Agosto chegou mais uma vez tingido de lilás. É o mês destinado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher, instituído nacionalmente pela Lei nº 14.448, de 2022. Mais do que uma data no calendário, porém, o Agosto Lilás deveria nos impor uma pergunta incômoda: o que estamos fazendo, de fato, para impedir que mulheres continuem morrendo, sendo agredidas, ameaçadas, humilhadas e silenciadas?
Em Mato Grosso, essa pergunta não pode ser respondida com discursos genéricos ou campanhas que desaparecem junto com o mês de agosto.
Os números são duros demais para permitir complacência. Em 2025, Mato Grosso registrou 54 feminicídios e alcançou a terceira maior taxa do país: 2,7 mortes para cada 100 mil mulheres. Sete das vítimas possuíam Medida Protetiva de Urgência ativa quando foram assassinadas. Entre janeiro e julho de 2026, outros 27 casos de feminicídio já haviam sido registrados no Estado.
Não são apenas estatísticas. Cada número representa uma vida interrompida, uma família atingida, filhos que crescem sem suas mães e uma sociedade que, muitas vezes, só se pergunta onde falhou quando já não há mais possibilidade de reparar o dano.
Mas seria um erro imaginar que a violência contra a mulher começa no feminicídio. O assassinato é, frequentemente, o último capítulo de uma história que começou muito antes.
Começa no controle disfarçado de cuidado. Na exigência de saber onde ela está. Na proibição de determinadas amizades. Na vigilância sobre o celular. Na humilhação repetida até que a vítima passe a duvidar de si mesma. Na ameaça. No medo. Na destruição da autoestima. Na violência psicológica que não deixa marcas visíveis no corpo, mas pode deixar feridas profundas e duradouras.
Os dados de Mato Grosso ajudam a compreender a dimensão desse problema. Em 2025, os registros de violência psicológica contra mulheres cresceram 70,3% em relação ao ano anterior, saltando de 2.151 para 3.720 ocorrências. O Estado passou a registrar uma das maiores taxas do país.
Os casos de perseguição, o chamado stalking, também cresceram 31,6%, chegando a 2.970 registros. Esses números precisam nos fazer abandonar uma ideia perigosa: a de que só existe violência quando há agressão física.
A Lei Maria da Penha reconhece diferentes formas de violência contra a mulher. A agressão pode ser física, psicológica, moral, sexual ou patrimonial. Pode acontecer dentro de casa, mas também no ambiente de trabalho, nas relações afetivas, nos espaços públicos e, cada vez mais, no ambiente digital.
O Conselho Nacional de Justiça destaca que a violência contra as mulheres é reconhecida internacionalmente como uma violação dos direitos humanos e também como um grave problema de saúde pública. A própria estrutura da política judiciária brasileira passou a considerar a necessidade de proteção diante das diferentes formas de violência, inclusive psicológica, moral, patrimonial e institucional.
Por isso, enfrentar a violência exige mais do que prender agressores depois que o crime aconteceu. Exige prevenir. Exige ouvir. Exige acreditar na vítima. Exige identificar os sinais antes que a violência se transforme em tragédia. E exige reconhecer que nenhuma mulher deveria precisar provar, repetidas vezes, que está sofrendo.
Há um dado particularmente doloroso no cenário mato-grossense: sete mulheres assassinadas em 2025 possuíam medidas protetivas ativas. Isso não diminui a importância desse instrumento, que é fundamental e pode salvar vidas, mas reforça a necessidade de aperfeiçoar permanentemente a rede de proteção, a avaliação de risco, o acompanhamento dos agressores e a integração entre segurança pública, Justiça, assistência social e saúde.
O próprio CNJ desenvolveu instrumentos para auxiliar na avaliação do risco e prevenir a reincidência e o agravamento da violência, justamente porque sabemos que a violência doméstica não é um episódio isolado. Muitas vezes, ela se apresenta como um ciclo: agressão, arrependimento, promessas de mudança, reconciliação e, novamente, violência.
Romper esse ciclo não é simples, porque não podemos dizer para uma mulher que “é só ir embora” e deixar tudo para trás, sendo que ela não tem nenhuma renda e está com filho pequeno do lado.
Quem vive uma situação de violência pode enfrentar medo, dependência econômica, chantagem emocional, ameaças contra os filhos, isolamento da família e dos amigos e uma destruição gradual da própria capacidade de acreditar que merece uma vida diferente. Por isso, responsabilizar a vítima por não conseguir sair imediatamente da relação é apenas mais uma forma de não compreender a complexidade do problema.
