“O próprio Trump pode tomar mais alavancadas decisões sobre o Brasil”, avisa Bolsonaro
Um dia antes de sofrer uma série de medidas restritivas, Bolsonaro comentou que o STF “faz” um monte de “injustiças” contra ele. Ex-presidente falou, em entrevista coletiva no Senado Federal, na última quinta-feira, 17 de julho.
Por Humberto Azevedo
Em entrevista coletiva realizada no Senado Federal na última quinta-feira, 17 de julho, ao qual a reportagem do Grupo RDM participou, o ex-presidente da República, Jair Messias Bolsonaro (PL) falou que “o próprio” presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, pode tomar decisões “mais alavancadas” contra o Brasil.
A declaração aconteceu um dia antes dele sofrer uma série de medidas restritivas, como ter que usar tornozeleira eletrônica, não poder utilizar as redes digitais e nem sair de casa das 19 horas até às seis horas da manhã. Na ocasião, Bolsonaro comentou que o STF vem fazendo um monte de “injustiças” contra ele.
“Isso aí é o… Acho que todo mundo, não é, já chegou à conclusão, você não responde, não tem que perguntar pra mim. [A Suprema Corte] faz injustiças sobre o Rio de Janeiro. Não é apenas [no caso da militante bolsonarista] Débora [do batom, que ficou conhecida por pichar a estátua da Justiça com a frase ‘perdeu, Mané’ no dia 8 de janeiro de 2023 em referência à fala dita pelo ministro Luís Barroso a um bolsonarista, em Nova York, em dezembro de 2022, a um manifestante bolsonarista, que reclamava do resultado das eleições presidenciais daquele ano]. Há três semanas uma senhora com sete filhos foi condenada a 14 anos de cadeia”, reclamou o ex-presidente.
“O Eduardo Bolsonaro disse que estava se reunindo com autoridades americanas para conversar sobre as atualizações das reações brasileiras em relação à tarifa. Ele falou isso. Na opinião dele, o próprio Trump pode tomar mais alavancadas decisões sobre o Brasil”, complementou Bolsonaro quando questionado sobre as tarifas prometidas pelo presidente dos Estados Unidos às exportações brasileiras a partir de agosto, caso a Suprema Corte não reveja os processos que são movidos contra o ex-presidente, assim como na decisão que contrariou os interesses das empresas de plataformas cibernéticas (“big techs”), em que opiniões de terceiros são responsabilidades das companhias.
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Abaixo, segue a íntegra da entrevista coletiva que o ex-presidente Bolsonaro concedeu na última quinta-feira, 17 de julho, no Senado Federal.
Imprensa: Qual é a sua avaliação com relação à carta de Donald Trump justificando que a tarifa de 50% aplicada sobre os produtos brasileiros seria por conta do tratamento do judiciário com relação ao senhor?

Bolsonaro: Não é só essa a questão. E não é a questão de cima do Brasil apenas. Essa tarifa é de 50%. Ele impôs tarifa para o mundo todo. Até a Índia está negociando. O Xi Jinping não veio aqui por ocasião do G7. O G7 vai ficar com o BRICS. Exatamente porque ele sabia que uma coisa ele não conseguiria aqui. O Brasil está ficando isolado. Quando você fala em soberania, economicamente vai ficar nós e a China. Dependente da China. São partidos com uma dependência econômica exclusiva da China. Daí o Lula pode esquecer o padrão-dólar. Faz o Yuan, que é a moeda chinesa. Agora a carta do Trump, por 4 ou 5 vezes, ele citou meu nome. O que ele quer aqui? Ele quer que a democracia seja estabelecida no Brasil. Esse é o ponto mais importante. Quando ele fala o meu nome, é dado o que nós fizemos no passado. O que fizemos no passado? Em 2019, está nas minhas redes sociais, um vídeo de 1 minuto, onde o Trump queria sobretachar o aço e o alumínio nosso. Por 15 minutos eu telefonei e conversei com ele. Ele não sobretachou. Quem no Brasil está fazendo mais que a embaixadora que não está lá, está de férias. A embaixadora brasileira. Mais que o chefe nosso, que não está lá também. Que até hoje não conversou com o Marcos Rúbio. Que política externa é essa? Eu não era acusado de ser uma pária na política externa? Acabei de comprovar aqui que negociei a não sobretaxa do aço e do alumínio em 2019. Todos os países estão negociando, todos. E não pode, não vai ser uma pessoa isolada. Até louvo aqui o taxismo, a tentativa de negociar. Não haverá negociação com um Estado apenas. É com o Brasil. E está na cara que ele não vai ceder.
