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Relação capital-trabalho

ENTREVISTA DA SEMANA | CONTRA O FIM DA ESCALA 6X1

Ricardo Alban alertou para o risco de decisões “açodadas” em ano eleitoral e defendeu que a discussão sobre a relação capital-trabalho seja aprofundada com responsabilidade e convergência entre os setores. (Foto: Divulgação / FPA)

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CNI rejeita pressa e quer debate “racional” sobre fim da escala 6×1

 

Ricardo Alban, presidente da entidade, alerta para os riscos de decisões em ano eleitoral e defende discussão aprofundada.

 

Por Humberto Azevedo

 

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, afirmou que o setor produtivo não é contra a discussão sobre a redução da jornada de trabalho, mas rejeita qualquer tentativa de aprovação açodada da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala 6×1.

 

Em entrevista, ele classificou como “quase que um Pilatos” a ideia de submeter o tema a um plebiscito e defendeu um debate “racional e equilibrado”, livre de pressões eleitorais.   Alban argumentou que decisões tomadas em ano eleitoral tendem a ser emocionais e não comprometidas com o futuro do país.

 

“Nós temos o direito de ser responsáveis com o amanhã. O Brasil já grita pelo amanhã há muito tempo. (…) Isso eu acho que talvez seja quase que um Pilatos. E a história da humanidade mostra que o Pilatos não foi um grande conselheiro. Nós temos que fazer isso de forma racional, equilibrada”, comentou.  

 

“Como é que uma complexidade pode ser discutida de uma forma açodada, com uma variável tão nefasta que é um processo eleitoral? As decisões não vão ser lógicas, vão ser emocionais”, complementou.

 

DISCUSSÃO ANTIGA  

 

Dados apresentados pela CNI mostram os possíveis efeitos da redução da jornada sobre a produtividade e a sustentabilidade das empresas, especialmente as de pequeno e médio porte. (Foto: Divulgação / FPA)

Questionado sobre o fato de a PEC tramitar desde 2019, Alban rebateu que a discussão sobre a relação capital-trabalho é tão importante quanto as reformas tributária e da Previdência, que levaram anos para serem concluídas. Ele defendeu que o debate seja feito com “imparcialidade e responsabilidade” para que se torne uma conquista permanente.  

 

“Conquista é quando você pode garantir que ela é permanente, não é uma vitória passageira. (…) Em nenhum momento você vai ouvir um setor produtivo sequer dizer que não quer discutir. O que nós queremos é discutir com imparcialidade, com os fatos, com responsabilidade”, afirmou o presidente da CNI, destacando que o setor produtivo está disposto a dialogar.  

 

“Nós estamos começando a discussão. Quantos anos passou sem discutir na reforma tributária? Ela é importante? Não é importante? Será que não é tão importante também a discussão de uma relação capital-trabalho?”, completou.

 

 

SEM PRESSÃO ELEITORAL  

 

Alban afirmou que a CNI está disposta a participar de audiências públicas na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas alertou para o risco de contaminação do debate pelo calendário eleitoral. Ele defendeu que os congressistas não tomem decisões motivadas por interesses eleitorais.  

 

“Nós não queremos que os congressistas assumam a responsabilidade motivados por situações eleitorais, que fogem à racionalidade. (…) O que nós não queremos é que esse processo sofra pressão de momentos eleitorais, porque as decisões não vão ser equilibradas. (…) Nós queremos ser cúmplices na conquista, cúmplices na garantia da sustentabilidade. É isso que o Brasil precisa. O Brasil precisa de convergência”, pediu.

 

DIÁLOGO ABERTO  

 

Após reunião com outros representantes, Alban saiu com a sensação de que todos compartilham da mesma visão: é preciso discutir o tema, mas sem passionalidade. Ele acredita que políticos e setor produtivo desejam um debate honesto e aberto.  

