Existe um equívoco recorrente na política brasileira. A cada ciclo eleitoral, as convenções partidárias são tratadas como cerimônias protocolares destinadas apenas a homologar candidaturas. Na prática, elas cumprem uma função muito mais importante. As convenções não escolhem apenas quem disputará a eleição. Elas revelam quem realmente controla os partidos, quem consegue impor sua estratégia e, principalmente, quem sai da reunião convencido — ou apenas derrotado.
Santa Catarina chega às convenções de 2026 carregando um cenário raro. Os principais partidos entram nesse momento decisivo com alianças desenhadas, mas ainda convivendo com profundas divergências internas. Isso significa que as atas registrarão decisões. Mas as campanhas dependerão da disposição das lideranças em transformar essas decisões em trabalho político nos municípios.
E essa não é uma diferença pequena.
É ela que costuma decidir eleições.
O MDB é um bom exemplo.
Tudo indica que a convenção confirme o apoio formal à candidatura de João Rodrigues. Institucionalmente, o partido deverá caminhar unido. Politicamente, porém, a realidade é mais complexa.
O MDB catarinense sempre foi um partido de forte autonomia regional. Prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e lideranças locais historicamente constroem suas estratégias muito mais a partir das realidades municipais do que das decisões da executiva estadual.
Na prática, isso significa que a convenção poderá entregar o partido para João Rodrigues.
Mas não necessariamente todos os emedebistas.
A ata resolve o CNPJ.
A campanha dependerá dos CPFs.
E, em Santa Catarina, nunca foi prudente subestimar o peso político dos CPFs.
O Progressistas talvez represente o caso mais emblemático desta eleição.
A Federação União Progressista deverá colocar oficialmente sua estrutura — fundo eleitoral e tempo de televisão — à disposição da candidatura de João Rodrigues.
No papel, trata-se de um ativo valioso.
Na política real, porém, existe outra variável.
Hoje, é perceptível que uma parcela expressiva de prefeitos, vereadores, lideranças municipais e pré-candidatos do Progressistas mantém proximidade política com o governador Jorginho Mello. Ao mesmo tempo, outra ala relevante do partido, liderada pelo senador Esperidião Amin, sustenta a construção da aliança em torno de João Rodrigues.
Essa talvez seja uma das situações mais curiosas da política catarinense recente.
Um partido poderá entregar seus ativos institucionais para uma candidatura enquanto parte significativa de sua base política trabalha por outra.
Isso não significa necessariamente rebelião.
Mas significa que a convenção encerrará a discussão formal sem eliminar a disputa política.
O PSD também muda de posição após as convenções.
Até aqui, João Rodrigues ocupava uma condição relativamente confortável. Era o principal nome da oposição e podia concentrar seu discurso na construção de uma alternativa ao governo.
Depois da convenção, a responsabilidade muda de tamanho.
João deixa de ser apenas o candidato do PSD.
Passa a ser o responsável por manter coeso um bloco formado por partidos com histórias, interesses e lideranças muito diferentes entre si.
Construir uma aliança é um desafio.
Administrá-la durante uma campanha costuma ser ainda maior.
Do outro lado, o PL chega às convenções em uma condição distinta.
Jorginho Mello entra nesse momento com a vantagem de comandar a máquina estadual e reunir um conjunto importante de aliados. Seu desafio não parece ser interno. Será manter a coalizão mobilizada durante toda a campanha e impedir que acomodações locais produzam desgastes desnecessários.
Quem governa sempre enfrenta um problema específico.
Precisa administrar expectativas de quem apoia.
E alianças amplas, por definição, geram expectativas amplas.
A esquerda também chega às convenções carregando seus próprios desafios.
Os ruídos em torno da composição da chapa, especialmente as reações internas à escolha da esposa do prefeito Dário Berger para uma suplência, revelam que nem mesmo um campo político que costuma valorizar o discurso da unidade está imune às disputas por espaço.
Toda escolha produz vencedores.
E também produz frustrações.
O desafio das direções partidárias será impedir que essas frustrações ultrapassem as portas da convenção.
Porque campanhas não são movidas apenas por decisões políticas.
São movidas por entusiasmo.
E entusiasmo não se decreta.
Existe uma tendência de imaginar que a convenção encerra um período de negociações.
Na verdade, ela inaugura outro.
Até agora, a disputa acontecia dentro dos partidos.
A partir das convenções, ela passa para dentro das campanhas.
Quem perdeu espaço exigirá compensações.
Quem ganhou protagonismo precisará demonstrar capacidade de liderança.
Quem aceitou acordos cobrará reciprocidade.
Quem saiu contrariado decidirá, em silêncio, o tamanho do seu empenho.
É justamente aí que muitas eleições começam a ser definidas.
PONTO DE VISTA
A política costuma valorizar fotografias.
As convenções produzirão belas imagens de unidade.
Presidentes partidários de mãos dadas.
Discursos de convergência.
Palanques lotados.
Aplausos.
Mas eleições raramente são decididas pelas fotografias.
São decididas pelo que acontece quando as luzes se apagam.
Quando cada prefeito volta para sua cidade.
Quando cada vereador organiza sua base.
Quando cada deputado escolhe onde investirá seu tempo.
Quando cada liderança decide quanto da própria energia colocará a serviço da candidatura homologada.
É nesse momento que as alianças deixam de ser institucionais para se tornarem políticas.
E essa é uma diferença que nenhuma ata consegue registrar.
A PERGUNTA QUE FICA
Depois das convenções, Santa Catarina verá partidos realmente unidos em torno de seus candidatos… ou apenas partidos oficialmente alinhados, mas politicamente divididos em seus municípios?
Porque convenções homologam candidaturas.
Mas eleições continuam sendo vencidas — ou perdidas — pela capacidade de transformar decisões partidárias em compromisso político verdadeiro.

