Imprensa: Presidente, mais uma questão, de acordo com os relatos, tanto do governo brasileiro quanto do governo americano, falam que o Brasil não tem um superávit comercial, tem déficit, com os Estados Unidos. Assim, o motivo da aplicação desta tarifa não seria por questões econômicas, e sim políticas. O senhor concorda com isso?

Bolsonaro: Olha, o Donald Trump jogou pesado com a China. Não vai jogar pesado com o Brasil? Ele não quer… Eu estive lá atrás, dois anos, com o presidente, e ele também vê o lado dele. Ele não quer o Brasil cada vez mais próximo da Venezuela. Será que é difícil entender isso? Naquela primeira carta dele, além de usar meu nome, ele fala na liberdade de expressão, fala em comércio, como agora está o PiX, sendo questionado. O PiX é do governo Jair Bolsonaro. O Banco Central não tinha independência em novembro de 2020. O PIX é nosso. Agora, o que eu estou sentindo que seria essa citação do governo americano agora, é que antes do PIX você tinha um cartão e você pagava uma taxinha em cima disso. Os bancos perderam comigo, com o PIiX, e você conta isso, mais TED e mais DOC, mais de 20 bilhões de reais. E eu não taxei o PiX e eles queriam taxar. A taxa era pequenininha. Não. Parabéns aos funcionários, servidores do Banco Central. Mas o PIX tem nome, Jair Bolsonaro. Foi no meu governo.
Imprensa: O senhor concorda, presidente, com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ele disse que o Brasil pode ser sacrificado por sua causa. O senhor concorda com isso, uma vez que os termos colocados na negociação seriam a anistia?

Bolsonaro: Olha, eles não são responsáveis por nada. São os irresponsáveis. Esse é o Haddad, que colou, inclusive, numa provinha lá de Economia. Falou lá atrás. Não tem competência. Então, há dois anos e meio do governo, e só dá Jair Bolsonaro. Esqueçam Jair Bolsonaro. Esqueçam. Como eu disse, essa taxa não é só no Brasil. É no mundo todo. A nossa é uma das pesadas. Falou em anistia ali. Isso aí é o… Acho que todo mundo já chegou à conclusão. Se você não responde, não tem reposta. Tem que perguntar pra mim. As injustiças sobre o Rio de Janeiro. Não é apenas a Débora. Há três semanas, uma senhora com sete filhos foi condenada a 14 anos de cadeia. Bolsonaro, mas por que você… Presidente, Eduardo Bolsonaro disse ontem que estava se reunindo com autoridades americanas para conversar sobre as atualizações das reações brasileiras em relação à tarifa. Ele falou que isso é a opinião dele de que o próprio pode tomar mais alavancadas decisões sobre o Brasil.
Imprensa: O senhor conversou com o Trump sobre isso?

Bolsonaro: Tem uma nova ameaça, tem uma nova ameaça vindo da OTAN. É o nosso comércio com o petróleo, no caso o diesel, que foi negociado comigo antes da invasão da Ucrânia por Putin. Se não cessar esse comércio, 100% de tarifa. E tem mais ainda que ele não falou. Vai chegar com novidade para vocês. Nós também somos dependentes de fertilizantes da Rússia. Quando eu fui lá, começo de 2022, antes da guerra, foi negociado basicamente essa questão de fertilizantes e depois, subjetivamente, entrou a questão do diesel. Então, quem continuar fazendo comércio com a Rússia vai perder. Agora, que ironia, não é? O Brasil tem, na região da flora do Rio Madeira, fertilizantes para 400 anos. Por que somos dependentes da Rússia? Reserva indígena. Imensas reservas indígenas para poucos indigenistas. Indígenas. Realmente fica difícil você falar que o Brasil vai conseguir sua soberania, sua total independência econômica e que vai ser um país bem no mundo. Com pessoas agindo dessa maneira, na condição de reserva indígena.
Imprensa: O senhor depende do seu filho, Eduardo Bolsonaro, as negociações com o governo dos Estados Unidos. Quais são as negociações que vão ter?
