Rede integrada de acolhimento busca garantir proteção e autonomia às vítimas em Cuiabá
Com índices alarmantes de violência doméstica, Cuiabá tem ampliado os serviços de acolhimento e atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica, por meio de uma rede integrada que envolve a Secretaria da Mulher, Saúde, Assistência Social e instituições parceiras. O objetivo é oferecer apoio psicológico, social e jurídico, descentralizar o atendimento e garantir que as vítimas tenham acesso facilitado e proteção efetiva.
A violência contra a mulher segue como o principal desafio enfrentado pela Secretaria da Mulher de Cuiabá, que atua em diversas frentes para conscientizar e acolher vítimas. As ações começam com palestras e rodas de conversa, que auxiliam na identificação dos diferentes tipos de violência, muitas vezes sutis e naturalizados no cotidiano.
Atualmente, dois principais espaços oferecem acolhimento psicológico e social: a própria Secretaria da Mulher e o Hospital Municipal de Cuiabá (HMC), que mantém plantão 24 horas para atendimento imediato a mulheres em situação de violência. Além desses, o município conta com o Projeto Acolher e o serviço E-multi, que levam suporte diretamente às comunidades, garantindo atendimento mesmo àquelas que enfrentam dificuldades de locomoção.
O acompanhamento às vítimas envolve psicólogos e assistentes sociais que avaliam a situação integral da mulher, incluindo saúde, moradia, filhos e necessidades educacionais. Quando necessário, são feitos encaminhamentos para órgãos como Polícia Militar, Delegacia da Mulher, Ministério Público e Defensoria Pública, fortalecendo a rede de enfrentamento.
Essa atuação conjunta busca não apenas garantir proteção imediata, mas também promover o fortalecimento das mulheres, incentivando sua autonomia financeira e emocional para que possam romper o ciclo da violência e reconstruir suas vidas. À frente da pasta desde 1º de janeiro, a secretária Hadassah Suzannah falou, em entrevista à Revista Três Poderes Mato Grosso, sobre as ações que vêm sendo desenvolvidas pela Secretaria da Mulher. Confira a entrevista.

Revista 3 Poderes Mato Grosso: Secretária, quando as mulheres se tornam vítimas de violência doméstica e estão em situação de vulnerabilidade, existe um perfil social predominante? Quais classes sociais geralmente procuram ou recebem atendimento na Secretaria da Mulher? O serviço é voltado para algum público específico ou está aberto para todas?
Hadassah Suzannah: O atendimento na Secretaria da Mulher é aberto a todas as mulheres. Não é feita distinção quanto à condição social. No entanto, o atendimento psicológico é direcionado especificamente para mulheres vítimas de violência.
Dois casos emblemáticos ilustram o alcance do trabalho da secretaria. No primeiro, uma mulher teve a barriga cortada e o bebê retirado. Embora a família morasse em Várzea Grande, foi prestado total suporte, pois o fato ocorreu em Cuiabá. A equipe buscou a família em casa, levou ao atendimento e acompanhou nos momentos iniciais, quando a condição emocional era extremamente delicada. Foi feito o encaminhamento para atendimento psiquiátrico e o suporte necessário junto à delegacia.
Outro caso marcante foi o de Suelen, uma mulher que perdeu a filha adolescente após um conflito com o marido. O homem, em ato de vingança, assassinou a jovem. Suelen ficou emocionalmente devastada. Recebeu apoio integral: foi levada para registrar o boletim de ocorrência, recebeu acompanhamento constante e, inclusive, apoio da polícia para reforço na segurança. Atualmente, ela acompanha a equipe da Secretaria da Mulher e se tornou uma referência de superação.
Esses casos mostram que a atuação da Secretaria da Mulher vai além do acolhimento psicológico. Também envolve assistência social, orientação jurídica, articulação com as forças de segurança e, quando necessário, intervenção direta em campo. O compromisso é garantir apoio integral e efetivo às mulheres em situação de vulnerabilidade.
Revista 3 Poderes Mato Grosso: Secretária, em média, quantas mulheres são atendidas atualmente pela Secretaria da Mulher?
