A ex-deputada Thelma de Oliveira, esposa do autor da emenda das eleições presidenciais diretas, Dante de Oliveira, conta como foram aqueles meses de luta
Por Gabriel Duenhas
A ex-deputada federal e ex-prefeita de Chapada dos Guimarães, Thelma de Oliveira, é uma mulher que sempre teve política no sangue. Ela esteve ao lado do seu marido em todas as suas batalhas políticas até o falecimento de Dante de Oliveira em 2006. A maior parte do tempo atuando nos bastidores, ela foi a responsável por todas as campanhas
eleitorais de Dante, de deputado a governador de Mato Grosso. E não foi
diferente com a campanha das Diretas, Já. Nesta entrevista exclusiva à
revista 3 Poderes Mato Grosso, Thelma conta como foram aqueles meses,
de março de 1983 a abril de 1984, ou seja, quase um ano. Ela recorda
desde o momento que Dante decidiu apresentar a emenda, passando por
vários episódios da campanha, seus bastidores, a derrota e o dia seguinte,
no qual logo se definiu enfrentar a ditadura no seu próprio campo, o
colégio eleitoral.
A senhora esteve com Dante de Oliveira em todos ou, ao menos, na
maioria das atividades das Diretas, como comícios, reuniões de partidos,
reuniões no Congresso Nacional, entre outros. A senhora poderia relatar
como foram esses episódios?
Participei de diversos eventos durante o processo da campanha das
Diretas, desde o momento que Dante começou a coleta de assinaturas
para fazer tramitar a emenda no Congresso Nacional. Eu estava no
gabinete, acompanhamos desde o momento que até havia um descrédito
da emenda, por ser uma emenda simples. Enfim, participei de diversas
reuniões, comícios, reuniões de partidos, parlamentares, personalidades…
Cada evento, cada atividade, tinha um objetivo, uma finalidade, de certa
forma todos tinham um sentimento muito forte de esperança, que o tema
chegasse à população de forma simples, e que reunisse o maior número
de pessoas da sociedade, parlamentares, personalidades, artistas… Essa
alegria permeava em tudo que acontecia no processo das Diretas.
Queríamos um movimento pacífico, tendo em vista o período que
vivíamos da ditadura militar.

apresentou a emenda das eleições diretas
A senhora sentia a temperatura política, especialmente, a do lado dos
militares que eram contra as Diretas? Sentiram que em algum momento
poderia haver uma reação forte, como, por exemplo, um golpe, ou golpedentro do golpe?
Sentíamos a temperatura advinda da ditadura militar, que não queria que
acontecesse o que a emenda propunha, eleger um presidente da
República, em que as pessoas tivessem essa liberdade de escolha. Os
militares estavam apreensivos, não queriam, pois achavam que, com isso,
o poder deixaria de estar com eles, os mesmos achavam que a população
estava imatura, e que não saberia votar.
Todos nós tínhamos preocupação com uma possível reação dos militares.
Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, o próprio Dante, mas, ao mesmo
tempo entendíamos que já tínhamos dado um passo e que não dava mais
para voltar atrás, e que teríamos que seguir em frente, com movimentos
sempre pacíficos. Isso era muito discutido pois vários comícios foram
feitos com o apoio dos governadores, isso era uma situação bastante
cuidadosa por parte de todos. Falar de golpe dentro do golpe, acho que
não. Sentíamos a necessidade de manter um movimento sério, pacífico e
cada vez mais agregando e aumentando pessoas pelo Brasil, de todos
níveis, camadas e setores da sociedade brasileira.
A senhora poderia relatar algum episódio fundamental, emblemático,
em todo o contexto da campanha das Diretas?
Tivemos muitos momentos emblemáticos que dentro de um movimento
como esse, que reuniu da esquerda à direita, artistas, escritores, poetas,
sindicatos, trabalhadores, donas de casa, mulheres em todo o país. Então,
tinham muitos momentos que foram emblemáticos, como a caminhada
pelas Diretas que participou Fernando Henrique Cardoso, Tancredo Neves,
e várias outras pessoas. O “panelaço” que foi feito pelo país inteiro pelas
Diretas, Já, foi um momento único. Acho que os comícios, principalmente
o da Candelária, a quantidade de pessoas que participaram, foram
momentos muito especiais. Enquanto as reuniões e os comícios,
começaram muito tímidos, 300 a 400 pessoas, e no final, tivemos comícios
maravilhosos em São Paulo, no Rio de Janeiro e outros lugares.
O que eu acho que foi bastante importante, tirando esses eventos, é que
não havia aquela vaidade, nem do Dante de ser o autor da emenda ter o
nome dele, tanto que se decidiu Diretas Já, Ulysses Guimarães foi
alcunhado de “senhor Diretas já!”, e assim como o Dante, todos os outros
não tinha aquela vaidade. E isso foi muito importante pela unidade que se
fazia necessário para levar tudo isso adiante.

