MATO GROSSO

Visão de governador

ENTREVISTA DA SEMANA | MAURO MENDES

Mauro Mendes: “Os Estados Unidos não podem fazer conosco o que ele está fazendo, nem com ninguém no mundo”. (Foto: Mayke Toscano / Secom-MT)

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“Conseguimos vencer um dos grandes desafios que nós sempre tivemos, que é melhorar a infraestrutura logística”, acredita governador de Mato Grosso

 

Numa longa entrevista de uma hora e meia concedida à TV Jovem Pan no último dia 28 de abril, Mauro Mendes teceu vários comentários e análises sobre quase tudo, de temas de governança, questões de política interna a geopolítica.

 

Por Humberto Azevedo

 

“Nós conseguimos vencer um dos grandes desafios que nós sempre tivemos, que é melhorar a infraestrutura logística”, acredita o governador de Mato Grosso (MT), Mauro Mendes (União Brasil). Mas ele reconhece que mesmo o avanço ainda não acontecendo na velocidade “que precisaria”, “nos últimos anos o governo estadual conseguiu fazer robustos investimentos”.

 

Esta e muitas outras falas foram feitas durante a entrevista que o governador mato-grossense concedeu ao programa “Direto ao Ponto” da rádio e TV Jovem Pan no último dia 28 de abril. Sua fala sobre o avanço na infraestrutura de transportes aconteceu em meio ao comentar como avaliava o trabalho do governo federal nesta questão. “O governo federal está deixando um pouco a desejar, as obras do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] anunciado, quase nada andou”, comentou.

 

“A gente espera muito desse programa que foi anunciado aos quatro ventos, ou seja, uma nova edição daquele velho PAC, mas as coisas estão meio empacadas, pelo menos no estado de Mato Grosso. PAC empacado. (…) O grande desafio dos governos é atrapalhar menos e ajudar mais. E do lado do governo, pelo menos no estado de Mato Grosso, o que nós temos feito é investir muito em infraestrutura”, observou.

 

Realizaram a entrevista com o governador mato-grossense o jornalista e apresentador da TV Jovem Pan, Nelson Kobayashi; o economista Jason Vieira; o cientista político Elias Tavares; o vice-presidente da Ágora Assuntos Públicos, Fábio Zambelli; e o comentarista da emissora paulistana, Mano Ferreira.

 

Além de governar MT, Mauro Mendes é empresário e formado em engenharia elétrica pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Após formado, fundou a Bimetal, fabricante de torres de telecomunicações no ano de 1989. Entre os anos de 2007 e 2010, foi presidente da Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso (FIEMT).

 

No mesmo período também foi presidente do “Sistema SESI” Serviço Social da Indústria e SENAI, Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, da seccional de Mato Grosso da Confederação Nacional da Indústria (CNI), entidade da qual, entre 2010 e 2014, foi vice-presidente. Em 2012, Mauro Mendes foi eleito prefeito da capital mato-grossense, Cuiabá, e, em 2018 e 2022, foi eleito e reeleito governador no primeiro turno.

 

“O governo do estado de Mato Grosso investiu nos últimos quatro anos perto de 20% daquilo que nós arrecadamos. Quase 20% daquilo que nós arrecadamos vira investimento do meu estado. No estado, quando eu assumi lá em 2019, estava com a folha de salário atrasado. (…) Fizemos um ajuste fiscal muito duro, no começo doeu, fui vaiado, fui criticado, inclusive pelo agronegócio e pela grande maioria, porque medidas certas e corretas, num primeiro momento, elas são mal compreendidas”, emendou.

 

Abaixo, segue a íntegra da entrevista concedida pelo governador Mauro Mendes à rádio e TV Jovem Pan.

 

Jovem Pan: Hoje o nosso programa recebe o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes. Governador, bem-vindo, boa noite.

Mauro Mendes: Obrigado, obrigado pela oportunidade.

 

Nelson Kobayashi: Governador Mauro Mendes, apesar da sua história ser toda ligada ali à área do empresariado e da indústria, o senhor é governador de um estado muito importante para o agronegócio brasileiro. E recentemente, nas últimas semanas, nos últimos meses, a gente viu esse assunto turbilhar nas redes digitais, na mídia, na repercussão, em razão do preço dos alimentos. O senhor, como governador de um dos principais estados, se não o principal, do agronegócio brasileiro, como vê a situação do agro, do acesso desses produtores rurais às facilidades que precisam para colocar alimento na mesa dos brasileiros?

Mauro Mendes: “O Trump está abusando do poder que, em tese, o Estados Unidos tem, mas esse tiro pode sair pela culatra”. (Foto: Mayke Toscano / Secom-MT)

Mauro Mendes: Primeiro, tenho muito orgulho de fazer parte hoje do estado de Mato Grosso e dessa bela história que milhares de brasileiros que para lá foram há duas, três, quatro, cinco décadas atrás, e ter transformado aquele canto do Brasil, que eram terras há muito tempo atrás hostis, improdutivas, no maior celeiro do nosso país e, talvez, um dos maiores celeiros de produção de alimentos do mundo. O estado de Mato Grosso lidera hoje o agronegócio brasileiro, com várias commodities em primeiro lugar, e hoje o estado vive um momento diferente e melhor, porque nós conseguimos vencer um dos grandes desafios que nós sempre tivemos, que é melhorar a infraestrutura logística. Não aquilo que precisaria, mas nos últimos anos o governo conseguiu fazer robustos investimentos e com isso a infraestrutura [vem] melhorando, melhora a competitividade desse agro, daquilo que eles chamam de porteira para fora. Porque da porteira para dentro, já há algum tempo nós conseguimos avançar muito em produtividade, em eficiência, em ganho de escala, porque lá nós temos grandes áreas produtivas, e com isso nos tornamos essa grande potência do agro brasileiro, e o agro brasileiro é uma grande potência mundial, fazendo com que o Brasil se tornasse o maior exportador líquido de alimentos. E os preços é algo que tem que se conviver com essa oscilação, uma hora o preço sobe, uma hora o preço desce, é o câmbio que sobe, é o câmbio que desce, é problema climático. Então, a agricultura brasileira tem que enfrentar esses desafios. Você tem um desafio climático, você tem um desafio do dólar e você tem um desafio do preço, que é Chicago, a bolsa lá nos Estados Unidos que determina isso. Então corre-se muito risco. Mas o produtor brasileiro, de uma maneira geral, e o de Mato Grosso aprendeu a conviver e hoje nós temos talvez uma das áreas mais competentes no mercado brasileiro, e quem sabe mundial, que é o agronegócio. E o [estado de] Mato Grosso está bem esse ano, tem uma expectativa de super safra, o preço não é lá essas coisas, tem essa história toda aí do Trump, todo esse desequilíbrio que ele criou aí com as suas medidas lá nos Estados Unidos, impactando o mundo inteiro. Porém, nós estamos preparados para esse cenário, para aprender um pouco com ele, mas aproveitar as oportunidades e todo momento de turbulência, de crise, surgem oportunidades. E o agronegócio brasileiro está preparado para aproveitar essas oportunidades.

 

Nelson Kobayashi: E do ponto de vista do governo, o que o governo pode fazer para, se não ajudar, pelo menos não atrapalhar o produtor rural? Tanto o governo do Estado, lá onde o senhor é governador, quanto do governo federal.

Mauro Mendes: “A burocracia do Brasil, que o empresário e o empreendedor têm que lidar para se estabelecer, (…) ela não anda bem”. (Foto: Mayke Toscano / Secom-MT)

Mauro Mendes: Olha, esse é o grande desafio dos governos. Atrapalhar menos e ajudar mais. E do lado do governo, pelo menos no estado de Mato Grosso, o que nós temos feito é investir muito em infraestrutura. O governo do estado de Mato Grosso investiu nos últimos quatro anos perto de 20% daquilo que nós arrecadamos. Quase 20% daquilo que nós arrecadamos vira investimento do meu estado. No estado, quando eu assumi lá em 2019, estava com a folha de salário atrasado. Fizemos um ajuste fiscal muito duro, no começo doeu, fui vaiado, fui criticado, inclusive pelo agronegócio e pela grande maioria, porque medidas certas e corretas, num primeiro momento, elas são mal compreendidas. Mas, num segundo momento, as pessoas percebem o resultado, vem o investimento que o estado tem o dever de fazer, porque pagar imposto, não é, gente, ninguém gosta!. Eu não gosto, vocês não gostam aqui, e provavelmente ninguém gosta. Agora, o mais doído é você pagar e ainda ter que pagar por saúde, ter infraestrutura ruim, pagar para exportar seu filho na escola. Para vocês terem uma ideia, esse ano nós tivemos 8740 alunos da escola privada que abandonaram a escola privada e mudaram para a escola pública no estado de Mato Grosso. Não é porque lá tem crise, não. Porque lá tem uma menor taxa de desemprego no Brasil, os salários estão crescendo, é porque melhorou a qualidade da educação, fruto dos investimentos que o estado está fazendo. Então, o governo de Mato Grosso investe e, fazendo investimento, ele ajuda toda a sociedade, inclusive o agronegócio, principalmente na área de logística. O governo federal está deixando um pouco a desejar, as obras do PAC anunciado, quase nada andou. A rodovia 158, a BR-158, que precisa de fazer lá 160 quilômetros, 0,4 [foi feito] até agora, com dois anos e pouco de governo. Então, muito pouco, a gente espera muito desse programa que foi anunciado aos quatro ventos, ou seja, uma nova edição daquele velho PAC, mas as coisas estão meio empacadas, pelo menos no estado de Mato Grosso. PAC empacado. 

 

Mano Ferreira: Governador, a gente fala muito que o presidente Lula governa em 2025, sem entender que o Brasil de 2025 é muito diferente do Brasil de 2005, na primeira passagem dele no governo. E uma das grandes diferenças é justamente a transformação do agro. Eu costumo dizer que, se um dia o agro brasileiro já teve uma identificação cultural, digamos assim, com o Chico Bento, hoje é a Ana Castela que é o símbolo. O que é que o PT e o presidente Lula não entenderam sobre a transformação do agro e a transformação do Brasil nessas décadas?

Mauro Mendes: “Nós precisamos de ter gente com mais coragem e, acima de tudo, que queira fazer as coisas corretas”. (Foto: Mayke Toscano / Secom-MT)

Mauro Mendes: Na verdade, Mano, eu vejo que talvez está faltando uma leitura mais clara da realidade, não só do PT, mas de muitos setores da política brasileira. Claro que hoje o PT ocupa a Presidência da República através do presidente Lula, mas eu vejo que muitos dos políticos hoje, eles estão surfando em ondas ou indo na onda, mas sem compreender com profundidade o seu papel e os caminhos que a sociedade brasileira está buscando. As urnas deram um recado claro nos últimos anos, eles foram mal interpretados, as pessoas ainda acham que pode controlar, aquela figura do formador de opinião acabou. Hoje o cidadão, através das mídias sociais, das novas formas de se comunicar e se conectar, ele consegue formar as suas próprias opiniões. Existe muita coisa circulando e o agronegócio não é diferente. O empreendedor mudou, nós temos hoje muita tecnologia entrando, as pessoas estão muito mais atentas, acabou aquela figura do colono. Hoje existem empresários rurais, não importa se ele seja pequeno, médio ou grande. Existe um empreendedor, o cara que precisa buscar tecnologia, precisa investir em novas técnicas produtivas. No meu estado é um exemplo disso, a produtividade cresce, a produção aumenta, há uma consciência ambiental muito mais forte, a grande maioria quer andar corretamente. Se lá atrás fez alguma coisa errada, eram outros tempos. Hoje existe uma nova mentalidade, uma nova visão e é esse agro que encanta e que produz tanta coisa positiva para o Brasil, sendo o maior responsável pela nossa balança comercial.