Hadassah Suzannah: A fila de atendimento foi zerada, mas o fluxo é contínuo. Mulheres em situação de violência chegam o tempo todo. Muitas vezes, elas não procuram diretamente o serviço por esse motivo, mas sim em busca de outras oportunidades, como capacitação ou emprego. No entanto, durante a conversa, é possível identificar sinais claros de que estão sendo vítimas de violência doméstica. Nesse momento, são imediatamente inseridas no programa de acolhimento e acompanhamento.
O diálogo e a escuta sensível são fundamentais. É preciso estar atento aos sinais, mesmo quando a violência não é verbalizada. Por isso, toda a equipe da secretaria é treinada constantemente. Antes de atender as mulheres, os profissionais passam por capacitações internas que os preparam tanto para identificar situações de violência quanto para agir com empatia e firmeza no acolhimento.
Esse olhar atento e humanizado é essencial para oferecer a estrutura necessária e conduzir cada mulher com segurança e respeito ao longo do processo de atendimento.
Revista 3 Poderes Mato Grosso: Secretária, muitas dessas mulheres atendidas têm envolvimento com companheiros ligados a facções criminosas? Esse é um perfil recorrente entre os atendimentos?
Hadassah Suzannah: Há muitos casos assim. São os mais difíceis de avançar, principalmente por causa do medo que a própria mulher sente. Algumas relatam que correm o risco de sofrer penalidades caso o agressor descubra. Diante disso, o trabalho precisa ser feito com muito cuidado, buscando sempre maneiras de auxiliar essa mulher, compreendendo que ela é uma vítima e que sua vida está em risco — seja pelo parceiro agressor, seja por envolvimento indireto com grupos de facções criminosas.
Normalmente, quando essas mulheres ingressam no programa de acompanhamento psicológico, preferem manter tudo em sigilo. Muitas não revelam para ninguém o destino das consultas. Por isso, o atendimento costuma ser direcionado ao HMC, onde é mais fácil justificar a ida com argumentos mais aceitos, como levar um filho ao hospital ou alegar um mal-estar.
Na verdade, trata-se de uma rotina de tratamento psicológico, realizado a cada 15 dias. Muitas mulheres frequentam essas consultas escondidas, por medo das represálias. Essa é uma parte da dura realidade enfrentada diariamente no atendimento às vítimas de violência.
Revista 3 Poderes Mato Grosso: Secretária, quais são os resultados observados após o acompanhamento psicológico e social dessas mulheres? O que costuma acontecer após esse processo de atendimento?
Hadassah Suzannah: Sempre que possível, busca-se manter essa mulher próxima da secretaria, acompanhando sua trajetória no mercado de trabalho para que seja possível monitorá-la de forma contínua. Essa é uma das frentes mais importantes atualmente: fomentar a autonomia financeira das mulheres atendidas.
Muitas chegam emocionalmente abaladas, sem forças sequer para trabalhar. Nesse caso, são inicialmente acolhidas no programa de acompanhamento psicológico, onde recebem suporte emocional até estarem prontas para recomeçar. Após esse processo de fortalecimento interno, inicia-se a inserção no mercado de trabalho.
Uma das iniciativas implantadas com esse objetivo é o Balcão de Empregos — criado como um teste, que acabou se consolidando pelo sucesso alcançado. Toda primeira semana do mês, é realizada uma nova edição. A ação consiste em reunir empresas parceiras com oportunidades abertas e convocar as mulheres interessadas.
Revista 3 Poderes Mato Grosso: Secretária, de que forma a secretaria tem divulgado essas ações para alcançar mais mulheres e ampliar o acesso aos serviços oferecidos?
Hadassah Suzannah: Atualmente, os feirões de emprego são divulgados por meio do site e do Instagram da Prefeitura. Sempre que possível, a equipe também realiza ações em campo, concedendo entrevistas a rádios comunitárias e buscando outros meios de comunicação dos bairros.
Uma das estratégias utilizadas foi levar o projeto até a comunidade do bairro Pedra 90. Para isso, foi contratado um carro de som, que circulou pelo bairro divulgando o evento. Além disso, líderes comunitários foram mobilizados para compartilhar as informações nos grupos de mensagens, incentivando a participação.
Diferentemente das edições anteriores, o feirão do Pedra 90 foi realizado diretamente na comunidade, e não na sede da secretaria. Um mês antes da ação, foi feito um mapeamento detalhado da região para identificar possíveis oportunidades de emprego nas proximidades. O objetivo era garantir que, ao chegar ao evento, as mulheres tivessem prioridade em vagas próximas às suas residências, considerando a realidade de muitas delas: filhos pequenos, dificuldade de deslocamento e longos trajetos em transporte público.
