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SOBRETUDO A BOLSA JÁ FEZ SUA ESCOLHA. AGORA FALTA O BRASIL ENTREGAR O RESULTADO.

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A BOLSA JÁ FEZ SUA ESCOLHA. AGORA FALTA O BRASIL ENTREGAR O RESULTADO.

O mercado financeiro não vota, mas reage às urnas. E, muitas vezes, começa a movimentar bilhões antes mesmo de uma eleição terminar. Foi o que aconteceu depois do primeiro turno da disputa presidencial. A Bolsa brasileira disparou, o dinheiro estrangeiro entrou em volume extraordinário e os investidores passaram a precificar um cenário econômico diferente para o país.

Os números impressionam. O EWZ, principal ETF de ações brasileiras negociado nos Estados Unidos, registrou a criação de 63,4 milhões de cotas em uma única semana, o equivalente a aproximadamente US$ 2,7 bilhões, segundo os dados divulgados pela BlackRock. Desde seu lançamento, em 2000, o fundo não havia registrado uma entrada semanal dessa magnitude.

Na B3, os investidores estrangeiros aportaram R$ 12,2 bilhões em quatro pregões. No mesmo período, o Ibovespa avançou 8,82%, alcançou os 209.066 pontos e registrou sua melhor semana em mais de seis anos. As small caps, ações de empresas menores, subiram 20,1%, enquanto o dólar recuou 4,49%.

Não estamos falando apenas de uma Bolsa em alta. Estamos diante de uma mudança expressiva na percepção de risco do Brasil.

O DINHEIRO ESTÁ ANTECIPANDO A POLÍTICA

Parte dos investidores internacionais passou a enxergar na possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro uma mudança na condução da economia brasileira. A expectativa envolve maior responsabilidade fiscal, redução das incertezas, queda dos juros de longo prazo e um ambiente mais favorável aos investimentos privados.

O mecanismo é conhecido. Quando o mercado acredita que o risco fiscal pode diminuir, os investidores aceitam pagar mais pelas empresas brasileiras. A entrada de dólares pode fortalecer o real, a redução dos juros futuros pode valorizar ações e o custo de financiamento das empresas pode cair.

É por isso que a valorização das small caps merece atenção. Empresas menores costumam ser mais sensíveis ao custo do crédito e às perspectivas de crescimento. Quando esses papéis sobem com intensidade, o mercado pode estar antecipando uma economia com condições financeiras melhores.

Mas existe uma diferença fundamental entre antecipar um cenário e comprovar que ele vai acontecer.

O dinheiro não está chegando porque as contas públicas já melhoraram ou porque os juros já caíram de forma sustentável. Está chegando porque uma parcela dos investidores acredita que essas mudanças poderão acontecer.

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O mercado está comprando uma expectativa.

A CONFIANÇA TEM UM PREÇO

O Goldman Sachs vê espaço para novas altas da Bolsa, mas condiciona esse cenário à redução dos juros longos e a uma política fiscal mais responsável. A ressalva é importante. Mostra que o entusiasmo não representa uma aposta sem condições.

O problema é que, até aqui, a expectativa de mudança ainda precisa ser acompanhada de definições concretas sobre a política econômica. Qual será a equipe responsável pela economia? Como o próximo governo pretende estabilizar a dívida pública? De onde virá o equilíbrio fiscal? Quais despesas serão revistas e como conciliar responsabilidade orçamentária com crescimento?

Essas respostas serão decisivas.

Uma coisa é apresentar compromissos durante a campanha. Outra é construir maioria no Congresso, negociar medidas, enfrentar resistências e sustentar decisões que podem produzir resultados apenas no médio e longo prazo.

O próximo governo não terá apenas de administrar o país. Terá de corresponder a uma expectativa que já começou a movimentar bilhões.

Quanto maior a confiança antecipada, maior o risco de frustração caso as medidas adotadas fiquem abaixo do esperado.

E o mercado costuma ser implacável quando percebe que comprou uma promessa que não se transforma em realidade.

BOLSA EM ALTA NÃO SIGNIFICA PAÍS MAIS RICO

Há outro aspecto que precisa entrar nessa discussão. A valorização das ações aumenta o patrimônio de quem investe e pode facilitar o financiamento das empresas, mas não significa, automaticamente, que o Brasil ficou mais produtivo, que o desemprego diminuiu ou que a renda da população aumentou.

O mercado financeiro trabalha com expectativas sobre o futuro. A economia real depende de investimento produtivo, infraestrutura, educação, produtividade, segurança jurídica e capacidade de gerar empregos e renda.

Uma Bolsa em recordes pode antecipar uma fase de crescimento. Também pode refletir uma mudança temporária de percepção, que será revista se os fundamentos não acompanharem os preços.

O capital estrangeiro é importante, mas não é dinheiro comprometido com o país. Entra quando encontra oportunidades e sai quando entende que os riscos aumentaram ou que existem alternativas mais atraentes em outros mercados.

O mesmo investidor que compra ações brasileiras diante da expectativa de uma mudança pode vender rapidamente se concluir que essa mudança não acontecerá como imaginava.

Por isso, a entrada extraordinária de recursos deve ser vista como uma oportunidade, não como um cheque em branco.

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O TESTE COMEÇA AGORA

A correção do mercado nos dias seguintes à disparada mostrou que a euforia não eliminou as incertezas. Pesquisas eleitorais, declarações dos candidatos, alianças políticas e sinais sobre a futura política econômica continuam influenciando os preços.

Depois de uma alta tão expressiva, também é preciso perguntar quanto da expectativa positiva já está incorporado ao valor das ações. Nem toda empresa continuará subindo na mesma proporção, e perseguir uma valorização passada pode significar assumir riscos sem avaliar adequadamente o preço pago.

Para o país, porém, a questão é maior do que o comportamento da Bolsa.

Se a expectativa de mudança se transformar em responsabilidade fiscal, previsibilidade e crescimento sustentável, o Brasil poderá aproveitar a entrada de capital para fortalecer o mercado de capitais, estimular investimentos e criar condições para uma expansão econômica mais consistente.

Se as promessas não se materializarem, a mesma velocidade que trouxe o dinheiro poderá levá-lo embora. Os juros poderão voltar a pressionar, o real poderá perder força e parte da valorização poderá ser devolvida.

Não existe crescimento sustentável sem confiança. Mas confiança duradoura não se constrói apenas com expectativas. Exige decisões, resultados e capacidade de manter um rumo mesmo diante das dificuldades.

PONTO DE VISTA

O movimento da Bolsa revela que parte importante dos investidores internacionais acredita na possibilidade de uma nova etapa para a economia brasileira. Ignorar esse sinal seria um erro. Confundir essa aposta com uma melhora já consolidada seria outro.

Não se trata de transformar o mercado financeiro em eleitor ou de interpretar a valorização das ações como uma aprovação automática de determinado candidato. O investidor busca retorno e avalia riscos. A sociedade precisa cobrar muito mais do que isso de quem pretende governar o país.

O próximo presidente terá de demonstrar que é capaz de equilibrar as contas públicas, criar condições para juros menores, estimular investimentos e gerar crescimento sem comprometer a estabilidade econômica. Também precisará transformar os possíveis ganhos financeiros em oportunidades que alcancem empresas, trabalhadores e famílias.

A eleição provocou a primeira reação. A política econômica determinará se ela terá continuidade.

O mercado já fez sua escolha. Agora, o Brasil precisa descobrir se a política será capaz de entregar o resultado.

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