Bolsonaro: O [meu] filho acabou de fazer 41 anos. Já é um parlamentar de uma certa experiência. Tem portas abertas no governo Trump. Ele tem, conhece, dezenas de parlamentares. Está trabalhando pela nossa liberdade lá. Até pela liberdade de vocês. De repente não vier um outro jornalista aí sendo apenado por postar ou fazer uma matéria que certas pessoas não gostam.
Imprensa: Mas, presidente, o senhor não acha que essa condicionante da anistia em troca de classe é um desrespeito do governo dos Estados Unidos à nossa soberania? Porque o senhor não poderia ajudar nada no respeito à soberania?
Bolsonaro: Isso é lá com o governo Trump. Eu não tenho essa liberdade toda que vocês acham que eu tenho com ele. O que ele quer é a democracia do Brasil. Agora, quem vai negociar? Você não tem com quem negociar? Pelo que tudo indica, vai ficar pior para a gente. As novas sanções que vêm por parte do…
Imprensa: Mas o senhor exigiu passaporte para negociar diretamente com o Trump? O senhor pediu o seu passaporte de volta para negociar?
Bolsonaro: Olha, eu acho que teria sucesso em ter uma audiência com o Trump. Acho que teria sucesso.
Imprensa: Com a exposição, presidente, o senhor disse que os Estados não devem continuar uma negociação porque é uma negociação que deveria ser centralizada no governo federal. O senhor então avalia que o governador Tarcísio deve cessar as negociações?

Bolsonaro: Não, não. O Tarcísio está fazendo a parte dele. Parabéns ao Tarcísio. Tive dois dias com ele na semana passada aqui em Brasília. Ele está buscando apoio de grandes exportadores, de empresários. É uma voz importante do estado de São Paulo. O estado de São Paulo têm quase 40% do PIB. Mas ele não vai, o Trump, para eu entender, resolver a questão de exportadores de São Paulo. É o Brasil como um todo. O Tarcísio faz mais do que… Eu nem sei o nome, não é? O cara lá do Itamaraty. É tão insignificante que nem sei o nome dele.
Imprensa: Presidente, então não é vital a sua condenação no caso das tarifas? O senhor poderia pedir prisão domiciliar?
Bolsonaro: Não peço nada. Eu sou inocente. Não passa na minha cabeça a prisão. Sou inocente. Acabei de mostrar para vocês aqui que não tem nada a ver com o Rio de Janeiro. Acabei de mostrar para vocês que não houve tentativa de golpe. E quem diz isso é o ator de defesa do Lula.
Imprensa: Presidente, a população não está reclamando bastante da taxação do Trump?
Bolsonaro: Mas estão reclamando do imposto do presidente Lula, que vem aumentando ano após ano. Os petistas, à esquerda, é a taxação seletiva. Se o Haddad taxar, o Lula está valendo. E tem taxado bastante, cara. A cada 40 dias tem um aumento, um novo imposto. Eu zerei os impostos dos combustíveis. Botei um teto de ICMS nos combustíveis. Passamos a arrecadar mais. O Brasil começou a ir para frente. Entreguei o Brasil com um superávit em 2022. Não passei a faixa porque ele ia me submeter uma vaia fenomenal aqui. E não passo faixa para que ele tenha um comportamento como o Lula tem, não é? Uma vida pregressa, como ele tem.
Imprensa: Presidente, ainda sobre a decisão do governo dos EUA iniciar investigações sobre a 25 de março, o PiX, qual a sua opinião sobre essa decisão de Donald Trump?
Bolsonaro: Olha, vai fazer uma investigação, que vocês estão sabendo, não é?
Imprensa: Presidente, não ficou claro. O senhor, então, defende que o deputado Eduardo Bolsonaro continue nos Estados Unidos, não é isso?
Bolsonaro: Ele é independente. Olha, ele acabou de ser cobrado num inquérito por tentativa de… Se você tem violência diante da polícia, se ele vier para cá, ele está preso. Ou não está? O parlamentar fala na tribuna, está preso. Onde é que está o [o ex-deputado] Daniel Silveira? Não concordo em nada com o que ele fez naquele vídeo dele. Mas foi quase nove anos de cadeia. Tem mais de vinte parlamentares aqui, que estão com o processo no Supremo por ocupar a tribuna da Câmara. Vão castrar essas lideranças?
