Existe uma transformação silenciosa acontecendo na política que poucos perceberam. Ela não aparece nas pesquisas eleitorais, não é medida pelo número de prefeitos aliados nem pela quantidade de partidos que compõem uma aliança. Mas pode ser um dos fatores decisivos da eleição de 2026. A maior ameaça para muitos candidatos talvez já não esteja do outro lado da disputa. Ela pode estar dentro da própria base de apoio. Parece contraditório, mas não é. A política contemporânea passou a viver dentro de bolhas. Nunca foi tão fácil reunir pessoas que pensam da mesma forma, compartilham as mesmas convicções e enxergam a realidade por um único ângulo. As redes sociais potencializaram esse comportamento ao premiar conteúdos que reforçam certezas e aproximam quem já concorda entre si. O resultado é um ambiente onde os aplausos se multiplicam com facilidade, enquanto o contraditório praticamente desaparece.
Essa dinâmica cria uma ilusão perigosa: a de que engajamento significa convencimento. Não significa. Uma campanha pode produzir milhões de visualizações, dominar as redes sociais, lotar eventos e mobilizar sua militância sem conquistar um único eleitor novo. Pode transformar qualquer declaração em assunto do dia e, ainda assim, permanecer exatamente no mesmo lugar nas pesquisas. Isso acontece porque existe uma diferença fundamental entre mobilizar e persuadir. Mobilizar é fortalecer quem já está ao seu lado. Persuadir é convencer quem ainda não escolheu um lado. Toda campanha aprende rapidamente a mobilizar. Poucas conseguem persuadir. E são justamente essas que costumam ampliar sua maioria quando a campanha entra na reta decisiva.
Esse talvez seja um dos maiores desafios da política atual. Muitos candidatos passaram a medir sua força pela reação da própria militância. Quanto maior o número de curtidas, compartilhamentos e manifestações de apoio, maior a sensação de que a campanha está crescendo. O problema é que eleições majoritárias raramente são decididas pelos eleitores mais engajados. Elas costumam ser definidas por quem acompanha a política com menos intensidade, observa os acontecimentos à distância e decide seu voto comparando trajetórias, capacidade de gestão, equilíbrio e confiança. Esse eleitor continua existindo. E talvez nunca tenha sido tão importante quanto agora.
Enquanto governo e oposição falam cada vez mais para seus públicos tradicionais, uma parcela significativa da sociedade continua preocupada com questões muito mais concretas do que as disputas diárias das redes sociais. Quer saber quem será capaz de administrar melhor o Estado, enfrentar gargalos históricos da infraestrutura, melhorar os serviços públicos, garantir segurança jurídica para quem investe e preparar Santa Catarina para os desafios das próximas décadas. Esse eleitor não vive a política como um campeonato permanente entre vencedores e derrotados. Vive a política como um instrumento para melhorar sua própria vida. É justamente ele que costuma decidir eleições.
Existe outro risco provocado pelas bolhas políticas que talvez seja ainda mais preocupante. Quanto mais tempo um grupo permanece ouvindo apenas pessoas que pensam da mesma forma, maior é a possibilidade de perder contato com a realidade. Críticas deixam de ser interpretadas como alertas e passam a ser tratadas como ataques. Divergências deixam de enriquecer o debate e passam a ser vistas como sinais de deslealdade. Aos poucos, cria-se um ambiente onde todos confirmam as mesmas certezas e quase ninguém faz as perguntas incômodas que toda campanha precisa ouvir antes que seja tarde. A história da política, no Brasil e no mundo, está repleta de candidaturas que acreditavam estar crescendo porque eram muito aplaudidas dentro de suas próprias bolhas, mas descobriram nas urnas que a sociedade era muito maior do que aquele círculo de apoiadores.
Santa Catarina oferece um ambiente especialmente interessante para observar esse fenômeno. Historicamente, o eleitor catarinense valoriza gestão, equilíbrio e capacidade de entrega. Não significa que a ideologia não tenha importância, mas ela raramente explica sozinha o resultado de uma eleição estadual. O cidadão costuma avaliar quem transmite mais segurança para administrar, quem apresenta propostas viáveis e quem demonstra maturidade para governar um Estado complexo e economicamente dinâmico. Isso significa que campanhas construídas exclusivamente para agradar suas bases podem encontrar enormes dificuldades quando precisarem dialogar com quem está fora delas. E esse momento inevitavelmente chegará para todos os candidatos.
PONTO DE VISTA
Talvez a maior armadilha da política contemporânea seja acreditar que vencer o debate dentro da própria bolha significa estar vencendo a eleição. Não significa. Bolhas oferecem conforto, mas a democracia exige diálogo. Bolhas produzem aplausos, mas as urnas exigem confiança. Bolhas fortalecem identidades, mas governar exige construir maiorias. Essa talvez seja a principal reflexão que a pré-campanha de 2026 deveria provocar em Santa Catarina.
Os candidatos continuarão mobilizando seus apoiadores. Isso é natural e faz parte da política. Mas, em algum momento, todos terão de decidir se continuarão falando apenas para quem já os aplaude ou se estarão dispostos a enfrentar o desafio muito mais difícil de conversar com quem pensa diferente. É exatamente nessa travessia que as grandes eleições costumam ser decididas. Campanhas podem nascer da convicção. Podem crescer pela mobilização. Mas só se transformam em vitórias quando conseguem conquistar confiança além dos próprios limites. E confiança não se constrói dentro de uma bolha. Ela nasce justamente quando um líder é capaz de sair dela para dialogar com toda a sociedade.


