 

Jason Vieira: Governador, como o senhor falou, menor desemprego, principalmente no ano passado, 3,7%.

Mauro Mendes: Estamos com 2,6% agora, Jason.

 

Jason Vieira: Muito bom. Também, oitavo maior PIB do país. Ano passado foi um ano complicado para o agro. Nós tivemos desafios climáticos, tivemos questões internacionais afetando. O que o estado, no seu papel como estado, menos interventor possível, consegue fazer para dirimir parte dessas agruras que são típicas do agro? Essas questões que muitas vezes são climáticas, internacionais. Qual o papel do governo, como a gente atestou agora há pouco, quanto menos atrapalhar, melhor, mas nesses momentos difíceis que acontecem, como foi no ano passado? Hoje a expectativa já é muito melhor para esse ano, mas nós tivemos, inclusive, um PIB negativo do agro no ano passado.

Mauro Mendes: “A virtude está na capacidade de você compreender os problemas, os desafios e de construir soluções e o diálogo é fundamental, porque nós vivemos numa democracia”. (Foto: Mayke Toscano / Secom-MT)

Mauro Mendes: Ora, Jason, veja bem. No ano passado nós tivemos, sim, um momento de dificuldade, mas o produtor, aquele que se profissionalizou, aquele produtor que caminhou da forma correta, ele sabe disso. Ele sabe que o preço é formado lá em Chicago. Não é ele, em função do custo dele, de quanto ele gasta de matéria-prima, de quanto ele quer ganhar de margem, que ele vai dizer o quanto que ele vai vender o saco de soja, de milho ou arroba de algodão. Então ele tem que se adaptar a isso, ao preço do dólar, que hora sobe, hora desce, tem que se adaptar a essa realidade que está muito distante da sua capacidade de interferir nisso. E a grande maioria entendeu isso. E qual é o verdadeiro papel do estado? O verdadeiro papel do estado é prover infraestrutura, é dar segurança jurídica, é garantir, como nós garantimos em Mato Grosso, o programa ‘Tolerância Zero’ contra invasão de terra. Porque não tem coisa pior do que você viver com aquela sensação de insegurança, com medo, com medo de você ter sua propriedade invadida, como durante muito tempo isso aconteceu no Brasil. Hoje, em Mato Grosso, nós já estamos plantando dois anos com esse programa ‘Tolerância Zero’. Tivemos 53 tentativas de invasão, nenhuma prosperou. Prendemos mais de 200 pessoas. Teve uma invasão lá que até um padre, infelizmente, um defensor, gente que estava lá fazendo o que não, talvez, corretamente devia e foi conduzido para a delegacia. Então, nós estamos dando segurança jurídica, nós estamos investindo em infraestrutura, porque quando você tem uma boa logística, o seu custo cai. Você atrai melhor a mão de obra, porque você está lá numa fazenda em que o cara tem que andar 100 quilômetros de estrada de chão, ninguém aguenta. Se ele está ali numa condição de ir e vir melhor, porque muita gente pensa que uma boa estrada asfaltada é só para o caminhão de soja, esquece que por ali passa ambulância, passa as vidas das pessoas, naquele caminhão tem um ser humano, que é um caminhoneiro, que precisa trabalhar numa qualidade melhor. Então, o estado de Mato Grosso, para vocês terem uma ideia, está construindo, em média, mil quilômetros por ano de asfalto. Chão que está virando asfalto. Ninguém no Brasil faz isso, é o maior programa de infraestrutura hoje, logística em curso. É um estado que assumiu uma rodovia federal, uma concessão que estava a cargo da iniciativa privada, a Odebrecht tinha a concessão da chamada BR-163, 854 quilômetros para ser duplicada, não deu conta de fazer, entrou em colapso, nós fomos lá, compramos por um real. Se compramos por um real, pode saber que isso era um pepino, porque para vender por um real uma concessão é porque não valia nada, era só confusão. Desatamos todos nós, é um caso de sucesso, o ministro Bruno Dantas, lá do Tribunal de Contas da União, ele conta essa história em diversos fóruns no Brasil e nós conseguimos, já temos lá, em torno de 150 quilômetros duplicados, 450 restantes esse ano, todas as obras contratadas. Então, o governo de Mato Grosso, para enfrentar a crise, ele cumpre o seu papel, é o melhor jeito de contribuir. Porque o resto, os nossos produtores sabem fazer.

 

Fábio Zambelli: No ano passado, o senhor liderou uma espécie de boicote a um hipermercado de origem francesa, cuja liderança global fez críticas, ataques à qualidade da carne brasileira. Nós estamos diante agora, na iminência, de uma grande guerra comercial, deflagrada pelo presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, que vem impondo tarifas muito agressivas contra os países do mundo que têm um grande superávit na balança comercial com os Estados Unidos. O senhor entende que o governo brasileiro deve tratar esse momento com reciprocidade, ou seja, deve devolver a mesma moeda as possíveis sanções que virão por aí, ou o senhor entende que existe um espaço para negociação? E, na sua avaliação, eu queria saber se o senhor entende que é um momento de mais risco ou de mais oportunidade para o Brasil nesse ambiente de guerra comercial mundial?

Mauro Mendes: “Esse ano, pelo menos no meu estado, é um ano de muita colheita de coisas que nós plantamos”. (Foto: Michel Alvim / Secom-MT)

Mauro Mendes: Fábio, eu vejo que, nesse momento, o Brasil passa por um momento de oportunidades, mas existem riscos, sim. Porque o Trump, todo mundo conhece um pouco a biografia dele, sabe que ele sempre foi um grande jogador. É um cara que cria o caos para, no meio dele, negociar e ver se consegue aferir algum resultado positivo para o país dele. Está preocupado em reduzir o déficit da balança comercial americana e, com esse tarifaço, ele criou, nessas últimas semanas, um grande alvoroço no mundo inteiro e consequências ainda pouco claras para muitos analistas que tentam delinear o futuro, mesmo diante de mudanças rápidas que podem acontecer em função da característica do presidente dos Estados Unidos. Então, eu vejo o seguinte. O Brasil, hoje, nós temos muitas oportunidades. Somos um grande exportador de commodities alimentares. A China, lá do outro lado do mundo, é o nosso maior comprador e também é um grande comprador do mercado americano. Se a China, em retaliação, colocou 30%, 34% de taxa, significa que qualquer produto que vier dos Estados Unidos vai custar para o consumidor chinês 34% a mais. Então, comprar do Brasil é muito mais barato. Está aí um ambiente de oportunidade. Mas vai que, de repente, esse Trump faz um acordo com a China, porque a China também depende muito de exportar para os Estados Unidos. Então, se ela fecha um acordo, pode aumentar a cota de venda de produtos americanos do agronegócio para o mercado chinês, o que pode prejudicar as nossas exportações aqui. Então, é um momento bastante confuso. Nós temos que olhar, e o governo brasileiro precisa fazer isso, com um olhar um pouco mais profissional, mais atento e viver a realidade de acordo com as oportunidades. Nós temos que buscar consolidar o aumento das nossas exportações. O Brasil é um parceiro muito confiável. Isso o chinês leva em consideração. A confiabilidade, a segurança do nosso agro é uma das poucas regiões do planeta que pode dobrar a produção de alimentos nos próximos anos, aumentar a produção de alimentos nos próximos anos. E o estado de Mato Grosso, que esse ano vai ter safra recorde, nós podemos dobrar essa produção nos próximos dez anos. Então, o Brasil não pode ser tirado de nenhum cenário que qualquer país do mundo, que dependa de importação de alimentos, pode tirar o Brasil de cena e colocar ele como o maior player que somos hoje. O Brasil é o maior exportador líquido de alimentos. Não somos o maior produtor, mas somos o país que mais exporta alimentos para o mundo. Portanto, em qualquer equação, o Brasil é importante. Agora, nós temos que fazer a coisa certa. O Brasil já foi o país mais importante no futebol. Hoje, já estamos quase indo para a segunda divisão no futebol mundial, lutando para ver se se classifica para ir para uma Copa. Então, não basta ter talento, não basta… Tem que fazer a coisa certa, tem que ser profissional, senão você perde o jogo. E o governo federal tem um papel importante. Eu acho que tem que retaliar, sim, porque a gente precisa ser respeitado. Os Estados Unidos não podem fazer conosco o que ele está fazendo, nem com ninguém no mundo. O Trump está abusando do poder que, em tese, o Estados Unidos tem, mas esse tiro pode sair pela culatra, como se diz no ditado popular.

 

Nelson Kobayashi: Agora, governador, o senhor que também já foi líder da Federação das Indústrias, lá do seu estado. Quero saber, diante deste cenário, não pontualmente, mas diante do cenário da instabilidade de anúncio de tarifaço, de reações mundo afora, retaliação aqui e ali, o pessoal da indústria no Brasil está mais preocupada com esse movimento ou está mais otimista com as oportunidades que podem surgir, como o senhor disse, que podem surgir novas oportunidades diante desse movimento?

Mauro Mendes: O Brasil hoje, a gente tem uma indústria que, ao longo dos anos, vem perdendo importância no cenário da economia brasileira. Muito embora nós temos uma indústria resiliente, competente. Nós fabricamos avião aqui, exportamos para o mundo inteiro. Nós temos setores da indústria brasileira que são competitivos, que são importantes, a indústria alimentícia, que cresceu muito na esteira do crescimento do agronegócio. Então, é, digamos assim, um nicho de segmento fundamental. E eu vejo que as oportunidades, elas podem se ampliar, mas os nossos maiores problemas, eles ainda são os internos. A burocracia do Brasil, que o empresário e o empreendedor têm que lidar para se estabelecer, para permanecer, essa carga tributária maluca que nós temos aí, agora estamos falando de uma nova [legislação tributária] para simplificar, mas ela vem com esse título de ser uma nova bandeira de simplificação, mas impõe ao brasileiro o maior IVA [Imposto de Valor Agregado] do mundo. Então, isso é muito ruim. Então, os nossos maiores desafios, eles são uns internos. Independente do cenário mundial de oportunidades ou ameaças que nós possamos ter, a maior ameaça é o próprio país. É a ineficiência pública, é o gasto público, é a inflação, é juros batendo aí na casa de 14%, 15%. Como é que você sobrevive num país desse? Como é que você investe? Então, esse é o maior desafio da indústria brasileira, que muitas vezes precisa de capital intensivo na sua implantação para ter retorno no longo prazo. Como é que você faz isso quando você precisa de capital de terceiro pagando juros de quase 15%? Nosso maior desafio é nós mesmos.

 

Elias Tavares: É um prazer estar aqui mais uma vez, governador. Eu queria falar um pouquinho sobre a jornada política do senhor. Em 2010, o senhor foi candidato ao governo pelo PSB. Evidentemente, ali numa chapa, até um campo progressista, PDT, PV, Cidadania, na época, PPS. Hoje, o senhor desponta aí com um grande líder do centro-direita, uma voz forte, reeleito, com o primeiro turno, que é um feito muito importante para uma jornada política. Mas, devido a esses 15 anos que se passaram nessa mudança, porque o senhor veio de um partido de centro-esquerda, até chegar aqui nesse momento? Embora, desde essa época, o senhor já colocou uma independência na candidatura à presidência, colocado ali. O que mudou do candidato de 2010 para o candidato atual, reeleito duas vezes, com a votação totalmente expressiva?

