Gravado na periferia de Cuiabá, “Cinco Tipos de Medo” une suspense, drama social e emoção ao retratar histórias inspiradas em fatos reais; diretor Bruno Bini destaca desafios, enquanto Bella Campos celebra retorno às origens
Após uma pré-estreia prestigiada em Cuiabá, o filme Cinco Tipos de Medo chegou aos cinemas no dia 9 de abril propondo mais do que uma narrativa de suspense: uma imersão sensível e impactante em temas como medo, violência urbana e desigualdade social. Antes mesmo da estreia na capital, em sua exibição no 53° Festival de Gramado, o longa levou 4 Kikitos, o de Melhor Filme, Roteiro, Montagem e de Ator Coadjuvante para Xamã.
Ambientada na periferia da capital mato-grossense, a obra dirigida por Bruno Bini se inspira em histórias reais para construir um retrato potente das complexidades vividas por comunidades muitas vezes invisibilizadas, ao mesmo tempo que evidencia a força das conexões humanas em meio ao caos.
Com uma estrutura de narrativa envolvente e não linear, o filme conduz o espectador por diferentes pontos de vista, combinando tensão, emoção e reflexão. A produção também marca um momento importante para o cinema regional, reforçando o protagonismo de histórias contadas fora do eixo tradicional do audiovisual brasileiro, Rio de Janeiro/São Paulo. Em entrevista à Revista Mato Grosso S/A, o diretor detalha os bastidores da obra e os desafios de equilibrar crítica social e entretenimento, enquanto a atriz cuiabana Bella Campos destaca a emoção de protagonizar o filme em sua cidade natal e a forte identificação com a história.
Revista Mato Grosso S/A: O filme nasce de uma história real inspirada em notícias de jornal sobre uma comunidade que se mobiliza em torno de um traficante. Como foi transformar esse fato em uma narrativa cinematográfica sem perder a complexidade social do tema?
Bruno Bini: O tema, por si só, já carrega muita complexidade. Estamos falando de uma comunidade abandonada que toma uma decisão profundamente questionável, mas também justificável. Essa complexidade está no cerne da história. Seria difícil abordar isso de forma superficial e sem profundidade. Trata-se, portanto, de um filme que apresenta uma questão profundamente complexa, e tudo isso acabou se desenvolvendo de maneira bastante natural.
Revista Mato Grosso S/A: “Cinco Tipos de Medo” apresenta uma estrutura não linear, com histórias que se cruzam como um quebra-cabeça. Qual foi o principal desafio para manter o espectador envolvido sem tornar a narrativa confusa?
Bruno Bini: Acho que o desafio foi justamente organizar, de forma estrutural, os acontecimentos do filme para que, em determinado momento, o espectador compreendesse: “Este filme está me contando a história aos poucos”. Assim, ele passa a juntar as peças conforme a narrativa avança, recebendo as informações de maneira gradual.
A partir do momento em que essa linguagem se estabelece, a experiência se torna mais fluida para quem assiste. E isso tem funcionado bem. Trata-se de uma abordagem que já havíamos testado no curta-metragem e que agora ampliamos no universo do longa-metragem.
Revista Mato Grosso S/A: O filme foi gravado na periferia de Cuiabá e retrata a ausência do Estado e a dinâmica da violência urbana. Qual a importância de dar visibilidade a essas realidades fora do eixo tradicional do cinema brasileiro?
Bruno Bini: O cinema brasileiro está em movimento. Há um processo significativo de descoberta de novos territórios, onde o olhar do audiovisual nacional antes não se detinha. Hoje, com a democratização do acesso aos recursos de produção — por meio de editais e iniciativas regionais —, tornou-se possível contar histórias de diferentes partes do país.
De certa forma, o Brasil está se redescobrindo por meio do cinema. A produção do Nordeste ganha cada vez mais força, assim como a da região Norte. O Sul, que já possuía uma tradição consolidada no audiovisual, segue se fortalecendo. No Centro-Oeste, antes marcado principalmente pela produção de Brasília, observa-se agora o surgimento de narrativas vindas de estados como Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Esse movimento é fundamental, pois o país possui uma enorme riqueza e diversidade de contextos e histórias que precisam ser contadas.
Revista Mato Grosso S/A: Após vencer o Festival de Gramado com prêmios como Melhor Filme, Roteiro e Montagem, o longa chega aos cinemas cercado de expectativa. Esse reconhecimento muda sua responsabilidade como diretor diante do grande público?
Bruno Bini: A responsabilidade de realizar um filme passa, a sua maneira, por respeitar a história da comunidade que o inspirou. Durante todo o processo de produção, essa preocupação esteve sempre presente. É algo ao qual não sou indiferente.
