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SOBRETUDO

Santa Catarina já discute quem vai governar. Mas ainda não decidiu para onde quer ir

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A política catarinense vive um momento curioso. A pouco mais de um ano da eleição, praticamente todos os grandes movimentos do tabuleiro já começaram. Alianças são costuradas, chapas ganham forma, pesquisas são analisadas semanalmente, lideranças percorrem o Estado e os bastidores nunca estiveram tão movimentados. No entanto, existe uma sensação difícil de ignorar: fala-se muito sobre quem ocupará o governo e ainda muito pouco sobre o que será feito com ele.

Essa talvez seja a principal característica da pré-campanha de 2026.

Os partidos estão discutindo poder.

O eleitor continua esperando um projeto de Estado.

Essa diferença parece sutil, mas pode definir toda a eleição.

Nos últimos meses, acompanhamos debates sobre a composição das chapas, a disputa pelo Senado, a consolidação da base do governador Jorginho Mello, a construção da frente de oposição liderada por João Rodrigues, as pesquisas eleitorais e os inevitáveis embates políticos que antecedem qualquer campanha. Tudo isso faz parte da democracia. O problema é quando a estratégia passa a ocupar o espaço que deveria ser reservado às ideias.

Santa Catarina vive um dos melhores momentos econômicos de sua história recente, mas também enfrenta desafios que exigem planejamento de longo prazo. O Estado precisará discutir mobilidade, infraestrutura logística, competitividade industrial, inovação, inteligência artificial, escassez de mão de obra qualificada, envelhecimento da população, sustentabilidade fiscal e o papel das regiões no desenvolvimento econômico. São temas que não cabem em um slogan de campanha nem se resolvem em um debate eleitoral de duas horas. Exigem visão, planejamento e coragem política.

Até aqui, porém, essas discussões aparecem de forma tímida.

A impressão é que a política ainda está preocupada em definir quem sentará na cadeira antes de explicar para onde pretende conduzir Santa Catarina.

Esse talvez seja o maior desafio dos próximos meses.

A campanha inevitavelmente precisará mudar de fase.

O governo terá de demonstrar por que merece mais quatro anos. A oposição precisará mostrar que representa uma alternativa capaz de fazer diferente e melhor. E ambos serão cobrados por algo que ainda aparece pouco no debate: um projeto consistente de futuro.

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Porque eleições não existem apenas para escolher pessoas.

Existem para escolher caminhos.

Quando 2030 entra na pauta antes de 2026

Foi justamente nesse contexto que uma declaração do deputado federal Valdir Cobalchini chamou atenção nesta semana. Ao defender que o MDB tenha candidato próprio ao Governo do Estado em 2030 e reconhecer que a ausência de uma candidatura própria em 2026 contribui para a divisão interna da legenda, o parlamentar acabou levantando uma discussão que vai muito além do calendário eleitoral.

A primeira leitura poderia sugerir que o MDB já está olhando para a próxima eleição antes mesmo de disputar a atual. Mas talvez essa não seja a interpretação mais importante.

O que a declaração revela é que um dos maiores partidos de Santa Catarina continua procurando responder uma pergunta que acompanha sua trajetória nos últimos anos: qual é o papel do MDB no novo cenário político catarinense?

Durante décadas, a legenda ocupou naturalmente o centro da política estadual. Governou Santa Catarina, formou lideranças em praticamente todas as regiões e exerceu protagonismo quase permanente nas grandes decisões. Hoje continua sendo uma força política relevante, mas vive uma realidade diferente. Divide espaços, participa de alianças importantes e mantém uma forte presença municipal, porém já não é automaticamente o eixo em torno do qual todas as demais forças gravitam.

É justamente aí que a fala de Cobalchini ganha relevância.

Mais do que defender um candidato em 2030, ela revela uma preocupação com identidade política.

Partidos tradicionais costumam enfrentar um desafio quando deixam de liderar projetos majoritários. Precisam encontrar uma forma de preservar unidade, protagonismo e propósito, mesmo quando optam por integrar uma aliança. Esse não é um dilema exclusivo do MDB. Mas talvez nenhum partido catarinense o viva de forma tão intensa quanto ele.

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Ao mesmo tempo, a reflexão também precisa ser feita em sentido contrário.

Ter candidato próprio, por si só, não garante unidade.

A história política de Santa Catarina mostra que divergências internas também existiram quando o partido lançou candidaturas ao governo. Isso indica que o verdadeiro desafio talvez não seja apenas encontrar um nome competitivo para 2030.

Seja em 2026 ou em 2030, o MDB precisará responder qual projeto pretende liderar.

Porque partidos permanecem unidos por muito mais tempo quando compartilham uma visão de futuro do que quando compartilham apenas uma candidatura.

 

PONTO DE VISTA

Existe uma frase bastante conhecida na política: quem vence a eleição conquista o governo.

Mas essa talvez seja apenas metade da história.

A outra metade começa no dia seguinte à posse.

É nesse momento que se descobre se o projeto apresentado durante a campanha era, de fato, um projeto de Estado ou apenas um projeto de poder.

Santa Catarina tem uma oportunidade rara nos próximos meses.

A de elevar o nível do debate público.

Os partidos continuarão discutindo alianças.

As pesquisas continuarão produzindo manchetes.

Os bastidores seguirão movimentados.

Tudo isso é legítimo e faz parte da democracia.

Mas chegará um momento em que o eleitor fará uma pergunta que nenhuma articulação política será capaz de responder por si só:

Qual é a visão de futuro que cada grupo tem para Santa Catarina?

Quem responder melhor a essa pergunta talvez saia da campanha com muito mais do que votos.

Sairá com legitimidade para governar.

Porque, no fim, eleições não deveriam ser apenas uma disputa para definir quem administra o presente.

Deveriam ser, acima de tudo, a oportunidade de escolher quem está mais preparado para construir o futuro. E talvez esteja aí o maior desafio da política catarinense: parar de discutir apenas quem chegará ao poder e começar, finalmente, a discutir o que fará com ele.

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