Formação geológica conhecida como elevação do Rio Grande, do tamanho da Espanha, contém minerais conhecidos como “terras raras” utilizados, entre outras coisas, em baterias e cobiçados no mundo todo.
Por Humberto Azevedo
Uma formação submersa do tamanho da Espanha, que era uma ilha tropical próxima ao Brasil – a 1,2 quilômetros da costa brasileira no Rio Grande do Sul (RS), “descoberto” em 2023 é reivindicada pelo governo brasileiro com território nacional e considerada um tesouro dentre os “minerais do futuro”.
Estudo liderado, desde 2018, por pesquisadores brasileiros da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Universidade de Southampton dos Estados Unidos da América (EUA), concluiu que a área de riqueza submarina contém minerais conhecidos como “terras raras” utilizadas, entre outras coisas, em baterias de celulares a carros elétricos. E são cobiçados em todo o mundo.
A elevação do Rio Grande é uma porção possivelmente continental submersa, que entre 45 milhões e 40 milhões de anos atrás era uma gigantesca ilha tropical, coberta de vegetação e rica em minérios. Desde o início das pesquisas, o governo brasileiro reivindica o território para si junto à Organização das Nações Unidas (ONU) por esta área ter sido um dia território do que hoje é o Brasil.
A reivindicação é feita com base na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), que permite aos países ampliar sua plataforma continental, desde que comprovem essa continuidade geológica. Evidências científicas mostram que o solo, antes de submergir, era idêntico ao do interior de São Paulo.
De acordo com pesquisadores, a área mapeada possui picos que ultrapassam quatro mil metros de altura, ou seja, mais altos que o Pico da Neblina, que é a montanha mais elevada do Brasil, que tem menos de três mil metros e está localizada em Roraima (RR).
Os estudos apontam que a ilha de 500 mil quilômetros (km²) contém minerais estratégicos para a transição energética, além de basalto – que é uma rocha vulcânica com camadas de argila vermelha — que comprovam que o local já foi uma ilha vulcânica tropical.
“São minerais que ocorrem na natureza. Ou o país tem reserva ou não tem, não tem como criar uma indústria de minerais. E o Brasil tem muito desta riqueza. O que encontramos é uma concentração anômala de minerais na Elevação Rio Grande”, explica a pesquisadora da USP, Carina Ulsen.
TRANSFORMAÇÃO

Estudos indicam ainda que a antiga ilha vulcânica era recoberta de florestas e rodeada por recifes. Com o tempo, a formação foi sendo naturalmente erodida pela ação do vento, da chuva e das ondas, e coberta por sucessivas erupções de lava, que deram origem aos tapetes de argila vermelha espremidos entre camadas de basalto preto.
As primeiras evidências começaram a aparecer em fevereiro de 2018, numa expedição liderada por pesquisadores do Instituto Oceanográfico (IO) da USP que utilizou um navio de pesquisa para realizar dragagens.
Uma segunda expedição, realizada oito meses depois com um navio britânico, permitiu liberar um veículo submarino não-tripulado de operação remota (ROV), que fez imagens em alta resolução das camadas expostas na borda do cânion que corta a elevação do Rio Grande, conhecido como a “Grande Fenda”, ou Rifte Cruzeiro do Sul, na nomenclatura oficial.
Atualmente, pesquisadores da USP e de outras universidades, como da Mackenzie, da Universidade de Brasília (UNB), Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), buscam estudar questões como legislação internacional, impactos ambientais, biologia, geologia e outros aspectos da Elevação Rio Grande.
PROCESSO NA ONU

Segundo a Marinha do Brasil, a elevação do Rio Grande fica em uma área conhecida como Margem Oriental-Meridional. Essa área é uma das três que são reivindicadas pelo governo brasileiro em águas internacionais. A margem oriental meriodional tem 1,5 milhão de km² e fica mais ao Sul.
Além dessa, há os territórios nomeados Região Sul e Margem Equatorial. As três áreas ficam além da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) do Brasil, que é um território marítimo que abrange uma faixa de 200 milhas náuticas, aproximadamente 370 quilômetros, a partir do litoral, estabelecido como território brasileiro desde a assinatura da CNUDM, em 10 de dezembro de 1982.
O território, além desta faixa, é considerado patrimônio da humanidade. O pleito do governo brasileiro por controle da margem oriental meridional está em análise pela Comissão de Limites da Plataforma Continental (CLPC) da CNUDM sobre o Direito do Mar desde 26 de fevereiro de 2025.
Ainda de acordo com a Marinha, que é responsável por esse tipo de solicitação às autoridades internacionais, um documento emitido pela CLPC em março referendou a metodologia e os argumentos utilizados pelo Brasil na definição do novo território. Agora, o Brasil aguarda definição da ONU sobre o pedido. Não há prazo para resposta.
No que diz respeito ao pedido do governo brasileiro, essa similaridade é um dos principais aspectos levados em conta pelos órgãos internacionais que fazem a avaliação. “O fato de que estamos encontrando esses indícios, de que essa área era uma ilha até pouco tempo atrás, é muito importante, porque mostra que havia uma relação direta com o continente”, avalia o pesquisador Luigi Jovane, da USP.
2ª MAIOR RESERVA DO MUNDO
De acordo com o Ministério de Minas e Energia (MME), o Brasil tem a segunda maior reserva de “terras raras” do mundo. Contudo, ainda não domina plenamente a tecnologia de beneficiamento e transformação industrial desses minerais. Na prática, isso significa que o país ainda exporta, em boa parte, os minerais como commodities brutas, sem agregar valor.
Com informações do G1 e Revista da Fapesp
























