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ENTREVISTA

Daniela Araújo Muniz: A obesidade é uma doença que tem tratamento, sendo a cirurgia bariátrica uma dessas opções

Daniela Araújo Muniz tem 12 anos de experiência na área de endocrinologista. ( Foto: Assessoria)

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Endocrinologista fala sobre a cirurgia bariátrica como um caminho para a saúde e bem-estar

O aumento da obesidade nos últimos 30 anos e a falta de medicamentos tornam a cirurgia bariátrica uma opção cada vez mais procurada, principalmente por mulheres. A cirurgia bariátrica tem se tornado cada vez mais popular no Brasil, especialmente diante do aumento alarmante de casos de obesidade, que afeta pessoas de todas as idades, desde crianças até adultos. A obesidade, muitas vezes associada a hábitos alimentares inadequados, tem causado impactos significativos em inúmeras famílias brasileiras, principalmente nos casos de obesidade mórbida.

Com o tempo, a procura pela cirurgia bariátrica cresceu, sendo uma solução recomendada por médicos para pessoas com excesso de peso que buscam uma alternativa eficaz para melhorar a saúde. O procedimento está disponível tanto no sistema público quanto no privado. No Sistema Único de Saúde
(SUS), a cirurgia é oferecida gratuitamente, enquanto na rede particular, o custo elevado pode ser um desafio para muitas famílias. Pacientes que passam pela cirurgia bariátrica geralmente experimentam uma perda de peso significativa, o que traz melhorias metabólicas e uma qualidade de vida melhor, promovendo saúde e bem-estar. No entanto, é necessário seguir cuidados pós-operatórios rigorosos, como a adoção de uma alimentação adequada e a prática de atividades físicas. A mudança no estilo de vida é essencial, e o acompanhamento de profissionais, como psicólogos, é crucial para trabalhar o estado emocional dos pacientes, tanto no pré quanto no pós- operatório.

A cirurgia bariátrica é um tratamento cirúrgico para a obesidade.

Entrevistamos a doutora endocrinologista Daniela Araújo Muniz, que possui 12 anos de experiência na área, com especialização em mestrado e doutorado. Na entrevista, abordamos as particularidades dos procedimentos bariátricos e suas realizações. Confira a entrevista completa a seguir.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, quais são as diferentes modalidades de cirurgia bariátrica e quais são as mais comuns?

Daniela Araújo Muniz: A cirurgia bariátrica, também conhecida como cirurgia para tratamento da obesidade ou tratamento cirúrgico da obesidade, é uma das modalidades disponíveis para o controle da doença. Existem o tratamento clínico, o tratamento dietético e o tratamento cirúrgico, sendo este último a cirurgia bariátrica. Trata-se de um conjunto de técnicas cirúrgicas com respaldo científico, aprovadas e destinadas à promoção da redução de peso e à melhora metabólica em diferentes graus para cada paciente.

RDM Mato Grosso S/A: Quais são os critérios para a indicação da cirurgia bariátrica em pacientes?

Daniela Araújo Muniz: A indicação da cirurgia é para indivíduos com obesidade grau 3, ou seja, IMC a partir de 40, ou para aqueles com obesidade grau 2 associada a comorbidades. Nessas situações, a perda de peso pode melhorar condições como hipertensão, diabetes, doenças ortopédicas relacionadas ao excesso de peso, colesterol alto, além de alterações psiquiátricas como depressão e baixa autoestima. Esses fatores são considerados critérios na obesidade grau 2.

RDM Mato Grosso S/A: Quais são os critérios específicos que determinam a indicação da cirurgia bariátrica em pacientes e como esses critérios variam conforme as condições de saúde de cada indivíduo?