Imprensa: O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e da Cãmara, Hugo Motta, tiveram com o Alckmin e também entoaram o tom de crítica de que as tarifas prometidas por Trump são um ataque à soberania nacional. Qual é a sua avaliação sobre essa posição deles?
Bolsonaro: Não tem isso não, não tem ataque à soberania nacional. O Brasil não está deixando de ser soberano economicamente. Nós vamos ter um único parceiro, como ele indica, que vai ser a China. E aí a China impõe as regras aqui dentro. Tem que conversar, ter humildade, parar de atacar o… Para atacar o Trump, tem todos esses ataques que começaram antes das eleições do ano passado nos Estados Unidos. Quando o Lula falou que a volta do Trump seria o retorno do nazismo e do fascismo. Eu não quero repetir aqui a quantidade de vezes que o Lula atacou. E na carta dele, está implícita também, a questão do novo padrão. O Lula quer abolir o padrão-dólar das negociações.
Imprensa: Presidente, o Alexandre Moraes derrubou a decisão do Congresso sobre o IOF. Como você avalia isso?
Bolsonaro: Olha, eu não sou deputado. Se eu for deputado, está vendo? Olha, é ilegal.
Imprensa: O senhor se acha já fora das eleições?
Bolsonaro: Não, eu não estou fora. Qual o crime que eu cometi? Eu tentei dar um compromisso, não dei. Se for condenado, injustiça. Por que eu estou inelegível? Abuso de poder político, reunião com embaixadores dois meses antes. E terminou essa reunião com embaixadores, os seus respectivos chefes de Estado devem reconhecer o ganho das eleições imediatamente após o anúncio do TSE. A outra, abuso de poder econômico. No 7 de setembro aqui, nunca vi tanta gente aqui em Brasília, fechei minha faixa, ocupei o carro do Silas Malafaia e falei com o povo. Abuso de poder econômico? Não sou culpado de nada, não estou sendo acusado de corrupção. Estamos o tempo todo aqui, até o próprio Supremo aqui, arquivando processos. É uma injustiça comigo, injustiça com quem está do meu lado nesse processo. Injustiça com quem está preso, com quem está exilado lá na Argentina. Injustiça com o meu filho que está nos Estados Unidos.
Imprensa: O senhor se sente traído pelas declarações do major Cid no Supremo?
Bolsonaro: Eu nunca falei sobre o major Cid. A delação dele, você deve saber, não é? A delação tem que ser espontânea, voluntária, verdade e proba. Ele mudou no mínimo sete vezes as suas delações. Tudo secreto. Logo por nós, o Supremo não podia restringir esse acesso a nada. E quando nós pedimos os vídeos das delações, vêm a público, aparece parte dos vídeos apenas.
Imprensa: Ele foi chantageado. Ele foi ameaçado quando entrou no hall de possíveis punidos com a esposa e a filha. Em relação à reunião com os chefes das Forças Armadas para discutir a tal da minuta golpista, o senhor assume que teve essa reunião com eles? Foi discutida essa minuta?
Bolsonaro: Você fala em minuta golpista, não é? Cadê essa minuta? O próprio Alexandre de Moraes falou que não tem. Foi conversado sobre dispositivos funcionais. E por que foi conversado? A primeira petição nossa, junto ao TSE, em novembro de 2022, o senhor ministro Alexandre de Moraes não conheceu, mandou um arquivo, mas deu uma multa de R$ 22 milhões. Se a gente recorresse ou apresentasse uma outra petição, a multa poderia passar para R$ 200 milhões. Quem sabe, até com a força que ele tem, caçar o registro do PL. Eu fui aonde? Buscar uma alternativa. Na Constituição! Conversar sobre Constituição agora é golpe de Estado? Vocês também não sabem. Em 2019, eu discuti Estado de Defesa no Brasil, lá em Roraima, para a gente fazer a usina do Tucuruí. Conversei com Rodrigo Maia e com o Pacheco. Conversamos sobre Estado de Sítio, o primeiro passo é convocar os conselhos. Foram convocados? Não foram. O segundo passo é mandar uma mensagem para o Congresso, pedindo autorização para um decreto. Foi mandado? Não foi. Agora, querem me dar 40 anos de cadeia com uma injustiça dessa? Eu vou ficar aqui no Brasil. Estou com 70 anos, cheio de problemas de saúde, vou aguentar aqui. Injustiça! Eles querem tirar o maior líder da direita, dos conservadores aqui da América do Sul, da ficha eleitoral do ano que vem, que se eu vier a me candidatar, eu ganho. Até porque, até hoje, eu estou mais à frente do que o Lula. Ele quando fala, fala besteira.
