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Quando um presidente perde a liturgia do cargo, quem ganha é o adversário

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A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Santa Catarina dificilmente será lembrada apenas pelos anúncios do governo federal. O que permanecerá na memória política foi o confronto aberto com o governador Jorginho Mello. As críticas à postura do chefe do Executivo catarinense, a referência à sua “massa encefálica”, o discurso sobre racismo e a citação de Adolf Hitler transformaram uma agenda institucional em um dos episódios políticos mais relevantes do ano no Estado.

O desdobramento foi imediato. O Governo de Santa Catarina anunciou que recorrerá à Procuradoria-Geral da República, sustentando que as declarações extrapolaram a crítica política e atingiram a honra dos catarinenses. A discussão, portanto, deixou de ser apenas um embate verbal. Passou ao campo institucional.

Esse é o primeiro aspecto que merece reflexão.

Presidentes da República possuem legitimidade para discordar de governadores. Faz parte da democracia. Divergências sobre investimentos, prioridades e políticas públicas são naturais. O que chama atenção neste episódio é o tom adotado pelo chefe de Estado. A Presidência da República não é apenas um cargo político. É também uma instituição. E a liturgia do cargo existe justamente para separar o embate eleitoral da representação institucional.

Quando um presidente substitui o debate sobre políticas públicas por ataques de natureza pessoal, a discussão muda de patamar. O centro deixa de ser a obra, o investimento ou a parceria entre governos. Passa a ser o comportamento de quem ocupa o mais alto cargo da República.

Isso não significa que presidentes devam ser protocolares ou frios. Mas existe uma expectativa institucional de que suas palavras contribuam para reduzir conflitos, e não para ampliá-los.

Há outro ponto igualmente importante.

Ao abordar o debate sobre racismo e cotas raciais, Lula utilizou referências ao nazismo e a Adolf Hitler para defender sua posição. Independentemente da intenção do presidente, a repercussão em Santa Catarina mostrou que parte significativa da população interpretou o discurso como uma ofensa ao Estado e aos catarinenses.

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Na política, intenção e percepção raramente caminham juntas.

Um líder pode ter uma mensagem em mente. O eleitor pode compreender outra completamente diferente.

E é justamente essa percepção que produz consequências políticas.

Santa Catarina possui um dos mais fortes sentimentos de identidade regional do país. O catarinense costuma reagir quando entende que o Estado está sendo desrespeitado, independentemente do partido que ocupa o governo estadual. Não é um fenômeno novo. Trata-se de uma característica recorrente da política catarinense.

Ao elevar o tom do confronto justamente em um dos estados onde enfrenta maior resistência eleitoral, Lula assumiu um risco político considerável.

O presidente procurou cobrar uma relação institucional mais próxima entre Estado e União. O efeito, porém, pode ter sido outro. Em vez de isolar Jorginho Mello, acabou oferecendo ao governador uma oportunidade para reforçar a narrativa que constrói desde a campanha: a de defensor dos interesses de Santa Catarina diante de Brasília.

A reação do governador demonstra que essa leitura foi imediata. Em vez de responder apenas com entrevistas ou notas oficiais, decidiu levar o caso à Procuradoria-Geral da República. Politicamente, foi um movimento inteligente. A discussão deixa de ser apenas uma troca de declarações e passa a ocupar também o espaço institucional. O governo estadual procura mostrar que não está apenas defendendo uma posição política, mas reagindo ao que considera uma ofensa dirigida ao Estado e à sua população.

Isso significa que Jorginho venceu o episódio?

Do ponto de vista da comunicação política, sim.

Porque recebeu exatamente o cenário que lhe é mais favorável: um confronto direto com o presidente da República em torno da defesa de Santa Catarina.

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Mas existe um alerta que vale para os dois lados.

O eleitor catarinense pode até acompanhar esse embate com interesse. O que realmente cobrará em 2026 será outra coisa. Quer saber se União e Estado conseguiram manter uma relação capaz de garantir investimentos, destravar obras, ampliar programas e melhorar a vida das pessoas.

É nesse ponto que o conflito deixa de interessar.

Quando a disputa política ameaça substituir a cooperação institucional, o prejuízo deixa de ser dos governantes e passa a ser da população.

PONTO DE VISTA

A democracia pressupõe divergências. Presidentes e governadores não precisam concordar entre si. Mas o exercício da Presidência da República exige algo além da disputa política: exige a compreensão de que as palavras de um chefe de Estado possuem peso institucional.

Neste episódio, Lula ultrapassou a linha da crítica política para entrar em um terreno que produz mais desgaste do que convencimento. O tom das declarações, os ataques pessoais e as referências utilizadas acabaram obscurecendo qualquer discussão sobre os investimentos federais ou sobre a relação entre União e Estado.

Como presidente, o episódio enfraquece a liturgia que se espera do cargo.

Como potencial candidato, pode ter produzido um efeito ainda mais delicado. Em um estado onde já enfrenta elevada rejeição, o discurso oferece aos adversários exatamente a narrativa que eles gostariam de explorar: a de que Santa Catarina foi desrespeitada por Brasília.

Na política, nem sempre vence quem fala mais duro.

Muitas vezes, vence quem compreende que autoridade institucional também se exerce pelo equilíbrio das palavras.

E, desta vez, o maior patrimônio político acabou ficando com quem foi atacado, não com quem fez o ataque.

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