O que é crueldade?
Há muitas maneiras de descrever essa perversão. Aqui trataremos do abandono de animais, cujos números continuam a escalar em patamares alarmantes. Mesmo com previsão legal como crime, e com sua imensa carga de condenação moral, pessoas em pleno século XXI flertam sistematicamente com esse tipo de maldade.
Os mecanismos legais e éticos já deveriam atuar como freio para desencorajar esse resultado, mas, infelizmente, um processo errático nas mentes de algumas poucas pessoas permanece misteriosamente pulsando com um fervor malévolo que desafia os divãs da psiquiatria. Em uma época em que templos e cultos se multiplicam, não se vislumbra a generosidade avançar com a mesma velocidade.
Animais que coexistem com os humanos desde a aurora da civilização, que confiam em nossa benevolência e virtudes, são descartados por quem deveria protegê-los. Seres indefesos vagueiam por toda parte: sob o escrutínio de nossa vida urbana, com seu mosaico complexo de prédios cintilantes e subúrbios esquecidos. Estão nos becos, nas rodovias, nas estradas ermas com paisagens hostis. Seus uivos de solidão ecoam de muitos lugares. Perambulam em lixões periféricos até a exaustão. Confusos e esqueléticos, ingerem nossos restos degradados. Alguns, acorrentados e sujeitos às intempéries, são atacados por morbidades há muito erradicadas pela ciência.
Com sorte, alguns reencontram paz e conforto em algum lar amoroso ou ganham uma nova chance em abrigos — ao menos terão alimento para não perecerem na inanição. Contudo, a maioria é negligenciada, vista com pacífica indiferença, escorraçada, ferida, já extinguindo seus últimos vestígios de dignidade. Adoecem e morrem lentamente, enquanto olhares apáticos delegam inconscientemente ao outro a reparação dessa realidade deformada.
As pessoas estão muito ocupadas com suas vidas para percebê-los. A grandeza de ver além de si é um exercício diário de autocontrole, empatia e compaixão. Aliviar o sofrimento dos seres mais fracos, externalizar bondade e respeito são atributos desejáveis à nossa civilização, pois temos a inteligência, os meios, os recursos e a vasta oportunidade de romper a âncora do narcisismo que nos enjaula em um mundo menor. Uma miríade de pessoas dedicada à causa, somada ao desaparelhamento público, não consegue, nem de longe, diminuir a proporção de animais peregrinos.
Para esse pequeno grupo de pessoas, para quem a vida deles importa, há uma missão diária, uma força que move cada músculo e pensamento — mas isso não basta, porque esse front tem batalhas infinitas. Desenvolve-se lentamente um protagonismo comunitário que incentiva cidadãos a se envolverem diretamente na proteção animal. Organizam-se para alterar um quadro perverso que aflige nosso ambiente. Em alguns lugares, já observamos essas mudanças com solidariedade entre si e com os animais.
Essa história está se desenrolando agora. Tem muitas formas de ser reescrita e de ter seu curso reordenado. Podemos — e devemos — intervir no seu roteiro para que possamos ter mais finais felizes. Comecemos pela origem: difundindo uma cultura que, desde o berço, reconstrua os vínculos entre os humanos e outras formas de vida. Admitir que esse mundo tem uma interdependência de conexões invisíveis que nos entrelaçam e às quais estamos inseparavelmente ligados.
Está ao nosso alcance fazer uma adoção, visitar uma ONG, apadrinhar um animal — em um gesto de nobreza.
“A compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana.” (Charles Darwin)
Que possamos ser um raio de luz para seres tão amáveis, que se propõem a preencher vazios, se lhes for concedida a permissão para fazê-lo.
Paulo Cézar de Souza é membro da Comissão de Proteção do Direitos dos Animais da OAB/MT

