Imprensa: O senhor acredita que o governo Lula tem a capacidade de negociar a taxação?
Bolsonaro: Ele é presidente para isso, não é? Você lembra o nome de muitos ministros meus. Eu não sei o nome de nenhum deles, porque só tem incompetentes. Ele mesmo. O Lula mandou o Trump comer jabuticaba, não é comer jabuticaba, é chupar jabuticaba. Não dá para você levar a sério um presidente que diz que vai resolver a guerra da Ucrânia tomando cerveja com o Putin? Não dá para levar a sério um cara desse? Não dá, pô?
Imprensa: Presidente, a licença do seu filho Eduardo encerrou neste último domingo, 20 de julho. O senhor defende o que ele vem fazendo? Ele pode perder o mandato se não retornar. Como avalia isso?
Bolsonaro: Não, eu não sei. Tem que ver o regimento interno aqui da Câmara, não é? Ele, pelo que eu sei, não vem mais para cá. Ele vai ser preso ou eu, não vou.
Imprensa: O senhor falou que ele pode negociar lá nos Estados Unidos.
Bolsonaro: Pode.
Imprensa: Quais os termos?
Bolsonaro: Está conversando, está no Capitólio, está com pessoas próximas ao Trump. Ele tem essa liberdade.
Imprensa: Mas o que teria pedido em troca?
Bolsonaro: Não, olha só. O Trump quer liberdade. É a primeira emenda da Constituição americana. Liberdade de expressão. Ele quer isso. Ele não quer saber de injustiça. E o meu processo já está no mundo. O mundo já entendeu que é uma farsa. Não é um julgamento que eles estão fazendo comigo. É um linchamento. Recordar o que fizeram contra mim. Até tem um vídeo aqui. Acho que eu falei isso no Poder 360, uma CNN. É só recordar tudo. Só faltou me acusar de engravidar uma baleia.
Imprensa: Presidente, as pesquisas mostram que 72% dos brasileiros acreditam que são um erro estas tarifas dos Estados Unidos impostas ao Brasil, por conta do senhor. O senhor se voluntariou a poder negociar com o Trump essa questão. Falou da participação do deputado Eduardo na conversa lá no Capitólio. Até que ponto o senhor acredita que tem uma responsabilidade do senhor, do próprio deputado?
Bolsonaro: 72% eu sou culpado? Que pesquisa é essa? Quem pagou essa pesquisa? Olha aí que o livro lança uma pesquisa num dia. Para dar margem aqui. Para a imprensa repercutir. Eu sou o responsável? O que ele está fazendo com o mundo todo? E o mundo está negociando. A China, a Índia. É acertar uma pacificação lá. Aí entra as commodities, a carne, a soja dos Estados Unidos para lá. Aí entra tecnologia. Entra produtos farmacêuticos. Nós cada vez mais estamos ficando isolados do mundo. Muitos empresários, investidores, estão tirando dinheiro daqui. Estão pensando em abrir uma empresa em outro país. Isso é ruim para gente. Aqui é uma instabilidade jurídica enorme. Quem quer investir num país como esse? Onde um ministro, com uma canetada, não valeu o que o parlamento fez. 80% do parlamento votou numa direção e um ministro [vai em outra].
Imprensa: Presidente, o senhor acha que se o senhor for condenado, o Trump pode tomar medidas mais drásticas sobre o Brasil?
Bolsonaro: Ele tem uma simpatia comigo. Ele falou que eu fui um presidente honesto. Não precisa falar outro nome. Que negociei com ele. Falei no começo aqui. Botei um minuto e pouco aqui num vídeo do Jornal Nacional. Onde ele ia taxar nosso aço e nosso alumínio. Eu conversei com ele por 15 minutos. Não taxou. Puta, tem que entender quem está naquele lugar ali que a diferença entre os países com o PIB americano é 14 vezes maior do que o nosso. Alguns estados americanos têm o PIB maior do que o nosso. Ele [Lula] conversou com esse país, que é um gigante econômico e bélico? E não ficar o tempo todo alfinetando, estando do lado do Irã, condenando o ataque para o Irã, [que atua contra] Israel. Quando esse Irã tiver uma bomba toda, eles vão varrer Israel do mapa. Então, não é com o Brasil. É com o mundo. Graças a Deus, Trump foi eleito. Podemos sonhar aqui no Brasil de reestabelecer a democracia. O Eduardo tem lutado lá. Reestabelecer a nossa liberdade. Não temos mais liberdade. E quando alguém pergunta se você pode ser preso? Pode ser até que saia daqui e eu seja preso. Qual o motivo? Qualquer um. Já viram as argumentações contra o Braga Netto? 14 anos para quem usou um batom. Tem uma senhora com seis filhos em Ji-Paraná com o marido condenado a 14 anos de cadeia. Passou por aqui. Chegou no domingo de manhã no transporte, passou por aqui, foi identificado. 14 anos de cadeia. É justo isso?
