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NEGOCIAR SOB PRESSÃO: COMO O BRASIL DEVE RESPONDER AO TARIFAÇO DE TRUMP — LIÇÕES DE TÉCNICA E DE PODER

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Não há negociação no vácuo. Toda mesa é atravessada por assimetrias de poder, incentivos domésticos e narrativas. As sanções tarifárias de 2025 impostas pelos Estados Unidos ao Brasil tornaram isso cristalino: após o anúncio do “Dia da Libertação”, a Casa Branca instituiu uma tarifa “recíproca” de 10% para praticamente todos os países e, no caso brasileiro, adicionou mais 40 pontos percentuais por decreto executivo — totalizando um tarifaço de 50% a partir de 6 de agosto de 2025. O desenho jurídico veio por ordens executivas subsequentes que ampliaram o escopo e os procedimentos dessas tarifas, ancoradas em “emergência nacional” e no discurso de reciprocidade.

Esse choque repercutiu de maneira imediata em cadeias reais. O café, símbolo da pauta exportadora brasileira e categoria altamente sensível a preço, viu embarques ao mercado americano despencarem: queda de 46% em agosto ante o ano anterior e retração adicional em setembro parcial, segundo a Cecafé, sob o impacto direto do novo custo de entrada. O efeito-âncora de 50% altera margens, desloca fluxos e ameaça participação no maior mercado consumidor do mundo.

No plano político-diplomático, o Brasil respondeu abrindo o caminho legal para contramedidas. A Lei da Reciprocidade Econômica, sancionada em abril e regulamentada em julho, autorizou suspender concessões comerciais e adotar restrições tarifárias em reação a medidas unilaterais de parceiros — isto é, forneceu uma BATNA institucional ao país. Em agosto, o governo iniciou os ritos para acionar a lei especificamente contra os EUA, sinalizando retaliação calibrada, ainda que evitando resposta imediata em certos segmentos.

Como em qualquer disputa dura, o contexto evolui em paralelo às tentativas de acomodação: a administração americana publicou atos complementares e acordos parciais com terceiros (como o pacote com a União Europeia que rebaixou tarifas automotivas para 15%), e abriu exceções técnicas e procedimentos de alívio para categorias críticas. Para um negociador, isso importa: revela que o regime de tarifas, embora maximalista na retórica, tem válvulas processuais — janelas pelas quais se criam “off-ramps” e se recompõe valor.

Há, ademais, um pano de fundo jurídico que reduz a previsibilidade do oponente. Várias ações nos tribunais norte-americanos contestam o uso de poderes de emergência (IEEPA) para impor tarifas amplas; decisões de instâncias inferiores já apontaram inconstitucionalidade, embora com efeitos suspensos. Para o Brasil, esse litígio não resolve o hoje, mas muda o horizonte de negociação: quem precisa projetar logística, preços e investimentos por 12–18 meses sabe que a incerteza do adversário também é uma variável de barganha.

O QUE EXATAMENTE ESTÁ EM JOGO — E POR QUE ISSO É TÉCNICA DE NEGOCIAÇÃO

A campanha tarifária americana não é mero tecnicismo aduaneiro; é estratégia de barganha dura. Seu “playbook” combina

(i) ancoragens extremas,

(ii) prazos comprimidos,

(iii) ameaça crível de escalada e

(iv) teatralização pública com espaço para transações privadas.

O objetivo é deslocar o acordo final na direção do proponente, mesmo que, ao fim, se aceite “menos do que o pedido inicial”. O tarifaço de 50% é a âncora, não necessariamente o destino. O que define o desfecho é a arquitetura do processo: se os interlocutores entram na dança do poder (fogo contra fogo) ou se redirecionam a mesa para um jogo de valor (apagar fogo com água).

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Na prática, a Casa Branca já sinalizou trilhas de alívio em troca de contrapartidas — compras, investimentos, compromissos de abastecimento, ou alinhamentos regulatórios. O acordo com a UE é instrutivo: reduções tarifárias mediante pacote mais amplo, inclusive listas de isenções e exclusões técnicas por código tarifário (HTSUS).

Aqui mora uma lição: em regimes coercitivos, exceções são moeda — elas se conquistam com narrativa, com reciprocidade inteligente e com engenharia de propostas que resolvam dores do outro lado.

ROTEIRO PARA O BRASIL: COMO NEGOCIAR SOB ASSIMETRIA SEM ABDICAR DE INTERESSES

1. Não disputar poder no palanque, disputar valor na mesa. Confrontos públicos que questionem a honra e a credibilidade do líder adversário elevam custos de recuo e convidam à escalada. Separar a comunicação para audiências domésticas da conversação técnica é vital para abrir a porta das exceções e dos acordos modulados. (A sinalização recente de encontro presidencial e “boa química” mostra que há espaço para ajustar tom sem abdicar de posição.)

2. Ancoragem recíproca, porém flexível. Usar a Lei da Reciprocidade como backstop (um teto de resposta) — e não como a primeira martelada — mantém o Brasil com BATNA crível, mas deixa margem para trocas assimétricas: reduzir tarifa em bens sensíveis aos EUA em troca de exclusões em linhas críticas brasileiras (p.ex., insumos industriais, bens intermediários de cadeias onde o Brasil é competitivo e “insubstituível” a curto prazo).
3. Pacotes integrativos em três pistas paralelas.