Daniela Araújo Muniz: O risco da cirurgia bariátrica é semelhante ao de qualquer outro procedimento cirúrgico, envolvendo a anestesia e o próprio processo cirúrgico. No pós-operatório, o risco está relacionado principalmente a deficiências de vitaminas e minerais. No entanto, é possível acompanhar e tratar o paciente adequadamente. Após a cirurgia bariátrica, o paciente é acompanhado por um endocrinologista pelo resto da vida. No início, o acompanhamento é mais frequente, mas, quando tudo estiver em ordem, pode ser realizado uma vez por ano, com o objetivo de ajustar a suplementação de ferro, vitamina B12, vitamina D e cálcio. Eu sempre expliquei aos pacientes que a cirurgia bariátrica não resolve todos os problemas de saúde nem elimina completamente o uso de medicações. Eu digo que eles estarão trocando o tratamento de uma doença por um tratamento para a saúde, com o uso de vitaminas e minerais, para promover uma melhora na qualidade de vida que a cirurgia bariátrica e a redução de peso podem proporcionar.

RDM Mato Grosso S/A: Após a cirurgia bariátrica, qual é a importância do cuidado com a alimentação e como os pacientes devem gerenciar sua dieta nesse período?

Daniela Araújo Muniz: É necessário ter todo o cuidado com a alimentação e com as medicações no pós-operatório. Todo paciente precisará usar suplementos por um longo período, muitas vezes pelo resto da vida.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, como funciona o acompanhamento psicológico antes e depois da cirurgia bariátrica e qual é a sua importância para o sucesso do procedimento?

Daniela Araújo Muniz: É extremamente importante que, no pré-operatório, todos os pacientes passem por uma avaliação psiquiátrica e psicológica. Essa avaliação não deve ser feita em uma única consulta, pois o psicólogo ou psiquiatra precisa conhecer o histórico do paciente e acompanhá-lo por um
período. Uma das contraindicações para a cirurgia bariátrica é a presença de doenças psiquiátricas sem controle adequado, por isso é fundamental esse acompanhamento no pré e no pós-operatório. Vale lembrar que a cirurgia bariátrica não cura doenças por si só. Se o paciente não estiver mentalmente preparado para mudar o estilo de vida, após cinco anos, metade dos pacientes volta a ganhar peso.

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RDM Mato Grosso S/A: Doutora, é verdade que, após cinco anos de cirurgia bariátrica, alguns pacientes podem acabar recuperando o peso perdido? Quais são os fatores que contribuem para isso?

Daniela Araújo Muniz: Geralmente, os pacientes passam por um período de redução de peso progressiva durante até dois anos. Após esse período, eles entram em um platô, que é uma estabilização do peso. Se não mantiverem os hábitos que tinham após a cirurgia, correm o risco de voltar a ganhar peso.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, você já teve casos de pacientes que realizaram a cirurgia bariátrica e, após um tempo, acabaram recuperando o peso?

Daniela Araújo Muniz: É muito frequente que, ao utilizarmos todas as técnicas cirúrgicas, a taxa de sucesso gire em torno de 48% a 50%. Segundo alguns estudos, existem técnicas com menor taxa de sucesso, mas, se considerarmos todas as técnicas em conjunto, essa taxa permanece em torno de 50%.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, qual é a importância da nutrição durante e após a cirurgia bariátrica?
Daniela Araújo Muniz: Rotina antes, durante e após a cirurgia para o resto da vida.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, qual é a alimentação mais adequada que os pacientes devem seguir após a cirurgia bariátrica? Que orientações a senhora poderia dar para que eles mantenham uma dieta saudável e equilibrada?

Daniela Araújo Muniz: A fase em que o paciente se encontra é fundamental. No pós-operatório, a longo prazo, é essencial manter uma alimentação saudável, rica em vegetais e muito pobre em alimentos processados, gorduras e bebidas açucaradas, que são prejudiciais após a cirurgia bariátrica. Também é preciso ter cuidado com o consumo de álcool e cigarro, pois muitas vezes os pacientes trocam o vício da comida por outro vício, sendo o álcool um dos mais comuns.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, como está a demanda pela cirurgia bariátrica em nossa capital? A senhora tem percebido um aumento significativo no número de pessoas em busca desse procedimento?