 

“Nós sabemos que essa discussão não vai ser honesta se for feita sob pressão. Todos querem ouvir isso. (…) De que todos pensam assim. Acredito, até mesmo os políticos, até mesmo quem está querendo a reforma, pensa dessa forma. Só que todos estão precisando de uma oportunidade para falar isso abertamente, honestamente. (…) Vamos discutir sim. Ninguém está se recusando a discutir. Mas vamos fazer isso sem passionalidade, sem passionalidade por motivações eleitorais”, completou.  

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PRODUTIVIDADE EM FOCO 

 

Reunião da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) contou com a participação de representantes da indústria para discutir os impactos da PEC da escala 6×1 no setor produtivo. (Foto: Divulgação / FPA)

Ao ser questionado sobre possíveis contrapartidas para viabilizar a redução da jornada, Alban vinculou a discussão ao aumento da produtividade e à necessidade de uma política industrial robusta. Ele citou exemplos internacionais e alertou para o agravamento da situação fiscal caso a medida seja aprovada sem planejamento.  

 

“Produtividade não se muda por decreto. Precisamos de condições como infraestrutura, tecnologia e modernização. (…) Nós temos problemas de infraestrutura, problemas de tecnologia, de modernização do nosso parque industrial. O mundo inteiro fala de política industrial. Nós não temos nem o que revisitar. (…) Nós estamos na vizinhança aí de 2027. 2027 é unanimidade. Nós temos que enfrentar uma situação fiscal séria. Como é que vamos complicar mais com uma discussão inadequada para esse momento?”, argumentou.

 

Abaixo segue a entrevista à qual a reportagem do Grupo RDM participou.

 

RDM: Devido a complexidade do tema, vocês pensam em defender que esse tema seja discutido via plebiscito com a população definindo se quer a manutenção ou fim da escala 6 por 1?

O presidente da CNI, Ricardo Alban, defendeu que o debate sobre a redução da jornada de trabalho seja feito de forma “racional e equilibrada”, sem pressões eleitorais. (Foto: Divulgação / FPA)

Ricardo Alban: Isso eu acho que talvez seja quase que um Pilatos. E a história da humanidade mostra que o Pilatos não foi um grande conselheiro. E nós temos que fazer isso de forma racional, equilibrada. O senhor acabou de dizer que isso é complexo. Como é que uma complexidade pode ser discutida de uma forma açodada, com uma variável tão nefasta que é um processo eleitoral? As decisões não vão ser lógicas, as decisões vão ser emocionais ou com motivações que não fazem parte de um compromisso com o futuro. Quem de nós aqui não tem jovens na família, na sua relação? Quantos jovens hoje estão desesperançosos? Nós temos o direito de aumentar essa ansiedade, essa preocupação, essa desesperança? Eu acho que nenhum de nós aqui tem o direito. Quer seja a sociedade civil, quer seja formador de opinião, que seja assunto público. Nós temos o direito de ser responsáveis com o amanhã. E o Brasil já grita pelo amanhã há muito tempo.

 

Imprensa: Mas a PEC que estava na CCJ, é de 2019. O deputado Reginaldo Lopes, do PT de Minas Gerais, apresentou essa PEC em 2019, tramitou na Comissão de Constituição e Justiça, e a PEC da Erika Hilton é de 2025. Quando o senhor fala em açodamento, o senhor está se referindo a que exatamente?

Ricardo Alban: Ao processo de discussão. Mas a PEC é de 2019. Quantos anos passou sem discutir na reforma tributária? Ela é importante? Não é importante? Quantos anos passou a se discutir na reforma da Previdência? Ela é importante? Não é importante? Será que não é tão importante também a discussão de uma relação capital-trabalho? É importante. Nós estamos começando a discussão. Em nenhum momento você vai ouvir um setor produtivo sequer dizer que não quer discutir. O que nós queremos é discutir com imparcialidade, com os fatos, com responsabilidade, e que isso seja uma conquista. Conquista é quando você pode garantir que ela é permanente, não é uma vitória passageira.

