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SOBRETUDO

Operação Backstage expõe um desafio maior para Florianópolis: a crise de confiança nas instituições

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Toda crise política tem um momento em que deixa de ser apenas um fato policial e passa a representar um teste para as instituições. Florianópolis acaba de chegar a esse ponto. A Operação Backstage, que investiga suspeitas de irregularidades em contratos da Secretaria Municipal de Assistência Social, abriu uma discussão importante sobre a gestão dos recursos públicos. Mas os acontecimentos dos últimos dias ampliaram esse debate. A saída do então secretário Bruno Souza, seguida de duras críticas públicas à condução da administração municipal, transformou uma investigação policial em uma crise política. E são justamente as crises políticas que costumam revelar muito mais sobre um governo do que os períodos de estabilidade.

Enquanto tudo funciona bem, qualquer gestão consegue transmitir segurança. O verdadeiro teste acontece quando surgem denúncias, investigações, divergências internas e cobranças por explicações. É nesse momento que a sociedade deixa de observar apenas o problema e passa a avaliar a forma como o governo reage a ele. É exatamente essa a fase que Florianópolis atravessa.

A Operação Backstage continua sob responsabilidade da Polícia Civil e deverá seguir seu curso com a independência que a sociedade espera. Cabe aos investigadores reunir provas, ouvir envolvidos e apontar, se existirem, responsabilidades criminais. Nenhuma conclusão pode ser antecipada e todos os investigados têm direito ao contraditório e à ampla defesa. Esse é um princípio básico do Estado de Direito.

A política, porém, trabalha em outro tempo. Enquanto a investigação busca respostas jurídicas, a sociedade começa a fazer perguntas políticas. A principal delas talvez seja a mais simples: como uma crise dessa dimensão conseguiu chegar ao ponto em que chegou?

Essa pergunta ganhou ainda mais força quando um ex-secretário da própria administração decidiu romper o silêncio e fazer críticas públicas à condução do governo. Independentemente do mérito de suas declarações, elas mudam completamente o ambiente político. Até então, o debate estava concentrado nas suspeitas investigadas pela Polícia Civil. A partir do momento em que um integrante do primeiro escalão questiona a forma como a administração enfrentou a crise, a discussão passa a alcançar também o modelo de gestão, os mecanismos de controle interno e a capacidade do governo de administrar seus próprios conflitos.

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Esse talvez seja o aspecto mais sensível de todo o episódio. Na política, adversários fazem oposição. Ex-integrantes de governo produzem um desgaste diferente. Não porque suas versões sejam automaticamente verdadeiras, mas porque conhecem os bastidores, participaram das decisões e ajudam a deslocar o foco da investigação para o ambiente interno da administração. O governo, naturalmente, tem o direito de contestar essas críticas. Mas ignorá-las ou tratá-las apenas como um embate político dificilmente encerrará o debate.

Existe outro elemento que amplia essa crise. A discussão sobre a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito dividiu a Câmara de Vereadores. A oposição defende que o Legislativo também investigue as responsabilidades políticas e administrativas. A base governista resiste, sustentando que os órgãos competentes já estão apurando os fatos. Ambas as posições fazem parte do processo democrático. O problema surge quando a sociedade passa a interpretar esse embate como uma disputa entre investigar e impedir que se investigue.

Na política, percepção importa. E, muitas vezes, produz efeitos tão relevantes quanto os próprios fatos.

Uma CPI não condena ninguém. Também não substitui a Polícia Civil, o Ministério Público ou o Poder Judiciário. Sua função é outra: apurar responsabilidades políticas, avaliar falhas administrativas, verificar mecanismos de controle e oferecer transparência. Da mesma forma, decidir que não há elementos suficientes para sua instalação também pode ser uma posição legítima, desde que sustentada por argumentos técnicos, claros e convincentes. O que desgasta qualquer instituição não é apenas a decisão que toma, mas a percepção de que ela foi influenciada pela conveniência política.

Talvez esse seja o maior desafio enfrentado pela Prefeitura neste momento. A gestão Topázio Neto construiu sua imagem sobre pilares como eficiência, modernização administrativa e boa governança. Essa reputação elevou naturalmente o nível de expectativa da população. E quanto maior a credibilidade construída por um governo, maior será a cobrança quando ela é colocada à prova.

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PONTO DE VISTA

A Operação Backstage ainda está longe de chegar ao fim. As investigações precisam seguir com serenidade, independência e absoluto respeito ao devido processo legal. Não cabe condenar previamente ninguém. Mas também não cabe tratar um episódio dessa dimensão como apenas mais uma crise de comunicação.

Governos são testados quando tudo funciona. Mas são julgados, sobretudo, pela forma como enfrentam momentos de instabilidade.

É justamente nas crises que se mede a qualidade das instituições.

A Polícia Civil tem o dever de investigar até onde as provas levarem.

O Ministério Público deve agir com base nos elementos que encontrar.

A Câmara de Vereadores precisa decidir, com independência, qual é o seu papel institucional diante de um episódio que mobiliza a opinião pública.

E a Prefeitura precisa compreender que transparência não se resume a responder acusações. Transparência é criar um ambiente em que todas as dúvidas possam ser esclarecidas, sem que a sociedade tenha a impressão de que alguém deseja abreviar ou limitar o alcance das apurações.

Porque existe uma diferença enorme entre administrar uma crise e administrar a percepção de uma crise.

A primeira fortalece a confiança nas instituições.

A segunda, quase sempre, aprofunda a desconfiança.

No fim, a maior pergunta talvez nem seja se houve erros administrativos, políticos ou até mesmo ilícitos, algo que caberá às autoridades competentes responder. A pergunta que ficará para Florianópolis é outra: as instituições tiveram liberdade para cumprir integralmente o seu papel?

É essa resposta, muito mais do que qualquer nota oficial ou disputa política, que determinará como este episódio será lembrado pela sociedade.

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