Mauro Mendes: Elias, é muito claro que todos nós, ao longo do tempo, podemos amadurecer, compreender melhor algumas realidades que você, utópica ou ludicamente, imaginava que elas seriam de um jeito. E quando você começa a viver essa realidade, você depara com um universo de coisas reais, muito diferentes do que você imaginava. Entretanto, eu me posiciono hoje como uma pessoa de centro-direita, uma pessoa que está na política para fazer o bem. Não estou na política para fazer carreira, não estou preocupado com a próxima reeleição. Quando eu entrei no governo de Mato Grosso, você falou que fui reeleito em primeiro turno. Eu fui reeleito, sim, em primeiro turno, com quase 70% dos votos, mas, no início do meu mandato, eu fui extremamente vaiado. Os produtores me vaiavam, os servidores, o pessoal do comércio, da indústria. Eu cortei o incentivo fiscal, eu fiz uma reforma da Previdência doída lá para muita gente, mas eu dizia, gente, você precisa fazer o que precisa ser feito. Nós temos que ter coragem de fazer nesse país o que precisa ser feito. Olha o que está acontecendo com as contas públicas no Brasil. O trabalhador vai pagar essa conta. O juro caro, a inflação, vai para a conta dele, vai dar isenção de imposto de renda, ótimo, lindo, mas com inflação, come isso tudo durante o ano, não vai adiantar nada. É dar com a mão e tirar com a outra. É isso que está se fazendo. Então, eu sou um político mais pragmático, de resultado. Faço o que tem que ser feito, não olho para a próxima eleição, eu olho para a realidade. Tem que enfrentar, eu enfrento. E foi assim que eu me elegi prefeito lá, falando um pouco a verdade, falando aquilo que eu acreditava que era possível fazer. Não fui para a reeleição. Tinha 80% de aprovação. Ali, praticamente, eu encerrava a minha carreira política, mas os adversários, normalmente, não te deixam sair. Aí, me jogaram para uma eleição novamente, eu acabei sendo candidato, ganhei, aí fui para a reeleição. E agora, não estou preocupado de ser senador, de ser isso ou ser aquilo ano que vem, não. Posso terminar o meu mandato e voltar para casa com a consciência tranquila. Nunca respondi a um processo de improbidade administrativa. Então, eu me considero um político de centro-esquerda que quer fazer o que é correto, fazer o que é justo, entregar resultado. Pouca conversa e resultado.

 

Mano Ferreira. Acho que teve um ato falho, viu, governador? O senhor falou agora centro-esquerda.

Mauro Mendes: Opa, é centro-direita. Centro-direita. Ah, mas todo mundo tem que ter um pouquinho… Na esquerda não tem só coisa ruim, não, pega lá. Pelo amor de Deus. Porque tem gente que sataniza um lado ou outro como se só existisse luz de um lado e treva do outro. Não, não é assim. Acho que na esquerda tem gente boa, tem alguns pensamentos que são positivos. Agora, a política no Brasil, ela não anda bem. Nós precisamos de ter gente com mais coragem e, acima de tudo, que queira fazer as coisas corretas. Para o bem do nosso país e de todos nós brasileiros.

 

Mano Ferreira: Pegando esse gancho, para falar um pouquinho do cenário de 2026, o senhor é do partido do governador Ronaldo Caiado, que já lançou a sua pré-candidatura para à Presidência da República. Está colocado, nesse momento, como um dos nomes da direita, centro-direita, para a presidência da República. Mas muita gente no campo da direita tem defendido a tese da tentativa de candidatura do ex-presidente Jair Bolsonaro, apesar de ele estar inelegível. Como o senhor se posiciona nesse contexto? Ronaldo Caiado tem seu apoio irrestrito como pré-candidato à presidência? Ou Jair Bolsonaro deveria ser o nome preferencial da direita?

Mauro Mendes: Mano, veja bem. Nós estamos, no momento, ainda faltando um ano e seis meses para as eleições de 2026. Eu, particularmente, prefiro trabalhar muito neste momento, entregar resultado e decidir a minha vida política ali no começo do ano, e é isso que eu vou fazer. Respeito aqueles que já estão se posicionando aí, falando já de 2026. Aliás, o Brasil não aguenta isso, né, gente? Acaba uma eleição, começa outra. Eleição de dois anos em dois anos, parece que a coisa mais importante que existe é ficar falando de eleição. Nós precisamos cuidar dos problemas reais do país. Como é que nós vamos fazer com essa dívida pública do governo federal, que está causando juros altos, está causando inflação? Acho que é isso que nós temos que debater. O nome, vai aparecer um nome aí, seja do Bolsonaro, que é o maior líder da direita hoje, não tem como deixar de reconhecer o papel importante, a visão que ele teve de perceber lá em 2018 o que estava acontecendo no país, se posicionar. Quase ninguém nesse Brasil acreditava, principalmente na classe política, que ele tinha viabilidade. Foi lá, ganhou de todo mundo, com um partido inexpressivo, sem tempo de TV, sem nada, e virou presidente da República. Perdeu para alguém também que muita gente não imaginava, que alguém sairia da prisão e voltaria a ser presidente do país. Então, existem sinais que podem ser aprofundados aí, não é talvez aqui o momento oportuno para isso, mas eu vejo que o Caiado, uma pessoa que está na vida pública há muitos anos, ele é um dos líderes autênticos dessa chamada direita, governador de um estado também importante, faz um mandato exitoso, ele tem todo o direito de pleitear. Nós temos aí, dois bons nomes. O presidenciável que tem mais intenção de voto é o presidente Bolsonaro. Se ele se viabilizar, ele seguramente vai ser o candidato da direita. Se acontecer alguma coisa, e aí eu não tenho bola de cristal hoje, ele está inelegível e todo mundo sabe disso. Se acontecer algo até lá, ele se viabilizar, provavelmente ele vai ser o candidato. Se não, vai valer para o Caiado, vão surgir outros nomes, e aí nós vamos ter um grande debate. Agora o que eu espero é que o debate seja não em cima de nomes. Agora o que eu espero é que o debate seja não em cima de nomes. Nós temos que debater os problemas e as soluções para os graves problemas deste país. Se não, vai falar de nome aqui, de nome ali, [isso] não é Corinthians contra Palmeiras. Nós estamos falando do nosso futuro, dos nossos filhos e dos graves problemas que podem levar ao Brasil a mesma trajetória que a Argentina já enfrentou há alguns anos atrás.

 

Fábio Zambelli: O senhor tem participado, governador, de vários atos, não é, recentemente com o presidente Bolsonaro, nas ruas. Atos importantes e que têm reunido sete governadores, pelo menos sete governadores têm participado. Eu queria saber, dentro dessa pergunta do Mano, se o senhor acredita na unidade do campo da direita para 2026? O senhor falou que não quer antecipar discussão de nomes, não acha produtivo, mas é inevitável que se trate desse tema. É um tema que o presidente Lula trouxe à campanha eleitoral já antecipadamente para esse ano, já disse que começou a campanha, ele disse publicamente isso. Então, a oposição naturalmente vai se organizar para 2026. O presidente Bolsonaro, ele está inelegível e há pouquíssimos indicativos de que ele consiga recuperar a sua elegibilidade para o ano que vem. A pergunta que eu faço para o senhor é a seguinte, o senhor entende que esse processo deve ficar mesmo para o ano que vem, para 2026, e aí o presidente Lula tem um tempo, inclusive, para tentar recuperar a popularidade, deve ter mais musculatura política, ou a direita deveria, de fato, tratar seriamente a sucessão presidencial já antecipando pelo menos o seu rumo e uma certa unidade para o ano que vem? Eu pergunto também para o senhor qual a sua avaliação sobre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que embora o seu partido tenha ali o candidato, como pré-candidato, o Ronaldo Caiado, o governador de São Paulo tem se mostrado mais convergente na conquista de apoio entre os outros governadores. Queria ouvir um pouquinho do senhor sobre esses dois temas, a unidade da direita e a sua posição sobre uma pré-candidatura do governador Tarcísio de Freitas.

Mauro Mendes: Primeiro, Fábio, que essa unidade da direita deve acontecer e provavelmente ela aconteça, mas eu entendo até como salutar e democrático que nesse momento quem deseja ele possa se posicionar, possa se colocar como candidato e espero que isso contribua para um debate sadio, sem ataques pessoais e sem a personificação em nomes, e sim ideias, projetos, problemas e soluções. Então é o momento de ampliar essa discussão. E lá na frente vai haver, e eu espero que haja, uma convergência desse núcleo chamado de centro-direita em cima de um nome que possa representar melhor esse conjunto de forças, mas acima de tudo o pensamento da maioria do cidadão brasileiro. E o Tarcísio, eu vejo que ele é um grande governador, São Paulo é o grande estado da nação brasileira, não tem como deixar de considerar isso. Entretanto, gente, nós temos aí nos últimos anos acontecendo no Brasil coisas muito improváveis. Quando os analistas faziam certas análises durante algum tempo atrás, pouca gente previa Bolsonaro ser eleito presidente. Pouca gente previa o Lula saindo da cadeia e virando presidente de novo. Então será que nós estamos acertando as nossas análises para o que vai acontecer em 2026? Então esse imponderável já aconteceu muitas vezes no Brasil e eu acho que esse imponderável pode continuar acontecendo. Surgiu algum nome, Pablo Marçal, era um nome totalmente desconhecido aqui em São Paulo, pelo menos assim, da grande massa. Entrou, fez uma graça ali, meteu uma carteirada aqui, não sei o quê, caiu na rede e pronto, já era um nome que começou a crescer na opinião pública e quase foi para o segundo turno e poderia ter um resultado diferenciado. O que o senhor acha do Pablo Marçal? Cara, é difícil fazer assim esse tipo de afirmação, mas precisa ter mais consistência na política. É diferente você escolher um senador, um deputado estadual, um vereador, um deputado federal, o cargo legislativo, até porque são muitos, se você erra numa das escolhas, você pode corrigir aquilo, são muitos ali, aquilo vai diluir o erro daquela escolha. Agora, quando você escolhe um governador, um presidente, um prefeito, e você erra nas escolhas, são quatro anos de consequências negativas. O brasileiro precisa prestar um pouco mais de atenção, porque você não pode escolher uma pessoa para um cargo tão importante. Já pensou, se eu chego aqui e falo assim, gente, eu quero ser agora o centroavante da seleção brasileira. Mas como, Mauro? Você tem… Não, mas eu… Mas nessa seleção, acho que dá certo. Acho que dá certo, porque está tão ruim. Mas veja bem, eu vou chegar aqui e vou dizer o seguinte, não, deixa comigo, eu vou chegar lá e vou fazer quatro gols. Mas como você vai fazer quatro? Vou chutar forte rasteiro no canto que o goleiro não está, vou chutar no ângulo, vou chutar, vou driblar para a esquerda, vou falar um monte de coisa bonita aqui que parece que faz sentido. Cara, mas você já jogou bola alguma vez? Não, quando eu era criança, eu joguei. Mas, pô, você tem 60 anos. Então, cara, não dá. Não dá para falar para mim ser o maestro de uma orquestra se eu não sei tocar nenhum instrumento. Não dá, isso não é razoável. Isso não dá certo. Por que a China é o que ela é hoje? Porque a China, sabe como é que ela escolhe o presidente na China? Vocês sabem aqui ou não? Então, talvez eu vou contar aqui, a China, o Xi Jinping está lá, não é porque ele é o mais politiqueiro do partido deles lá, não, é porque ele foi governador de Xangai. E entre os melhores governadores das províncias dos estados chineses, o partido escolhe o melhor governador para ser o presidente do país. Sabe como é que você vira governador lá? Entre os melhores prefeitos, em cima de indicadores claros, objetivos, muito transparentes, o cara compete para ser o melhor, quem entrega mais resultados vira governador. E no Brasil, a gente escolhe, às vezes, o mais bonitinho, aquele que fala melhor, aquele que faz a melhor gracinha, e depois a consequência vem para todos nós. Então, eu espero que nós possamos enriquecer esse debate em 2026, que venham os nomes, e que nós possamos aprofundar nos graves problemas desse país, senão nós vamos aprender pela dor.

