Pesquisas eleitorais costumam ser reduzidas a uma pergunta simples: quem está na frente? É uma leitura rápida, útil para manchetes, mas insuficiente para compreender o comportamento do eleitor. A mais recente pesquisa do Instituto de Pesquisa Catarinense (IPC), contratada pela Associação Catarinense de Jornais (ACJ), revela uma realidade muito mais complexa na corrida pelas duas vagas ao Senado em Santa Catarina. Mais do que indicar uma ordem de colocação, o levantamento mostra que cada um dos principais candidatos construiu um caminho diferente para chegar à vitória. E compreender essas estratégias talvez seja mais importante do que observar apenas a liderança numérica.
A pesquisa foi realizada entre os dias 9 e 13 de julho, com 1.050 entrevistas presenciais em 54 municípios catarinenses. O levantamento possui margem de erro de três pontos percentuais, nível de confiança de 95% e está registrado na Justiça Eleitoral sob os números BR-09576/2026 e SC-09951/2026.
Como a eleição para o Senado permite que cada eleitor escolha dois candidatos, o dado mais representativo é a soma do primeiro e do segundo voto. Nesse cenário, Caroline de Toni (PL) aparece com 39%, seguida de Carlos Bolsonaro (PL), com 38,6%; Esperidião Amin (Progressistas), com 34,1%; Décio Lima (PT), com 27%; Antídio Lunelli (MDB), com 11,3%; Afrânio Boppré (PSOL), com 7%; e Jeferson Rocha (PRD), com 4,7%. Outros 24,1% dos entrevistados disseram não saber em quem votar, enquanto 14,3% afirmaram que pretendem votar em branco ou anular o voto.
Quando o levantamento separa apenas o primeiro voto, o cenário muda de forma significativa. Carlos Bolsonaro lidera com 27,4%, seguido por Esperidião Amin, com 17,8%; Décio Lima, com 16,8%; Caroline de Toni, com 14,4%; Antídio Lunelli, com 7%; Jeferson Rocha, com 2%; e Afrânio Boppré, com 1,9%. Nesse cenário, 7,2% ainda não sabem em quem votar e 5,5% declaram voto branco ou nulo.
Já no segundo voto, a lógica praticamente se inverte. Caroline de Toni assume a liderança com 24,6%, seguida por Esperidião Amin, com 16,3%; Carlos Bolsonaro, com 11,1%; Décio Lima, com 10,2%; Afrânio Boppré, com 5%; Antídio Lunelli, com 4,4%; e Jeferson Rocha, com 2,8%. Outros 16,9% ainda não escolheram um segundo nome, enquanto 8,8% pretendem votar em branco ou anular.
É justamente nesse cruzamento de informações que a pesquisa deixa de contar uma história de posições e passa a revelar uma disputa de estratégias.
Carlos Bolsonaro lidera com folga o primeiro voto. Isso significa que sua candidatura reúne um eleitorado altamente identificado com sua figura política. Trata-se de um voto de convicção, de pertencimento, de identidade. Mas esse desempenho perde força quando o eleitor é convidado a escolher um segundo nome. Isso sugere que Carlos desperta intensa preferência entre seus apoiadores, porém encontra maior dificuldade para se transformar em uma alternativa complementar para quem já fez outra escolha principal.
Caroline de Toni percorre exatamente o caminho inverso. Embora apareça atrás de Carlos no primeiro voto, ela lidera com folga o segundo voto. Essa diferença não é um detalhe estatístico. Ela revela que Caroline construiu uma candidatura capaz de dialogar com diferentes segmentos do eleitorado conservador. Em outras palavras, tornou-se uma candidata de convergência. Em uma eleição para duas vagas, essa característica pode ser tão importante quanto liderar a preferência principal.