de uma das várias lutas travadas contra a ditadura
Gosto sempre de ressaltar o quanto o movimento foi pacífico, com
milhares de pessoas, que não eram só homens e mulheres, eram famílias,
idosos, jovens, crianças, mães levando seus filhos em carrinhos, e em
nenhum momento viu-se qualquer tipo de provocação que pudesse levar
a uma situação de conflito ou qualquer coisa do tipo.
Então, eu vejo que o movimento foi tão único no país e teve muitos
momentos emblemáticos, até mesmo no momento em que Ulysses
Guimarães entendeu que realmente esse era um momento dele, como
pessoa, que na época era a maior liderança democrática do país. Ele
entendeu que deveria mobilizar o país, para que pudéssemos votar para
presidente.

A senhora poderia descrever como foi que o ex-deputado federal Dante de Oliveira se sentiu no dia da votação e da derrota? A propósito, como foi aquele dia para vocês? Como que Dante amanheceu e seguiu para o Congresso nacional? Quais as suas palavras ao tomar café, se vestir, sepreparar para sair? Enfim, como foi aquele desde as primeiras horas, atéfinal da votação, e depois da derrota? Para onde foram?
Nós ficamos até de madrugada na véspera. Tivemos várias conversas com
parlamentares, como ocorreria a votação, algumas definições, que os
parlamentares deveriam ir vestidos: camisa branca, gravaram amarela,
para mostrar o compromisso com as Diretas Já. No dia da votação,
acordamos cheios de expectativas de esperança, mesmo sabendo que
haveria uma certa dificuldade da emenda, exatamente porque a direita
tinha se articulado fortemente, os ministros e a direita no próprio
Congresso Nacional as articulou de uma maneira muito forte.

Brasil impulsionando a campanha das Diretas
Então, sabíamos que não seria muito fácil, mas, nós acordamos, os pais do
Dante estavam conosco, fomos cheios de esperança, animados, tomamos
café e seguimos todos para o Congresso. Chegamos lá, tinham muitas
pessoas nas ruas, fomos bem tranquilos. Eu disse que nós lutamos,
fizemos o que foi possível, temos muita gente conosco e com a emenda
das Diretas, Já. Mas sabíamos que tinham parlamentares que não estavam
comprometidos nem com a democracia nem com a emenda e nem
mesmo em melhorar a qualidade de vida da população.
Fomos para o Congresso, fomos para lá, o Dante foi para o plenário, eu e
dona Mora, esposa de Ulysses Guimarães, assistimos de mãos dadas, com
muita expectativa, achávamos que íamos vencer no plenário. Com a
derrota, ficamos muito tristes, pois era uma luta de todo o país, de
inúmeras pessoas, e que por apenas 22 votos, de parlamentares que se
recusaram a dar para a população a oportunidade.
Ressalta-se que no dia seguinte, começaram as discussões de que não
podíamos deixar a população totalmente frustrada. Aí nasceu a ideia de se
participar do colégio eleitoral, tento um candidato que representasse todo
o povo a luta, a energia, e que não fosse em vão. Aí nasceu decidiu-se
participar com a presença de Tancredo Neves, representando as forças
democráticas. Foi um movimento tão maduro que, mesmo com a derrota,
decidimos continuar em frente, em outro campo, que era o campo da
ditadura, o colégio eleitoral, mas que entendíamos ser absolutamente
necessário naquele momento, que aconteceu de ser vitorioso, mas que
infelizmente acabou não dando certo.
A senhora, como esposa de Dante, mas sobretudo como cidadã, como
sentiu-se naquela época, durante a campanha, durante a votação, ao
confirmar a derrota, e no dia seguinte?
Posso dizer que fui a mulher mais feliz da vida, porque nunca
imaginávamos, nem eu nem o Dante, que fossemos participar de um
momento tão especial e único em nosso país. Me senti muito feliz,
participei ativamente, fazíamos reuniões de mulheres para definir nossas
ações, fazíamos reunião nos sindicatos, eu cuidava da agenda do Dante.
Eu me senti extremamente participativa pela oportunidade que tivemos,
de levar ao Brasil uma mensagem de esperança, depois eu fiquei muito
triste, pois perdemos, mas continuamos, no colégio eleitoral. Acho que
isso fez com que a população permanecesse unida, só não esperávamos o
desfecho depois, mas, naquele momento saímos da frustração para uma
nova esperança, uma nova luta, no campo democrático, para que
pudéssemos sair vitoriosos.
