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Elias Tavares: Governador, eu ia perguntar se Mato Grosso seria a Xangai do Brasil, mas a minha pergunta, ainda nessa rodada aqui de 2026, a gente tem a candidatura do Lula colocada, posta, a esquerda aparentemente organizada, por mais que o Lula tenha aí uma dificuldade muito grande de aprovação do seu governo, pesquisas recentes mostram que ele tem uma candidatura forte, e terá, eu acredito muito que ele terá uma candidatura muito forte, justamente por isso, pela esquerda hoje ter uma candidatura consolidada, seus partidos ali muito coesos, e a direita, nesse momento, até os últimos atos que aconteceram, você vê uma figura importante, que é o ex-presidente Jair Bolsonaro, com muitos governadores ali à sua volta, enfim. Mas a gente tem uma questão na política que se chama o ‘timing’. O que eu tenho de curiosidade é justamente assim, será que esse campo da direita com muitos nomes, prováveis nomes com condições reais de poder ocupar esse espaço, mas essa existência talvez do Bolsonaro com a candidatura dele, a gente enxergando que cada vez está mais difícil ele conseguir manter essa candidatura, principalmente pela questão do Tarcísio de Freitas, que para poder ser um potencial candidato, teria que deixar ali o governo do estado de São Paulo. Daqui um ano ele não pode estar sentado na cadeira. Daqui um ano ele não pode estar lá. É a questão do ‘timing’. Dá para o Bolsonaro esticar essa candidatura tão longe? Como é que a direita vai… Como é que vai ser o ‘timing’ da direita para essa definição de Bolsonaro pode ou não ser candidato? Uma vez que um dos nomes fortes é justamente o do Tarcísio, que precisaria sair da cadeira, e principalmente pelo tempo que ele perderia, porque não daria para o Bolsonaro fazer o que o Lula fez quando estava preso, de manter a sua candidatura até uma hora que pode trocar. Então, como é que seria essa organização da direita?

Mauro Mendes: “Quem ganha muito, paga pouco imposto nesse país. Essa é uma verdade que precisa ser dita”. (Foto: Michel Alvim / Secom-MT)

Mauro Mendes: Olha só, Elias. Primeiro, é uma pergunta que é difícil de responder, porque ninguém sabe exatamente como o presidente Bolsonaro vai agir, como ele vai interagir até o próximo ano. Ele tem sido muito firme em dizer que vai ser candidato, já fez frases bastante de efeito e bastante forte dizendo que não abre mão da candidatura. Ele é o maior líder da direita, ninguém tem dúvida disso, tem um papel importante aí na política brasileira nos últimos anos. Está inelegível, isso também é fato. E ele vai levar isso, vamos ver como é que ele vai… Como é que vai ser essa possível mudança de postura dele. A gente percebe claramente que hoje tem muita gente disputando esse espólio, disputando essa herança, porque ele, além de ser o mais importante representante da direita, ele é o mais importante cabo eleitoral. Porque se ele chegar e falar assim, vai ser o Mauro Mendes o candidato, esse Mauro Mendes pode bater a 30% de intenção de voto. Se ele falar que é o Tarcísio, já bate a quase 40%, 40% e pouco. Se ele fala que é esse ou aquele… Então, assim, ele tem uma boa capacidade, além de ser o grande líder, de transferir, coisa que é muito difícil essa tal transferência de voto. Ele é um dos poucos políticos brasileiros que têm essa capacidade hoje medida em pesquisa. Então, assim, nós vamos ter que aguardar um pouco mais, torcer para que haja uma definição clara. Eu também concordo com você, o presidente Lula não está morto, o governo é muito forte, tem aí mecanismos que podem estar sendo planejados para os próximos meses. Eu não vou dar dica aqui para ninguém, mas eu saberia um pouco o que fazer aí. Mas cabe a eles fazerem, até porque palpiteiro tem um monte por aí. Então, eu vou cuidar do meu estado, vou cuidar do meu Mato Grosso, que, graças a Deus, está indo bem. E eu tenho um compromisso de entregá-lo muito bem, muito melhor, inclusive, que eu peguei há praticamente seis anos, sete anos atrás.

 

Jason Vieira: Bom, uma coisa importante que nós observamos na direita é exatamente essa tentativa de união que está acontecendo agora. Mas o debate, nós sabemos bem que o debate com o presidente Lula e o presidente Bolsonaro, ele é nitidamente mais polarizado. Será que não ter o presidente Bolsonaro não vai ser automaticamente a derrocada do presidente Lula? Ou seja, a esquerda também vai ter que se mobilizar em outro candidato? Porque, de certa maneira, pelos polos políticos, os dois se retroalimentam nos seus extremos. E aí a dificuldade fica naquela conquista do centro. E talvez um candidato vindo mais ao centro, ele talvez possa garantir, retirar da esquerda uma parcela significativa daquilo que eles imaginariam que o presidente Lula, neste processo de polarização, poderia arregimentar. O que o senhor acha?

Mauro Mendes: Olha, Jason, é muito claro isso, que essa polarização entre direita e esquerda, ela tem dois grandes ícones. Um de direita, que é o presidente Bolsonaro, e um de esquerda. Muitos de nós, e isso é uma análise muito fácil de ser feita, e muita gente percebeu isso, parece que em 2022 o Lula escolheu o Bolsonaro e o Bolsonaro escolheu o Lula. Um queria o outro, porque um tinha certeza que ganhava do outro, porque eles eram antagônicos, e aí o resultado todo mundo já conhece. Entretanto, essa polarização muito radical, de só falar de direita, porque quem está na direita acha que na esquerda não tem nada que presta, quem está na esquerda não acha que nada que está à direita presta. Gente, a virtude está na capacidade de você compreender os problemas, os desafios e de construir soluções. E o diálogo é fundamental, porque nós vivemos numa democracia. Eu citei aqui a China, um exemplo, de eficiência na escolha dos seus gestores, mas lá eles vivem um outro regime. Aqui no Brasil é democracia, você tem que ter uma grande capacidade de dialogar, de entender as coisas, de construir soluções para os graves problemas do Brasil. E um dos graves problemas do Brasil é a política brasileira. Olha o Congresso Nacional, ele foi lá e meteu a mão em 50 bi, ficou o ano inteiro brigando por causa desses 50 bi, conversa vai, conversa vem, enquanto isso o Brasil paga por ano, por ano, só de juros, só de juros, 20 vezes o valor desses 50 bi. O Brasil vai pagar por ano de juros, esse ano, praticamente quatro mega-sena da virada, aquela que todo brasileiro sonha em ganhar no final do ano, por dia, de juros, da sua dívida. Você não vê ninguém discutindo isso. Olha que coisa grave. Isso é muito grave, isso vai destruir a economia brasileira, porque se o governo federal quebrar, o meu Estado está bem, o estado do Mato Grosso é o estado que tem a menor dívida líquida entre todos os estados. Mas se o governo federal quebrar, ele nos arrasta junto, como arrasta todo o país, e grande parte da economia brasileira, e nós todos sofremos a consequência disso, e ninguém discute esse assunto.

 

Nelson Kobayashi: Governador, para a gente fechar essa rodada de eleições, 2026, vamos ao que interessa aqui, onde estará o governador Mauro Mendes nessas eleições, porque seu nome é citado aí, cotado para o Senado. O que tem de verdade nisso? Você tem pretensão de disputar o Senado?

Mauro Mendes: Olha, eu procuro sempre deixar essa questão eleitoral para o ano das eleições. Isso é uma verdade, e se você olhar na minha trajetória política, você vai encontrar várias vezes eu citando isso. Gente, pelo amor de Deus, deixa as eleições para o ano das eleições, deixa eu trabalhar, deixa eu focar aqui no meu estado, deixa eu focar, falava isso lá em 2022, 2021, deixa eu focar na minha capital ali, quando era prefeito, porque o debate eleitoral, embora tenha que se respeitar quem o faça, mas eu acho que ele tem que acontecer no momento certo, principalmente a quem está no cargo. Se eu sou governador hoje, pô, para mim ser reeleito ou eleito o ano que vem alguma coisa, eu tenho que entregar resultado e mostrar que eu estou honrando aquilo que eu ganhei há um tempo atrás, que foi um voto de confiança, e aí o ano que vem eu posso chegar e pedir. E aí, uma das alternativas é, ou eu volto para casa, ou posso ir ao Senado. Não dá para ser deputado estadual, não porque eu não possa, inclusive, eu acho que não posso, então, eu posso renunciar, e o caminho natural, trilhado pela grande maioria dos governadores, foi ser candidato ao Senado. É uma possibilidade, mas é uma decisão que eu só vou tomar no início de 26. Até lá, ninguém vai tirar uma posição minha diferente. Está claro que a decisão vai ficar para o ano que vem.

 

Nelson Kobayashi: Mas a gente está vendo, no campo da direita principalmente, um projeto para o Senado, que vem sendo dito pelo Valdemar da Costa Neto, que é presidente do partido do ex-presidente Bolsonaro, pelo próprio presidente Bolsonaro, querendo ter aliados, não necessariamente do PL, mas aliados, disputando o Senado. O senhor recebeu algum tipo de convite para pensar nesse projeto? O senhor recebeu algum tipo de abordagem? Algum tipo de… O senhor foi sondado para ser um candidato aliado do Bolsonaro ao Senado?

Mauro Mendes: Olha, eu tenho conversado, sim, com o presidente Bolsonaro, tenho conversado com o presidente Valdemar, eu tenho uma excelente relação com ele, ele foi uma pessoa que, às vezes, em que eu sentei com ele [tivemos] pouca conversa, combinamos algo, ele cumpriu absolutamente [tudo], eu gosto muito disso, eu falo lá no meu estado, eu sou um cara ruim de combinar, mas bom de cumprir. Você briga comigo na hora de combinar, não briga na hora de cumprir. Então, eu gosto [seja] na política, ou na vida, no mundo dos negócios, em qualquer lugar. Combinou, tem que cumprir, e esse diálogo existe, sim, como também tem dialogado com outros partidos, com o Republicanos, tenho dialogado com o Podemos, tenho dialogado com outros partidos lá na minha base, ou até mesmo nacionalmente, conversando lá com vários líderes nacionais, nas oportunidades que nós temos de nos encontrar.

 

Nelson Kobayashi: Governador, quero aproveitar aqui a deixa, já que o senhor está falando do futuro político, embora a decisão fique para frente, é importante que já o senhor inicie o processo de discussão da sua sucessão, o senhor terminando o mandato ou concorrendo ao Senado. Eu queria saber do senhor se o nome do vice-governador Otaviano Pivetta é natural, o senhor considera um nome natural para a sua sucessão, ou se há outras possibilidades dentro do seu campo político para o governo do Mato Grosso em 2026?

