
Em uma conversa franca e direta, o consultor empresarial e tributário David F. Santos detalha como a reforma tributária, o IVA dual, o monitoramento das transações financeiras, o cadastro nacional de imóveis e os novos mecanismos automáticos de cobrança podem ampliar o controle do Estado, elevar a carga de impostos e transformar radicalmente a vida de trabalhadores, empreendedores e investidores a partir de 2026.
“Estamos entrando em uma era de vigilância fiscal sem precedentes”, revelou.
Confira a entrevista:
RDM Online: Davi, por que você afirma que 2026 começa com mais tributos e menos previsibilidade?
David Santos: Porque a reforma amplia drasticamente a base de pessoas obrigadas a pagar impostos. Antes, a carga era mais concentrada na indústria. Agora, ela é distribuída para pequenos empresários, prestadores de serviço e pessoas físicas, o que gera insegurança, aumento de custos e dificuldade de planejamento financeiro.
RDM Online: Onde o cidadão sente esse impacto primeiro?
David Santos: No bolso, de forma imediata. O impacto desse aumento é sentido no orçamento doméstico, manifestando-se principalmente através de um efeito cascata que encarece o custo de vida. Ao elevar a carga sobre aluguéis, serviços e produtos de consumo básico, as empresas acabam repassando esses custos adicionais integralmente ao consumidor final. Isso resulta em uma espécie de “inflação invisível”, onde o cidadão paga valores mais altos por itens essenciais sem perceber claramente que a origem do aumento reside na pressão tributária ou operacional aplicada ao longo de toda a cadeia produtiva.
RDM Online: O que muda para quem aluga imóveis?
David Santos: A mudança no regime tributário altera profundamente a viabilidade da locação de imóveis, pois substitui a incidência exclusiva do Imposto de Renda por uma estrutura muito mais onerosa. Anteriormente limitado ao tributo sobre a renda, o locador agora enfrenta o desenquadramento fiscal caso possua mais de três imóveis ou alcance um faturamento anual superior a R$ 240 mil em aluguéis, tornando-se obrigatoriamente um contribuinte do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços). Essa nova classificação impõe uma carga tributária sobre o consumo que não existia nessa atividade, elevando significativamente o custo operacional do negócio e reduzindo a margem de lucro, o que acaba pressionando o valor final dos contratos de locação.
RDM Online: E quem usa plataformas como Airbnb?
David Santos: A nova regra tributária estabelece que, ao atingir os limites de faturamento ou de propriedades, o locador — mesmo atuando como pessoa física (CPF) — passa a ser enquadrado obrigatoriamente no sistema do IVA Dual. Essa mudança representa um salto crítico na tributação, com uma elevação estimada de até 44% na carga tributária devido à incidência conjunta do IBS e da CBS. Como o proprietário dificilmente consegue absorver esse custo operacional sem inviabilizar o negócio, o aumento acaba sendo repassado integralmente ao consumidor, encarecendo de forma direta o valor final dos aluguéis e serviços.
RDM Online: O que é o IVA dual, afinal?
David Santos: O IVA Dual nada mais é do que uma tentativa de “limpar a bagunça” dos impostos. O governo pegou quatro impostos antigos que todo mundo conhecia (PIS, Cofins, ICMS e ISS) e trocou por apenas dois novos: o IBS e a CBS. A ideia parece facilitar a vida, mas, na prática, o governo criou uma “supervigilância”. Com tudo unificado, a fiscalização fica muito mais em cima, rastreando cada centavo que circula. É como se agora existisse uma lupa gigante que não deixa passar nada, forçando todo mundo a andar na linha e eliminando aquela “informalidade” que existia antes.
RDM Online: Quando começa a valer?
David Santos: Em 2026 começa a fase de testes com 1%, e a alíquota sobe gradualmente até 2033, quando o novo sistema estará totalmente implantado.
RDM Online: A reforma prometia simplificação. Por que você diz que haverá mais controle?