A responsabilidade é total do agressor que deve ser punido de forma mais rígida pela lei, que precisa sim ser reforçada. Afinal de contas, enfrentamento é uma obrigação coletiva da sociedade, mas ainda mais do poder público brasileiro de todos os setores, tanto jurídico quanto do executivo.
Como dirigente sindical e como mulher, considero fundamental ampliar essa discussão também para os ambientes de trabalho. O local onde uma mulher exerce sua profissão precisa ser um espaço de dignidade, segurança e respeito, e não de assédio moral, sexual, intimidação ou silenciamento.
Instituições públicas, empresas, sindicatos e toda a sociedade precisam assumir responsabilidade na construção de mecanismos efetivos de prevenção, acolhimento e encaminhamento das denúncias. A proteção dos direitos das mulheres deve alcançar todos os espaços da vida social. Lembrando que o silêncio, nesse contexto, não é neutralidade.
Quando vizinhos escutam gritos e fingem não ouvir; quando colegas percebem mudanças no comportamento de uma mulher e escolhem não perguntar se ela precisa de ajuda; quando amigos tratam ameaças como “briga de casal”; quando instituições desestimulam denúncias para evitar problemas, todos contribuímos para a permanência de uma cultura que protege mais o agressor do que a vítima. Precisamos mudar isso com urgência no Brasil.
Uma sociedade verdadeiramente comprometida com a proteção das mulheres não pode esperar o feminicídio para se indignar. A indignação precisa existir quando aparece a primeira ameaça, a primeira agressão, a primeira perseguição, a primeira tentativa de controle.
Não existe vergonha em pedir socorro. Vergonha é uma sociedade permitir que mulheres continuem vivendo com medo e não fazer nada para mudar essa realidade que chega na porta milhares delas todos os dias.
O Agosto Lilás precisa ser, portanto, mais do que uma campanha. Precisa ser um compromisso permanente. Um compromisso com políticas públicas, com prevenção, com acolhimento psicológico, com investigação eficiente, com proteção efetiva e com a responsabilização dos agressores.
Mas, acima de tudo, precisa ser um compromisso com a vida dessas mulheres que um dia saíram de casa apenas querendo ser feliz em um novo lar e construir uma família que pudesse se orgulhar, algo que nós não temos vistos nos noticiários diariamente.
Nenhuma mulher deve aceitar a violência como destino. Nenhuma ameaça deve ser tratada como normal. Nenhuma agressão deve ser relativizada em nome de um relacionamento, de uma família ou de aparências.
É possível romper o ciclo. É possível pedir ajuda. É possível reconstruir a vida longe da violência física, moral e psicológica. Para isso, precisamos transformar a conscientização em atitude, em agosto e nos outros onze meses do ano.
E é importante dizer diretamente às mulheres que hoje vivem alguma forma de violência, vocês não precisam enfrentar isso sozinhas.
Buscar ajuda não é fraqueza. Denunciar não é destruir uma família. Pedir apoio psicológico não é sinal de incapacidade. Ao contrário, é reconhecer a violência e procurar uma rede de proteção pode ser o primeiro passo para reconstruir a autonomia, a segurança e a própria vida.
O atendimento psicológico pode ajudar a vítima a compreender a situação vivida, recuperar a autoestima e elaborar estratégias para romper com relações violentas. A orientação também pode ser buscada na rede pública de saúde, nos serviços especializados de assistência e proteção às mulheres e por meio dos canais que indicam os serviços disponíveis em cada região.
A Central de Atendimento à Mulher funciona gratuitamente pelo 180, com suporte 24 horas por dia, todos os dias da semana. O serviço oferece orientação sobre direitos, informa os serviços especializados mais próximos e recebe denúncias, inclusive de pessoas que tenham conhecimento de situações de violência.
Em Mato Grosso, a rede estadual orienta que, em situação de violência em andamento ou risco imediato, seja acionada a Polícia Militar pelo 190. Para registrar ocorrências e buscar atendimento da Polícia Civil, há o 197, além das Delegacias Especializadas de Defesa da Mulher e demais unidades da rede de proteção. E procure ajuda mais próxima o mais rápido possível.
*Carmen Machado é servidora aposentada do estado e presidente da Federação Sindical dos Servidores Públicos de Mato Grosso (FESSP-MT)*




