Mauro Mendes: O nome mais natural hoje, Fábio, é o do vice-governador. Principalmente se eu for candidato ao Senado, no dia 5 de abril de 2026, eu não estarei mais sentado na cadeira de governador, e é ele que estará. Se eu resolver terminar o meu mandato, ele também poderá ser candidato, mas isso abre a possibilidade de outras pessoas. E é claro que no meu estado, ou em qualquer estado, deve ter gente, muita gente na moita lá, esperando para ver uma oportunidade e se apresentar. Por isso que eu digo, calma, não morri ainda, o mandato vai até o ano que vem, deixa eu trabalhar, tem muita coisa, estou focado lá em muitas coisas importantes que nós estamos fazendo. Esse ano, pelo menos no meu estado, é um ano de muita colheita de coisas que nós plantamos. Nós estamos construindo seis grandes hospitais, esse ano nós já entregamos três. Um desses hospitais, ele vai ser administrado pelo Albert Einstein, vai ser um dos melhores hospitais públicos do Brasil, pode escrever isso, porque ele vai ser administrado por um dos melhores do mundo, que é o Albert Einstein, mas a infraestrutura que nós estamos entregando é uma das melhores aí, com certeza. E diga-se de passagem, é um prédio que ficou uma obra parada durante 34 anos. O Brasil é cheio dessas coisas. Uma obra de um hospital ficar 34 anos parado lá no meu estado, assim como no Brasil inteiro tem, lá tinha ainda, essa coisa muito comum. A gente se acostumou no nosso país a conviver com graves problemas. E um deles é esse, é comum. Um dia desse eu vi o ministro falando, ah, tem 14 mil obras na educação parada em todo o Brasil. Isso parece que é normal. A gente se acostumou a conviver com a violência, acostumou a conviver com obras paradas, acostumou a viver com corrupção. É muito ruim. Esse péssimo hábito do nosso país é o que tem feito com que o Brasil continue sendo o país do futuro, de um futuro que ainda não chegou. E se continuar desse jeito, não vai chegar.

 

Mano Ferreira: Eu queria falar do assunto que o senhor disse que ninguém gosta de falar, que é equilíbrio das contas, responsabilidade fiscal. Muita gente discursa dizendo ser favorável ao ajuste das contas, mas quando chega no debate concreto que tem que escolher onde cortar, acaba dando para trás. A gente vê o próprio ministro Fernando Haddad e quando assumiu ele dizia, vamos cortar subsídios. Até agora eu estou procurando onde que os subsídios foram cortados. E o senhor fez o dever de casa. O que é que o Brasil pode aprender com o Mato Grosso em relação ao ajuste fiscal? Por onde passa para desarmar essa bomba?

Mauro Mendes: “Eu acho que o Donald Trump está sendo, sim, um exemplo não muito bom nesse momento”. (Foto: Mayke Toscano / Secom-MT)

Mauro Mendes: Mano, ninguém faz. Tem um ditado mundialmente conhecido, acho que é chinês, ele fala o seguinte, ninguém chega a lugar algum se não sabe onde vai. Então, se você não sabe o que fazer, dificilmente você vai entregar resultado. Se você vai fazer algo que você não gosta de fazer, esse resultado vai ser ruim. Então, cortar despesa é doído, meu irmão. Chega em casa e fala pra sua mulher, pros seus filhos, que você vai ter que, olha gente, agora é o seguinte, vou cortar isso, vai ser a cheadeira do filho, vai ser a cheadeira da mulher. Agora, você tem que ter muita clareza de que você precisa fazer aquilo e que você vai chegar em algum momento a uma condição melhor que você está. No estado do Mato Grosso, você tem ideia, mano? Nós aprovamos lá uma Lei de Responsabilidade Fiscal estadual que ela é mais dura do que a LRF Federal. E vou dar um exemplo claro disso. Quando você recebe um dinheiro de uma subvenção, dinheiro extra, lembra do royalties do petróleo? Entrou uma bolada boa para os estados, para os municípios. Aquilo diminui o índice dessa LRF, dessa Lei de Responsabilidade Fiscal federal que diz o quanto você pode gastar com sua folha de pagamento, com a folha de salário, ali dos seus servidores. Entra aquele dinheiro no ano, melhora esse índice. Quando melhora o índice, a maioria dos prefeitos, até governadores são pressionados, ele não aguenta muita pressão e dá um aumento. Só que no outro ano, não entra mais esse dinheiro. E aí você contratou uma despesa para o resto da vida, porque o salário daquele concursado não é só ali. Um dia o cara aposenta e continua ganhando aquele salário. Então nós, no Mato Grosso, fizemos isso. Eu fiz um ajuste fiscal duro, coloquei os produtores rurais para pagar mais imposto. Eles chiaram para burro. Hoje estão felizes porque estão vendo muita obra que melhora a vida deles. Fizemos uma reforma da Previdência, porque tinha gente lá que aposentava, um coronel da Polícia Militar, aposentava do meu estado com 45 anos de idade, ganhando um salário de 35 mil reais. Quer dizer, não está certo isso, não é, gente? Pode até ganhar bem, mas tem que trabalhar um pouco mais. Fizemos uma reforma da Previdência, então diminuímos a máquina, mandamos gente embora. No começo dói. Não fazia aquilo porque eu sou mauzinho ou gostava de fazer, não. Porque era necessário fazer isso que é fundamental. Você tem que saber o que precisa ser feito, coragem pra fazer. E uma outra coisa tão importante, uma estratégia. Porque se você não tiver uma estratégia, você não faz. Porque você começa a falar, falar, igual, viu? Desculpa, o ministro Haddad ficou aí várias semanas falando que ia fazer um corte de despesa, corte de despesa. De repente, sai o anúncio. Qual que foi o anúncio? Vamos cortar a receita. Porque ele anunciou que ia cortar o imposto, ia aumentar a base do Imposto de Renda. Ficou várias semanas falando em cortar a despesa, anunciou um corte de receita para tentar subir popularidade. E isso vai cair na conta de todos nós brasileiros com o processo de inflação.

 

Mano Ferreira: O senhor é a favor do projeto de isenção do Imposto de Renda?

Mauro Mendes: Olha, eu sou a favor. Eu acho que ele tem seu mérito. Porque no Brasil, quem ganha pouco, paga muito imposto. E quem ganha muito, paga pouco imposto nesse país. Essa é uma verdade que precisa ser dita. E a gente tem que ter coragem de enfrentar isso. Lá no meu estado, por exemplo, eu cortei incentivo fiscal de indústrias. De colegas meus lá, porque eu fui presidente da Federação das Indústrias. Chegou um dia lá, sentou um monte de empresário na minha frente, falou, ô Mauro, ‘você vai quebrar nossas empresas tudo, cara, você tá cortando um pedaço aí dos incentivos fiscais’. Eu olhei para eles e falei assim, vem cá. Vocês têm certeza que vocês estão falando isso? Cara, eu tô diminuindo um pouquinho aí do incentivo, isso é um pouquinho do custo. ‘Não, mas vai quebrar todo mundo’. Falei, ó, pode parar. Pode parar. Esse golpe de falar que vai quebrar, quando eu fui presidente da Federação, eu aplicava aqui. Se os caras caíam, era problema deles. Agora, em cima de mim, vocês não vão dar um golpe, não. É o seguinte, traz o balanço de todo mundo, bota aqui na minha mesa. Quem vocês estão falando aí que vai quebrar, põe aqui. Eu vou analisar o balanço de um por um. Se eu ver que vocês estão tão apertado assim, eu vou diminuir o incentivo, esse corte. Vou até aumentar o incentivo. Agora, se você estiver mentindo, eu vou dobrar o corte. Foram embora, nunca mais apareceu. Cortei os incentivos um pouco, estão todo mundo feliz. A economia melhorou do meu estado. Todo mundo está ganhando dinheiro. No final, foi bom para todo mundo. Então, o gestor público, Mano, ele tem que ter muito isso. É saber o que tem que ser feito. Ter coragem para fazer e uma estratégia para implementar, porque senão fica só na conversa e não sai do papel.

 

Jason Vieira: Governador, vou jogar um espinheiro aqui agora.

Mauro Mendes: Bora, vamos lá.

 

Jason Vieira: Bom, recentemente tivemos o Judiciário se auto retirando do Arcabouço Fiscal. O Judiciário também agora começou, disse que pode julgar os seus parentes em atos ali dentro, ou seja, se a defesa de um condenado, coisa parecida, for de um parente, o juiz pode julgar sem nenhum problema e mais outras coisas que estão acontecendo daqui em diante. O quão isso é problema para o Brasil daqui para os próximos anos?

Mauro Mendes: Jason, eu vejo assim que no Brasil nós temos muitas coisas que não estão andando bem. Existe aí um interfaceamento, um sombreamento entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo. É o Legislativo se metendo no Executivo, é o Judiciário se metendo no Executivo. E o Brasil está gerando uma insatisfação grande no país. Já essa nossa insatisfação grande gera uma perda de credibilidade. O Judiciário brasileiro é muito importante, a independência dos poderes é muito importante, mas existe muita coisa desorganizada. A gestão pública desse país em todos os seus poderes está muito desorganizada. E isso pode levar o país a um caos. Será que vamos ter que chegar a um caos para aí começar a perceber que precisamos de mudanças profundas, talvez, de uma nova Constituição para botar um freio de arrumação naquilo que acontece no Legislativo brasileiro, no Judiciário brasileiro e até mesmo na administração, no Executivo de muitos estados, prefeituras, Brasil afora? Cara, eu estou vendo aí coisas, não vou nem falar aqui não, mas coisas assombrosas que remontam de uma forma numa escala maior do que aquilo que acontecia antes da Lava Jato. Notícias correm ali em Brasília para tudo quanto é lado. Toda hora você vê a imprensa noticiando aqui corrupção de não sei aonde, corrupção acolá. Parece que as coisas estão piorando ao invés de melhorar no país. Então, o Ministério Público, depois que criaram aquela lei lá de responsabilizar de abuso de autoridade, mudar a lei de improbidade, parece que acabou, não tem mais ninguém fazendo nada no país. Claro que tem. É que o Ministério Público, ele, muitos promotores estão com medo dessa lei aí, de ir lá aplicar e depois ser, ainda, penalizado porque estava perseguindo. Então, eu vejo que hoje nós temos um momento difícil do país. O Brasil tem uma economia privada muito competente e eficiente, mas tem uma administração pública extremamente burocrática e ineficiente. E essa administração pública pode quebrar o país. Gente, com a dívida que nós temos hoje.  A Previdência no ano passado deu 417 bilhões de déficit. De um problema que só aumenta. Não tem um horizonte de curto, médio e longo prazo. Só que daqui 100 anos. Até lá nós já quebramos umas 10 vezes. Fizemos uma reforma que precisa ser feita outra. E está lá no Supremo para ser julgado a inconstitucionalidade daquela que volta tudo atrás. Então, olha que bagunça. Como é que você tem segurança jurídica num cenário desse?

 

Elias Tavares: Governador, eu vou continuar mais ou menos aqui nessa linha de raciocínio. O senhor é uma figura aí que é conhecida também por falar o que pensa e defender os pontos de vista do senhor. Como o senhor bem colocou aqui, a questão do funcionalismo. E o senhor se considera, o senhor é evidentemente um grande técnico, um grande empresário, que veio pra política. A jornada do senhor foi essa? Vindo do mundo privado e indo justamente para política. Qual é a grande diferença que o senhor sentiu? Essa grande dificuldade como o senhor bem colocou aí. É muito diferente, é difícil? Paga-se um preço justamente por falar o que pensa? Ou o senhor acha que esse é justamente o que faz o senhor ser aí uma figura eleita com mais de 70%, reeleito mais de 70% dos votos? 

