numa cultura patriarcal que liga a “honra” do homem ao controle da mulher. Esse pensamento cria homens controladores e violentos. Precisamos mudar essa mentalidade e ensinar que a honra está no caráter, não na posse do outro.

 

RDM online: A nova lei do feminicidio foi um marco para a legislação brasileira. O que mudou com essa nova lei?

Delegada Judá: Criada em 2015 e atualizada recentemente, a lei ampliou de forma significativa as punições e estabeleceu o feminicídio como um crime autônomo, desvinculado de outras tipificações. Essa mudança trouxe mais rigor ao combate à violência contra a mulher, garantindo uma resposta mais rápida e severa da Justiça, com penas mais duras e enquadramento específico para esse tipo de crime.

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RDM online: Por que a senhora acredita que tantas mulheres não procuram ajuda antes que seja tarde?

Delegada Judá: Muitas mulheres, tomadas pelo medo do agressor, hesitam em buscar ajuda, receosas de que a denúncia possa intensificar as ameaças ou a violência. No entanto, as medidas protetivas têm se mostrado ferramentas eficazes de segurança, oferecendo acompanhamento constante das forças policiais e recursos tecnológicos como o botão do pânico, que aciona a emergência de forma imediata, e tornozeleiras eletrônicas, que monitoram a localização dos agressores e ajudam a manter distância da vítima.

 

RDM online: A senhora comentou sobre os agressor já tentaram contra a vida da vítima. Como vocês avaliam o risco que essas mulheres correm?

Delegada Judá: Exato. Utilizamos o FONAR, que é o Formulário Nacional de Avaliação de Risco para feminicídio. Ele serve para identificar o risco que a mulher está correndo com base na violência que ela relata na delegacia. O controle e o ciúme excessivos são alguns dos critérios avaliados para definir esse risco.

 

RDM online: E quando o risco é alto, quais medidas podem ser tomadas?

Delegada Judá: Quando identificamos um risco elevado, solicitamos a tornozeleira eletrônica para o agressor. O juiz normalmente defere a medida no mesmo dia ou no seguinte, e o agressor passa a usar a tornozeleira, o que aumenta muito a eficácia da medida protetiva.

 

RDM online: Quais são os principais entraves para as mulheres procurarem ajuda?

Delegada Judá: O medo, a falta de coragem e a descrença na efetividade da medida protetiva são os maiores obstáculos. Além disso, culturalmente, muitas mulheres foram criadas para acreditar que precisam ser escolhidas por um homem e, para isso, suportam a violência para manter o relacionamento.

 

RDM online: Esse padrão social parece bastante enraizado. Como a dependência econômica influencia essa situação?

Delegada Judá: A dependência financeira é um problema enorme. Muitas mulheres estudam, mas acabam abrindo mão da carreira para cuidar da casa e dos filhos, dependente do marido como provedor. Quando a relação termina, elas enfrentam dificuldades para se manter e criar os filhos, especialmente quando o agressor não paga pensão ou paga pouco.

 

RDM online: E quanto ao papel dos homens nessa dinâmica? A senhora mencionou algo sobre a criação dos meninos.

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Delegada Judá: Sim, desde crianças, as meninas já têm brinquedos que estimulam o cuidado, enquanto os meninos são desencorajados a brincar com bonecas. É fundamental ensinar aos meninos a importância da paternidade ativa, do cuidado e do respeito, para que cresçam como homens responsáveis.

 

RDM online: O Estado tem parcerias para ajudar essas mulheres, certo? Como funciona esse trabalho?

Delegada Judá: Sim, temos parcerias com programas como o da Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania (SETASC) e o Ser Mulher, que oferecem auxílio-moradia para mulheres que se separam e não têm condição de se manter. Para acessar o benefício, é necessário ter uma medida protetiva ativa. Esses programas são fundamentais para encorajar as denúncias e ajudar a mulher a reconstruir sua vida com dignidade.

 

RDM online: A senhora poderia compartilhar alguma história que tenha marcado sua atuação?

Delegada Judá: Claro. Atendi uma mulher em Cáceres que contraiu AIDS durante o relacionamento abusivo. O agressor destruía sua autoestima, mas ela encontrou força no atendimento psicológico oferecido pela delegacia. Depois de meses, ela mudou completamente, parou o tratamento medicamentoso e decidiu viver. Esse acolhimento psicológico é fundamental para romper o ciclo da violência.

 

RDM online: Vocês também trabalham com agressores, especialmente com casos ligados ao alcoolismo?

Delegada Judá: Sim. Implementamos um programa em Cáceres com apoio dos Alcoólicos Anônimos, para que homens com relação abusiva ao álcool façam acompanhamento. Nem todos aderem, mas é um projeto muito importante, pois a combinação de álcool e violência doméstica é muito frequente.

 

RDM online: Sobre a condenação recente de um agressor com pena de 225 anos, a senhora acha que isso tem impacto na sociedade?

Delegada Judá: Sentenças duras trazem uma repercussão positiva e demonstram que a justiça está sendo feita, o que pode fazer com que potenciais agressores pensem duas vezes. No entanto, para muitos homens machistas, a “honra” ainda é vista como mais importante que a vida, o que infelizmente contribui para o aumento dos casos.

 

RDM online: Qual a mensagem final para as mulheres que sofrem com a violência?

Delegada Judá: Mulheres, vocês são livres e maravilhosas do jeito que são. Não deixem que o controle e o ciúme destruam sua vida. A mudança começa com o empoderamento e o respeito — para isso, toda a sociedade precisa se unir e transformar essa realidade.

 

Foto: Jean Gusmão

 

Foto: Jean Gusmão

 

Foto: Jean Gusmão

 

Foto: Jean Gusmão
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