Em entrevista a jornalistas, em São Paulo (SP), nesta quinta-feira, 10 de julho, o ministro da Fazenda diz que a taxação adicional de 50% sobre todos os produtos brasileiros anunciadas para agosto “não tem razão econômica”.
Por Humberto Azevedo
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta quinta-feira, 10 de julho, que as tarifas adicionais de 50% sobre todos os produtos brasileiros a partir de agosto anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, “não tem base econômica” e acusou a família do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL) de “fabricar” a iniciativa numa diplomacia paralela que envolveu políticos bolsonaristas diretamente nos Estados Unidos.
Haddad disse também acreditar que a diplomacia brasileira pode resolver a crise pela via da negociação. Durante a conversa com jornalistas, organizada pelo grupo Barão de Itararé, o ministro classificou de “irracional” a decisão de taxar em 50% os produtos brasileiros que os Estados Unidos importam. ele relembrou que nos últimos 15 anos a balança comercial tem sido favorável aos norte-americanos, registrando um déficit de bens e serviços de mais de R$ 2,4 trilhões (US$ 400 bilhões) em desfavor do Brasil.
“Olha, eu acredito que essa decisão é uma decisão eminentemente política, porque ela não parte de nenhuma racionalidade econômica. Uma vez que os Estados Unidos, como todos sabem, é superavitário em relação à América do Sul, como um todo, e ao Brasil também”, disse.
AÇÃO DE DEPUTADO
O ministro acusou a família Bolsonaro, e mais especificamente o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), de promover essa movimentação estadunidense contra o Brasil. Segundo ele, esta é única explicação plausível para o que foi feito nesta quarta-feira, 9 de julho, por Trump. “A família Bolsonaro urdiu esse ataque ao Brasil. E com um objetivo específico, que é escapar do processo judicial que está em curso”.
Para Haddad, as declarações recentes de Eduardo Bolsonaro apontam o deputado como principal articulador das sanções que o governo estrangeiro quer impingir ao Brasil e à economia nacional.
“A única explicação é de caráter político, envolvendo a família Bolsonaro. Isso não é uma acusação infundada que eu estou fazendo. O próprio Eduardo Bolsonaro disse a público que se não vier o perdão, as coisas tenderiam a piorar. Isso ele disse publicamente, fazendo todos nós acreditarmos, até porque não há outra explicação, de que esse golpe contra o Brasil, contra a soberania nacional, ele foi urdido por forças extremistas de dentro do país”, afirmou o ministro brasileiro.
POSSIBILIDADE DE REVERSÃO
O ministro salientou que, em função da inconsistência econômica do tarifaço anunciado e da ação eficaz e permanente da diplomacia do governo brasileiro, será possível reverter a decisão do presidente norte-americano. O ministro acrescentou que o governo federal nunca deixou de negociar e manter canais de diálogo com o governo Trump.
“Eu não acredito que essa situação vai se manter. Primeiro, porque nós temos uma diplomacia reconhecida no mundo inteiro como uma das mais profissionais. O nosso Itamaraty sabe negociar, sabe sentar à mesa. Você não pode comprometer relação entre estados em função de eventuais divergências que podem e devem ser superadas pela diplomacia brasileira, que está à disposição desde sempre do governo americano para buscar a solução de maior parceria, maior entendimento, como nós sempre fizemos. Fizemos com o governo Biden, durante dois anos, uma aproximação, temos interesses comuns importantes, e nós devemos explorar parcerias que vão enriquecer os dois países, e não atitudes unilaterais que pensam exclusivamente no interesse egoísta, sem pensar na cooperação internacional, sem pensar no multilateralismo”, complementou.
UNIÃO INTERNA
Haddad disse acreditar que os setores produtivos brasileiros vão se unir em defesa do interesse nacional, em detrimento das disputas políticas. Ao citar a indústria paulista, que será afetada caso as tarifas de Trump sejam efetivadas, o ministro argumentou que este será um ponto a demover os extremistas da escalada contra os interesses brasileiros. Para ele, uma vez que o estado de São Paulo, governado pelo bolsonarista moderado, Tarcísio de Freitas (Republicanos), comporta base do eleitorado bolsonarista, “os extremistas se darão conta que a articulação do tarifaço é um tiro no pé”.
“Eu acredito que [esta quarta-feira, 9 de julho, foi] um dia ruim, não resta dúvida, é uma agressão que vai ficar marcada como uma coisa inaceitável e inexplicável, o governo [dos EUA] entrar na onda de um político extremista local para atacar um país, 215 milhões de habitantes, e nós temos, nesse momento, que estarmos unidos, todos unidos, com o setor produtivo, com o agro, com a indústria paulista, que é a mais afetada, nós não podemos discriminar ninguém nesse momento, pelo contrário, os setores já estão procurando o presidente Lula, e eu quero crer que esse tiro no pé vai ser revertido, porque ele é insustentável”, completou.
Sobre Tarcísio, Haddad comentou ainda que o governador paulista começa a parecer que de “candidato a presidente” passa a ser “candidato a vassalo”. O ministro fez duras críticas a Tarcísio de Freitas, que inicialmente não demonstrou estar insatisfeito com a decisão de Trump e acusou o governo Lula de ser o responsável pelo anúncio das tarifas.
“Não há espaço no Brasil para vassalagem desde 1822. Tarcísio errou muito e a extrema-direita vai ter que reconhecer que deu um tiro no pé e que o tiro vai sair pela culatra. Isso foi uma jogada eminentemente política e insustentável, sem qualquer racionalidade econômica”, completou o ministro.
