Imprensa: Então o Trump quer a aprovação da anistia?
Bolsonaro: Eu não sei o que ele quer. Pergunte para ele, pô. Se me derem carta branca para negociar pode ter certeza que a coisa vai sair. E vamos supor que ele queira anistia. É muito? Porque se continuar esse 50%, não é. Tem gente que acha que não vai sofrer. Todo mundo vai sofrer, especialmente os mais pobres. É muito se ele pedir isso aí? Botar na balança, é muito? E a anistia é algo privativo do parlamento. Não tem que ninguém ficar ameaçando. Ah, se aprovar a anistia eu tornei constitucional aqui. O nosso parlamento aqui se continuar assim, vai ficar igual o parlamento do Venezuelano. Tem que haver uma reação, não está ameaçando nada. Ele [Trump] impõe as ações e vai negociar. Vai negociar com ele. Ninguém do governo conversou com o Marco Rubio ainda.
Imprensa: Mas a justificativa da taxação foi a história de que haveria um “caça às bruxas” contra o Sr., não é?
Bolsonaro: Tem a questão do ‘caça às bruxas” também, o meu processo. Fazer qualquer pergunta no processo eu respondo para vocês. É uma injustiça que estão fazendo comigo com as pessoas que estão presas. Ninguém tentou dar um golpe. A Polícia Federal não me vincula a 8 de janeiro. Eu estou sendo, também, processado por depredação de patrimônio. Eu estava nos Estados Unidos. Eu estava aqui. Não tem nenhum zap meu, nenhuma mensagem para ninguém sobre o 8 de janeiro.
Imprensa: Presidente, diante da situação do seu julgamento dessas movimentações dos presidentes da Câmara e do Senado, parece que o senhor até perdeu o apoio, de repente, dos partidos de centro para 2026?
Bolsonaro: Eu converso com os partidos de centro. Eles têm consciência do que está acontecendo comigo. A direita vai voltar. A direita veio pra ficar. Ela estava espalhada. Nós a unimos. Em qualquer lugar do Brasil que eu vá, só tenho recebido apoio.
Imprensa: Presidente, a medida do Trump ataca o agro, ataca a indústria, setores próximos aos senhores. Isso pode devastar?
Bolsonaro: Se eu fosse presidente, eu teria feito um acordo semelhante à Argentina. Tem dúvida disso? Então, o cara [Lula] fica atacando o tempo todo. Até a primeira-dama falando coisas inapropriadas o tempo todo. Ele [Trump] quer reestabelecer aqui a liberdade do Brasil, que estamos perdendo.
Imprensa: Presidente, uma pesquisa que saiu hoje mostrou que o Tarcísio está empatado tecnicamente com o presidente Lula em 2026. Ele é o nome da direita? Mas o senhor disse que é o seu nome é o melhor candidato nas eleições do ano que vem, mas o senhor está inelegível. Qual a estratégia para o senhor vencer essa inelegibilidade e se candidatar oficialmente?
Bolsonaro: Eu não vou me comparar com o Lula. Lá tinha três instâncias. A investigação era de lavar o dinheiro. No meu caso, é uma injustiça. Eu pretendo, primeiro, espero não ser condenado, agora no final do mês que vem. Espero. Porque não tem nada material que me ligue do que estou sendo acusado. Repito, as duas inelegibilidades. Uma é do Carlos Lupi, que provocou. E está até hoje nas mídias sociais dele, sobre as urnas eletrônicas. Sem voto impresso, a fraude impera. Está lá até hoje. Até hoje está lá. Se fosse alguém de direita, esse cara estaria preso, respondendo processos. Então, tudo pode acontecer. Eu fiz um governo diferente. Enfrentei pandemia, guerra, crise hídrica, e o Brasil estava crescendo, porque eu tinha ministro de qualidade, como Paulo Guedes, Tereza Cristina, Tarcísio, e tantos outros. Aqui você não tem quem acessore aquele cara da noite lá. Você não tem?
