Muitos são os personagens históricos que podemos estacar no processo de formação de nossa capital mato-grossense, personagens estes que tiveram papel fundamental no desenvolvimento e enriquecimento cultural proporcionado a todo este território desde a chegada dos bandeirantes e colonos portugueses. Podemos destacar muitos detalhes importantes e interessantes do processo histórico da nossa Cuiabá e todos os personagens da cuiabania, desde a escolha do nome da capital até o nome das ruas e avenidas.
A respeito da origem da palavra Cuiabá, é possível que o nome Cuiabá tenha origem relacionada ao ouro. Existem duas principais hipóteses de origem indígena (CAMPOS, 2014). A primeira vem do povo Boé/Bororo, que ocupava o território de Cuiabá antes da chegada dos bandeirantes. É a hipótese mais defendida pelos padres Salesianos, que têm contato com os Boé desde o começo do século XX. Cuiabá seria uma derivação de Ikuiapá. Ikuiapá – Ikúia (flecha, arpão); pá (lugar) lugar da flecha e do arpão, refere-se à localidade onde se pesca com a flecha-arpão, possivelmente correspondente à foz do Ikuiébo. Ikuiébo – Ikúie (estrela); bó (água); Córrego das estrelas. Córrego afluente da esquerda do rio Cuiabá, conhecido como córrego da Prainha. Essa denominação foi provavelmente originada pela abundância de pepitas de ouro no leito e nas margens do referido córrego (CAMPOS, 2014, p 75).
A Professora mestra Neila Maria Souza Barreto, jornalista e historiadora. Membro efetivo desde 2016 e atual presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, nos relata em publicações da Revista do instituto que por volta de 1673 e 1682, Manoel de Campos Bicudo, bandeirante paulista, fundou o primeiro povoado, no ponto onde o rio Coxipó desagua no rio Cuiabá, localidade batizada de São Gonçalo, atual bairro São Gonçalo Beira Rio, na capital mato-grossense.
A outra hipótese é de origem Guarani e é defendida por alguns historiadores, pois os Guarani “foram importantes aliados dos europeus no processo de interiorização e nomearam muitas coisas e lugares” (CAMPOS, 2014, p 76) e na cartografia espanhola antiga consta “kyvaverá” como denominação do rio Cuiabá. Kyvaverá – Kyva (lontra); vera (brilhante), ou seja, Rio das lontras brilhantes (CAMPOS, 2014, p. 76)
Elizabeth Madureira em seu livro: O processo histórico de Mato Grosso, relata que a nossa história ocorre com a bandeira de Pascoal Moreira Cabral que à procura de indígenas destinados ao cativeiro, acabou por encontrar ouro no rio Coxipó, onde fundou em 1719 o Arraial da Forquilha, no atual distrito do Coxipó
do Ouro. Após a descoberta das “Lavras do Sutil” em 1722, no local que corresponde atualmente à Avenida Tenente Coronel Duarte, conhecida como Prainha, próxima à Igreja do Rosário, fez com que ocorresse o despovoamento do arraial da Forquilha, por que a população foi toda morar próximo da prainha. O povoado tornou-se núcleo polarizador político-administrativo, elevado à Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, em 1727. No ano de 1818, foi elevada à categoria de cidade, com a denominação de Cuiabá. E neste processo de desenvolvimento da então vila de Cuiabá surge a matriz, capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, capela do Rosário, Casa da Câmara e cadeia, as ruas de Baixo, do Meio, de Cima, as travessas do Burgo, do Pinho, do Cap. Mor, do Mathias, do Roris, de D. Carlos, o Beco do Candeeiro, o caminho do porto, as pontes do Mundéu, junto a M. da Silva, da Mandioca e por aí vai.
Carlos Alberto Rosa, no livro: “A terra da conquista – história de Mato Grosso colonial”, foi muito feliz ao invocar o urbano como fator decisivo para compreensão do processo histórico que envolve a capitania de Mato Grosso. Mas o mesmo documento apresentando por Carlos Rosa (postura municipal) informa que, anteriormente, casas foram construídas desordenadamente e muito próximas dos matos, e que as ruas não seguiam linhas retas. Também o documento destaca claramente que a maior preocupação das autoridades municipais para que a vila não fique disforme e tenha um tamanho menor vem da necessidade de defender o povoado de possíveis ataques indígenas.
Cuiabá carrega muitos traços do passado, muitos casarões foram preservados e ainda é possível identificar as Rua de Cima, de Baixo e do Meio, que mais tarde foram renomeadas como Rua Pedro Celestino, Galdino Pimentel com Sete de Setembro e Rua Ricardo Franco, respetivamente, algo que faz predominar riquezas ainda presentes da arquitetura da época, que trás muitas lembranças do cotidiano da capital e da todo a sua história.
Um acontecimento interessante do nosso passado colonial que podemos destacar no processo de formação de nossa capital foram os ataques paiaguás, que de certo modo, sitiaram o arraial de Cuiabá. Em 1726 atacam uma monção no Cuiabá, em 1728, destroçam uma bandeira que foi prear índios no Sertão dos Parecis, e por fim, em 1730, o arraial velho foi atacado. Todos estes ataques podem explicar porque a câmara de Cuiabá queria diminuir o núcleo urbano e não permitir mais a construção de moradias afastadas e na boca do mato. Estamos diante do primeiro adensamento e condensação da Vila Real mineradora. Não foi a falta de ouro, ou a criação de uma igreja, foi a necessidade de defender seus habitantes.