Ao mesmo tempo, existe a realidade do desempenho comercial. Qualquer produtor ou diretor que lança um filme no mercado lida com essa questão. Quem possui uma visão mais madura do audiovisual entende os desafios de atuar em um setor em que é difícil alcançar bons resultados, especialmente diante da concorrência com produções do mercado norte-americano.
Atualmente, estamos lançando o filme em meio à disputa com grandes blockbusters, como Super Mario Galaxy: O Filme e Devoradores de Estrelas, que contam com um número maior de salas e forte apelo junto ao público. Essas produções, inclusive, dominam as bilheterias de 2026 e registram arrecadações expressivas no Brasil e no mundo.
Ainda assim, nesta primeira semana, é possível perceber um interesse crescente pelo cinema brasileiro. Isso indica que estamos conseguindo cumprir o nosso principal objetivo: levar essa história ao maior número possível de pessoas e ampliar o diálogo com o público.
O circuito de exibição não se limita às salas de cinema. Após essa etapa inicial, o filme ainda percorre outras janelas, como streaming, TV por assinatura e TV aberta. Assim, buscamos expandir seu alcance da forma mais eficiente possível.
Revista Mato Grosso S/A: O filme mistura ação, thriller e drama social, apostando em adrenalina para dialogar com o público. Como você equilibrou entretenimento e crítica social na construção da obra?
Bruno Bini: Acredito fortemente que é possível fazer filmes que, ao mesmo tempo, entretenham o público e promovam informação e debate sobre temas socialmente relevantes. O cinema brasileiro já oferece bons exemplos dessa proposta.
Esse é o formato que, de certa maneira, constrói o meu repertório. Considero fundamental estabelecer um diálogo com o público, capaz de engajar quem está assistindo, ao mesmo tempo que aborda questões importantes para a sociedade brasileira.
Acredito nesse caminho e é o tipo de cinema que quero fazer. Vivemos um momento em que obras que conciliam esses dois pilares — entretenimento e relevância social — deixam de ser exceção e passam, felizmente, a se tornar cada vez mais comuns.
Revista Mato Grosso S/A: A obra aborda diferentes dimensões do medo — como a morte, a solidão e a perda de controle — dentro de um contexto de violência. Que reflexão você espera provocar no público ao final da sessão?
Bruno Bini: O filme aborda a questão do medo e da violência urbana, mas, essencialmente, trata da conexão entre as pessoas. Mostra como indivíduos de universos distintos e, muitas vezes, distantes, acabam se encontrando e influenciando a vida uns dos outros. Nesse sentido, é uma obra sobre vínculos humanos.
Mesmo com personagens enfrentando situações extremamente desafiadoras e lidando com perdas significativas, o filme também carrega uma mensagem de esperança e redenção — assim como a própria vida. A vida é composta por momentos difíceis e desafiadores, mas também por instantes em que encontramos um sopro de esperança.
Acredito que o filme transmite essa mensagem de forma intensa e sensível.
Revista Mato Grosso S/A: Diante de uma obra tão intensa, que dialoga diretamente com a realidade social brasileira e provoca o espectador a refletir sobre diferentes formas de medo, que mensagem o senhor gostaria de deixar para o público que vai assistir ao filme?
Bruno Bini: Em meio a tantas dificuldades, desafios e perdas ao longo da vida, não podemos perder a capacidade de ter esperança. É fundamental compreender que pequenas redenções se tornam mais acessíveis quando nos permitimos conectar com o próximo, estabelecer vínculos e reconhecer o valor do outro.
As pessoas entram em nossas vidas, assim como nós entramos na vida delas, e esses momentos de troca podem ter um impacto profundo. São essas conexões que, muitas vezes, transformam nossas trajetórias de maneira significativa.
Revista Mato Grosso S/A: Em entrevista ao colunista Vinícios Sobral, a atriz cuiabana Bella Campos falou sobre a divulgação de seu primeiro longa-metragem e comentou como tem sido a experiência de protagonizar um filme gravado em sua cidade natal.
Bella Campos: Foi bastante emocionante. Eu amei gravar em Cuiabá. A cada roteiro que recebia, sentia a necessidade de me adaptar à personagem. E, pela primeira vez, senti que me identificava genuinamente com aquilo que estava lendo.
Consegui entender as referências, os lugares, o clima e a ambientação. Foi muito gratificante ter voltado para a minha cidade, até porque, desde que comecei a trabalhar, nunca mais consegui passar um período tão longo lá, já que precisava estar sempre no eixo Rio–São Paulo para exercer minha profissão.
Saí de lá muito feliz, como se tivesse recebido uma injeção de ânimo por ter participado desse filme.
















