Programa de renegociação avança, mas especialistas alertam para riscos de novo ciclo de dívidas e impacto dos juros altos na economia
Em um cenário de juros elevados, inflação ainda acima da meta e forte endividamento das famílias, o programa Desenrola Brasil volta a ocupar espaço no debate econômico. A iniciativa busca facilitar a renegociação de dívidas e permitir a reorganização financeira de consumidores e empresas.
Para o economista e consultor Vivaldo Lopes, no entanto, os resultados dependem não apenas das regras do programa, mas também do comportamento financeiro da população e do ambiente macroeconômico do país. Segundo Vivaldo, o problema do endividamento no Brasil se intensificou após a pandemia, quando o sistema financeiro passou por uma transformação profunda. O avanço das fintechs e dos bancos digitais ampliou o acesso ao crédito e facilitou a abertura de contas, reduzindo barreiras históricas do sistema bancário tradicional.
Nesse processo, milhões de brasileiros passaram a integrar o sistema financeiro. A expansão veio acompanhada de uma forte oferta de cartões de crédito, empréstimos pessoais e crédito consignado, muitas vezes liberados de forma automática e com pouca análise da capacidade de pagamento.
“Cerca de 95 milhões de brasileiros que nunca haviam tido conta bancária passaram a integrar o sistema financeiro.”
Para o economista, esse movimento criou um ambiente de excesso de crédito, no qual o consumo cresceu mais rapidamente do que a renda das famílias, especialmente em um período de instabilidade econômica provocado pela pandemia. Na avaliação de Vivaldo Lopes, a primeira fase do programa teve um papel importante na recomposição financeira de famílias e pequenas empresas. A proposta de substituir dívidas antigas e caras por novas condições mais acessíveis ajudou a reduzir o peso dos juros e reorganizar compromissos financeiros.

“O programa permitiu que pessoas e pequenas empresas substituíssem dívidas antigas e com juros elevados por financiamentos com prazos maiores e custos menores.”
Segundo ele, a iniciativa contribuiu para aliviar o nível de inadimplência e dar fôlego à economia, especialmente em um momento de fragilidade da renda. Em relação à nova fase do programa, o economista demonstra maior cautela. Para ele, parte das novas regras desloca o foco da inadimplência para consumidores que já estão em dia com seus pagamentos, o que reduz a efetividade da política pública.
Vivaldo também questiona o papel do governo nesse tipo de operação, defendendo que renegociações mais vantajosas deveriam ocorrer naturalmente pelo mercado financeiro, por meio da concorrência entre bancos.
“Esse tipo de operação deve ocorrer por meio da concorrência entre os bancos, sem necessidade de intervenção do governo.”
Mesmo reconhecendo os benefícios da renegociação, o economista alerta para a importância da análise individual antes da adesão ao programa. O primeiro ponto, segundo ele, é avaliar se a nova parcela cabe no orçamento familiar, evitando a reincidência no endividamento.
Outro fator essencial é comparar o custo total da dívida antiga com o da nova renegociação, levando em conta juros, prazos e encargos. Mais do que isso, Vivaldo reforça que a sustentabilidade financeira depende de comportamento.
“Se a pessoa assumir uma nova dívida com parcelas acima da sua capacidade de pagamento e não buscar educação financeira, há um grande risco de voltar a se endividar.”
O Desenrola também alcança micro e pequenas empresas, segmento considerado estratégico para a geração de empregos e renda. Para o economista, a reestruturação das dívidas empresariais pode liberar capital para investimento e capital de giro, fortalecendo o setor produtivo. Ele lembra que situações semelhantes já ocorreram no passado, como na crise do agronegócio em Mato Grosso em 2005 e 2006, quando o refinanciamento de dívidas foi essencial para a retomada do crescimento.
A lógica, segundo ele, é semelhante: ao reduzir o peso dos juros, as empresas recuperam capacidade de investimento e voltam a operar com mais equilíbrio financeiro.

Apesar das políticas de renegociação, Vivaldo destaca que o principal obstáculo ao crescimento econômico ainda está na taxa de juros elevada, que encarece o crédito e dificulta novos investimentos.
A inflação, segundo ele, também segue acima do nível considerado ideal, o que reduz o poder de compra das famílias e mantém a economia em ritmo mais lento.
“O principal fator que inibe o crescimento econômico e eleva o custo do crédito para as empresas é a taxa de juros.”
Para o economista, o caminho para o crescimento sustentável passa por uma combinação de juros mais baixos e inflação controlada, criando um ambiente mais previsível para empresas e consumidores.
Na avaliação final, Vivaldo Lopes considera que o momento pode ser favorável para renegociação de dívidas, especialmente diante do alto custo do crédito no país. No entanto, reforça que a recuperação financeira depende de planejamento e disciplina no uso do crédito, evitando que o alívio momentâneo se transforme em um novo ciclo de endividamento.

