Mauro Mendes: Elias, olha só. Muitas pessoas me perguntam isso. A diferença entre o mundo privado e o mundo público. Essas são gigantescas. Gigantescas. Porque existem, sim, empresas muito grandes que mexem com saúde. Tem grandes empresas aí, seguradoras, que mexem com saúde no Brasil, fora do Brasil. Existem grandes construtoras. Existem grandes empresas em todas as áreas. Mas você não vai encontrar, talvez, no mundo, nenhuma empresa que mexe com saúde, que mexe com educação, que mexe com segurança, que mexe com construção de obras, que mexe com licenciamento, que mexe com velhinho, que mexe com criança, que mexe com tudo. Eu tenho lá sobre a minha tutela 17 secretarias e mais 18 órgãos vinculados. Instituto de Defesa Animal, você tem a Junta Comercial, você tem a Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Técnica, tem Bombeiro. Então, assim, é uma complexidade grande. E na hora de a gente contratar esse grande executivo, que é o governador ou o presidente, a gente vota no que é mais bonitinho, no que é mais bonzinho, no que é mais naquele que fala melhor, naquele que… Então, assim, nós temos critérios muito frágeis para fazer as nossas escolhas, que trazem essas consequências, que o Brasil não consegue evoluir na sua administração pública. A administração pública no Brasil fala de dentro. Ela é extremamente burocrática e ineficiente. E isso faz com que o nosso país, o Brasil, não é o que nós poderíamos ser por conta do governo brasileiro, seja ele federal, estadual e municipal. Porque, na média, claro que tem governadores mais competentes, que têm prefeitos muito bons, mas, na média, a administração pública brasileira é muito abaixo daquilo que ela precisaria ser para fazer o Brasil se tornar o país do futuro ou o país que todos nós queremos que um dia ele seja. 

 

Mano Ferreira. Governador, eu queria pegar um gancho e fazer duas perguntas. A questão, o senhor tem sido um dos grandes, uma das pessoas que mais vocalizam oposição à chamada ‘taxa das blusinhas’. O senhor, inclusive, se recusou a aumentar o ICMS sobre produtos importados, enquanto muitos governadores ampliaram, aumentaram a carga de importação de produtos. Nesse sentido, eu diria que o presidente Donald Trump, nos Estados Unidos, tem feito uma ‘taxa das blusinhas’ com anabolizante. O senhor acha que o presidente Trump tem sido uma má liderança para a direita global? Atrapalha, de alguma forma, pessoas que têm uma agenda na centro-direita de mais integração comercial ter na presidência dos Estados Unidos uma figura como Donald Trump? E nessa linha, qual agenda o senhor acha que o Brasil deveria implementar para aumentar a nossa participação econômica no cenário global? 

Mauro Mendes: Vamos lá, primeiro, eu acho que o Donald Trump está sendo, sim, um exemplo não muito bom nesse momento, porque aumentar imposto não é bom para ninguém. O Estado tem que se tornar mais eficiente. Quando você cobra mais imposto, quem vai pagar esse preço é o cidadão, porque no final do dia esse imposto vai para o preço dos produtos. Bom, então eu acho que isso não é um bom exemplo que ele está dando como um pretenso ou como verdadeiramente é um líder de direita a nível global. Segundo, sobre as blusinhas. Claro, Mano, que eu me recusei a levantar, porque eu estou contra aumentar qualquer tipo de imposto. Hoje o estado de Mato Grosso tem o menor ICMS entre todos os estados brasileiros, junto, vamos ser justos, com Santa Catarina, com Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo. São cinco estados que o ICMS, esse imposto estadual, ele é de 17%. Tem Estado brasileiro que já é de 23%. Quando o estado cobra mais imposto, ele está tirando dinheiro. O Maranhão é o estado brasileiro que tem a maior taxa de Bolsa Família. É um estado reconhecidamente com algumas dificuldades sociais e tem o maior imposto. Olha a disparidade. Nosso Estado, nós fizemos um trabalho muito forte para reduzir taxas, cobrar, tirar aquelas chamadas multas acessórias, que você tem muito ali na administração pública e estadual, que são absurdas, eram absurdas. Nós reduzimos o ICMS de telecomunicações, de energia. Então fizemos um por quê? Tornamos o estado mais eficiente. Essa palavra eficiência, Mano, ela está na Constituição como um dos princípios da administração pública brasileira. Em poucos lugares você vê essa prática sendo realmente perseguida no dia a dia, na maior parte da administração pública desse país. Lá no meu estado, eu me esforço muito para tornar o meu estado mais eficiente, a administração, tanto para arrecadar, para cobrar, mas também para gastar com qualidade, para virar investimento e não endividar o estado e entregar resultado.

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Nelson Kobayashi: Governador, o senhor citou o ICMS do estado do Mato Grosso como sendo um dos menores. O senhor teme que, depois de implementada a reforma tributária, com a equalização desta questão, o estado do Mato Grosso se torne menos atrativo para investimentos?

Mauro Mendes: “Mato Grosso tem o menor ICMS entre todos os estados brasileiros, junto, vamos ser justos, com Santa Catarina, com Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo”. (Foto: Mayke Toscano / Secom-MT)

Mauro Mendes: Essa reforma vai ser perversa. Eu não tenho a menor dúvida do que nós temos aí [de desafio] até 2033, e eu ouvi de muitos deputados lá, quando eu tentava explicar um pouco os desdobramentos futuros dessa reforma, eu ouvi de alguns dizendo assim, governador, para com essa conversa aí, isso é complicado demais, governador, para com isso, o senhor não vai ser governador até lá não, o senhor quer voltar a ser governador. Você vai estar aqui no Senado, esquece, isso é um problema para depois, depois resolve isso aí. Vamos aprovar, porque nós temos que aprovar isso agora, é bonitinho aprovar. Existiu um… No Brasil hoje se fala em reforma tributária há 30 anos, e nunca se fez. De repente, o Lira, principalmente o Lira, esse é um crédito dele, não podemos criticá-lo por isso, ele botou quente e aprovou. Então, isso mostra o seguinte, quando o Senado Federal, quando a Câmara Federal quer fazer, eles fazem, porque fizeram. Agora, as consequências disso, veja bem, todo o setor exportador, todo mundo que está na exportação de qualquer coisa, seja do agronegócio, de soja, de minério de ferro, de avião, toda a cadeia de exportação não vai pagar absolutamente nada de imposto. Se existe aí muita gente que exporta, muitas empresas, muita gente exportando hoje, é uma parte importante da economia brasileira, que não vai pagar nada desse novo imposto, quem é que vai ter que pagar mais? Por isso que já está aí sendo o maior IVA do mundo, já apontando aí para a casa de 28%. Porque, gente, nós atacamos a nossa receita e a despesa. Cadê a reforma administrativa? Cadê a reforma? Está lá no Congresso Nacional, eu tenho falado direto com a Tereza [Cristina, senadora pelo PP-MS], a Câmara aprovou um projeto de licenciamento ambiental há quase quatro anos atrás, o Senado está sentado em cima desse projeto, é uma burocracia que não premia o meio ambiente, que não preserva nada, cria uma dificuldade gigantesca para o empreendedor fazer investimento nesse país e está lá o Senado parado há quase quatro anos sem votar essa lei. Então, eu digo isso, nós estamos hoje em um grave problema que é essa ineficiência do setor público brasileiro. E se a gente continuar nesse ritmo aí, eu vivo repetindo isso e bato na madeira. Três vezes aqui, porque não estou desejando, não, mas tem coisas que são óbvias, se olha para o tempo, vê nuvem escura, trovejando, você fala assim, vai chover, adivinha ou não, cara, os sinais são claros e assim vale na economia também. E a economia pública no Brasil não vai bem, está aí o juros subindo, que é reflexo dessa grande dívida que nós temos e da forma que o estado, principalmente o governo federal, tem gastado nos últimos anos. Tem quase dez anos que o Brasil dá déficit primário, ou seja, não sobra dinheiro nem para pagar o juro. Onde irá pagar a dívida?

 

Elias Tavares. Governador, eu queria ouvir do senhor agora algo diferente. O que o senhor lamenta não ter conseguido realizar como político, como governador, como prefeito? Tem algum ponto que você fala, poxa, isso eu poderia ter conseguido, não consegui, alguma sensação dessa de que poderia ter feito mais? Como é que é?

Mauro Mendes: Pois é, Elias, essa pergunta é boa, mas ela não é para agora não, porque ainda tem um ano e, então, dá tempo de trabalhar muito. Mas, seguramente, a gente nunca, Elias, consegue fazer tudo. A máquina pública é muito lenta, a burocracia é muito alta, o tempo da administração pública… Cara, na minha empresa, ou na sua casa, ou na sua vida, não importa, você resolve comprar alguma coisa, com dois, três dias, uma semana, você cota, analisa ali, toma a decisão e compra. Rapaz, tem coisa lá que você fica um ano para contratar uma obra lá, para fazer uma orba, nas menores cidades do estado de Mato Grosso, nós licitamos três vezes, não deu certo, não aparecia ninguém, aí a gente teve que mudar um pouco o projeto, e aí vão ter que licitar de novo e não sei o quê. Cara… Entra e pública, retira, vai, mexe, faz, já foram e passaram mais de um ano. É muito difícil esse tempo da administração pública. Tem hora que digo o seguinte, que a administração pública no Brasil, com todo esse arcabouço legal, com tanta burocracia, com tanta amarra, parece que ela foi cuidadosamente planejada, para o Brasil não dar certo. E está dando certo esse plano, porque, pelo amor de Deus, não.

 

Jason Vieira: Governador, bom, o senhor estava falando sobre a questão dos impostos, do IVA, imaginando que ele tem um processo de transição de dez anos, que foi uma das primeiras críticas que eu fiz lá atrás, quando o Bernardo Appy colocou no projeto, especialmente pela questão de, como o senhor falou, no Brasil a política sempre se interfere e nesse meio tempo tudo pode acontecer, inclusive o próprio projeto mudar. Na cabeça do senhor, tem esperança de, de repente, por uma mudança de governo, esse projeto se alterar de alguma maneira? Porque, como o senhor falou, o maior IVA do mundo, é impossível o brasileiro concordar. E mesmo porque, da maneira como ele é desenhado, ele tira autonomia dos governadores, de certa maneira, como é lá fora, você, cada estado tem o seu IVA específico. Não seria um momento, se houvesse uma troca de governo, de repensar essa reforma tributária e repensar também o pacto federativo, para entender a distribuição que nós temos da questão dos recursos do governo federal para os estados e a maior autonomia dos estados e municípios em relação à retenção desses recursos?