Imprensa: Presidente, o senhor vai tentar falar com ele, Trump?
Bolsonaro: Eu não vou responder. Ele gosta de mim. Já citou pelo menos quatro vezes o meu nome. Diz que está sendo feito um caças às bruxas contra mim. E está sendo. Quando eu converso com algum de vocês, depois, sozinho no canto, tomando a garapa, vocês estão quase no mesmo. Aqui não podem concordar, obviamente.
Imprensa: O senador Ciro Nogueira disse que marcou um encontro do senhor com o ministro Alexandre de Moraes, em dezembro de 2022. Como foi esse encontro? O que os senhores conversaram? O que o senhor pediu?
Bolsonaro: Quem colaborou nesse encontro foi o próprio Mauro Cid também, e conversei com ele por uma hora, aproximadamente.
Imprensa: Foi na casa do senhor aqui em Brasília.
Bolsonaro: Eu não lembro a data exata, mas foi em dezembro.
Imprensa: Mas e a conversa como foi?
Bolsonaro: Excelente.
Imprensa: E o que foi tratado na conversa com o Putin, presidente da Rússia?
Bolsonaro: Até me surpreendeu, agora sabe. Dessa forma, ele veio para cima de mim.
Imprensa: Do que foi tratado na conversa?
Bolsonaro: Eu conversei três horas com o Putin. O que eu conversei com o Putin? Só eu e o intérprete. Mais ninguém sabe da conversa. Em meio de um mês, 27 navios fertilizantes chegaram no Brasil. O agro perderia competitividade. Negociamos diesel, e ele queria que eu vendesse ovos para ele. Pedi seis meses. Depois veio a guerra, não conversamos mais. O Brasil produz, por segundo, 1.700 ovos. Pode ir no Google, que é verdade. Aquele cara que fala obsceno o tempo todo, chuta número. E é tudo mentira.
Imprensa: Mas e a conversa com o Moraes foi nessa mesma linha? O que foi alinhado?
Bolsonaro: Foi tranquila. Antes disso, eu estive no Supremo, em novembro. Tinha uns oito ministros. Fui com o Paulo Guedes, uma conversa tranquila. Foi falado para mim que não haveria perseguição. Não haveria caça às bruxas. Por enquanto, aqui é lógico. Quando você perde o mandato, você conhece seus amigos. Você está aí no avião sem paraquedas. Tem uma sensação diferente. Fiquei 30 dias quieto. Nada nas redes sociais, nada. Nada. E fui embora. Transição, 100%. Ninguém reclamou da transição. Quem quer dar golpe, nomeia ministro indicado pelo adversário. Quem quer dar golpe, daria.
Imprensa: Durante o seu governo?
Bolsonaro: É igual, pessoal. É o ‘after day’ que vai ficar no dia seguinte. Vamos começar com o inquérito. Você tem que decidir se o 8 de janeiro foi uma tentativa de bomba ou não. Quando você tem um problema médico, de saúde, vai ao médico. Quem é a pessoa mais habilitada para falar se houve uma tentativa de bomba no 8 de janeiro? O ministro José Múcio [Monteiro] da Defesa, que, inclusive, estava domingo aqui presente. O que ele falou há dois meses, aproximadamente, no programa Roda Viva? Que o 8 de janeiro foi uma manifestação que perdeu o controle, virou uma balbúrdia e não foi golpe. Outros ex-ministros da Defesa falaram que não foi golpe. Nelson Jobim e Aldo Rebelo. Até o [o ex-presidente José] Sarney falou que não houve golpe. Agora, com o que o Alexandre de Moraes decide? Ele diz que não vale a opinião de ninguém. Decide que o 8 de janeiro foi golpe e começa, para trás, construir um alicerce para manter o telhado do golpe. O relatório da Polícia Federal não me bota no 8 de janeiro e o senhor Paulo Gonet me bota. Foi além dos autos. Ele não tem que provar que sou inocente. Eles têm que provar que eu sou culpado. Tudo são suposições. Talvez, quem sabe, entre a urna eletrônica como uma vaca sagrada. Que ela é a peça mais importante para me acusar. Quando você vê manifestações do próprio Carlos Lupi [presidente nacional do PDT], que continua no facebook dele, dizendo que sem o voto impresso a fraude impera. Nós não