A casa é de caboclo, pode se achegar. Feita de pau-a-pique, as paredes são moldadas com barro, enquanto os pregos são de cipó e as tábuas de bambu. A cobertura é de sapé, e o piso foi preparado com barro cinza misturado a esterco bovino. Aqui, tudo é simples, inclusive a maneira de falar, com um linguajar fácil de entender.
Se o amigo chegar cedinho, ainda encontra um café passado na hora, acompanhado de broa de milho, cuscuz, pamonha, curau, queijo frescal e mel de abelha das colmeias. No almoço, minha patroa pode preparar um franguinho com quiabo ou um arroz com pequi. Já no lanche da tarde, tem bolinho de chuva com rapadura ou caldo de cana caiana. A janta? Aqui a gente só come o que sobra do almoço. Para adoçar o café, não usamos açúcar — é rapadura mesmo.
A estrada é feia, toda esburacada, pois é passagem de tropas de boiadas. Estamos esquecidos neste fim de mundo. Não temos energia elétrica, apesar da promessa de um tal projeto “Luz para Todos” há mais de 35 anos. Vivemos sem água gelada, apenas com promessas que nunca se cumprem. Mas, Deus é por nós. Aqui, não se vai à UPA para esperar seis horas por uma injeção. Entramos na mata e encontramos remédios naturais: casca de jatobá, losna, arruda, gengibre, alho, barbatimão, boldo, hortelã e alecrim. É a farmácia da natureza, que nos socorre em todas as enfermidades.
A vida aqui é calma. Já tentei morar na cidade grande, mas não me acostumei. Muito barulho, poluição, fumaça, e pessoas que jogam lixo nas ruas. Aqui, o único som é o das cigarras, pássaros e grilos. Acordamos cedo, às quatro ou cinco da manhã, para tirar leite, fazer queijo, tratar os animais e cuidar da roça.
O carro de boi é nossa maior riqueza. Tenho seis juntas, cada uma com nomes carinhosos, como Canário e Barão, Bacharel e Bandido, Caracol e Lampião. Eles não estão à venda; são parte da nossa família.
Tudo que plantamos, colhemos. Temos arroz, feijão, milho, mandioca, batatas, quiabo, melancia, hortaliças, frangos, peixes e muito mais. Sem energia elétrica, conservamos carne de porco em latas com banha. O café, cultivado e torrado aqui mesmo, é coado no pano e fica o dia inteiro no bule. O fogão à lenha é a alma da casa. Nele preparamos pão, broa, pernil, carnes e até peixe. A roda d’água e o engenho transformam a cana em garapa, melado e rapadura. A água que chega à casa é canalizada com bambu, mantendo tudo funcionando de forma sustentável.
Na roça, os mutirões fortalecem a comunidade. Trocamos dias de trabalho para plantar, colher e limpar as lavouras. À noite, celebramos com bailes, leilões e muita dança. Aqui, até as parteiras e benzedeiras mantêm viva a tradição, cuidando das pessoas com sabedoria ancestral. Do alto da colina, o ipê florido observa nosso sítio, onde mora a felicidade. Aqui, na casa de caboclo, a vida é vivida com simplicidade, respeito à natureza e muito amor ao que se tem.