Mauro Mendes: Jason, desfazer isso ou mudar isso, só vejo uma janela de oportunidade para isso quando der alguma ‘m’ aí no futuro. Até lá, não. Não é, amigo? Esquece. Por que vai mudar? Vai ficar aqui o Mauro Mendes falando que isso vai dar ‘m’? Ninguém vai acreditar. Vai lá para lá, você vai lá em 2034, 2036, será que eu vou estar aqui? Quem vai estar aqui? Meu amigo, no Brasil, até o passado é incerto quando dirá o futuro. Então, ninguém vai querer fazer um novo esforço porque olhou, pensou direitinho, planejou e viu que isso pode trazer uma consequência negativa no futuro. Não temos essa cultura no Brasil. Então, acho que, infelizmente, vai ter que ir tomar a gente. Espero que daqui dez, 15 anos a gente se encontre por aí. Já estou convidando meus amigos para minha festa de 100 anos. Não quero morrer até lá. Então, eu quero que, talvez, eu esteja errado, mas é muito difícil, porque é muito forte o que estou dizendo. Grande parte, todo o setor, a cadeia inteira. Hoje, no Mato Grosso, por exemplo, quem planta soja, na hora que ele exporta a soja, ele não paga ICMS. Mas o óleo diesel que ele compra, para os tratores dele, paga ICMS, que ajuda eu a pagar o salário do meu policial, do meu professor, do cara da saúde, que ajuda eu a fazer as estradas, esse cara não vai pagar mais nada. Nem do óleo diesel, nem da energia elétrica, nem do pneu, nem dos equipamentos que ele compra dentro do Estado do Mato Grosso se ele for um exportador. Isso é muito grave, porque a Vale do Rio Doce, que foi uma das empresas mais bilionárias, que dá lucro bilionário, que exporta praticamente quase tudo que ela produz, ela não vai mais pagar o IVA no Brasil. Vai ser lindo, ela vai aumentar muito a margem de lucro dela. Agora, quem vai pagar mais imposto? Porque o salário do policial não vai diminuir, o salário da professora não vai diminuir, o custo da saúde não vai diminuir, o custo do Estado, não fizeram nada até agora para diminuir isso. E aí, quem vai pagar essa conta?

 

Nelson Kobayashi: Governador, o senhor mencionou que o tema do protagonismo judiciário, que às vezes invade um pouco atribuições do Executivo, também tem uma confusão entre os poderes nesse momento em Brasília. Eu queria falar com o senhor a respeito de um dos principais, se não for o principal projeto de infraestrutura e logística do país hoje, que é a Ferrogrão que está parado no Supremo por um questionamento que foi feito ali por um partido político, enfim, acolhido por um dos ministros do Supremo. Desde então, a gente vê muito debate e pouca perspectiva de destravar esse projeto que é tão relevante para conectar ali o polo de produção de grãos do seu estado com com os portos da região Norte lá no estado do Pará. Eu queria saber do senhor, existe, o problema é jurídico de fato, tem a ver com a questão das terras indígenas, tem a ver com falta de vontade política do Poder Executivo do atual governo federal. Qual é o seu diagnóstico sobre o futuro da Ferrogrão e se o senhor acredita, se o senhor tem expectativa de que esse tema seja destravado aí no curto prazo ou o senhor está um pouco descrente com relação aos rumos do projeto? Só para contextualizar, a Ferrogrão é um projeto de ferrovia que liga o Centro-Oeste aos portos do Norte e que está suspensa, as suas obras estão suspensas por força de uma decisão judicial porque parte da ferrovia passaria dentro de uma área ambientalmente protegida pela Constituição.

Mauro Mendes: Essa decisão, ela já foi modificada, só atualizando, e autorizou, o Supremo Tribunal autorizou, o ministro Alexandre Moraes autorizou que o governo desse prosseguimento de um licenciamento e levasse à frente, demonstrando esse impacto e como mitigá-lo. Porque, na verdade, a Ferrogrão, ela passa, que é uma ferrovia que pega ali o coração da produção do agronegócio mato-grossense, que esse ano passa de 100 milhões de toneladas, e qualquer ferrovia no mundo que tem 30 milhões de toneladas de carga, ela nasce viável. Uma topografia muito plana ali naquela região, 1% ali, 98% do tempo, ela está praticamente na margem da BR, da rodovia, então ela não vai sair desmatando nada. Mas tem um lugar lá que ela passa, dentro de um parque, que foi feita uma lei e modificou um pedacinho desse parque, um pedacinho, uma coisinha de nada, mas aí o que acontece? Tem um problema burocrático nessa forma, como foi feito isso, se estava certo, [ou não], por isso que arrumou essa confusão judicial. Isso é tudo desculpa, porque no Brasil essa hipocrisia, que chamamos de hipocrisia, dizendo que estamos tentando proteger o momento, não é nada disso. Eu tenho falado um pouco sobre isso, que é o Brasil, o país do não pode. Aqui você não pode fazer ferrovia, veio o seu Macron [presidente da França], há poucos dias atrás, falou lá com o cacique Raoni, liderança que eu respeito muito, lá dos Caiapós, do meu estado, lá na região do Xingu, e aí o cacique Raoni falando mal da Ferrogrão. E aí ele aparece lá no meu gabinete pedindo para asfaltar a rodovia que vai até dentro da aldeia dele lá. Isso ele quer, mas fazer ferrogrão para ajudar na competitividade do agro-brasileiro, ele não quer. Um dia desse eu vi o Raoni falando que ele é contra explorar petróleo lá na margem equatorial, ele está a 1500 quilômetros. Enquanto que o mundo inteiro está lá. Tem lá a senhora Exxon, que é uma grande petroleira mundial, explorando ali do lado. O Brasil vai ficar aqui discutindo essa coisa do pode, não pode, índio não pode trabalhar, o índio americano trabalha. Aqui você não pode… Um monte de coisa que o mundo inteiro faz porque essas pessoas que defendem isso, estão defendendo tudo, menos o interesse dos brasileiros. Então essa questão da Ferrogrão, hoje, ela está travada na mão do governo federal. O ministro Alexandre [de Moraes] liberou. Eu não tenho visto até agora nenhum movimento concreto. Eu pedi uma audiência com o presidente Lula já várias vezes para falar sobre a Ferrogrão, não marcou audiência comigo, porque eu tenho que ir lá brigar, porque eles pediram para levar quatro projetos estratégicos para colocar no PAC. Três, aliás, eu levei quatro. Ferrogrão, não aconteceu nada até agora. Uns cinco ou oito, são 160 quilômetros mais ou menos, fizeram quatro. A 080, nada. 242, nada. Do que eu pedi, e foi um pedido do presidente Lula, não fui eu que fui lá me oferecer para pedir isso, não. São obras federais do mesmo estado, acontecia um pedacinho desse tamanhinho de uma BR. Então, a Ferrogrão hoje depende do governo federal e eu, sinceramente, não vejo vontade de fazer aquilo que é bom para o agronegócio brasileiro.

 

Nelson Kobayashi: Governador, o senhor tem dificuldades de falar com o presidente?

Mauro Mendes: Eu não tenho dificuldade de falar com ninguém, não. Eu só não fico puxando o saco de ninguém. Mas eu respeito ele como presidente.

 

Nelson Kobayashi: Não, eu digo de agenda. O senhor tem dificuldades de acessar o presidente?

Mauro Mendes: Olha, eu nunca tive uma audiência, tive uma só, que eles me chamaram lá quando foi assinar a concessão da BR-163. E aí foi todo negociado no período ali de 2022, mas ele virou presidente em 2023. E aí eu fui lá no Planalto, fizemos um ato ali simbólico, porque era um negócio meio que entre entre bancos, entre acionistas, mas eu fui lá respeitosamente. Nunca faltei com respeito a ele, não falto com respeito a ninguém. Agora, eu sou firme para defender o meu estado e os meus pontos de vista, mas sempre respeitosamente.

 

Nelson Kobayashi: O senhor citou o cacique Raoni nesse evento em que ele critica a exploração na margem equatorial. Foi um evento que o presidente visitou lá a comunidade. E, pelo que consta, o senhor, o governador do estado, não foi convidado para esse evento que teria a presença do presidente da República.

Mauro Mendes: Eu vou te dar um furo aqui. Eu fui convidado e desconvidado. Mandaram o convite num dia, e do outro dia mandaram o cancelamento do convite. Mas eu tinha mais o que fazer, não me importei não, mas eu recebi o convite num dia e no outro dia eu recebi o desconvite. Porque cancelar o convite é um desconvite. Mas tudo bem, vida que segue. Eu tenho mais o que fazer do que ficar andando à toa, principalmente cuidando, vou cuidar dos interesses do meu estado e respeito lá. Não fiquei zangado não, porque eu tinha uma agenda bastante cheia, tinha que desmarcar tudo, fui cumprir minha agenda.

 

Mano Ferreira: Governador, Mato Grosso é um estado de fronteira. Eu queria falar sobre esse desafio, tanto do ponto de vista da integração comercial com a região, como do ponto de vista da segurança pública, que todo mundo sempre levanta o problema que o fato das fronteiras serem impermeáveis cria para a segurança pública. Como o senhor avalia o trabalho atualmente de coordenação nas fronteiras brasileiras?

Mauro Mendes: Olha, a segurança pública, Mano, é um dos grandes problemas desse país nesse momento. Isso já começou a ser capturado pelas pesquisas e do jeito que as coisas andam por aí, elas vão continuar, infelizmente, sendo capturadas. Um dia desses aqui em São Paulo, eu desci de um apartamento que minha filha mora aqui e, mania de quem vive no interior, eu peguei o celular que estava andando na rua e fui falar no telefone. Minha filha avançou em mim e falou, pai, pai, pai, guarda esse telefone aí. Eu guardei o telefone e ela disse que não dá para andar na rua com o celular. Então, olha só, a segurança pública, ela tomou uma dimensão descontrolada do país, as facções criminosas dominam hoje grande parte das cidades brasileiras e eu vejo o governo federal mais preocupado em criar um programa lá, ‘Pena Justa’, criar programas para… Dizendo assim para o estado, olha, se o cara avançar a barreira e você atirar nele, você não vai receber mais dinheiro, ajuda do governo federal. Eu disse que dispensava, com todo respeito, dinheiro sempre ajuda, mas o que eles ajudam lá na segurança pública é muito pouco frente àquilo que o estado investe. E a fronteira é um grande problema porque por ali entram toneladas e toneladas de droga. Nós estamos presentes, eu tenho uma fronteira de mais de 800 quilômetros lá e essa fronteira, hoje, quem cuida praticamente dela é o governo do estado com o nosso batalhão da Polícia Militar chamado Gefron, que é um batalhão especializado ali na fronteira. Nós, esse ano, estamos batendo o recorde de apreensão de drogas. Então, assim, nós estamos fazendo a nossa parte, o governo federal, de vez em quando, trabalha junto conosco na atuação da Polícia Federal, mas grande parte do custo ali é bancado pelo estado. E é um problema grave, Mano. Se não tiver algo diferente aí pra controlar essa escalada de violência no Brasil, isso só tende a piorar, como tem acontecido. Se você olhar todos os indicadores de segurança pública no Brasil nos últimos 30 anos, vamos fazer um recorte aí de longo prazo, vão falar que eu estou criticando Lula, Bolsonaro, Temer, Dilma, Fernando Henrique, 30 anos de Brasil. Acho que todos eles pioraram no Brasil.

 

Nelson Kobayashi: Governador, sobre segurança ainda, o senhor também fala sempre sobre uma política de ‘tolerância zero’, inclusive com invasões do MST. Nós estamos em uma época em que, nesses meses de abril, maio, isso é muito constante. E lá no Mato Grosso, isso é um desafio até maior, justamente pela quantidade de produtores rurais, de fazendas, enfim. Como o senhor vê essa questão, não só no Mato Grosso, mas no Brasil todo.