E com o passar dos anos e com o desenvolvimento de Cuiabá foram surgindo os espaços negros, brancos, indígenas e mestiços. Seus diversos espaços culturais coexistindo e interagindo continuamente. Cuiabá é organismo vivo. A originalidade de Cuiabá encontra-se mesmo por ser uma cidade que não surgiu de um plano urbanístico ideal, ou da fundação de um governaste. Das antigas cidades coloniais, Cuiabá é a única que não foi criada por ordem régia, mas pela ação dos seus moradores.
É importante ressaltar que houve uma alteração na toponímia, de Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá para Cuiabá, alterado por carta de lei de 17 de setembro de 1818. No ano de 1821, objetivando a integração de Mato Grosso ao capitalismo mundial, sua capital foi transferida de Vila Bela para Cuiabá, que através da navegação pelo Rio Paraguai e estuário do Prata, abria-se ao contato com o Rio de Janeiro e com a Europa.
Considerando a historicidade do núcleo urbano de Cuiabá, percebe-se que as tensões entre novo e velho foram acentuadas por acontecimentos de ordem política local e nacional, porém a partir da segunda metade do século XX os processos de modernização passaram a compor um cenário dramático de destruição do acervo arquitetônico e urbanístico da capital, com a demolição de marcos referenciais, como a Igreja Matriz e o Palácio do Governo, inaugurando um processo de dilapidação do patrimônio edificado (CASTOR, 2013).
Com vistas à compreensão dos processos de expansão e desenvolvimento urbanos empreendidos em Cuiabá e seus reflexos no centro antigo, é importante destacar trabalhos de personalidades que ajudaram na preservação dos casarões cuiabanos e no tombamento do centro histórico. Júlio de Lamônica Freire feita em 1997, que viveu de 1937 até 2011, Arquiteto e urbanista (UnB, 1970) cuiabano, mestre em educação (USP, 1988) foi professor fundador do curso de Arquitetura da UFMT. Influenciou gerações de arquitetos de Cuiabá, e atuou incansavelmente pela preservação de seu patrimônio arquitetônico e pela valorização do ofício dentro de diversas entidades de classe, como o Instituto dos Arquitetos do Brasil – IAB. (1997).
Em Cuiabá, os discursos pautados no desejo pelo progresso econômico alinhado à expansão das fronteiras do capitalismo resultaram em um violento ataque ao patrimônio cultural urbano, visando abrir espaço para o “novo”. O processo de modernização conflitual de Cuiabá ocorreu envolvendo registros de posicionamentos diversos e contrários à destruição do patrimônio edificado. Algumas iniciativas buscaram equilibrar desenvolvimento e preservação através da expansão urbana, como é o caso da criação do Centro Político Administrativo – CPA, que dentre suas justificativas era aliviar as pressões imobiliárias através da retirada de órgãos públicos do centro histórico. O CPA é um complexo urbanístico construído no início da década de 1970 com o objetivo de reunir todo o aparato político e administrativo do Governo do Estado em uma única região, distante do Centro Histórico e com maior capacidade de atendimento das demandas futuras.
Sabemos portanto que muito já foi feito pelos órgãos governamentais e personagens importantes da nossa história, mas que muito ainda precisa ser feito para que toda nossa riqueza cultural e patrimonial seja realmente destaque no cenário nacional e internacional, fomentando desta forma o turismo urbano e rural, elevando com todo esta atitude a nossa capital como a verdadeira cidade verde de encanto e que é farta de memoráveis histórias e momentos que comprovam o quanto existe de fabuloso para ensinarmos as nova gerações sobre a capital do agro mato-grossense.
Referência Bibliográfica
- CASTOR, Ricardo. Arquitetura Moderna em Mato Grosso: diálogos, contrastes e 2013. 456 f. Tese (Doutorado) – Curso de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.
- CONTE, Claudio Quoos; FREIRE, Marcus Vinícius de Lamônica. Centro Histórico de Cuiabá: Patrimônio do Brasil. Cuiabá: Entrelinhas, 2005.
- FREIRE, Júlio de Lamônica. Cuiabá nosso bem Cuiabá: EdUFMT, 1992.
- FREIRE, Júlio de Lamônica. Por uma poética popular da Cuiabá: EdUFMT, 1997.
- GUIMARÃES, Maria Bárbara A saga da preservação do patrimônio urbano de Cuiabá/MT: políticas públicas nas tensões entre progresso e preservação, 2023.
- ROSA, Carlos A Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá: Vida urbana em Mato Grosso no século XVIII (1722-1808). Tese (Doutorado em História). Universidade de São Paulo, São Paulo, 1996.
- ROSA, Carlos Notas históricas. Processo de tombamento Iphan 1180-T-85. Cuiabá, 1985.
- SIQUEIRA, Elizabeth Madureira (org.) [et ]. Cuiabá: de vila a metrópole nascente. Cuiabá: Entrelinhas, 2006
- SIQUEIRA, Elizabeth Madureira all. O processo histórico de Mato Grosso. 2.ed., Cuiabá, Guaicurus, 1990.
- Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Nº 85 (2023) – Mato Grosso: de Capitania a Estado (Dossiê temático) – Cuiabá: IHGMT; Entrelinhas (2024).

















