A eliminação precoce da Seleção Brasileira na Copa do Mundo abriu uma série de discussões sobre o futuro da equipe, o trabalho de Carlo Ancelotti e a necessidade de mudanças dentro e fora de campo. Em entrevista ao RDM Online, o narrador e comentarista esportivo Igor Gabriel analisou o momento vivido pelo futebol brasileiro, falou sobre a influência da CBF, o protagonismo de Vinícius Júnior, o futuro de Neymar e projetou o caminho da Seleção até a Copa do Mundo de 2030.

RDM Online: A eliminação do Brasil nas oitavas de final surpreendeu?
Igor: A eliminação surpreende pelo peso da camisa da Seleção Brasileira, mas ela não aconteceu por acaso. Depois da saída do Tite, passaram Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior, cada um com uma filosofia diferente. Paralelamente, a própria CBF viveu mudanças de comando e problemas administrativos. Quando a gestão de uma instituição não vai bem, isso acaba refletindo também dentro de campo. A Seleção chegou à Copa sem uma base consolidada e pagando o preço dessa instabilidade.
RDM Online: Como você avalia o trabalho de Carlo Ancelotti?
Igor: O Ancelotti é o menos responsável por essa eliminação. Ele assumiu uma equipe que já vinha enfrentando dificuldades e, mesmo em pouco tempo, deu alguns sinais de evolução. Nos amistosos contra França e Croácia, por exemplo, vi jogadores mais soltos e uma equipe tentando assimilar uma nova ideia de jogo. Ainda falta encaixe coletivo, mas não dá para julgar um treinador por poucos meses de trabalho.
RDM Online: O trabalho dele deve continuar?
Igor: Acredito que sim. O Ancelotti renovou até 2030 e precisa desse tempo para formar um grupo. Em 2002, o Felipão também foi muito criticado antes da Copa e conseguiu montar uma equipe campeã. O futebol exige continuidade. Se houver planejamento, o Brasil pode voltar a ser competitivo naturalmente.
RDM Online: O que mais precisa mudar na Seleção?
Igor: A mudança precisa começar fora das quatro linhas. É preciso dar mais estabilidade à CBF, diminuir qualquer tipo de influência externa nas decisões e criar uma base de jogadores para ser acompanhada durante todo o ciclo. Antigamente existia uma espinha dorsal muito clara. Hoje isso ainda não aconteceu.
RDM Online: Vinícius Júnior já assumiu o protagonismo?
Igor: Hoje ele é o jogador mais preparado para isso. Contra a França eu já vi um Vinícius diferente, buscando o jogo, partindo para cima dos adversários e jogando na posição em que mais rende. Ainda acho que ele mostrou apenas parte do potencial que apresenta no Real Madrid, mas é o principal nome dessa nova geração.
RDM Online: Neymar ainda pode disputar a Copa de 2030?
Igor: Pode, desde que consiga se cuidar fisicamente. O Neymar continua tendo uma qualidade técnica diferenciada. Mesmo entrando pouco nesta Copa, demonstrou liderança, chamou os companheiros e procurou participar do jogo. Se administrar melhor a carreira e as lesões, ainda pode ser importante para a Seleção.
RDM Online: A convocação dele foi correta?
Igor: Eu concordei com a convocação. O Neymar talvez não tenha mais condições de decidir todos os jogos como antes, mas continua sendo um atleta decisivo em cobranças de falta, pênaltis e momentos de pressão. Jogadores com essa experiência fazem diferença em uma Copa do Mundo.
RDM Online: Caso Ancelotti deixasse a Seleção, quais técnicos brasileiros você indicaria?
Igor: Hoje vejo dois nomes preparados: Rogério Ceni e Renato Gaúcho. Os dois conhecem o futebol brasileiro, têm títulos importantes e personalidade para comandar um grupo de alto nível. Seriam opções interessantes em um futuro ciclo.
RDM Online: Como você define a Copa do Mundo de 2026?
Igor: Foi uma Copa extremamente equilibrada e democrática. O aumento no número de seleções permitiu que equipes menos tradicionais mostrassem força. Vimos países surpreendendo favoritos e partidas muito disputadas do início ao fim. Foi uma competição em que o equilíbrio chamou mais atenção do que o favoritismo.
RDM Online: Qual seleção mais surpreendeu?
Igor: Cabo Verde foi uma das grandes surpresas, mas eu destacaria principalmente Marrocos. Eles vêm investindo muito na formação de atletas e acredito que, mantendo esse trabalho, podem chegar a uma final de Copa do Mundo nos próximos anos.
RDM Online: Espanha e Argentina chegaram à final com mérito?
Igor: Sem dúvida. As duas seleções chegaram porque fizeram um trabalho de longo prazo. Tanto De La Fuente quanto Scaloni conheciam muito bem os jogadores das categorias de base e deram continuidade ao processo quando assumiram as equipes principais. Esse planejamento fez toda a diferença.
RDM Online: O que o Brasil pode aprender com essas seleções?
Igor: Que não existe resultado imediato. Espanha e Argentina colheram agora o que começaram a plantar anos atrás. O Brasil precisa olhar mais para a base, formar jogadores dentro de uma filosofia e manter um projeto, independentemente das mudanças de gestão.
RDM Online: O futebol brasileiro ainda revela grandes talentos?
Igor: Revela, e muitos. O problema não é falta de jogador. O Brasil continua formando atletas de alto nível. O que precisa melhorar é a forma como esses talentos são preparados e aproveitados até chegarem à Seleção Principal.
RDM Online: O Brasil pode voltar a ser favorito em 2030?
Igor: Pode, mas depende das escolhas feitas agora. Se houver continuidade no trabalho do Ancelotti, fortalecimento da base e uma estrutura mais organizada dentro da CBF, a Seleção terá condições de voltar a disputar o título em igualdade com qualquer potência do futebol mundial.
RDM Online: Para encerrar, qual mensagem você deixa ao torcedor brasileiro?
Igor: O torcedor precisa continuar acreditando. O Brasil nunca deixou de revelar grandes jogadores. O futebol mudou, ficou mais equilibrado e exige planejamento. Se voltarmos a investir na base, valorizar nossos talentos e organizar melhor a Seleção, o caminho para voltar a conquistar uma Copa do Mundo será consequência de um trabalho bem feito.


