Esperidião Amin ocupa uma posição distinta dos dois. Não lidera nem o primeiro nem o segundo voto, mas permanece competitivo em ambos. Sua candidatura demonstra equilíbrio. Amin conserva uma base consistente de eleitores que o escolhem como prioridade e, ao mesmo tempo, mantém capacidade de receber o segundo voto. É um comportamento típico de candidaturas consolidadas, que dialogam com diferentes perfis do eleitorado sem depender exclusivamente de um segmento específico.
É justamente aqui que a pesquisa oferece uma leitura pouco explorada. Ela mostra que a eleição deixou de ser apenas uma disputa de popularidade para se transformar em uma disputa entre modelos eleitorais. Carlos Bolsonaro representa o voto de identidade. Caroline de Toni representa o voto de convergência. Esperidião Amin representa o voto de estabilidade. São três caminhos diferentes para chegar ao mesmo objetivo.
Existe outro dado que merece atenção e que praticamente desapareceu das primeiras análises. A soma das intenções de voto de Caroline de Toni (39%) e Carlos Bolsonaro (38,6%) coloca o PL em um patamar próximo de 78% das citações na projeção dos dois votos. Evidentemente, esses percentuais não podem ser simplesmente somados para projetar um resultado eleitoral, pois muitos eleitores escolhem justamente os dois candidatos do partido. Ainda assim, o dado revela algo politicamente relevante: o PL entra na disputa com densidade suficiente para disputar simultaneamente as duas cadeiras do Senado. Isso altera completamente a lógica da eleição. Esperidião Amin deixa de enfrentar apenas candidaturas individuais e passa a enfrentar também uma estratégia partidária organizada para conquistar as duas vagas disponíveis.
Esse movimento produz uma consequência importante. Durante muitos anos, a principal disputa para o Senado em Santa Catarina acontecia entre campos ideológicos distintos. Hoje, a pesquisa indica que a competição mais intensa ocorre dentro da própria direita. Carlos Bolsonaro, Caroline de Toni e Esperidião Amin disputam, em grande medida, o mesmo universo de eleitores. Isso significa que o crescimento de um deles tende, inevitavelmente, a reduzir o espaço dos demais.
Décio Lima observa essa disputa a partir de outra lógica. Seu desafio não é conquistar prioritariamente o eleitor conservador, mas consolidar seu próprio campo político enquanto acompanha a fragmentação da direita. Em determinados cenários eleitorais, essa dinâmica pode se tornar um fator relevante na reta final da campanha.
A pesquisa também deixa uma mensagem importante sobre o comportamento do eleitor catarinense. Ainda existem 24,1% de entrevistados que não definiram seus dois votos e 14,3% que falam em votar branco ou nulo quando se considera a soma das duas escolhas. Isso demonstra que a corrida ao Senado permanece aberta e que ainda há espaço significativo para crescimento das candidaturas, especialmente entre aqueles que ainda não consolidaram suas duas opções.
PONTO DE VISTA
O maior erro ao analisar esta pesquisa é tratá-la como se fosse uma eleição para um único cargo. Não é. O eleitor escolhe dois senadores e, por isso, as campanhas são obrigadas a pensar de maneira diferente. Algumas trabalham para ser a primeira escolha. Outras procuram ocupar o espaço da segunda escolha. Há ainda aquelas que tentam equilibrar as duas estratégias. A pesquisa do IPC revela exatamente isso: a disputa pelo Senado em Santa Catarina já não é apenas uma corrida por votos. É uma disputa pela forma como esses votos serão distribuídos entre candidatos que competem, muitas vezes, pelo mesmo eleitor.
A PERGUNTA QUE FICA
Na reta final da campanha, vencerá quem conseguir mobilizar mais eleitores como primeira opção ou quem compreender antes dos adversários que, em uma eleição para duas vagas, ser a segunda escolha de centenas de milhares de catarinenses pode valer tanto quanto liderar as pesquisas?
Porque, no Senado, nem sempre o voto mais apaixonado é o que decide a eleição. Muitas vezes, é o voto mais compartilhado que define quem cruza a linha de chegada primeiro.
