Graças a esse trabalho prévio, diversas mulheres foram contratadas por empresas instaladas no próprio bairro ou nas redondezas. O primeiro feirão ofertou 300 vagas. Atualmente, o número saltou para 1.000 oportunidades. Algumas mulheres que participaram da primeira edição estão sendo contratadas agora, enquanto outras conseguiram emprego já no primeiro dia.
Revista 3 Poderes Mato Grosso: Secretária, voltando ao tema do enfrentamento à violência doméstica, como está o trabalho da secretaria para o mês de agosto, durante a campanha nacional do Agosto Lilás? Sabemos que essa atuação é contínua ao longo do ano, mas quais ações específicas estão previstas para esse período?
Hadassah Suzannah: Agora, com a aproximação de agosto — período tradicionalmente voltado ao combate à violência contra a mulher —, a equipe já está com a agenda repleta de compromissos.
A proposta é aproveitar esse período para lançar bons projetos. Um deles, em fase inicial, será voltado à conscientização nas escolas, direcionado às crianças. Outro, em parceria com a primeira-dama do município, é um projeto de defesa pessoal. O programa contará com uma servidora da pasta, faixa-preta de jiu-jitsu, que ministrará as aulas.
Apesar do nome, a proposta vai além da autodefesa. Trata-se de criar um espaço para conversas, reflexões, rodas de diálogo e fortalecimento da percepção da mulher sobre o contexto da violência. O objetivo principal é o empoderamento por meio da conscientização.
Também será realizado, graças a parcerias e apoio institucional, um grande workshop com feira. Em um único dia, haverá palestras voltadas à autonomia financeira feminina: como tirar o MEI, como se formalizar, precificar produtos, e utilizar as redes sociais para impulsionar as vendas. Simultaneamente, será realizada uma feira com expositoras locais — mulheres cuiabanas que já participam das ações da secretaria e comercializam seus produtos com apoio do poder público.
Revista 3 Poderes Mato Grosso: Secretária, o programa Qualifica a Mulher já capacitou mais de 7.300 mulheres em 40 cursos voltados para o mercado de trabalho. Antes disso, como vocês identificam e atendem às demandas específicas desse público?
Hadassah Suzannah: Hoje, a proposta de qualificação na prefeitura não considera a questão financeira da mulher. Mesmo que ela não seja vítima de violência, o atendimento está de porta aberta: a mulher que deseja fazer o curso pode participar. Porém, na prática, percebeu-se que, antes de matricular, é importante entender o perfil da participante, pois, muitas vezes, na empolgação, ela se matricula e acaba perdendo a vaga de alguém que realmente poderia comparecer.
Atualmente, tem sido feita uma triagem para verificar se a mulher consegue participar, se tem interesse e qual o objetivo do curso para ela. Por exemplo, no início do ano, houve um curso de planejamento na área de panificação pela assistência social, que foi um sucesso. Antes da matrícula, foi realizada uma conversa para entender o motivo da inscrição. O atendimento é feito com entrevistas prévias, buscando garantir que haja compromisso com o curso.
Atualmente, está sendo iniciado um curso de bolos e docinhos, ministrado por uma mulher que se tornou referência em Cuiabá. O curso não é apenas para ensinar a fazer, mas para motivar a participante, fazendo com que ela se entusiasme. As mulheres que participam já têm alguma experiência, pois já fizeram outros cursos para aprender a preparar bolos e outros produtos.
Revista 3 Poderes Mato Grosso: Secretária, em relação ao ciclo menstrual, considerando a arrecadação de 9.000 absorventes, a secretaria tem atuado nas políticas públicas de combate à pobreza menstrual? Existe uma estratégia para ampliar ainda mais essa ação?
Hadassah Suzannah: Essa arrecadação foi realizada na gestão anterior. Neste ano, também houve arrecadação de alguns materiais, mas a distribuição ainda não foi feita, pois a estratégia é realizar essa ação a partir dos CRAS. É claro que, às vezes, a mulher chega diretamente e solicita, e o material é entregue para auxiliar, porém o foco está em fazer a distribuição através dos CRAS.