 

Imprensa: E qual seria o melhor momento, então? Vocês vão participar de audiências públicas na CCJ?

Ricardo Alban: Sim, podemos fazer esse processo. O que nós não queremos é que esse processo sofra pressão de momentos eleitorais, porque as decisões não vão ser equilibradas. A única coisa que nós queremos é poupar essa relação que existe dentro dos vários poderes da sociedade e das várias instituições da sociedade. Nós não queremos poder transmitir essa responsabilidade toda ao nosso legislativo. Nós podemos querer que os congressistas assumam a responsabilidade, motivados por situações eleitorais, que fogem à racionalidade. Seria muito fácil nós termos que dizer que o Brasil precisa de um congressista. Não é isso que nós queremos. Nós queremos ser cúmplices, cúmplices na conquista, cúmplices na garantia da sustentabilidade. É isso que o Brasil precisa. O Brasil precisa de convergência.

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Imprensa: Presidente, pelo que o senhor percebeu na reunião, com qual sensação o senhor sai daqui? Com as outras partes, com os outros pares?

Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), durante entrevista sobre a PEC que propõe o fim da escala 6×1. (Foto: Divulgação / FPA)

Ricardo Alban: De que todos pensam assim. Acredito, até mesmo os políticos, até mesmo quem está querendo a reforma, e se eu for a reforma, pensa dessa forma. Só que todos estão precisando de uma oportunidade para falar isso abertamente, para falar isso honestamente, pra falar isso sinceramente. Nós sabemos que essa discussão não vai ser honesta, essa discussão não vai ser irascível. Então eu acho que todos gostariam de ouvir isso. Vamos discutir sim. Ninguém está se recusando a discutir. Mas vamos fazer isso sem passionalidade. Sem passionalidade por motivações eleitorais, sem passionalidade por qualquer outro motivo. Não tem aqui, ninguém do setor produtivo, que eu conheça, que diga que não quer discutir o assunto.

 

Imprensa: A possibilidade de ter uma contrapartida, uma negociação da Folha de Pessoal, ajudaria a ter maior aceitação?

Ricardo Alban: Isso é a conta. Como é que se resolve o problema da Previdência? Nós temos contas a pagar. O problema não é esse. O problema passa por um conceito de produtividade. Produtividade não se muda simplesmente por decreto. Você não consegue resolver nada por decreto. Nós precisamos encontrar as condições para que o Brasil possa criar as variáveis necessárias para que se possa consumir. Que condições são essas? Nós temos problemas de infraestrutura, nós temos problemas de tecnologia, de modernização do nosso parque industrial. Só agora, recentemente, nos últimos três, quatro anos, nós estamos falando de política industrial. O mundo inteiro fala de política industrial. Em plena pandemia, Estados Unidos, Europa, Japão, China, todos revisitaram suas políticas industriais. Nós não temos nem o que revisitar. E toda a economia contemporânea é prova de que não existem condições de você fazer um crescimento econômico sustentável sem uma política industrial. E não existe como você garantir crescimento social, desenvolvimento social, sem crescimento econômico. Então nós temos que fazer essa discussão com compromisso. Nós estamos na vizinhança aí de 2027. 2027 é unanimidade. Nós temos que enfrentar uma situação fiscal séria. Como é que nós vamos agora complicar mais essa situação fiscal com a discussão que não é adequada para esse momento, porque ela não vai estar sujeita à racionalidade. Então nós temos que levar isso para essa discussão ampla que deverá acontecer em 2027. Não significa que não temos que fazer diálogos, temos que fazer conversas para fazer convergências ao longo de 2026.

 

Imprensa: Alguma concessão é possível para esse ano ainda? Para que esse projeto consiga ser aprovado de alguma forma? Alguma concessão é possível?

Ricardo Alban: Não, para ser aprovado não. Nós estamos falando justamente isso. Nós queremos começar o processo de discussão. E qualquer aprovação agora, ela pode ser contaminada por variáveis que não são racionais.

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