Daniela Araújo Muniz: É só pensarmos na prevalência da obesidade: a obesidade está crescendo de forma assustadora. Tenho um dado aqui que, desde 1990, o número de obesos dobrou. Portanto, nesse período de 34 anos até 2024, temos o dobro do número de obesos que tínhamos em 1990. Esse dado se refere a adultos; em crianças e adolescentes, o quadro é ainda mais grave, pois o número de crianças e adolescentes com obesidade quadruplicou. Ao considerarmos esse aumento significativo de obesos e a escassez de medicamentos disponíveis para tratar a obesidade, que é uma doença crônica, no Brasil temos pouquíssimas medicações para isso. Assim, o tratamento cirúrgico se torna uma opção para muitas pessoas, e a busca pela cirurgia bariátrica aumenta em proporção a esse índice de obesidade.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, a procura pela cirurgia bariátrica é maior entre homens ou mulheres? E quais fatores a senhora acredita que influenciam essa diferença na busca pelo procedimento?

Daniela Araújo Muniz: Em ambos os sexos, a prevalência de obesidade é um pouco maior nas mulheres, o que resulta em um número maior de cirurgias bariátricas realizadas nelas. Isso se deve, em parte, à questão estética, já que as mulheres tendem a procurar mais esse tipo de procedimento. No entanto, a procura por cirurgias bariátricas entre homens também tem crescido.

Após a cirurgia bariátrica, o paciente é acompanhado por um endocrinologista pelo resto da vida.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, temos visto um aumento significativo de casos de obesidade na adolescência. Na sua opinião, adolescentes com obesidade podem ser candidatos à cirurgia bariátrica, ou existem restrições para esse grupo etário?

Daniela Araújo Muniz: A cirurgia bariátrica é liberada acima de 16 anos. Entre 16 e 18 tem que ter um cuidado maior, tem que avaliar esse paciente mais de perto, conversar com a família, entender tudo que está inserido. Mas, a partir de 16 anos, em especial a partir de 18 anos, é liberado.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, existem casos em que a procura pela cirurgia bariátrica está mais relacionada à estética do que à saúde?

Daniela Araújo Muniz: É nosso papel, como profissionais de saúde, orientar os pacientes sobre as indicações corretas da cirurgia bariátrica, que é um procedimento para perda de peso, e seguir todos os protocolos rigorosamente.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, se um paciente expressar o desejo de realizar a cirurgia bariátrica apenas por motivos estéticos, a equipe médica é obrigada a seguir em frente com a cirurgia ou pode optar por não a realizar? Como essa decisão é avaliada?

Daniela Araújo Muniz: Na minha parte, eu oriento o paciente e elaboro um laudo que ele leva para o cirurgião. Esse laudo é feito com a indicação cirúrgica, que pode ser para pacientes com IMC acima de 40 ou acima de 35 com comorbidades.

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RDM Mato Grosso S/A: Doutora, há quem diga que a cirurgia bariátrica pode levar a complicações como anemia e mudanças no metabolismo. Quais são os riscos reais associados a esses problemas e como os pacientes podem gerenciá-los após a cirurgia?

Daniela Araújo Muniz: Existem alterações, em especial nas cirurgias mistas, que são as absortivas e restritivas. No entanto, as cirurgias apenas restritivas também podem levar a isso, devido à alteração do pH que afeta a absorção de ferro no nosso intestino. O intestino precisa estar intacto e ter o pH ideal, com uma acidez adequada para que a absorção ocorra corretamente. Com essas cirurgias, algumas técnicas removem parte do intestino que seria responsável pela absorção de ferro e da vitamina B12, cuja falta também pode levar à anemia. As cirurgias apenas restritivas alteram significativamente o pH, tornando o paciente incapaz de absorver ferro e vitamina B12, assim como uma pessoa que não passou pela cirurgia. Por isso, são fundamentais o acompanhamento pós-operatório e a reposição de todos os nutrientes.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, de que maneira a cirurgia bariátrica pode influenciar o tratamento de outras condições de saúde, como diabetes e hipertensão? Essa cirurgia realmente ajuda na melhoria dessas doenças?

