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Budismo, você conhece essa religião? Entende como funciona?

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Com raízes na Índia, prática tem atraído adeptos em Cuiabá, e em Mato Grosso, especialmente após a pandemia

 

O budismo, nascido na Índia há cerca de 2.500 anos, tem conquistado seguidores em Cuiabá e outras cidades de Mato Grosso. Apesar de contar com um grupo ainda pequeno de praticantes, a busca por serenidade mental e espiritual levou a um aumento no interesse pela religião, especialmente durante e após a pandemia, período marcado por ansiedade e incertezas.

A prática, baseada nos ensinamentos de Sidarta Gautama, conhecido como Buda, não inclui a veneração de um deus, como ocorre em outras religiões. Buda foi um homem que alcançou a iluminação e dedicou sua vida a ensinar o “caminho do meio”, um conceito de equilíbrio em todas as áreas da vida, pautado pela compaixão.

Muitos estudam o budismo por meio de livros e conteúdos digitais, enquanto outros buscam a vivência prática em templos. A pluralidade de interpretações permite que a prática seja encarada como filosofia ou religião, dependendo da perspectiva do praticante. Em templos locais, a abordagem religiosa é enfatizada, com rituais que seguem uma tradição espiritual.

A crença no renascimento, um dos pilares da doutrina, reforça a ideia de evolução contínua por meio de boas ações e autoconhecimento. Segundo os ensinamentos, Buda alcançou sua iluminação após vidas dedicadas à compaixão, acumulando virtudes e superando as negatividades humanas.

Com a crescente aceitação em Mato Grosso, o budismo tem se tornado uma alternativa para aqueles que buscam equilíbrio, superação de desafios emocionais e uma vida mais centrada. Mais do que uma crença, a prática reflete um compromisso com a harmonia interna e com atitudes compassivas no cotidiano.

A história dessa linhagem no Brasil começou em 18 de junho de 1908, com a chegada do navio Kassato Maru ao porto de Santos. Entre os passageiros estava o Mestre Ibaragui Nissui Shounin, considerado o padroeiro do budismo no Brasil. Ele foi o primeiro monge budista a pisar em solo brasileiro e realizou a primeira oração e cerimônia budista ainda em Santos, antes de o grupo seguir viagem para São Paulo.

 

Tradição em Mato Grosso 

Tempo budista localizado em Cuiabá recebe fieis. (Foto: Tchélo Figueiredo)

 

Em Mato Grosso, a presença do budismo primordial também tem raízes históricas. Alguns imigrantes japoneses, após chegarem ao Brasil, estabeleceram-se inicialmente em Rosário Oeste e, posteriormente, migraram para Cuiabá. Atualmente, a capital mato-grossense abriga um templo dessa tradição no bairro Santa Rosa, que continua promovendo a prática religiosa e preservando os ensinamentos do Sutra Lótus.

Essa presença reflete a diversidade cultural e religiosa de Cuiabá, oferecendo à comunidade uma oportunidade valiosa de aprofundar o autoconhecimento e a espiritualidade. Um dos líderes dessa tradição é o monge budista Eichin Suzuki, de 45 anos, descendente de japoneses da segunda geração. Ele segue os ensinamentos de seu mestre, Takasaki, com quem participou de diversas práticas budistas que enriqueceram sua formação espiritual. Atualmente, Eichin Suzuki atua no templo-sede do Budismo Primordial Honmon Butsuryu Shu, localizado em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, onde reside e conduz suas atividades religiosas.

Mensalmente, o monge viaja a Cuiabá para conduzir práticas e cerimônias no templo da capital mato-grossense. Durante essas visitas, que ocorrem geralmente aos domingos pela manhã, com início às 9h, ele realiza orações e orienta os membros da comunidade local.

Eichin Suzuki compartilha que a implantação dessa linhagem budista de origem japonesa no Brasil está profundamente ligada à história da imigração japonesa. O Budismo Primordial Honmon Butsuryu Shu chegou ao país com os imigrantes no início do século XX, sendo introduzido pelo Mestre Ibaragui Nissui Shounin, que realizou a primeira cerimônia budista em solo brasileiro em 1908, logo após desembarcar do navio Kassato Maru.

No caso de Cuiabá, a tradição foi trazida por famílias de descendentes japoneses que migraram para a região, estabelecendo as bases para o templo local. Atualmente, a comunidade budista da cidade se beneficia das orientações e ensinamentos do monge Eichin Suzuki, que tem contribuído para a preservação e o crescimento do Budismo Primordial em Mato Grosso.

