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Perícia de Mato Grosso devolve história a familiares de pessoas

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Papiloscopia da Politec identifica mais de 95% dos corpos que  chegam ao IML e se consolida como referência na busca por respostas

 

 

Quando um corpo sem identificação dá entrada no Instituto Médico Legal (IML), inicia-se um processo técnico rigoroso. Mas, antes de qualquer protocolo, existe algo maior: uma família esperando. Esperando por uma ligação. Por uma confirmação. Por uma resposta. É nesse ponto delicado entre a dor e a esperança que atua a Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) de Mato Grosso. E, dentro dela, um setor que se tornou essencial para o estado: a papiloscopia.

 

Há 25 anos na instituição, o papiloscopista Wilton Souza conhece como poucos essa realidade. Ele ingressou na Politec em 2001 e hoje está à frente da Gerência do Plantão Integrado, vinculada ao Instituto de Identificação — diretoria responsável pela emissão do documento de identidade, o antigo RG, atualmente denominado SIM.

 

“Sem documento, o cidadão praticamente deixa de existir para o Estado. Ele perde acesso a direitos, a serviços e até à própria cidadania”, afirma. Mas o trabalho da equipe vai muito além da emissão de documentos. A Gerência do Plantão Integrado atua em diversas frentes. Identifica cadáveres que chegam ao IML, realiza a identificação de custodiados apresentados ao fórum e desenvolve uma importante ação social: garantir documentação civil a pessoas em situação de vulnerabilidade, acolhidas em hospitais públicos ou nos Centros de Referência para População em Situação de Rua (POPs).

 

São cidadãos que, por diferentes circunstâncias, perderam ou nunca tiveram documentação formal. O trabalho da Politec, nesse contexto, representa dignidade.

“Nosso papel é assegurar que essas pessoas sejam reconhecidas oficialmente. É um trabalho técnico, mas profundamente social”, destaca Wilton.

 

Todo corpo que chega ao IML é encaminhado por meio de requisição formal da Polícia Judiciária Civil. Quando não há documentos ou quando a identidade é desconhecida, entram em ação protocolos específicos.

 

 

São coletadas impressões digitais, realizado exame odontológico e feita coleta de material genético. Três diretorias da Politec atuam de forma independente e simultânea: Identificação, Medicina Legal e Laboratório Forense. Cada uma realiza buscas em seus próprios bancos de dados.

 

“Nosso objetivo é viabilizar, o mais rápido possível, a identificação. Um corpo sem nome significa uma família aguardando resposta”, explica.

 

Na capital, os números impressionam. A papiloscopia é responsável por mais de 95% das identificações dos corpos que dão entrada no IML. Com apoio do Tribunal Superior Eleitoral e da Polícia Federal do Brasil, o índice em Cuiabá se aproxima de 100%.

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Atualmente, apenas um ou dois casos permanecem sem identificação na capital. Em todo o estado de Mato Grosso, o número não ultrapassa cinco cadáveres sem nome. Esse resultado é reflexo direto do avanço tecnológico. O banco de dados está praticamente digitalizado, permitindo confrontos rápidos e precisos. Não existe prazo legal fixo para que um cadáver permaneça sob custódia do Estado. Administrativamente, adota-se como referência o período médio de até 30 dias.

 

“O que aplicamos é o bom senso. O prazo pode variar conforme o andamento do inquérito, a necessidade de exames complementares e até questões estruturais”, explica Wilton.

 

Quando não há reconhecimento familiar e a identificação não é possível, o sepultamento é realizado com registro formal de não identificado. O túmulo é lacrado e catalogado, possibilitando exumação futura. Mesmo após o sepultamento, os casos continuam sendo revisados. Uma das iniciativas mais sensíveis em andamento é o projeto “Lembra de Mim”, coordenado pela papiloscopista Simone Delgado.

 

A proposta é revisar casos antigos — o chamado passivo — utilizando tecnologias atuais e ampliando o cruzamento de dados com apoio da Polícia Federal e do Tribunal Superior Eleitoral.

 

“A confirmação da identidade não elimina a dor, mas encerra a incerteza”, resume Wilton.