Na periferia, os CRAS, por meio de seus gestores e gerentes, conhecem a realidade das mulheres e sabem quem realmente necessita e possui perfil para receber o atendimento. A entrega dos materiais começará em agosto, a partir do CRAS do Tijucal, com o mapeamento dessas mulheres. Além da entrega, a intenção é incluí-las no radar de acompanhamento, para que, futuramente, se houver necessidade, possam ser direcionadas para novos atendimentos.
Esse trabalho é feito em conjunto com os CRAS, pois não é possível atender a todas as mulheres de uma vez, além da necessidade de mais material para atender à demanda.
Quase todas as ações da secretaria solicitam, como forma de matrícula, que a mulher faça a doação de algum item de higiene pessoal. Nos cursos regulares do Senac, que são gratuitos e de entrada livre, essa doação não é solicitada. Nos demais cursos, a doação é pedida, mas não é condição para participar. Por exemplo, no curso motivacional atual, se a mulher não puder levar o material, não será impedida de participar.
São solicitados itens como pacote de absorvente, pasta e escova de dente. Também tem ocorrido arrecadação junto às mulheres que podem colaborar para ajudar outras em situação de vulnerabilidade.
Revista 3 Poderes Mato Grosso: Secretária, está em andamento a implantação da Casa da Mulher em Cuiabá, com delegacia especializada e estrutura judiciária. Qual o prazo previsto para a conclusão e que tipo de atendimento a população pode esperar?
Hadassah Suzannah: Existem dois formatos de Casa da Mulher. A que será entregue está prevista para setembro ou outubro; a obra está com 92% de conclusão e os móveis já estão em processo de licitação. Essa unidade, chamada Casa da Mulher Tipo 3, foi renomeada para Centro de Referência. Diferente da outra estrutura, o Centro de Referência possui uma formatação mais flexível.
Essa estrutura é entregue ao município, pois sua construção foi financiada com recursos federais e municipais. O município fica responsável por alocar assistentes sociais, psicólogos, assessoria jurídica e outras ações que desejar implementar, como cursos e balcões de emprego. Essa é a primeira casa, do tipo três.
Já a Casa Tipo 1, mencionada pelo Ministério Público, Polícia Militar e Polícia Judiciária Civil, ainda não tem previsão de construção em Mato Grosso. Atualmente, há um terreno disponibilizado para esse fim pela prefeitura. A intenção em Brasília ainda não foi formalizada, e para que essa estrutura exista, o estado precisa compor financeiramente junto com os recursos federais e municipais.
Em resumo, enquanto a Casa Tipo 3 está perto da entrega, o próximo passo será avançar na Casa Tipo 1, que requer o envolvimento do estado, município e ministério das mulheres para definir responsabilidades e parcerias. O acordo com Brasília ainda precisa ser formalizado, pois a formatação é rígida e exige que todas as partes concordem previamente com suas contribuições. Essa casa também está no radar para implementação futura.
Revista 3 Poderes Mato Grosso: Secretária, para finalizar, qual mensagem a senhora gostaria de deixar para as mulheres cuiabanas, especialmente neste momento em que se discutem tanto a igualdade de direitos e o combate à violência de gênero?
Hadassah Suzannah: Deixo, num primeiro momento, as portas abertas da secretaria, pois é sempre muito bom falar sobre o que é feito ali dentro, já que o trabalho ocorre por meio de parceiros. Também deixo as portas abertas para aqueles que desejam compor conosco. O enfrentamento da violência é algo complexo, não é tarefa de uma instituição isolada.
É a escola, a casa, a prefeitura, o estado, um conjunto de instituições, nichos e pessoas que precisam batalhar para que isso aconteça. Deixo aqui esse recado para as mulheres: procurem o espaço de acolhimento do HMC, a Secretaria da Mulher, o site da prefeitura, onde há boas informações. Nas redes sociais também há conteúdos relevantes.
Os canais estão abertos para essa mulher, para que ela busque inicialmente entender a situação que vive. Se houver suspeita de que o ambiente não está saudável, vale a pena avaliar, pois, dependendo da forma como foi criada, ela pode estar sendo humilhada, violentada em seus direitos e sequer perceber. Procure a secretaria. Há conversas, respeito e orientações a serem passadas.














