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Polarização extremada

ENTREVISTA DA SEMANA | RECUPERAÇÃO GAÚCHA

Governador Eduardo Leite durante lançamento da Expointer, em Brasília, na sede da CNA, diante de lideranças políticas e empresariais do agronegócio do país. (Foto: Vitor Rosa / Secom-Gov-RS)

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Ao lançar Expointer 2025, em Brasília, Eduardo Leite pede que Lula ligue imediatamente para Trump para tentar retirar tarifas às exportações brasileiras

 

Governador gaúcho lamentou que polarização política esteja dominada por polos radicalizados e extremados; ao comentar porque lançou a maior feira do agronegócio da América Latina a céu aberto na capital federal, o ex-tucano disse que era para mostrar a recuperação do setor ao Brasil.

 

Por Humberto Azevedo

 

Ao lançar a 48ª edição da Expointer 2025, em Brasília, na sede da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o governador do Rio Grande do Sul (RS), Eduardo Leite (PSD) pediu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ligue imediatamente para o presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, com objetivo de tentar retirar as tarifas impostas de até 50% por aquele país às exportações brasileiras.

 

A declaração de Leite aconteceu após o presidente brasileiro afirmar que não ligará para Trump para ser “humilhado” e que quando tiver “intuição” de que o presidente norte-americano quiser conversar, ele fará a ligação na mesma hora. Entretanto, o governador gaúcho afirmou que Trump “quer conversar” e que estaria aguardando um telefonema de Lula. No entanto, ex-tucano – que trocou o PSDB pelo PSD comandado pelo chefe da Casa Civil do governo paulista, Gilberto Kassab – lamentou que a polarização política esteja dominada por polos radicalizados e extremados.

 

“Tem tarifas aplicadas a outros países, mas o que nós temos observado por parte das principais lideranças do mundo, que estão tendo que lidar com essa situação com os Estados Unidos, no Canadá, no México, na União Europeia, no Japão, é que deve preponderar é pragmatismo, o bom senso, e o equilíbrio. Ser firme na defesa do interesse nacional não significa ser grosseiro e partir para o ataque aos Estados Unidos, o que só dificulta o processo de negociação”, disse Leite.

 

“Então, eu espero que o presidente Lula ligue imediatamente para o presidente Trump. Diz que não vai ligar porque o presidente Trump não quer falar, mas o presidente Trump já disse que está disponível para falar a hora que o presidente Lula quiser, então tem que ligar. E se não for atendido, que ele mostre que não está sendo atendido pelo presidente Trump, mas sei lá, tem que fazer imediatamente, com senso de urgência”, continuou o governador sul-rio-grandense.

 

“Então, eu lamento que a política, de forma radicalizada, esteja produzindo esses enfrentamentos, espero que se traga uma lição de que o bom senso, o equilíbrio e o foco nos problemas reais da população é o que deve canalizar a nossa energia no mundo político”, complementou.

 

EXPORINTER

 

O ex-tucano, que deixou o ninho do PSDB para se abrigar no PSD comandado pelo chefe da Casa Civil do governo paulista, Gilberto Kassab, Eduardo Leite destacou importância do agronegócio gaúcho para a economia do país. (Foto: Vitor Rosa / Secom-Gov-RS)

Ao comentar porque lançou a maior feira do agronegócio da América Latina, que é realizada a céu aberto, na capital federal, Eduardo Leite disse que era para mostrar a recuperação do setor ao Brasil. Neste ano, a Expointer acontecerá em Esteio, 25 quilômetros de Porto Alegre, próximo do aeroporto internacional Salgado Filho.

 

Na edição de 2025, a Expointer terá 2.500 expositores, 120 expositores no setor de máquinas e implementos agrícolas, participação recorde de 456 agroindústrias familiares e mais de cinco mil animais expostos ao longo de nove dias de feira, que começou na última quarta-feira, 6 de agosto.

 

Ao lado do presidente da CNA, João Martins da Silva Junior, e do presidente da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Gedeão Pereira, Eduardo Leite frisou que o evento inaugural na capital federal “pela primeira vez no coração político do país” foi para “mostrar a força do agro gaúcho e chamar a atenção do governo federal e do Congresso para a necessidade de medidas concretas de apoio aos nossos produtores”. 

 

“Depois de uma sequência de estiagens e das enchentes de 2024, que tanto impactaram o setor, esta feira simboliza a capacidade de reação do Rio Grande e será um palco de diálogo para defender quem empreende e gera riqueza no campo. Mesmo diante de todos os desafios, temos uma grande expectativa para esta edição da Expointer. No ano passado, superamos obstáculos e alcançamos resultados históricos”, comentou Leite.

 

“Agora, com mais de 450 expositores da agricultura familiar e um volume de negócios que deve ultrapassar R$ 8 bilhões, a feira será novamente um motor de ânimo para os gaúchos e uma vitrine para lembrar ao Brasil que apoiar a nossa produção rural é investir no desenvolvimento de todo o país”, acrescentou o governador gaúcho.

