Everaldo Galdino
O jovem empreendedor e advogado Manuel Araujo, 30 anos, é um dos novos empresários que aposta no ramo de cervejaria artesanal em Cuiabá. Há um ano, a cervejaria Cuiaverá, estabelecimento comercial que divide socialmente com sua família, vem conquistando o público e movimentando o comércio na região da Avenida das Torres, na capital.
Em entrevista ao grupo RDM, o empresário cuiabano falou sobre o negócio e os principais desafios para expandir a empresa em Mato Grosso.
“O processo para fabricar a cerveja artesanal é basicamente quase o mesmo da cerveja industrial. Você produz o álcool a partir da extração do açúcar do malte e esquenta a água junto com o malte de cevada para estar extraindo algumas coisas que são necessárias ao processo. São questões ligadas à química, à biologia, como enzimas, como proteínas, açúcares. Tudo isso se faz na cozinha da cervejaria, um local adequado e seguro para realizar esse processo. E, nesse mesmo espaço, é separado o material sólido e líquido”, disse o proprietário, que apresentou o estabelecimento para a equipe de reportagem.

Segundo Manuel, para preparar o trabalho na cervejaria é feito um descarte. “Pois nenhum tipo de resíduo sólido vai ao esgoto. Já a parte líquida é transferida para uma panela, que seria o nome mais comum e mais coloquial. Contudo, há um processo de pasteurização. Justamente, você eleva a temperatura a 100 graus. E, depois de um tempo aquecido, você baixa, principalmente para evitar que qualquer tipo de micro-organismo fique naquele líquido, que vai ser transferido para um fermentador. Antes de colocar, inocular, a levedura faz a atividade fermentativa de produção do álcool. Ela come o açúcar, como posso dizer, ela despeja o álcool com o CO2”, completou.
A cervejaria inspirada no modelo de estabelecimento “BrewPub”, ou seja, a fábrica oferece um bar, um espaço que fica ao lado fábrica, a fim de prestar atendimento ao público. “É um procedimento muito utilizado hoje, justamente para quem inicia de forma pequena. Porque tem uma administração em que você produz o produto e vende no mesmo local. O modelo de atendimento das cervejarias chama-se autosserviço de chopp. Nesse, o cliente tem a forma de fazer o pagamento no cartão e se serve manuseando nas torneiras para obter o produto”, explicou.
Manuel disse ainda que o negócio conta com o trabalho de sua esposa e seus pais, além de um chefe de cozinha e um operador de fábrica.
Questionado sobre o número de investimentos que aplicou no negócio, respondeu:
“A abertura de um empreendimento, como é uma fábrica, é uma coisa um pouco complicada pela quantidade de investimento que tem que ser feito. São equipamentos pesados, equipamentos caros, equipamentos muitas vezes automatizados. Então, é um investimento que ultrapassa R$ 1 milhão. Nós hoje estamos no momento que a gente diz que é aquele momento que você começa a verificar a possibilidade se o negócio vai se pagar ou ele tem condição de já iniciar o lucro líquido, que é aquilo que sobraria depois de pagos todos os custos. Nós estamos nessa transição entre o momento em que a gente consegue pagar todos os custos e aí a gente está lutando para iniciar o momento de ter um lucro para poder reinvestir”, destacou.
Disse ainda que “a necessidade de reinvestimento é imprescindível para melhorar e aumentar o produto”.
Capacitação
Para obter esse tipo de empreendimento, o proprietário disse que foi necessário capacitar e ter buscado a legislação para atuar no espaço.
“Existe a regulamentação pela fábrica, que é uma regulamentação legal e indispensável, pois o Ministério da Agricultura exige. Então, você tem que construir do jeito que está na planta industrial de acordo com o que o Mapa pede. Existe uma série de questões, como fluxos, separação de ambientes. Tudo isso foi feito. A gente fez, inclusive, utilizando o Dio, uma consultoria, porque, como é uma questão muito técnica, e há necessidade de ter conhecimento em legislação e fiscalização do Ministério da Agricultura. Isso nos deu uma segurança de conseguir, de certa forma, relativamente rápido o registro final da fábrica, que foi em torno de seis meses”, pontuou.