Mauro Mendes: Bom, de Mato Grosso, o que eu posso dizer a você é o seguinte. Lá, um tempo atrás, nós recebemos lá um grupo de produtores rurais, foi no início de 2023, uma ascensão novamente do PT, do presidente Lula, e aquele medo do MST voltar a fazer aquilo que durante muitos anos ele fez no Brasil. Organizava acampamento, recrutava gente e colocava para invadir terras. E aí, nós conversamos lá, e conhecendo um pouco a legislação que eu conheço e muita gente conhece, sabe que se em 24 horas você invadir a propriedade de alguém, você pode chamar a polícia, isso é caracterizado como esbulho para o acessório, você pode ir lá e arrancar o cidadão de lá. Então eu disse, olha, aqui no Mato Grosso é o seguinte, ‘tolerância zero’, invadiu terra aqui chama a polícia que a polícia vai lá e resolve. E graças a Deus, nesse período, foram 53 tentativas, nenhuma prosperou, já teve vazão com carreta, com trailer com ar-condicionado, era grileiro de terra profissional, não é mais nenhum MST, vamos ser justos aqui, o MST do nosso estado não está tendo muita confusão, mas alguns grileiros, nenhum prosperou, nada de ruim aconteceu, assim como nós estamos com ‘tolerância zero’ com as facções, nós estamos com uma força, uma tarefa muito mobilizada, a Polícia Civil, Polícia Militar, prendendo gente, prendendo bens, prendendo dinheiro em conta, fazendo operações agora, criamos lá um negócio chamado ‘Disque Extorsão’, porque um dos grandes financiamentos das facções no Brasil é a extorsão, o cara chega lá para o comerciozinho e fala assim, ‘olha, vou dar segurança aqui para você, mas é baratinho, é R$ 200 por mês’, o cara fala, ‘mas R$ 200, vale a pena, é bom, R$ 200 para ter segurança aqui, ele paga, aí ele começa R$ 200’, passa para R$ 500, R$ 1.000, daqui a pouco já chega lá, já tive relatos, quando você está ganhando por mês? ‘Quero ver quando você está ganhando por mês’, o cara já quer a metade, quer virar sócio, sem investir em nada, então assim, nós criamos o ‘Disque Extorsão’, estamos recebendo, por que é diferente do 190 que a Polícia Militar tem? Porque você pode fazer uma denúncia anônima, você pode ir lá, não precisa dar seu nome, seu telefone, não precisa falar nada, narre os fatos, a polícia vai pegar aquilo ali e introduzir nos mecanismos oficiais de investigação para preservar a fonte, porque teve casos de pessoas que denunciaram e no dia seguinte, foi lá e queimou o estabelecimento, como tem acontecido em vários lugares do Brasil, então, eu vejo que esse problema da segurança pública é gravíssimo e tende a piorar, se nada de diferente for feito, e isso começa pelo Congresso Nacional, que tem que revisitar as nossas leis. As leis brasileiras são frouxas, são inadequadas, são antigas, elas não são instrumentos eficientes para combater esse novo perfil de criminosos que estão no Brasil, denominado facções criminosas, e são dezenas delas.

 

Fábio Zambelli: Governador, qual a sua expectativa a respeito da COP-30? E também queria saber, na sua avaliação, qual é o papel dos governadores na organização do evento, inclusive nos tratados que vão sair de lá, sobretudo com relação ao financiamento desses programas para as mudanças climáticas?

Mauro Mendes: Fábio, expectativa baixíssima, na última COP eu não fui, de tanta frustração, fui em várias, muita conversa fiada, muito país falando coisas que nunca fizeram. Desde a Rio-92, já foram feitas 29 COPs, conferências internacionais em prol do clima, prometeram bilhões, não colocaram nada. De concreto é: os países desenvolvidos continuam aumentando a queima de carvão, aumentando a queima de combustíveis fósseis e querendo que o Brasil e alguns países paguem essa conta. Minha expectativa é muito baixa, provavelmente vai ser mais um circo.

 

Nelson Kobayashi: Como o senhor vê o mercado de crédito de carbono, principalmente para o seu estado?

Mauro Mendes: Isso é igual a perna de saci pererê, todo mundo fala, mas pouca coisa aconteceu. Ver no mundo o que na prática aconteceu, dinheiro mesmo botado aí, migalhas. Eu não quero saber de esmola, de país para vir meter o dedo na nossa cara e dizer o que nós temos que fazer. Nós temos que preservar, sim, porque nós temos a consciência da importância da floresta amazônica, dos nossos biomas, a importância dela pelo clima. Não para receber migalhazinha de dinheiro que o Brasil, nem o meu estado, Não está no tempo mais de viver de esmola de ninguém.

 

Jason Vieira: Governador, os estados Centro-Oeste têm sua fama, obviamente, pela questão do agro, pela eficiência, trabalho também da Embrapa de muitos anos, no passado tudo. Mas a indústria ali tem uma competição de fronteira com o Paraguai. E o senhor falou que o senhor elevou impostos no seu estado, alguns estados fizeram o mesmo e sentiram, em partes, um êxodo ali de empresas brasileiras, aproveitando a questão do Mercosul, migrando para o Paraguai. Energia mais barata, impostos mais baixos. Como é que o senhor está trabalhando isso no estado?

Mauro Mendes: Olha, é uma verdade sim, hoje o Paraguai virou um país muito atrativo para alguns segmentos da indústria, até de outros negócios. Se desmistificou aquele problema da violência do Paraguai, melhorou muito. Eles têm dado passos importantes nessa direção da segurança jurídica e de uma carga tributária muito baixa. Porque o país se tornou mais eficiente. Aquilo que eu digo, gente, como é que você vai cobrar menos imposto se o governo federal, os governos, de maneira geral, gastam cada dia mais e mal? Vai ter que cada vez mais avançar no bolso do cidadão e no bolso das empresas para poder financiar esse Estado ineficiente. E eu não vejo ninguém discutindo isso. Fica aí com esse negócio de A, B, não sei o quê, para lá, para cá, e não vai direto ao ponto que é a ineficiência do Estado brasileiro da administração pública. E o Paraguai se tornou uma referência e tem muita gente mudando para lá, sim, porque lá tem ambiente de negócio muito favorável para o desenvolvimento de algumas atividades econômicas.

 

Elias Tavares: Governador, vou trazer um pouquinho aqui justamente o que o senhor acabou de falar da Amazônia, etc. MT é um Estado agro e tem justamente essa característica de desmatamento, etc. Como o governo do senhor é cobrado no sentido da sustentabilidade? Quais ações o governo de Mato Grosso tem tomado para justamente ter essa compensação?

Mauro Mendes: Elias, veja bem, hoje todos nós sabemos que essa história das mudanças climáticas, algo que se fala há muito tempo, isso não é mais falácia. Todo mundo percebe. Eu lembro que aqui em São Paulo, quando comecei a vir em São Paulo há quase 40 anos atrás, aqui era a terra da garoa. Acabou, não tem mais. Eu morava lá no interior de Goiás, mês de janeiro, fevereiro, chovia o tempo todo. Era praticamente dois meses chovendo. Isso acabou. Então, existe aí, ao redor do planeta, centenas de exemplos reais, não sei se você é cientista, para saber que existe uma mudança no clima em curso. E isso vai trazer consequências na produção de alimentos, no dia a dia, no nosso modo de viver, de consumir e até de se alimentar. Então, no estado de Mato Grosso, o que nós estamos fazendo? Primeiro, eu tenho um rigoroso sistema de controle e fiscalização. O estado de Mato Grosso tem hoje, talvez, o melhor, isso é reconhecido por várias ONGs, agora eu não gosto muito de ONG não, mas deve ter umas ONGs aí que são até mais ou menos, e elas reconhecem a importância do mecanismo de controle que nós temos lá para fazer valer a lei brasileira. Porque a lei brasileira é a lei mais protetiva que, talvez, exista no planeta. Mas existe o tal do chamado desmatamento ilegal. E eu fico p. da vida com essa história. Porque no Brasil, eu falo sempre isso, nós nos acostumamos a conviver com os nossos problemas. E o desmatamento ilegal é um deles. E lá, 98% dos produtores hoje atuam corretamente, mas tem 2% que fazem ‘m’. E esses 2% que fazem as coisas erradas, eles prejudicam a imagem do estado, a imagem do agronegócio, a imagem do Brasil. Então, nós temos que combater mais duramente isso, é o que nós fazemos, dentro da legislação que existe hoje. Porque hoje o cara toma uma multa lá, aí se ele vai pagar a multa, ele tem 60% de desconto. Mas se ele não quiser pagar a multa, ele contrata um bom advogado, e tem por aí bastante bom advogado, e aí ele começa, recorre daqui, recorre dali, vai daqui, vai dali, para o hotel, não sei o quê, e vai daqui, e primeira instância, segunda instância, terceira instância, ele vai para o Supremo, e passa 20 anos, 30 anos, e ele não pagou essa multa. Então, no Brasil, infelizmente, essa sensação de impunidade, que existe em diversas áreas, é um dos males desse país. Esse negócio de jeitinho brasileiro, quem falou isso lá atrás, nós devíamos nos envergonhar desse famoso jeitinho brasileiro, porque esse jeitinho está nos afundando, principalmente em algumas áreas.

 

Mano Ferreira. Governador, eu queria falar de educação. Mato Grosso teve uma melhora no desempenho no IDEB, mas quando a gente compara o Brasil com o resto do mundo, a gente está muito para trás em termos de desempenho, de aprendizado dos nossos estudantes. Por quê? O que é que precisa mudar?

Mauro Mendes: Mano, você tem razão. O estado de Mato Grosso, quando eu entrei lá como governador, nós éramos o 22º no IDEB, que é esse índice que mede, compara as educações de todos os estados e municípios brasileiros, e no último dia de 2023, nós pulamos para o 8º. Então é um crescimento que eu diria bom, só que quando a gente olha o Brasil com o mundo, vai lá no PISA, que é o indicador mundial, o Brasil é o 65º, de 98 países no Brasil, é o 65º em matemática, é o 52º em português, quer dizer, nós estamos lá no final, na rabeira. Enquanto aqui no Brasil, 60% dos alunos terminam o ensino fundamental, o nono ano, com baixa proficiência em português e matemática, você vai lá na Ásia, os caras terminam o nono ano já conhecendo de robótica, de inteligência artificial, já tem o nível de conhecimento de uma nova educação, que não é educação informativa, decorativa, aquela que você fica lá decorando, como eu, ficava decorando tabuada, decorando aquelas coisas que… Eu tenho 60 anos de idade. Então, hoje, você tem que fazer o aluno pensar, raciocinar, é um novo modelo, os países estão caminhando para isso e nós estamos aqui terminando o ensino fundamental com baixa proficiência em português e matemática. Sabe fazer? Male, male, contazinha básica e olhe lá. Então, nós precisamos fazer o quê? Primeiro, reconhecer que estamos no caminho errado, tem que ter fortes investimentos, tem que despolitizar a educação nesse país e tecnificar ela. Foi um pouco do que eu tentei fazer. Lá, nós praticamente extinguimos um sindicato que era muito forte, que controlou a educação, que era ligado a um partido, a um determinado partido, a uma determinada sindical famosa no Brasil, que controlava a educação, fazia o game de quanto mais gente para dentro mais forte, ele como sindicato era, e não estava preocupado com o resultado. Então, nós mudamos isso, fizemos o enfrentamento forte, hoje investimos muito em tecnologia, investimos, por exemplo, em reduzir o absenteísmo. Sabe quanto era o absenteísmo? Falta, atestado, que eu tinha lá, 7%. Tem 42 mil professores e funcionários. Todo dia faltava 3 mil. Implantei um programa de remuneração por resultado e o cara pode ganhar até um 14º, 15º salário, mas em cima de mérito, de resultado, entregar coisas dentro de um programa de eficiência. O absenteísmo caiu para 1,6%. Esse absenteísmo de 1,6% é um dos melhores empresas privadas que estão nessa linha.

 

Para assistir esta entrevista do governador Mauro Mendes à rádio e TV Jovem Pan, clique aqui.

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