“O budismo da nossa linhagem chegou ao Brasil junto com os imigrantes japoneses. No primeiro navio de imigrantes japoneses, havia um monge que é considerado o padroeiro do budismo no Brasil. Ele se chama Mestre Ibaragui Nissui (Tomojiro), e foi ele quem trouxe o budismo para o país. Enfrentou muitas dificuldades porque, naquela época, os japoneses vieram para substituir a mão de obra escrava dos negros, e a prioridade era a sobrevivência, não a prática religiosa. Somente depois de algum tempo, quando a situação começou a se estabilizar, ele conseguiu praticar como monge e, aos poucos, começou a propagar o budismo dentro da comunidade japonesa”, pontua o monge.

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Esse templo de origem japonesa está presente em Mato Grosso há quase trinta anos, enfrentando momentos de altos e baixos ao longo de sua trajetória no estado. Durante esse período, passou por mudanças de sede e superou diversos desafios, como destaca o monge Eichin Suzuki. 

“Um dos desafios que enfrentamos é a distância em relação aos principais templos e centros de prática, que estão em São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro. A matriz está localizada em São Paulo, o que torna essa distância um fator limitante. Outro desafio é o número ainda reduzido de pessoas envolvidas na prática aqui, mas, aos poucos, estamos conseguindo alcançar mais pessoas e expandir nossa presença”, ressalta.

Monge Eichin Suzuki. (Foto: Tchélo Figueiredo)

Apesar da dificuldade de ter um templo budista em Mato Grosso, devido à distância em relação aos estados das regiões Sudeste e Sul, e também pelo número menor de praticantes do budismo no estado, o monge Eichin destaca que, a cada mês, pessoas procuram o templo para conhecer melhor a religião. Isso ocorre porque o templo tenta alcançar as pessoas através das suas redes sociais, nas quais os cuiabanos ficam sabendo da presença do templo na cidade. 

Com isso, o número de interessados cresce, especialmente entre as mulheres, embora também haja procura por parte dos homens, porém em menor quantidade. O adepto ressalta que o objetivo do templo não é focar na quantidade de praticantes, mas sim na transmissão dos ensinamentos de Buda e na aplicação desses ensinamentos na vida cotidiana.

Eichin explica como ocorre o processo de ingresso para aqueles que desejam se tornar adeptos do budismo. Inicialmente, há uma fase de ensinamentos e práticas, durante a qual os indivíduos são guiados a trabalhar questões relacionadas ao ego e ao autoconhecimento. Esse período é fundamental para a preparação espiritual e emocional, culminando na conversão e na integração plena à comunidade budista.

“Primeiramente, convidamos a pessoa a participar das cerimônias e cultos. Geralmente, conversamos com ela para esclarecer dúvidas e explicar as práticas realizadas, mas o mais importante é a participação. Com o tempo, se a pessoa conseguir acompanhar as práticas conosco, realizamos a restauração de um mantra, um tipo de meditação ativa. À medida que ela vai praticando e amadurecendo seus sentimentos, se sentir o desejo de seguir esse caminho para sua vida, manifesta sua vontade”, relata. 

“A partir daí, realizamos uma cerimônia de ingresso no Budismo, uma espécie de conversão, que não se resume a se filiar a uma organização ou simplesmente declarar: “Agora pertenço a essa religião”. Na verdade, trata-se de um processo de entrega do ego ao Buda, de adotar seus ensinamentos e internalizar sua sabedoria e compaixão no coração, levando esses princípios como um tesouro que a acompanhará por toda a eternidade”, completa.

No Budismo, a conversão não está atrelada a mandamentos rígidos ou dogmas como em outras religiões. Diferentemente de tradições como o catolicismo, onde há a ideia de punição eterna para quem não segue certas regras, o Budismo trabalha com a consciência individual e a lei de causa e efeito, conhecida como Karma.

Isso significa que, se alguém agir de forma a causar sofrimento a outros, enfrentará as consequências naturalmente, mas sem ser excluído da prática budista. Não há preceitos cuja violação faça com que a pessoa deixe de ser budista. Um exemplo clássico é o preceito de não matar, que reflete os ensinamentos de Buda sobre evitar o sofrimento alheio.

Os preceitos budistas servem como guias para o desenvolvimento pessoal e a convivência em harmonia, respeitando as diferenças culturais e morais de cada sociedade. No Irã, no Brasil ou no Japão, as culturas e valores variam, mas há um entendimento universal de que causar sofrimento é algo a ser evitado.

Buda não impôs restrições arbitrárias, como dietas específicas, mas incentivou a reflexão individual para que cada pessoa, independentemente de sua origem, possa adotar ações que promovam virtudes e felicidade, tanto para si quanto para os outros. Assim, o Budismo é fundamentado na consciência e na responsabilidade pessoal, permitindo que cada indivíduo encontre o caminho para uma vida equilibrada e significativa.

Após a conversão ao Budismo, há um caminho a ser trilhado por aqueles que desejam se tornar monges. Esse processo envolve seguir uma linha de ensinamentos transmitidos de mestres a discípulos ao longo das gerações.