Pista A (bilateral executiva): “acordo-quadro” que combine cap: redução escalonada do 50% para patamar intermediário (p. ex., 15%–20%) com contrapartidas em compras governamentais, energia/combustíveis, e investimento direto, além de um cronograma de revisão trimestral.
Pista B (técnica): campanha coordenada de exclusões por subposição HTSUS, reforçada por coalitions of requesters americanos (importadores/associações setoriais dos EUA que precisam do produto brasileiro) — um desenho de “ganha-ganha” que casa necessidade do comprador doméstico com alívio ao exportador brasileiro.
Pista C (institucional): abrir contencioso e consultas estruturadas, inclusive na OMC e em foros regionais, não para “ganhar amanhã”, mas para pôr preço na escalada e criar marcos de previsibilidade para investidores.

4. Ofertas contingentes e “escadas de desescalada”. Propor termos que ativem reduções automáticas mediante métricas verificáveis (volumes, prazos de entrega, padrões sanitários). Em barganhas coercitivas, a automaticidade reduz o risco político do recuo do adversário e melhora a aceitabilidade doméstica do acordo.

5. Tempo como ativo. Com litígios em curso nos tribunais americanos sobre as bases legais das tarifas, construir pontes provisórias (moratórias setoriais, standstills sazonais, snap-backclauses) pode ser ótimo negócio: preserva acesso a mercado enquanto o Judiciário envia sinais.

6. Cooperação público-privada estratégica. O Itamaraty e a Camex devem operar com “sala de situação” que integre dados de embarques, estoques e contratos, priorizando as pautas com maior elasticidade de desvio (onde o cliente americano pode substituir facilmente o Brasil) e onde o Brasil é price maker. Isso orienta o uso seletivo da reciprocidade, minimizando autogol.

O QUE OS EMPRESÁRIOS PODEM FAZER — E O QUE DEVEM APRENDER COM O “MÉTODO TRUMP”

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Negociação é método antes de ser bravata. Há técnicas do playbook rival que são replicáveis eticamente no dia a dia empresarial:

Construa o seu BATNA antes da reunião.Diversifique destinos (Europa, Oriente Médio, Ásia), assegure linhas de financiamento à exportação e feche term sheets alternativos. Quem mostra opção real negocia preço e prazo melhores — e sofre menos em mesas assimétricas. (A migração parcial de vendas de café para outros mercados ilustra esse amortecedor, ainda que incompleto.)

Ancore alto, mas com fatos. Estabeleça pedido inicial sustentado por custos (frete, compliance, risco cambial) e por indicadores de substituibilidade do seu produto. Ancoragem sem dados vira blefe; com dados, vira referência legítima.

Use prazos para criar foco, não chantagem.Ofertas com validade e last look induzem decisão e preservam relacionamento.

Ofereça pacotes, não posições. Combine preço, prazo, garantia, service level e exclusividade; apresente duas ou três composições que permitam ao cliente “escolher como ceder”.

Planeje “escadas” de concessão. Cada concessão sua deve pedir algo em troca (volume futuro, indicação de clientes, ajuste de indexadores).

Higiene contratual para tempos tarifários.Insira cláusulas de hardship e mudança de tarifa, gatilhos de reajuste automático por alíquota, e reopeners a cada trimestre.
Operacional: rotas de mitigação legal. Avalie tariff engineering e classificação correta (HTSUS), explore duty drawback para reexportações e, quando fizer sentido econômico e jurídico, conteúdo local(produção, montagem ou finishing nos EUA) para acessar regimes sem o adicional. Evite atalhos proibidos (transbordo disfarçado, falsos certificados de origem); o curto prazo não compensa o risco regulatório. (As recentes listas americanas de exclusões por subposições mostram que a precisão técnica é, por si só, uma vantagem negocial.)

CONCLUSÃO — PODER, VALOR E JUSTIÇA

O tarifaço americano é, tecnicamente, uma âncora manipuladora posta para arrancar concessões rápidas; politicamente, um espetáculo para audiências domésticas; juridicamente, um castelo com contestações nos tribunais; economicamente, um choque que redistribui renda e barganha no curto prazo, com riscos de erosão de confiança no longo. A boa diplomacia brasileira deve reconhecer a assimetria sem se render a ela: evitar duelo de bravatas, explorar as fissuras processuais do regime tarifário (exceções, acordos modulares, off-ramps), usar a Lei da Reciprocidade como ameaça creível e não como reflexo, e orquestrar Estado e setor privado para compor pacotes que atendam a interesses americanos semsacrificar nosso desenvolvimento.

Aos negociadores-diplomatas, proponho um mantra: “menos palanque, mais pacote; menos poder, mais valor; menos tese, mais cronograma.” Aos empresários, a lição é simétrica: BATNA na gaveta, dados na mesa, pacotes na manga. Dureza por si funciona para quem já tem poder; para o restante de nós, a verdadeira força está em desenhar acordos que o outro lado queira cumprir — hoje, amanhã e na próxima crise.

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