 

ÍNTEGRA DA ENTREVISTA

 

Abaixo, segue a íntegra da entrevista que o governador Eduardo Leite concedeu em coletiva de imprensa, na qual a reportagem do Grupo RDM participou.

 

Imprensa: Governador, qual é a importância da realização desta feira aqui em Brasília?

Eduardo Leite: Bom, o Rio Grande do Sul, no ano passado, enfrentou um desastre climático que foi observado por todo o Brasil e pelo mundo. Nós queremos ter a oportunidade de mostrar agora para o Brasil e para todos aqueles que vieram nos visitar, essa superação do Rio Grande a partir do maior evento que nós temos no agronegócio, que é a Expointer, a maior feira agropecuária a céu aberto na América Latina. Mais de 2,5 mil expositores, num parque de 140 hectares, com uma movimentação só no ano passado de mais de R$ 8 bilhões em negócios, mais de 660 mil visitantes e essa feira para nós é muito importante para poder reunir todos os elos da cadeia produtiva e garantirmos também a interação entre o poder público e a iniciativa privada, trazemos os debates mais presentes aí no momento em relação ao agronegócio.

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Imprensa: Mas por que Brasília?

Eduardo Leite: Nós estamos tomando essa providência, portanto, de lançar também aqui em Brasília para que os veículos de imprensa, as lideranças políticas possam observar esse movimento que estamos fazendo a partir da Expointer e estarem conosco nessa 48ª edição da feira.

 

Imprensa: Como a questão das tarifas impostas por Donald Trump às exportações brasileiras serão tratadas na Expointer, sabendo que o Rio Grande do Sul é um dos grandes produtores de carros e bovinos do país?

Eduardo Leite: Nós temos muitas preocupações, uma anterior ainda ao tarifaço, que é a recuperação para os nossos produtores rurais em função dos recorrentes ciclos de eventos climáticos extremos, não apenas da enchente do ano passado, mas também das recorrentes estiagens que afetaram muito a nossa capacidade de produção, especialmente no Rio Grande do Sul. O próprio Ministério da Integração e a Defesa Civil Nacional reconhecem que nenhum outro estado brasileiro perdeu tanto economicamente por eventos climáticos como o Rio Grande do Sul. Então, é justo que se dirijam para o estado iniciativas também diferenciadas para socorrer esse produtor e dar a ele a capacidade de investir, inclusive, para se proteger de novos eventos climáticos, a partir de correção de solo, reservação de água, entre outros temas. Então, o primeiro ponto que politicamente já é importante para se debater na Expointer, mais uma vez, é avançar, como já foi aprovado na Câmara dos Deputados, agora avançar para o Senado à medida que disponibiliza recursos do Fundo Social para a renegociação das dívidas. Mais importante isso se torna ainda dentro do contexto do tarifaço, porque ele vai ter um impacto em diversos setores da economia gaúcha, também na nossa produção de proteína animal, uma vez que pega em cheio vários frigoríficos que exportam majoritariamente para os Estados Unidos. Claro que na dimensão, se você olha na dimensão do tamanho da economia do agro e do Brasil, pode parecer menor, mas para muitas empresas, para muitos produtores e indústrias é muito relevante. Então, vai ser uma oportunidade também de debater. Então, se nós tivermos o apoio necessário para o Rio Grande do Sul, a partir da superação das dívidas dos produtores, a gente consegue também ajudar a fazer circular melhor essa riqueza para enfrentar, inclusive, os desafios que o tarifaço vai nos impor.

 

Imprensa: Governador, mesmo que seja aprovado pelo Senado, há uma finalização que o projeto de renegociação das dívidas possa ter veto parcial ou veto total pelo governo. Como estão as negociações com o Ministério da Agricultura e Ministério da Fazenda?

Eduardo Leite: Bom, nós buscamos junto ao governo federal, em primeiro lugar, a prorrogação dos vencimentos dos produtores. Foi atendido em parte, não na totalidade, tanto é que o governo do estado tomou a providência, nós fizemos o aporte de R$ 150 milhões no Banco do estado do Rio Grande do Sul (Banrisul) para fazer a prorrogação da parte das dívidas que o governo federal não alcançou na prorrogação para os nossos produtores. Nós pedimos ao ministro Carlos Fávaro, e foi atendido a criação de uma comissão que reúne representantes do setor, do governo do estado, enfim, para articular em torno de uma solução. Os trabalhos andam ainda timidamente nessa comissão, e nós entendemos que eles precisam andar mais rapidamente. E por isso, paralelamente, corre no Congresso Nacional essa medida para usar recursos do Fundo Social, que entendemos que é uma boa medida. O Fundo Social é abastecido com recursos dos royalties de petróleo, da outorga onerosa [do pré-sal]. Vai movimentar esse fundo, ao longo dos próximos dez anos, cerca de R$ 1 trilhão nesse fundo. Tudo o que nós estamos pedindo é que parte dele seja utilizado, como já dispõe a própria legislação, para enfrentamento de eventos climáticos, que estão afetando a nossa produtividade. Então, está dentro da finalidade do próprio fundo, e vamos articular politicamente para que o governo federal se sensibilize e dê o devido encaminhamento, conforme o Congresso Nacional deverá dispor. Porque ajudar os nossos produtores a renegociar as suas dívidas, é importante lembrar, não é perdoar as dívidas deles, é dar a condição alongada para que eles possam promover o investimento nas suas futuras lavouras, arcar com os custeios, com o custeio necessário para as próximas lavouras, garantindo-se uma condição para que eles paguem essa dívida num prazo mais alongado e não sacrifiquem, no curto prazo, a sua capacidade de produção, pagando as dívidas focadas, as fixadas pelas dívidas, o que atinge em cheio a nossa economia e, consequentemente, também o Brasil, uma vez que o Rio Grande do Sul é um dos principais produtores do país. Então, acredito que nós teremos a capacidade de sensibilizar o governo federal para essa causa, que não é apenas dos gaúchos, é de todos os brasileiros.