David Santos: Porque tudo passa a ser centralizado em Brasília, com cruzamento automático de dados e fiscalização em tempo real, ampliando o poder de monitoramento do Estado.
RDM Online: O que é o Cadastro Nacional de Imóveis?
David Santos: O governo está criando uma espécie de “CPF para cada imóvel”, um registro nacional que centraliza todas as informações da propriedade em um só lugar. Esse sistema permitirá ao fisco monitorar instantaneamente quem é o dono, quem está morando e, principalmente, qual o potencial de lucro daquele bem. Com esses dados integrados, o governo consegue cruzar informações para saber exatamente quanto o imóvel deveria render de aluguel, tornando a fiscalização muito mais agressiva e dificultando qualquer tentativa de omitir rendimentos ou esconder patrimônio.
RDM Online: Isso pode gerar cobranças mesmo sem aluguel formal?
David Santos: Sim. A Receita pode presumir que o imóvel gera renda e cobrar imposto, mesmo que seja usado por familiares ou cedido gratuitamente.
RDM Online: O que muda para holdings familiares?
David Santos: Na prática, isso significa que a Receita Federal passa a olhar não apenas para quem é o dono formal do bem, mas para quem realmente se beneficia dele. Se um imóvel, veículo ou outro patrimônio registrado na holding for utilizado por um sócio ou por um familiar, o Fisco pode interpretar que houve um “uso econômico” desse bem. Com isso, pode ser exigida a cobrança de tributos como se a holding estivesse realizando uma operação comercial, mesmo sem haver um contrato ou pagamento formal, o que aumenta o risco de autuações e gera novos custos para a família.
RDM Online: O Pix entra nesse controle?
David Santos: Sim. O Pix se torna uma das principais ferramentas de rastreamento das movimentações financeiras, porque permite ao governo acompanhar em tempo real entradas e saídas de dinheiro. Com o cruzamento automático dessas informações com declarações de renda, notas fiscais e cadastros, a Receita passa a ter um raio-x muito mais detalhado da vida financeira do contribuinte, reduzindo drasticamente a margem para informalidade.
RDM Online: O que seria o split payment?
David Santos: É um mecanismo em que parte do imposto é retida automaticamente no momento da transação, diretamente pelo sistema bancário. Ou seja, o dinheiro já sai “separado” para o governo antes mesmo de chegar ao caixa da empresa. Isso diminui a autonomia do empreendedor sobre seu próprio faturamento e pode comprometer o capital de giro, especialmente dos pequenos negócios.
RDM Online: Quais setores serão mais afetados?
David Santos: Principalmente o setor de serviços, a construção civil, os profissionais liberais e os pequenos empreendedores. São áreas que já operam com margens apertadas e que terão mais dificuldade para repassar o aumento de custos ao consumidor. Na prática, muitos vão sentir o peso da carga tributária logo nos primeiros anos de transição.
RDM Online: O Brasil corre risco de perder investidores?
David Santos: Sim. Investidores buscam estabilidade, regras claras e previsibilidade. Quando o ambiente se torna mais burocrático, com carga elevada e insegurança jurídica, o capital tende a migrar para países com sistemas mais simples e competitivos. Isso pode impactar diretamente o crescimento econômico e a geração de empregos.
RDM Online: Diante desse novo cenário de maior fiscalização e controle, qual é a principal orientação para que a população consiga se preparar e reduzir os impactos dessas mudanças no dia a dia?
David Santos: É fundamental que as pessoas passem a ter mais organização financeira e consciência sobre como movimentam seu dinheiro. Planejar os gastos, manter registros, declarar corretamente e buscar orientação profissional deixaram de ser apenas boas práticas e passaram a ser uma necessidade. Com um sistema mais rigoroso, transparente e integrado, quem não se adapta corre o risco de enfrentar dificuldades, multas e restrições. Informação e preparo serão os principais aliados para atravessar esse novo momento com mais segurança.

