Daniela Araújo Muniz: É principalmente em diagnósticos recentes que a cirurgia bariátrica pode ser benéfica, especialmente para aqueles pacientes que descobriram que têm diabetes há pouco tempo. Se o diabetes for causado ou agravado pela obesidade, a cirurgia bariátrica pode resolver essa e outras
comorbidades na maioria das vezes.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, como a tecnologia tem impactado os procedimentos cirúrgicos em relação à cirurgia bariátrica? Quais são os avanços mais recentes e como esses procedimentos mudaram ao longo do tempo, especialmente considerando que técnicas que antes exigiam cortes mais invasivos já não são mais utilizadas?

Daniela Araújo Muniz: Eu não sou cirurgiã e, por isso, não posso falar sobre detalhes específicos, mas as cirurgias aceitas pelo Conselho Federal de Medicina incluem o balão intragástrico. Esse procedimento é realizado por meio de uma endoscopia, onde um balão é colocado e inflado no estômago. As demais cirurgias bariátricas, em geral, são realizadas por laparoscopia, que é uma técnica por vídeo. Entre elas, está o sleeve, que consiste na remoção de uma parte do estômago. Também existem as cirurgias com anastomoses, como a chamada "anatomia em Y de Roux" e a banda gástrica. Neste último caso, além de remover uma parte do estômago, há um desvio de um pedaço do intestino.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, quantos tipos de cirurgias bariátricas existem atualmente?

Daniela Araújo Muniz: O balão intragástrico, o bypass, que é a gastrectomia vertical em Y de Roux, e outras técnicas são utilizadas.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, como é feita a escolha do tipo de cirurgia bariátrica a ser realizada? Essa decisão depende apenas do paciente ou envolve outros fatores?

Daniela Araújo Muniz: Depende do paciente, e o mais importante é que a escolha da cirurgia depende da habilidade do cirurgião. A melhor cirurgia é aquela em que o cirurgião tem mais experiência e habilidade para realizar.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, em relação ao acesso à cirurgia bariátrica, os pacientes conseguem obter atendimento nas redes públicas de saúde? Qual é a realidade nesse aspecto?

Daniela Araújo Muniz: Aqui no nosso estado, as cirurgias estão sendo realizadas no Hospital Metropolitano. Eles contam com uma equipe completa, composta por profissionais interdisciplinares, para fazer o acompanhamento pré-operatório. Estão realizando muitas operações lá, especialmente quando há uma indicação correta.

RDM Mato Grosso S/A: Doutora, para encerrarmos nossa entrevista, você gostaria de deixar uma mensagem ou destacar algum ponto importante que não abordamos? Sinta-se à vontade para compartilhar.

Daniela Araújo Muniz: Acho importante falar sobre a prevalência da obesidade, que está se configurando como uma pandemia, com números crescentes e assustadores em adultos, crianças e adolescentes. Um estudo recente publicado no Lancet, uma revista médica de grande impacto, revelou
que 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com obesidade. É importante lembrar que essa condição está associada a 11 tipos de doenças, incluindo doenças cardiovasculares e vários tipos de câncer. Para se ter uma ideia, pacientes com IMC acima de 45 têm uma diminuição na expectativa de vida e um aumento da
mortalidade de 190%. Assim, um grande obeso tem uma chance de morrer 190 vezes maior do que um paciente não obeso. A mensagem que quero deixar é a importância de cuidar desse diagnóstico e reconhecer que a obesidade é uma doença que tem tratamento, sendo a cirurgia bariátrica uma dessas opções terapêuticas. O cuidado deve começar desde cedo, com certeza, por meio de hábitos de vida saudáveis e prática de atividade física.

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