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O governador gaúcho e o presidente da Federação da Farsul, Gedeão Pereira, no lançamento em Brasília. (Foto: Vitor Rosa / Secom-Gov-RS)

 

Imprensa: Governador, como é que você vê essa crise entre Brasil e EUA e os seus desdobramentos aqui na política do Brasil com a oposição bolsonarista impedindo o funcionamento do Congresso Nacional, querendo o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do STF?

Eduardo Leite: Olha, não tem como a gente não se entristecer diante desse ambiente político, mas, ao mesmo tempo, expressar a nossa indignação e a nossa energia ser colocada para superar essa polarização radicalizada em que um lado, cada um dos polos que hoje protagonizam o processo político, simplesmente quer aniquilar o outro. O esforço de um lado é destruir o outro e aí se perde a oportunidade de construir soluções para os reais problemas da vida do povo brasileiro. Está aqui um deles [apontando para o presidente da CNA], a crise na nossa produção agrícola por conta de dívidas, de endividamento em função de eventos climáticos extremos, os próprios eventos e seus efeitos em tantas outras frentes. Problemas de segurança pública, problemas de produtividade em outras áreas da nossa economia. Não faltam problemas para serem resolvidos. E toda a energia política está sendo canalizada para enfrentamentos e confrontos. Na relação diplomática com os Estados Unidos, é claro que existe uma situação especialmente sensível, não se dá em relação apenas ao Brasil. Hoje mesmo tem um anúncio de elevação de tarifas em relação à Índia, que vai alcançar os 50% dos mesmos que se impõem ao Brasil. Tem tarifas aplicadas a outros países, mas o que nós temos observado por parte das principais lideranças do mundo, que estão tendo que lidar com essa situação com os Estados Unidos, no Canadá, no México, na União Europeia, no Japão, é o que deve preponderar é pragmatismo, o bom senso, e o equilíbrio. Ser firme na defesa do interesse nacional não significa ser grosseiro e partir para o ataque aos Estados Unidos, o que só dificulta o processo de negociação. Então, eu espero que o presidente Lula ligue imediatamente para o presidente Trump. Diz que não vai ligar porque o presidente Trump não quer falar, mas o presidente Trump já disse que está disponível para falar a hora que o presidente Lula quiser, então tem que ligar. E se não for atendido, que ele mostre que não está sendo atendido pelo presidente Trump, mas sei lá, tem que fazer imediatamente, com senso de urgência, a conversa para buscar arrefecer o impacto dessas tarifas, enquanto de outro lado se trabalham medidas mitigatórias para dentro do país, usando os exemplos de outros episódios que também limitaram as empresas de atuarem, seja o da pandemia, seja o da enchente no Rio Grande do Sul, quando houve medidas que ajudaram a aliviar impactos de momentos em que as empresas não estavam podendo trabalhar. Agora a gente tem urgência também de que essas medidas sejam implementadas aqui no Brasil. Então, eu lamento que a política, de forma radicalizada, esteja produzindo esses enfrentamentos, espero que se traga uma lição de que o bom senso, o equilíbrio e o foco nos problemas reais da população é o que deve canalizar a nossa energia no mundo político.

 

Imprensa: A respeito da próxima safra, safra de verão, será que essa sensibilização chega a tempo para o produtor gaúcho?

Eduardo Leite: Nós apuramos, por exemplo, em relação às safras de inverno, já no plantio do trigo, por exemplo, está ainda sendo diagnosticado, mas que muitos produtores já muito pressionados pelas suas dívidas deixaram de plantar. Então, nós temos também essa preocupação para a safra de verão, é claro, por isso que demandamos medidas urgentes por parte do governo federal, que é quem tem fôlego, capacidade para viabilizar e tem fonte de recursos, que não são apontadas, mas do fundo social, para viabilizar essa repactuação destas dívidas. E esse recurso não precisa ser desembolsado no todo imediatamente, ele pode ser justamente ao longo do processo de repactuação destas dívidas. Então, tem caminho, tem uma sinalização de um formato de refinanciamento a ser alcançado, tem que ter prioridade por parte do governo, é isso que nós estamos reclamando há muito tempo, por isso quando a gente lança a Expointer, não podemos não falar sobre o momento urgente em que vivem os produtores rurais gaúchos na renegociação das suas dívidas.

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