O monge Eichin, que escolheu abraçar essa jornada, explica que sua decisão foi baseada na dedicação aos ensinamentos de seu mestre e na vontade de aprofundar a prática budista. Esse aprendizado contínuo reflete a tradição de preservação e compartilhamento do conhecimento, que é fundamental para a perpetuação dos princípios e valores do Budismo.

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“Não se trata exatamente de um cargo, mas de um caminho que a pessoa decide trilhar. Essa é uma das características do próprio budismo: seguimos o Buda como nosso mestre. Os monges são aqueles que, por gratidão, escolhem seguir esse caminho, praticando e vivenciando os ensinamentos de Buda. Para isso, o monge geralmente se dedica a servir a um mestre, com o propósito de receber os ensinamentos de forma direta e aprender a trilhar o mesmo caminho. Essa prática de servir ao mestre também está relacionada ao cultivo da humildade e à aceitação genuína e sincera dos ensinamentos. Por exemplo, no meu caso, eu me determinei a me tornar monge e escolhi seguir um mestre aqui no Brasil. Esse mestre, por sua vez, também teve seu próprio mestre, que seguiu outro antes dele, e assim sucessivamente. Essa linhagem de mestres e discípulos mantém viva a essência dos ensinamentos de Buda, garantindo que sejam transmitidos de forma autêntica e fiel”, pontua Eichin Suzuki. 

Alguns anos após a instalação do Budismo em Mato Grosso, a busca pela religião cresceu significativamente durante o período da pandemia de Covid-19, que impactou o Brasil e o mundo. Com o fechamento de espaços públicos e as restrições para evitar aglomerações, as pessoas ficaram reclusas em casa, enfrentando o medo de contrair o vírus e o luto pela perda de entes queridos.

Esse cenário de incerteza e isolamento abalou profundamente o estado emocional da população, levando muitos a buscar equilíbrio e paz interior. Entre 2020 e 2021, o Brasil enfrentou momentos difíceis, e em Cuiabá a situação não foi diferente. Durante esse período, o interesse pelos ensinamentos budistas aumentou consideravelmente, como relata o monge Eichin Suzuki.

O templo budista da cidade registrou um crescimento expressivo no número de frequentadores, refletindo a busca das pessoas por práticas que ajudassem a lidar com o sofrimento e a fortalecer a saúde mental em meio à crise. 

 

“Olha, teve sim. A primeira vez que eu vim foi alguns meses depois, mas a gente conseguiu retomar com distanciamento e máscara. Muitas pessoas realmente vieram, não vou dizer desequilibradas, porque não são pessoas totalmente desequilibradas, mas realmente com sofrimentos, na parte psicológica e interior. Nem todas ingressaram, algumas ingressaram, mas muitas delas vieram para sanar algum problema que estavam tendo naquele momento. Eu acho que a Covid, a pandemia, deixou sequelas em todos. De alguma maneira, deixou em algumas pessoas, e naquele momento elas realmente vinham para ter algum alívio, alguma angústia que estavam sentindo”, aponta. 

Apesar do aumento na procura durante o período da pandemia, o monge Eichin destaca que o templo em Cuiabá vive atualmente uma fase positiva e está em constante desenvolvimento. Ele revela que há planos futuros para ampliar as atividades do templo, com o objetivo de tornar o Budismo mais acessível e difundido na região. A iniciativa visa fortalecer a presença da religião na cidade e atrair mais pessoas interessadas em seus ensinamentos e práticas.

“A gente está vivendo um bom momento. As pessoas têm chegado. Na verdade, este local aqui é meio provisório. Temos um plano de construir, talvez aqui mesmo ou ampliar para o terreno ao lado e construir ali. A ideia é criar um local mais definitivo para a prática, que seria uma nave de prática já permanente, e conseguir realmente enraizar o Budismo aqui em Cuiabá. Acredito que, ainda, estamos assim, plantando, regando. A raiz está se aprofundando, mas ainda, digamos, está frágil”, finaliza o monge Eichin Suzuki.

O templo budista em Cuiabá se mantém por meio de doações vindas da matriz em Presidente Prudente, São Paulo, além de atividades realizadas pelos membros locais, como feiras e bazares. Essas iniciativas envolvem cultura, alimentação e ajudam a arrecadar fundos para a manutenção do espaço.

Além disso, os templos budistas, em geral, sustentam-se pelas doações e pelo desprendimento de fiéis e devotos. Os monges recebem ofertas dos seguidores, que garantem a subsistência do local, sendo essas as principais fontes de renda, além de outras iniciativas relacionadas.

Em Cuiabá, o templo funciona todos os domingos, às 9 horas da manhã, no bairro Santa Rosa. As orações e práticas são conduzidas pelos fiéis locais, que assumem a responsabilidade de guiar as atividades. Atualmente, o templo não conta com um monge residente, e o monge Eichin, da matriz em São Paulo, visita Cuiabá uma vez por mês para ministrar os cultos e permanecer alguns dias na cidade.

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