 

O projeto já tem produzido novas identificações positivas, demonstrando que, mesmo após anos, ainda é possível devolver um nome a quem perdeu a identidade. Nos casos de cemitérios clandestinos, o desafio é ainda maior. A possibilidade de identificação depende do estado de conservação do corpo. A preservação da epiderme nas mãos é fator determinante para a recuperação das impressões digitais.

 

“Já houve casos descritos na literatura técnica de identificação após mais de dez anos da morte. Tudo depende das condições”, afirma.

 

 

Em uma ocorrência recente, seis dos doze corpos localizados foram identificados. Em Lucas do Rio Verde houve confirmação positiva. Em Várzea Grande, quatro dos oito corpos encontrados tiveram identidade confirmada. O cuidado começa na escavação. Um manuseio inadequado pode comprometer definitivamente uma impressão digital.

 

“A identificação é o primeiro passo da investigação. Sem nome, não há história completa”, reforça.

 

Corpos esqueletizados, carbonizados ou em estado avançado de decomposição representam maior complexidade técnica.

 

“O papiloscopista precisa avaliar corretamente as condições do corpo para definir qual técnica aplicar. Um método inadequado pode comprometer definitivamente a impressão digital.”

 

O trabalho exige integração entre papiloscopista, médico-legista e técnico em necropsia. É uma atuação minuciosa, que demanda experiência e sensibilidade.  Desde 2025, a papiloscopia mato-grossense está alinhada à política nacional de busca por pessoas desaparecidas, com base na Lei nº 12.833. As informações são repassadas a um ponto focal coordenado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, permitindo cruzamento nacional de dados. Mensalmente, são enviados relatórios sobre atendimentos e coletas realizadas, fortalecendo a integração entre estados.

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O objetivo é reduzir distâncias. Se uma família em Alta Floresta registra desaparecimento e há indícios de passagem por Cuiabá, os dados podem ser cruzados sem necessidade imediata de deslocamento. É a tecnologia a serviço da esperança.

 

Não é necessário aguardar 24 horas para registrar o desaparecimento. O boletim pode ser feito imediatamente na Delegacia Especializada de
Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

 

“Quanto mais rápido for o levantamento de informações, maiores são as chances de uma resposta eficaz”, orienta Wilton.

 

Antes mesmo do registro formal do desaparecimento, é fundamental agir com rapidez e organização. Procurar amigos, colegas de trabalho e conhecidos pode ajudar a identificar os últimos contatos e deslocamentos da pessoa. Também é recomendável verificar hospitais e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), além de tentar reconstruir, com o máximo de detalhes possível, os últimos passos e locais frequentados. Quanto mais informações forem reunidas nesse primeiro momento, maiores são as chances de uma localização ágil.

 

O estado também dispõe de recursos tecnológicos para reforçar as buscas, como o programa Vigia Mais, que utiliza reconhecimento facial para auxiliar na identificação em diferentes pontos monitorados. Mesmo com todo o rigor técnico e científico empregado nos procedimentos, o trabalho desenvolvido nessa área vai além da análise de dados e protocolos formais. Ele é atravessado por emoções, expectativas e pela responsabilidade de oferecer respostas a quem vive a angústia da ausência.

 

“Há um misto de sentimentos. A dor pela confirmação da perda e, ao mesmo tempo, o alívio por finalmente ter uma resposta. A incerteza é devastadora.”

 

A equipe da Politec convive diariamente com essa realidade, lidando não apenas com procedimentos técnicos, mas com histórias interrompidas e famílias que aguardam respostas. Para 2026, a instituição projeta ampliar capacitações, investir em novas tecnologias e fortalecer ainda mais o cruzamento de dados, aprimorando a eficiência e a precisão dos processos de identificação.

 

O compromisso permanece claro: reduzir de forma contínua o número de casos sem identificação e oferecer respostas cada vez mais rápidas à sociedade. Porque, no fim, cada identificação realizada não representa apenas a conclusão de um procedimento pericial. Significa devolver um nome, encerrar uma espera angustiante, cumprir a função social da ciência e permitir que a esperança encontre, finalmente, uma resposta.

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