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SOBRETUDO

Na política, chegou o momento em que errar pode custar mais do que acertar

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Existe uma percepção comum de que eleições são vencidas por grandes discursos, alianças surpreendentes ou campanhas brilhantes. A história mostra que isso acontece, mas com menos frequência do que se imagina. Em muitos casos, especialmente quando a disputa entra na reta decisiva, o resultado não é determinado pelo candidato que mais acerta, mas por aquele que consegue cometer menos erros.

Santa Catarina parece estar entrando exatamente nessa fase.

A pré-campanha cumpriu praticamente todas as suas etapas. As principais alianças estão desenhadas, os projetos majoritários ganharam forma, as disputas pelo Senado começam a se consolidar e o eleitor já identifica, com razoável clareza, quem são os protagonistas da eleição de 2026. O ambiente político, portanto, deixa de ser um terreno de construção e passa a ser um terreno de preservação. E essa mudança altera completamente a lógica da disputa.

Até aqui, havia espaço para experimentar movimentos, testar alianças e reposicionar estratégias. Daqui para frente, cada decisão passa a ser observada com muito mais atenção. Um erro de comunicação, uma crise mal administrada, uma declaração impulsiva ou uma escolha política mal calibrada podem produzir efeitos muito maiores do que uma sequência de boas agendas ou anúncios positivos.

Isso acontece porque a eleição amadurece.

Quando o eleitor ainda conhece pouco os candidatos, qualquer movimento pode alterar significativamente sua percepção. Mas, à medida que a campanha avança, as imagens começam a se consolidar. O governador passa a ser avaliado pelo conjunto da sua gestão, a oposição pelo conjunto de suas propostas e os partidos pela coerência de suas escolhas. Nesse estágio, grandes saltos tornam-se mais raros. Em compensação, pequenos erros podem produzir grandes desgastes.

Esse fenômeno vale para todos os lados.

Jorginho Mello entra na fase em que precisará administrar a vantagem construída até aqui. Liderar pesquisas é uma condição confortável, mas também aumenta a responsabilidade. Quem ocupa a dianteira passa a ser alvo preferencial dos adversários e precisa demonstrar capacidade de enfrentar crises sem perder a narrativa de governo. Em política, quem lidera costuma ter menos espaço para errar porque qualquer deslize recebe uma dimensão maior.

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João Rodrigues enfrenta um desafio diferente, mas igualmente complexo. Consolidou-se como principal nome da oposição, ampliou alianças e tornou-se o polo de uma candidatura competitiva. A partir de agora, porém, será cada vez mais cobrado por aquilo que pretende construir, e não apenas pelo que pretende criticar. Crescer eleitoralmente exige ampliar o diálogo para além da base já convencida. Isso significa evitar movimentos que fortaleçam apenas a militância, mas dificultem a aproximação com o eleitor moderado, aquele que costuma decidir as eleições catarinenses.

A disputa pelo Senado oferece talvez o exemplo mais evidente dessa nova etapa. O cenário permanece fragmentado, com candidatos dialogando, em muitos casos, com o mesmo eleitorado. Nesse ambiente, um erro estratégico pode significar a perda de votos para um concorrente do mesmo campo político, alterando completamente a dinâmica da disputa. Não será uma eleição decidida apenas pela capacidade de crescer, mas também pela capacidade de evitar desgastes desnecessários.

Os próprios partidos entram em uma fase delicada. MDB e Progressistas vivem debates internos que vão além da escolha de alianças. Precisam preservar unidade, administrar divergências e impedir que tensões naturais de uma eleição se transformem em rupturas permanentes. Quanto mais a campanha avança, mais difícil se torna recompor relações internas abaladas por decisões estratégicas. Não por acaso, as grandes lideranças partidárias têm adotado um discurso de cautela. Em determinados momentos, preservar o que foi construído passa a ser tão importante quanto conquistar novos espaços.

Existe ainda um aspecto pouco discutido.

A política contemporânea passou a valorizar muito os grandes anúncios e os movimentos de impacto. Entretanto, o eleitor nem sempre muda seu voto por causa de um grande acerto. Muitas vezes, ele muda quando percebe um erro que compromete a confiança construída ao longo do tempo. Confiança é um patrimônio acumulado lentamente e perdido, às vezes, em poucos dias. É exatamente por isso que campanhas experientes costumam dedicar tanto esforço à prevenção de crises quanto à divulgação de propostas.

Talvez essa seja uma das maiores diferenças entre a lógica da comunicação e a lógica da política. Na comunicação, a visibilidade costuma ser tratada como objetivo. Na política, visibilidade sem credibilidade pode se transformar rapidamente em vulnerabilidade.

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PONTO DE VISTA

Existe uma frase atribuída a estrategistas eleitorais que merece ser lembrada: campanhas raramente derrotam adversários fortes; muitas vezes, são os adversários que derrotam a si próprios.

Talvez essa seja uma das lições mais importantes da pré-campanha de 2026.

A política costuma dedicar enorme energia ao estudo do adversário, mas nem sempre reserva o mesmo esforço para compreender os próprios limites. A história mostra que derrotas eleitorais frequentemente nascem da autoconfiança excessiva, da incapacidade de ouvir críticas, da crença de que uma vantagem momentânea é definitiva ou da convicção de que o eleitor aceitará qualquer decisão sem questioná-la.

O maior erro de uma campanha é acreditar que o risco está sempre do outro lado.

Nem sempre está.

Às vezes, ele começa quando um grupo político passa a acreditar apenas naquilo que deseja ouvir. Quando substitui o debate pela confirmação das próprias certezas. Quando interpreta todo alerta como ataque e toda crítica como má-fé. É nesse ambiente que erros deixam de ser corrigidos e passam a ser repetidos.

Talvez seja essa a reflexão mais importante para todos os atores da política catarinense neste momento.

As alianças já foram construídas.

As lideranças já estão definidas.

Os espaços políticos, em grande medida, já foram ocupados.

Agora, a disputa será menos sobre quem consegue produzir o maior fato político e mais sobre quem demonstra maturidade para atravessar a campanha sem desperdiçar o ativo mais valioso de qualquer candidatura: a confiança.

Porque, no fim, o eleitor costuma perdoar promessas difíceis, reconhecer limitações e até compreender divergências. O que raramente perdoa é a sensação de que um candidato perdeu a capacidade de ouvir, refletir e corrigir o próprio caminho.

É justamente nesse momento que boas campanhas deixam de tentar vencer apenas o adversário e passam a enfrentar um desafio muito mais difícil: não serem derrotadas pelos próprios erros.

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