podemos desconfiar da urna? Eu como parlamentar, lá atrás, aprensentei uma emenda a um projeto onde o [ex-presidente da Câmara] Rodrigo Maia, o relator e o parlamento aprovou o voto impresso da urna, que foi vetada pela presidenta Dilma. Derrubamos o veto com o apoio do próprio PT. Fui no TSE, junto com o ministro Fux. Estavam preparando as urnas já modernizadas. Vi as urnas. Todo mundo elogiou a urna. Barroso elogiou a urna. Gilmar Mendes elogiou a urna com o voto impresso ao lado. Depois o Supremo, por 8 a 3, disse que é inconstitucional. Nós continuamos lutando pelo voto impresso. Como na Venezuela, nas eleições deste ano, tivemos voto impresso. Foi a primeira vez. E lá foi possível detectar então que tinha algo errado. E quando se falha a urna eletrônica, esqueça, que haverá a fraude. Qualquer instrumento eletrônico pode falhar, qualquer um. Só a urna que é infalível. E nós devemos buscar cada vez mais camadas de proteção que dê confiança ao povo. Para me acusar que eu atentei contra a democracia por querer o voto impresso, é desconsiderar o parlamento brasileiro. Querem a todo custo me colocar no inquérito do 8 de janeiro. Eu estava nos Estados Unidos. Como é que eu posso responder por depredação de patrimônio? Você não estava aqui. Eu, chefe de uma organização criminosa, armada, golpe de Estado? Cheque na Polícia Legislativa aqui no Senado e pergunte se alguma arma foi apreendida. Não tem nada que me vincule a esses atos. Pessoas inocentes, presas, o que me parece, uma opinião minha, que foram presas para justificar a minha prisão. 40 anos de cadeia. Está sendo feito justiça comigo? Sempre joguei dentro das quatro linhas. Quando se fala em Estado de Sítio, você não pode, ao procurar dispositivos na Constituição, ser acusado de golpista. Não tem cabimento nisso. Vou enfrentar o julgamento, não tem alternativa. Mas eu lamento a peça do sr. Paulo Gonet, uma pessoa que sempre tive o mais alto conceito, católico, temente a Deus, e se presta a fazer um relatório desse, indo além do que a Polícia Federal falou. Quando há uma tentativa de golpe de Estado em qualquer lugar do mundo, em poucos minutos, o mundo todo fica sabendo. Quem foi o autor, quem foi o general, quem foi o presidente, quem foi o civil, até hoje aqui, não chegaram à conclusão. Quem coordenou o 8 de Janeiro? Quem comandou? Um golpe sem armas, sem forças armadas, sem um lucro político, que fez contato com o Parlamento, que fez contato com a imprensa, que fez contato com o mundo. É um absurdo isso aí, um absurdo. Tentativa de golpe de Estado é um absurdo. Não tem cabimento isso. Inocentes sendo presos, inocentes agora respondendo o processo também. Quando acabaram as eleições de 2022, no dia 1º de outubro, eu falei, vocês estavam lá, parte de vocês, alguém falou: vão sentir saudades da gente. Só sentem saudades quando alguém vai embora. No outro dia, fiz um vídeo, eu vi na internet, pedindo aos caminhoneiros desobstruírem as vias do Brasil. Tínhamos aproximadamente mil pontos de obstrução. O Brasil ia quebrar. Quem quer dar um golpe, quem quer o mal do país, não teria feito aquele vídeo que eu fiz. Mais de 90% dos caminhoneiros atenderam. A pedido do Lula, via ministra Cármem Lúcia, nomeei dois comandantes das Forças Armadas. No dia 30 de dezembro, fiz uma live. Não somos iguais a eles. Nós respeitamos a Constituição. Nós não depredamos patrimônio. Tudo na transição foi legal. Ninguém reclamou na transição. Do nosso lado foi o Ciro Nogueira. Do lado de lá foi o Alckmin. Nenhum problema na transição. Agora essa questão de golpe, que saco, não tem cabimento. Até há pouco tempo, conversando com um colega israelense, ele falou que golpe é esse que o Mossad não está sabendo.


