Além de produzir a cerveja artesanal, Manuel conta que tem experiência de participação em encontros com outros empresários desse segmento, feiras, cursos promovidos pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e pela Escola Superior de Cerveja e Malte de Blumenau, leitura de livros, workshops, associação de cervejeiros, e busca conhecimento para o negócio, como empreendedor.
“Agora, eu estou me capacitando para aquilo que a gente chama de mestre cervejeiro, que é a pessoa responsável pela produção de cerveja. Também, tô concluindo o curso Responsável Técnico em Cervejaria na área de química, para poder, justamente, assinar a documentação do estabelecimento. O objetivo é finalizar esse curso.”
Ao falar do atendimento do produto em Cuiabá, Araujo disse que pretende expandir a distribuição.

“Como temos esse modelo de atendimento, como estratégia de vender a cerveja no próprio bar, nós iniciamos essa etapa e partiremos para uma segunda etapa, que é realizar a distribuição. Então, temos o ponto de venda delivery, que possibilita uma quantidade de litragem de barril. E a gente leva o barril, leva todos os equipamentos, deixa tudo instalado e aí só faz o consumo do chopp. Após isso, será possível no terceiro trimestre deste ano começar a colocação do produto em lata”, enfatizou.
Sobre a produção, de acordo com o empresário, a cerveja geralmente é pasteurizada, justamente para matar todos os micro-organismos, inclusive, a levedura, que produz a cerveja com o álcool. Para se ter uma ideia, essa operação chama ‘shelf life’, termo em inglês, utilizado no comércio para designar o tempo de vida útil de um produto perecível. Por exemplo, o produto (a cerveja) fica em prateleira mais tempo, que é em torno de seis meses a um ano.
“O nosso objetivo é ter uma cerveja não pasteurizada e não filtrada. Isso tem pontos positivos e tem pontos negativos. O ponto negativo é que o tempo de prateleira é muito menor. Há necessidade de armazenamento e ficar frio. Isso impossibilita a distribuição para outros lugares mais distantes. Já os pontos positivos, quando priorizamos o consumidor de cerveja artesanal. A cerveja tem que ser fresca, tem que ter muito mais a presença de aromas e sabores. Então, nós tomamos inicialmente essa estratégia de fazer as vendas regionais, com produtos não pasteurizados e não filtrados”, ressaltou.
Quando escolheu o local para empreender, teve a ideia de reduzir custo. “No momento de encontrar o imóvel, analisamos várias regiões da cidade. O valor de aluguel também, a capacidade de ser um local que tem que ser um barracão, tem que ter um pé direito alto, tem que ter uma extensão de metragem quadrada relativamente extensa para suportar o tamanho da fábrica e do bar. Então, tendo em vista essas necessidades, nós visualizamos a região da Avenida das Torres, que oportuniza movimentação e é um lugar que virou de fato uma região noturna, com vários bares e restaurantes. Também, vimos que essas condições foram favoráveis, em relação a outras áreas comerciais de Cuiabá”.
Motivação
Sobre motivação aos novos empreendedores que queiram investir em algum negócio em Mato Grosso, Manuel deixa uma mensagem: “A mensagem que eu deixo é que a pessoa que vislumbra e quer a possibilidade de ter um crescimento exponencial, o empreendedorismo é uma área totalmente fundamental para essa pessoa. Mas é indispensável que a pessoa seja obstinada, ela insista, porque você primeiro planta para colher. Então, a época de plantação é uma época difícil, é uma época insegura, você fica com medo dos riscos, pois muitas vezes não sabe ou não tem a certeza de que aquilo vai dar certo, mas é justamente nesse momento que você não pode deixar de ser obstinado, de acreditar naquilo que você está se propondo a fazer”, finalizou.
Serviço
A Cuiaverá, localizada na Avenida das Torres, funciona todas as quartas-feiras e segue aos domingos, das 18h até as 22h. Já nas sextas-feiras e sábados, o atendimento é estendido até meia-noite.














