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Orgulho da terra

A diamantinense que fez o Rio Diamantino correr até Genebra

Alessandra Devulski da Silva Tisescu, de mato-grossense Diamantino para os corredores da Organização das Nações Unidas, como membro do Conselho de Direitos Humanos, em Genebra. (Foto: Reprodução Redes digitais / Acervo Particular)

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Crônica sobre a filha de Augusto Mário e sua atuação no Conselho de Direitos Humanos da ONU.

 

(*) João Guató

 

Tem gente que nasce com o destino já traçado no barro das margens do rio. E tem rio que nasce pequeno, meio envergonhado, e mesmo assim insiste em correr, dobrar pedras, atravessar ladeiras, até encontrar seu lugar no mundo. Assim é o Rio Diamantino, que atravessa a cidade como se desenhasse, com água e tempo, o caminho de quem vai longe.

 

E assim é também a história de Alessandra Devulski da Silva Tisescu. 

 

Filha do meu amigo de jornada, de sonhos e de lutas, Augusto Mário da Silva, e de Taise, que segurou a casa e o mundo com as mãos firmes de quem cria filhos para voar. Alessandra cresceu ouvindo o pai falar de política, de justiça, de rios, de bichos e de causas perdidas. Cresceu vendo o homem sair de casa para mais uma reunião da Associação Diamantinense de Ecologia, ou para mais uma audiência, ou para mais um texto — dos mais bonitos que já li, diga-se.

 

Augusto Mário, aquele que dizia de peito aberto e olhar emocionado: “O Rio Diamantino corre no meu sangue”.

 

E corria mesmo. Corria na voz dele, quando defendia a natureza. Corria nos gestos, quando enfrentava eleições com a esperança teimosa de quem acredita que uma urna pode transformar o mundo. Corria nas conversas de fim de tarde, nas reuniões da ADE, nas campanhas contra a poluição do nosso rio, tão castigado e tão amado.

 

Agora, tantos janeiros depois, eu olho para essa notícia que chega de longe, cruzando oceanos: Alessandra, a filha daquele amigo, é hoje uma voz que ecoa em Genebra, na Organização das Nações Unidas, como membro do Conselho de Direitos Humanos. 

 

Em entrevista para a Rádio França Internacional, a diamantinense Alessandra Devulsky explica em seu livro “Colorismo” os contextos históricos que proporcionaram a amplitude da miscigenação no Brasil associados às realidades sociais e culturais do país que, com isso, determinaram a identidade variada do povo brasileiro. (Foto: Reprodução / RFI)

Pois dessa terra, que mistura calor, história e resistência, nasceu Alessandra Devulski da Silva Tisescu. Nome grande, sim, mas o tamanho maior está na caminhada dela, que saiu das margens do Rio Diamantino para navegar os corredores de Genebra, onde as palavras são ditas com o peso de quem fala por milhões.

 

Filha de Augusto Mário da Silva (In Memóriam) e de  Taise Ponce Devulski da Silva, neta de Dona Pedrosa Pinho da Silva e, por que não dizer, também herdeira da história política de Benedito Bruno, ex-prefeito de Diamantino, Alessandra carrega no sobrenome a memória e, no peito, a missão. Enquanto muitos de nós ainda aprendiamos a soletrar os nomes das ruas do bairro, ela já começava a decifrar outras geografias: os corredores de São Paulo, com o concreto duro e impessoal da USP, os debates quentes e cheios de ideias na Mackenzie, e, depois, o mundo — que agora a escuta com atenção e respeito.

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Formou-se Doutora em Direito Econômico e Financeiro pela Universidade de São Paulo. Antes disso, foi Mestre em Direito Político e Econômico e Especialista em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável. Nessa escalada, o que ela fez foi lapidar o saber com a mesma paciência de quem garimpa diamante: camada por camada, estudo por estudo, direito por direito.

 

Hoje, ela é membro do Conselho de Direitos Humanos da ONU, na Suíça. Não é pouca coisa. É daquelas cadeiras que quando a pessoa senta, senta o Brasil inteiro junto. Senta Diamantino, senta Mato Grosso, sentam os povos que a ONU protege, as causas que ela defende, as vozes que ela ecoa.

 

Capa do livro da escritora diamantinense Alessandra Devulsky na versão recém lançada em francês pela editora Anacaona. O livro “Colorismo” foi originalmente publicado em português, em 2021, integra a coleção “Feminismos Plurais”, idealizado pela escritora Djamila Ribeiro. (Foto: Reprodução / RFI)

Lá em Genebra, Alessandra fala com aquele português de quem cresceu ouvindo o canto da cigarra e o som do sino da matriz. Mas quando ela levanta a voz, ela não fala só por nós. Fala por todos aqueles que tiveram seus direitos pisados, calados, esquecidos.

 

O que a gente sente por aqui, ao saber disso? Um misto de orgulho e de saudade. Porque o mundo é grande, mas o coração da gente é pequeno pra tanto orgulho. A professora, a advogada, a doutora… que um dia foi menina nas calçadas de Diamantino, agora caminha entre diplomatas e embaixadores.

 

Lá, onde os salões são frios e as decisões pesam mais que o concreto das avenidas de São Paulo onde ela também estudou, Alessandra defende gente. Gente invisível. Gente calada. Gente que precisa de alguém para dizer, com clareza, o que significa dignidade.

 

E eu fico aqui, sentado, lembrando de quando ela ainda menina passava apressada pelas ruas de pedra de Diamantino. O tempo fez dela Doutora em Direito Econômico e Financeiro, mestre, especialista… e, principalmente, herdeira de uma luta que começou muito antes dela nascer. 

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Se fosse hoje, eu apostaria que o Augusto Mário, com aquele jeito de quem mistura ironia com ternura, diria só isso: “A água segue seu curso… e minha filha virou afluente de um rio maior.”

 

Pois virou mesmo.

 

Diamantino agora deságua em Genebra. E o mundo, sem saber, ouve o eco de um rio que corre no sangue de uma advogada que carrega, em cada decisão, a memória da terra onde tudo começou.

 

E como diz o povo por essas bandas: “Quem sai de Diamantino, leva um pedaço da cidade no peito… mas deixa um pedaço do peito por aqui.”

 

Parabéns, Alessandra.

A ONU, com toda sua imponência de mármore e diplomacia,

é apenas mais uma estação nessa estrada longa

que começou nas margens humildes do Rio Diamantino

e agora se estende, altiva, pelas alamedas de Genebra.

 

Aqui, deste lado do Atlântico,

nós seguimos de pé… aplaudindo com o coração inteiro,

como quem celebra não só a vitória de uma filha,

mas o sonho antigo de um pai que te imaginou grande

quando ainda te ninava com olhos de futuro.

 

Augusto Mário, onde quer que esteja,

há de estar transbordando de alegria,

feito o rio na enchente de novembro,

feito quem vê sua semente florescer além do tempo.

 

E ao lado dele, como sempre esteve em vida,

segue a força serena e luminosa de Taise,

essa mulher que sempre foi diva sem precisar de palco,

mãe de braços firmes, de voz doce e coragem funda.

 

(*) João Guató é autor do livro “Educação Ambiental para Mudanças Climáticas: Um Estudo Pós-Crítico das Comunidades Biorregionais do Pantanal”, além de ser um defensor do meio ambiente e ouvinte das águas.

 

Fontes consultadas para esta crônica: Acervo fotográfico de Alessandra Devulski (Facebook), biografia publicada no “Canal O Conhecimento em Favor da Sociedade (Joel Praxedes Capistrano)”, com colaboração de Esmeraldo Almeida e Telma Barros.

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