O comprimido branco tem história para contar, desde que sua fórmula, talvez tão antiga quanto a Medicina, foi padronizada pelo químico alemão Felix Hoffmann em 1897. Três anos depois a aspirina chegava às farmácias. Em 1950, ganhou o certificado de recordista do Guinness Book por ser o analgésico mais vendido do mundo e, para resumir peripécias que incluem até um Nobel a quem descobriu o seu mecanismo de ação, ainda viajou para a Lua em 1969, na caixinha de primeiros socorros do astronauta Neil Armstrong. Agora, aterrissa no cenário dramático da covid-19.Um estudo da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, acena com a possibilidade de esse medicamento reduzir internações na UTI, necessidade de ventilação mecânica e mortalidade — o que, nos últimos três dias, vem dando no que falar.Em meio ao zunzunzum, passou batida uma nota publicada no mesmíssimo dia, só que no site do Recovery, que é um dos maiores estudos com o intuito de ver o que funciona e o que não funciona para tratar a covid-19, realizado em diversos centros do mundo e envolvendo mais de 39 mil pacientes. Essa nota é que deveria fazer rufar os tambores, talvez.Discretíssima, com algumas linhas quase escondidas na área de staff do site, ela informou na última segunda-feira, 22, que não estão mais recrutando pacientes para o braço que testa os efeitos da aspirina na infecção pelo novo coronavírus. Motivo? Há gente comparada o suficiente para que os dados sejam analisados e, se o uso da aspirina for benéfico, isto é, se ela reduzir a mortalidade por covid-19 em pelo menos 12,5%, o estudo já será capaz de mostrar isso. A nota se despede afirmando que “não vêem a hora de anunciar esse importante resultado para todos”.”O Recovery é um ensaio clínico, ou seja, nele você dá um tratamento de propósito para determinado grupo — no caso, com aspirina — e não dá para outro, comparando os dois e ajustando uma série de variáveis para não misturar as coisas”, explica o hematologista Erich de Paula, que é professor da Unicamp e coordenador do comitê de hemostasia e trombose da ABHH (Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular). “É diferente de um estudo observacional, como este da George Washington, em que você só olha para trás e associa o que as pessoas fizeram ao que acabou acontecendo com elas.”
POR: UOL.com





















